No aniversário de seis anos dos gêmeos, o castelo fervilhava de preparativos. Fitas, doces, o som raro de risadas infantis ecoando nas pedras. Alice estava ajustando a coroa de flores de Luna quando percebeu a presença dele mais perto do que o necessário. Andrew, segurando um balão que parecia absurdo em suas mãos de guerreiro, abriu a boca, fechou-a, e tentou novamente.
— O… o bolo — a voz dele soou áspera, como uma porta de ferro há muito não aberta. — O confeiteiro perguntou se… se as crianças preferiam chocolate ou baunilha.
— O confeiteiro. Foi o confeiteiro quem fez, Andrew — ela respondeu, a voz não apenas seca, mas afiada, corrigindo-o como se fosse um servo que confundira um título. Virou-se antes que ele pudesse processar o golpe, deixando-o sozinho com o balão absurdo e a ferroada daquela precisão cruel.
Mais tarde da festas, no jardim. O sol da tarde entrelaçava-se em seus cabelos, e por um segundo, o coração de Andrew, órgão que ele julgava fossilizado, deu um solavanco estúpido.
Então, viu o homem. Um jovem nobre da Casa dos Magos, um antigo conhecido dos tempos em que Alice ainda ria. O sujeito se aproximou com um sorriso descontraído, e suas mãos se ergueram num gesto que não pedia permissão – um abraço de quem ainda acreditava ter direitos sobre ela.
Andrew moveu-se antes que o pensamento se formasse. Não foi uma decisão. Foi um reflexo ancestral, um surto possessivo que atravessou o pátio num turbilhão de sombra e fúria. Seu punho, a mesma mão que hesitara a um fio de seu cabelo naquela noite distante, conectou-se com o queixo do intruso com um estalido seco e satisfatório, o som de um osso contestando seu lugar.
O nobre caiu como um saco de farinha, o sorriso agora transformado em uma máscara de choque e dor. E corria após isso, com medo das trevas a sua frente.
O mundo parou. Os pássaros calaram-se. Andrew respirou fundo, o ar ardendo em seus pulmões. Virou-se para Alice, o instinto de protetor ainda pulsando em suas veias, uma onda quente e tola de algo que se parecia com posse.
— Você está bem? — a pergunta saiu rouca, nascida de um lugar tão primitivo e genuíno que ele mesmo não reconheceu.
O olhar que ela lhe lançou não foi de gratidão. Foi de puro e absoluto desprezo.
— Não! — o grito dela foi uma lâmina. — Que MERDA você está fazendo, Andrew? Eu não preciso da sua ajuda! Eu não quero a sua ajuda!
Ela avançou um passo, e ele, o homem que enfrentara bestas da Zona Infernal, recuou.
— O que você pensou? — ela cuspiu as palavras, cada uma uma pequena estocada. — Que porque nos deitamos uma vez, porque você me cedeu duas crianças, agora eu era sua esposa de verdade? Sua propriedade?
Seus olhos verdes não eram mais flamejantes. Eram glaciais. Pontas de diamante mergulhadas em veneno. E então, ela lançou o golpe final, a verdade nuclear que ambos vinham evitando desde o velório:
— Eu nunca vou amar outro alguém além do Oliver! NUNCA! Ele era tudo que você nunca será! E você… você é apenas a sombra que ficou para trás!
Alice saiu. Não furiosa. Com uma dignidade terrível e cortante.
Andrew ficou parado no caminho. O estalo do seu punho ainda ecoava no ar, mas era um som insignificante diante do estrondo que suas palavras haviam feito dentro do seu crânio. Aos seus pés, o jovem nobre gemeu, tentando se levantar. Andrew não o viu.
Ele só via a imagem do irmão, sorrindo fácil, e a lembrança da própria voz, anos atrás, sussurrando no escuro: "Não é sua guerra ainda."
Ele estava errado.
Esta era a guerra dele. E ele acabara de levar a primeira e mais devastadora baixada.
Não de um inimigo, mas da mulher que, por decreto do destino e do ódio dela, era sua esposa.