O campo era verde e vívido, uma tela perfeita pintada para esconder a gaiola. O sol aquecia o rosto de Alice, mas o calor não chegava ao seu interior. A grama era macia sob seus dedos, que a apertavam com força, arrancando pequenas lâminas — um ato minúsculo de rebeldia.
A sombra que caiu sobre ela não vinha de nenhuma nuvem. Vinha dele. Ele se sentou ao seu lado, e o ombro dele roçou no dela — um contato que não foi casual.
Quando ela finalmente o encarou, seu sorriso era o mesmo de sempre: fácil, iluminado. Era o sorriso que a fizera acreditar em contos de fadas.
Foi com essa doçura ainda nos lábios que ele disse, como se comentasse sobre o tempo:
— Mas esse... foi o momento em que eu te ganhei.
Na Zona Segura, não se falava em escolha. Só em destino. Um destino forjado há gerações nos casamentos obrigatórios entre as duas grandes Casas nobres — A da luz, e das trevas — , sempre na esperança de que, do cruzamento das trevas e da luz, por fim surgisse a tal "Luz Definitiva".
Um herdeiro. Um salvador. Uma chave.
Ela, Alice Lighting, era a peça feminina da equação. Ele, Oliver Darking, o complemento masculino. Estava escrito nas profecias, na salvação de um mundo banhado em caos e morte — e cravado no olhar de todos que a cercavam.. Ela estava destinada a ele antes mesmo de nascer.
Oliver Darking, por sua vez, transbordava uma luz própria. Era atencioso de um modo que não parecia ensaiado, trazendo para Alice flores que ele mesmo desenhava, pois dizia que cortá-las do jardim era uma violência. Criativo, inventava nomes para as nuvens e histórias para o vento. Alice se agarrava a esses gestos como a um salva-vidas.
Já Andrew Darking era a sombra que a luz de Oliver inevitavelmente projetava. Irmão mais velho, designado protetor do herdeiro, ele cumpria o dever como uma sentença. Sério até a medula, de poucas palavras, seus silêncios eram mais eloquentes que os discursos de qualquer cortesão. Seu olhar – aquele olhar que nunca a encontrava diretamente, mas sempre a avaliava de longe – parecia medir distâncias intransponíveis. E encontrar Alice sempre do outro lado.
Alice não gostava dele. Detestava, até, a maneira como sua presença gelava o ar ao redor de Oliver.
Mas Oliver... Oliver era diferente. Oliver era a promessa de que o destino poderia, quem sabe, ser suportável.
O primeiro encontro formal foi um ritual meticuloso. Realizou-se no topo da torre, que ficava no meio de todo o reino. "A Torre da Luz", era chamada. No topo, uma câmara circular cujo teto de cristal deixava entrar o sol, banhando tudo em uma luz esverdeada e irreal, chamado "O Jardim da Luz". Paredes vivas de trepadeiras e samambaias criavam a ilusão de um jardim interior, uma natureza domesticada para a ocasião.
À esquerda, imponente como um penhasco vestido de negro, estava Bruce Darking. Todos o conheciam pelo título que era um alerta: "O Homem Mais Forte do Mundo", líder da Casa da Escuridão. Ao seu lado, Esther Darking não sorria; sua postura era um estudo em elegância gelada.
À direita, muito perto mas parecendo a léguas de distância, seus próprios pais. Seu pai, Marcos Lighting, estufava o peito com um orgulho visível. Theodora Lighting, sua mãe, tinha os olhos brilhantes de uma felicidade que para Alice parecia aguda como uma faca.
Alice sentia o peso do vestido de seda azul-celeste – uma gaiola de luxo – e o peso muito maior de todos aqueles olhos. Ela se sentou nos almofadões de veludo verde dispostos sobre o gramado ornamental. Esperando a aproximação à esquerda.
Quando Oliver se aproxima, ele para diante dela, as mãos ligeiramente trêmulas, o sorriso um tanto torto. Seus olhos, no entanto, eram sinceros.
— Você é a Alice, né? — a voz dele quase sumiu no salão imenso. Ele engoliu seco, e num impulso, estendeu a mão – não para um cumprimento formal, mas como quem busca uma conexão real.
— Eu... — Oliver continuou, agarrando a mão dela com uma suavidade que contrastava com a umidade de sua palma. — Eu prometo fazer você a mulher mais feliz do mundo.]
A frase ecoou no silêncio pesado. Era uma promessa de criança, feita em um mundo de adultos que jogavam xadrez com vidas.