Daquelas lágrimas que caíram, que ninguém pode ver, deviam ser esquecidas, ainda mais pelo futuro que aguardavam.
A única felicidade verdadeira do casal não era deles: era um empréstimo. Estava nos filhos. Luna, com seus olhos que refletiam o céu, era a herdeira da profecia. A Luz que prometia rasgar "O Tudo".
Mas o destino, como sempre, era um alfaiate cruel. Costurou em sua alma uma maldição latente, uma sombra parasita que consumiria sua luz de dentro para fora. A culpa, explicou o médico com a voz de quem entrega uma sentença, vinha de uma semente de corrupção que Andrew trouxera involuntariamente de suas guerras na Zona Infernal.
A cura era um paradoxo: levar a menina ao ventre do veneno, à origem daquela energia sombria, e arrancá-la de lá ou perecer tentando.
O Conselho da Zona Segura, feito pelos líderes das casas, em um ato de pânico vestido de razão, votou pelo exílio. Luna seria uma leprosa cósmica, abandonada para não contaminar o rebanho.
Andrew e Alice olharam um para o outro sobre a cama da filha febril. E pela primeira vez, não houve hesitação, não houve ódio no espaço entre eles. Só uma determinação única e assassina. Eles se recusaram.
Na madrugada cortada por um vento que cheirava a traição, Andrew reuniu um punhado de homens cujas lealdades eram a ele, não ao trono. Luna, pequena e quente como um pássaro doente, foi enrolada em mantos de lã. Ele a carregou como se carregasse o próprio coração exposto.
No portão secreto, uma silhueta os esperava. Alice, sem joias, sem mantos de seda, vestida apenas de fúria maternal e de uma coragem que ele nunca lhe vira. Seu rosto era uma máscara pálida à luz da lanterna.
— Eu vou salvar minha filha! — sua voz era um sibilo de aço, bloqueando o caminho físico e moral.
Andrew parou. Olhou para o feixe de luz em seus braços, depois para a mulher que era seu adversário há uma vida. E a correção não saiu como um golpe, mas como uma afirmação, um fato fundacional de um novo mundo que nascia ali, na escuridão.
— Nossa filha — ele disse, e as duas palavras foram um juramento, um pacto de guerra assinado naquela noite fria.
Ela não discutiu. Apenas pegou uma lanterna e caminhou para seu lado. Partiram juntos.
No meio do caminho, entre os barris de água e os sacos de provisões, um soluço abafado os traiu. Raphadun emergiu, os olhos inchados, agarrando-se a uma capa. Ele se teleportara para segui-los. O plano deles agora tinha um refém a mais, um coração extra para proteger. Era tarde demais para voltar.
Na Zona Infernal, Andrew não era mais um príncipe ou um marido falho. Era uma força da natureza. Seu corpo, treinado para a guerra desde o berço, movia-se com uma economia mortal, derrubando maldições menores com uma facilidade que era menos habilidade e mais memória muscular de um ódio antigo. Seu verdadeiro temor, porém, eram os Quatro Grandes: "O Perseguidor", "O Destruidor", "O Caos" e o próprio "O Tudo".
Em uma noite onde o frio mordia os ossos mesmo através da fogueira, Alice se aproximou. As crianças dormiam, enroladas um na outra como filhotes. Ele montava guarda, seus olhos varrendo as sombras além da luz.
— Promete — ela sussurrou, a voz rouca pelo vento e pelo medo não nomeado. — Promete que fará tudo para salvá-la?
Ele não olhou para ela. Olhou para as chamas que lambiam a escuridão, como se elas contivessem a resposta.
— Eu… prometo.
Foi só depois que as palavras saíram, solenes e pesadas, que ele permitiu que seu olhar fugisse para cima. Entre as rachaduras na abóboda perpétua de fumaça e tormenta, um pedaço do céu noturno real apareceu, cravejado de estrelas que ele não via há décadas.
— É… mais bonito do que eu imaginava — a observação escapou-lhe, um pensamento privado tornado público por engano.
Alice sentou-se a uma distância segura, puxando o casaco para mais perto do corpo.
— Não tente puxar assunto — ela resmungou, mas a aspereza habitual estava desgastada, cansada. — E que gosto horrível você tem, para achar essas coisas sombrias bonitas.
Um fio de desafio, familiar mas diferente, acendeu-se nele.
— A culpa não é minha se você é tão… 'iluminada', né? — ele retrucou, e um canto de sua boca — aquela que nunca sorria — subiu em um meio-sorriso torto, quase imperceptível.
Alice olhou para ele. Para o sorriso. Para o homem sujo, cansado e mortal sentado à fogueira, que prometera salvar sua filha. E, movida por um impulso que não veio do cérebro, mas de um músculo emocional há muito adormecido, ela deu um soquinho fraco, quase infantil, em seu ombro.
E então, para o espanto absoluto do universo e deles mesmos, um sorriso fugaz — não de triunfo, não de sarcasmo, mas de uma cumplicidade genuína e surpresa — escapou dos lábios de Alice.
Pela primeira vez em uma década, o gelo secular entre eles não apenas rachou. Derreteu o suficiente para que, por um segundo, eles se vissem não como fantasmas do passado, mas como dois soldados, lado a lado, no mesmo campo de batalha pelo futuro.