Os anos o fortaleceram, mas sua aparência permanecia aterradora. Um dia, impulsionado pela curiosidade, saiu do berço e caiu.
O impacto contra o chão gelado e duro foi sua primeira lição sobre a dor. Passou meses arrastando-se pelo piso de madeira, até que conseguiu alcançar um livro em uma estante.
Era um livro infantil: A História De Um Herói. Empty não conhecia as letras, mas devorava as imagens. Ali, viu um herói de armadura salvando pessoas e viu os sorrisos que recebia de volta.
Passava horas estudando aqueles sorrisos. O que significava aquilo? Era um sentimento bom? Questionava-se se, algum dia, alguém sorriria para ele daquela forma.
No mesmo livro, havia o personagem Vazio. Ele apenas estava lá, sem agir. Empty sentia que era uma mistura dos dois.
O dia em que alcançou a porta da casa mudou tudo. Ao abri-la, confrontou o mundo. Um monstro de quatro patas o vigiava, mas Empty não sentiu medo; para ele, a aberração era o padrão de normalidade.
O problema era o vento. O ar, ao colidir contra sua pele ressecada, parecia o açoite de um milhão de agulhas.
O monstro o arrastou morro abaixo, abandonando-o em um parque em ruínas. Empty tentou gritar, mas suas cordas vocais eram inúteis.
Sofreu por dias sob as intempéries, até que a vontade de viver rugiu mais alto. Levantou-se. Uma energia negra emanou de seus pés e, ignorando a dor insuportável, correu.
A maldição, percebendo a ameaça, perseguiu-o.
Empty correu com uma intensidade que nunca conhecera, a sua voz tentava sair, mesmo sem as cordas vocais, era um ato de sobrevivência, maior que qualquer razão, sentindo a adrenalina que o tornava humano pela por uma única vez.
Ao cruzar o limiar de sua casa, o monstro recuou, temendo algo que habitava ali dentro. Naquele momento, Empty compreendeu: ele precisava de proteção.
Meses tentando entender o que havia feito, a sobrevivência e a vontade de lutar falou mais alto que qualquer voz que poderia sair. Usando seu poder, moldou a armadura e a espada. Agora, o vento não podia mais feri-lo. Ele então junta tudo, e, anos depois, finalmente sai daquela casa.
Aquela maldição está o esperando novamente. Ele se criou à maneira que viu nos livros: um herói com armadura, disposto a fazer uma única coisa — matar aqueles seres. Aquele ser, então, se projeta para frente, sacando sua espada em frente à armadura.
Aquele seria seu primeiro ataque.
O ar denso daquele mesmo galpão retorna, contra as duas maldições. Num único ataque de espada, ele desconecta a cabeça das maldições, enquanto também derrota a sua primeira — Surgiria naquele momento algo maior do que poderia ser, ele não era mais apenas vazio, ele era... O Homem Vazio. E seu nome seria Empty.
Empty finalizou o extermínio das maldições no galpão. No chão, encontrou uma pedra verde e a guardou — um hábito de colecionar tudo o que encontrava.
Na pedra estava escrito: "Por favor, protege-a, com sua vida."
Mas Empty não sabia ler, então, apenas a guardou. Antes de partir, olhou para trás.
Por um breve instante, as maldições derrotadas tomaram formas humanas: a mulher da praia e um homem. Eles sorriam para ele. Realidade ou delírio, Empty apenas sentiu.
Reconheceu o significado daquele gesto, assim como o livro. Mas o que aquilo significava? Um sorriso, duas pessoas, o que elas sentiam de diferente? Em todas aquelas memórias.
Perguntas, e mais perguntas. Mas sem nenhum significado. Apenas um resquício em mente de uma pergunta que naquele momento não foi feita.
Apenas sentida.
"O que é viver?"