A frase ecoou no silêncio pesado. Era uma promessa de criança, feita em um mundo de adultos que jogavam xadrez com vidas.
E, com o tempo, a semente daquela promessa ingênua fincou raízes no solo árido do dever de Alice. Ela começou a regá-la.
— Você… promete? — a pergunta escapou-lhe anos depois, em um recanto privado do Jardim da Luz . Era menos uma dúvida e mais um feitiço, uma tentativa de conjurar a realidade que tanto desejava.
— Pela escuridão e pela luz, sim! Eu prometo. — A voz de Oliver era uma âncora em meio ao mar de expectativas. Seu sorriso, na memória de Alice, havia se tornado sua constelação guia, tão confiável quanto o nascer do sol.
O Dia da Confirmação dos Nomes não era um simples evento. Era um ritual público, a primeira costura oficial do futuro no tecido do presente. No Grande Salão da Torre da Luz, sob os afrescos que narravam uniões passadas e profecias futuras, realizava-se o Baile das Alianças.
Oliver estava irradiante, vestido com as cores da escuridão de um modo que as fazia parecer quentes. Seu sorriso era tão amplo que parecia desafiar a própria solenidade do evento. Antes de partir, ele se virou para Andrew, que estava postado como uma coluna de sombra contra a parede.
— Me deseje sorte, Andy — sussurrou Oliver, os olhos brilhando com uma emoção genuína que tornava o pedido quase um gracejo.
Andrew não sorriu. Seu rosto permaneceu uma máscaria impenetrável. Apenas inclinou a cabeça, um milímetro que poderia significar qualquer coisa – um cumprimento, uma concessão, um luto antecipado. Oliver, acostumado ao silêncio do irmão, partiu como um raio de sol.
Ele cruzou o salão, ignorando os sussurros e os olhares pesados dos nobres, até a mesa onde a família Lighting estava entronada. Marcos Lighting observava. Theodora sorria, mas seus olhos estavam fixos na filha, avaliando cada movimento.
Alice, presa em um vestido que pesava mais que sua idade, sentia o coração bater como um pássaro preso. Então, ele parou diante dela. Oliver fez uma reverência perfeita, mas o brilho em seus olhos era tudo menos formal. Estendeu a mão, desafiadora, promissora.
— Minha futura senhora — disse, e a voz dele soou clara no silêncio repentino do salão. — Me concede esta dança?
Foi como respirar pela primeira vez. A mão de Alice encontrou a dele antes que sua mente pudesse processar. A cerimônia terminou; a vida, parecia, começava ali. Ele a conduziu ao centro do pátio de mármore, sob a cúpula de cristal que deixava entrar a luz das estrelas. Todos os olhos estavam sobre eles – não como adolescentes, mas como a Encarnação Viva da Profecia.
A dança foi, para ser gentil, desastrada. Oliver pisou em seus pés duas vezes, e ela riu, um som alto e livre que ecoou estranhamente naquele lugar severo. Eles tropeçavam, giravam fora de tempo, mas nos olhares que trocavam – dele, cheio de pura alegria; dela, de descoberta maravilhada –, havia uma perfeição que nenhum protocolo poderia ditar.
"Eu amo ele?" pensou Alice, perdendo-se no caos alegre daqueles passos. "Acho que sim. É isso que o amor deve ser: leve, fácil, como respirar."
E a dança continuou, um redemoinho desengonçado e esperançoso no coração do mundo que deles dependia.
De fundo, imóvel, Andrew observava. Indiferente. Ou misterioso.
Três anos de respiros roubados e olhares cumplices se passaram. Faltava apenas um ciclo lunar, um ano, para o ritual do casamento quando a Casa Darking foi convocada. Uma missão de última hora à Zona Infernal — não uma expedição, mas um teste de fogo. Bruce Darking, o patriarca, não pediu, ordenou: Oliver o acompanharia. "Um futuro líder não pode temer as cinzas de que será forjado", rugiu, encerrando qualquer debate.
Andrew, o sombra, protestou. Não na sala do trono, mas nos corredores escuros, agarrando o braço do irmão mais novo com uma força desesperada. "Não é sua guerra ainda", sussurrou, uma oração fracassada. Mas a escuridão não detém a luz; apenas a segue. Pelo menos, era isso que pensava do pai.
A partida foi ao amanhecer, sem fanfarras.
O retorno foi ao crepúsculo, anunciado não por trombetas, mas pelo arrasto surdo de botas no pátio de pedra. Alice, cujo coração aprendera a contar os dias pelo vazio, correu. A tropa que entrou não era a que saíra. Homens reduzidos a silhuetas, encapuzados pela cinza que nunca se dissipa da Zona Infernal, com olhos que haviam visto demais para ainda brilhar.
Ela os varreu com o olhar, uma, duas, três vezes.
Procurou o cabelo desalinhado, o sorriso fácil, a postura descontraída.
Encontrou apenas Bruce Darking, o Homem Mais Forte do Mundo, cujo olhar pesado encontrou o dela e, pela primeira vez, desviou.
Oliver Darking, herdeiro da Escuridão, morreu aos catorze anos.
E com ele, morreu o mundo que Alice achava estar construindo.