Capítulo 16 — Querer Ser
E ela soltou.
Eu já tinha visto o Gobe soltar o dele, lá atrás, no desvio fundo onde o primeiro Alado morreu — o Rugido da Tempestade saindo do gnomo como represa que arrebenta, todo o vento de uma vez, e depois o nada: o corpo vazio de joelhos, sem uma gota a mais. O Gobe tem a forma na ponta dos dedos e não tem mana pra sustentá-la. A Freala era o contrário dele em tudo. Tinha a mana de sobra. O que ela nunca tivera, até aquele instante, era a forma.
Agora tinha as duas.
O ar que ela vinha juntando na mão não saiu como sopro. Saiu como rio que estoura a margem. A runa que se enrola sobre si mesma, camada dentro de camada, despejou o que guardava num só jato torcido — centenas de correntes de vento trançadas numa corda grossa que não empurra: bate. Atravessou o largo num urro grave que fez a poeira saltar do chão em anéis, e acertou os dois Cavaleiros em cheio.
E aí eu vi pra que serve a forma de grau quatro do Ar, e por que a Freala a tinha caçado a noite toda.
As correntes não os derrubaram porque tiraram o ar de baixo deles. Derrubaram porque bateram — uma parede de vento em movimento, dura como água que cai de muito alto, raspando as membranas finas das asas (a única parte mole de um tanque, a que rasga) e socando as placas douradas com o peso de uma coisa grande demais pra desviar. Os dois Cavaleiros, que subiam lado a lado com a calma de quem é maioria, foram arrancados do voo e atirados pra dentro do largo, longe um do outro, raspando a pedra com um estrondo de placa contra rocha.
Um deles bateu de costas na parede da estrada com tanta força que a própria parede respondeu: uma laje inteira de rocha se soltou do alto da galeria e desceu sobre ele, e o Cavaleiro sumiu sob o desabamento com um baque surdo, enterrado até onde a poeira não deixava ver. O outro foi atirado pro lado oposto do largo, raspou a pedra, rolou — e parou. Inteiro. Livre.
A Freala segurou o jato aberto mais um instante — a corda de vento trovejando contra a pedra pra não deixar nada se reerguer fácil —, e eu senti a mana dela escorrer pelo ralo de uma vez, do jeito que some a água da pia quando se tira o dedo do furo. Não é coisa que se vê com olho. É coisa que eu aprendi a sentir, de tanto viver perto de gente que conjura. Ela tinha a torneira inteira aberta na maior coisa que já tecera, e a maior coisa que ela já tecera bebia depressa. Quando o último fio de vento se desfez e o ar voltou a ser só ar, não sobrava nela quase nada.
Ela baixou a mão e oscilou, e eu a segurei pelo cotovelo antes que o joelho encontrasse a pedra. Não de ferida — magia não machuca quem lança, só esvazia. Era o esvaziamento: uma maga que torrou tudo o que tinha numa coisa só e ainda não sabia o que fazer com o corpo agora que o tanque estava seco.
— Eu consegui, ela disse, e a voz era um fiapo, e mesmo assim tinha dentro dela uma coisa que eu não ouvia desde antes de o Fosso engolir todos nós. Osso. Eu amarrei o nó inteiro. Eu segurei.
— Você segurou, eu confirmei, na cabeça dela e só dela. Tirou os dois do céu, e um deles tá embaixo de meia parede. Descansa. Daqui é comigo.
Era mentira — não tinha "comigo" possível contra um daqueles, e muito menos contra dois. Mas era o tipo de mentira que se diz pra quem acabou de fazer o impossível, e ela estava cansada demais pra discutir.
*
O que estava livre se levantou primeiro.
Ergueu-se do chão do largo com a silhueta de catedral que eu tinha aprendido a temer e depois aprendido a matar — a metade de cima do corpo subindo sobre a de baixo como um homem de armadura, a quitina dourada em placas grossas, os chifres curvos subindo do elmo natural como uma coroa que ninguém pôs. Mas tinha alguma coisa errada no jeito como ele se levantou. Os outros Cavaleiros se moviam com a calma das coisas que são maioria. Este tremia. Não de medo — eu conhecia o tremor do medo, tinha visto nos vivos a tarde inteira. Era um tremor de dentro pra fora, contínuo, como o de uma corda esticada demais, ou de alguém que reza uma reza que não cabe na boca. As mandíbulas dele se mexiam mesmo no silêncio, mastigando palavras que ainda não tinham saído.
E então saíram, em voz alta, na língua dos homens que a Colônia arrancou de tudo o que já comeu. A voz veio dura, com um estalo seco entre as sílabas — o clique de cupim por baixo das palavras, como um bicho que aprendeu a imitar gente e não acertou inteiro o jeito. Saiu pra todos. A Freala ouviu. O Gobe ouviu. O Quagô recuou um passo só de ouvir.
— Blasfêmia, disse ele, e a palavra veio com um tremor de devoção que era pior que qualquer ódio. Eu cheiro a blasfêmia. O corpo me mandou subir e eu subi, e a cada degrau o cheiro foi piorando, e agora estou diante dele e entendo por quê. A cabeça coroada virou pra mim, devagar, e os chifres pegaram o pouco brilho que havia. Uma coisa que a morte mastigou e cuspiu. Uma coisa que devia estar dentro do corpo, dissolvida, virando sonho — e em vez disso anda. Fala. Caminha pro coração d'Ela com a voz suja que tem.
Você fala d'Ela como quem fala de um deus, eu disse, na cabeça dele, só pra ver se a porta abria.
Abriu. A cabeça dele estremeceu como se eu tivesse tocado num nervo exposto.
— Não fala dentro de mim. A voz subiu, rachada. Tu não tens direito de pôr a tua sujeira aí dentro. Ele deu um passo, e o chão tremeu sob o peso dele. E não a chama de deus com essa boca. Ela é mais que um deus. Deus é o que os pequenos rezam de longe. Ela bebeu do que escorre no coração até deixar de ser uma de nós, e virou o sonho do qual nós somos o sono. Eu sou a boca que reza. E o que eu rezo agora é que tu pares de andar.
E abriu o tórax.
*
Eu conhecia o gesto. Tinha visto o Cavaleiro do degrau passado, o que guardava a estrada, abrir o corpo do mesmo jeito e derramar no ar o terror destilado — o feromônio de pânico que quebra um grupo antes da briga. Eu fui imune àquilo, porque medo é química e eu não tenho a química. Já estava virado pros meus, pronto pra ancorá-los como tinha ancorado antes.
Mas o que saiu da fresta dele não era a mesma coisa.
Era do mesmo material — eu senti, do jeito esquisito que eu sinto cheiro sem nariz, a mesma química grossa enchendo o ar. Só que o terror do outro tinha sido um leque jogado largo, espalhem-se, fujam todos. Este veio com forma, com direção. Não era um grito de "corram". Era um dedo apontado. Era uma ordem dita no ouvido de quem ainda tinha ouvido pra escutar, e a ordem tinha um alvo, e o alvo era eu.
[Toxina aérea detectada: compulsão dirigida.]
[Imune: sistema nervoso ausente.]
A química bateu no osso e escorreu, como tudo o que é feito pra mexer com nervo escorre de quem não tem nervo.
E aí a Freala se virou pra mim com os olhos errados.
Não eram os dela. Os dela eram cansados e espertos e tinham, fazia um minuto, uma alegria quebrada de quem amarrou o Rugido pela primeira vez. Estes estavam lisos, vazios do jeito que uma janela é vazia quando apagam a luz do quarto. A boca dela se abriu, e o que saiu não foi a voz dela:
— O corpo é um só. As palavras eram dela; a fé que as empurrava era de outro. A coisa que anda contra o sonho tem que parar de andar.
— Freala, eu joguei na cabeça dela, sem travessão, sem esperança. Freala, sou eu.
Nada. A casa estava vazia. A compulsão tinha trancado a porta por dentro.
O Gobe, ao lado dela, tinha a mesma máscara lisa, a moeda escorrendo da mão sem ele perceber. O Quagô, na boca do largo, virou as quatro patas pra mim de uma vez. E os três fizeram, contra mim, a coisa que eu nunca tinha visto eles fazerem direito a meu favor: lutaram bem.
A Freala ergueu a mão. Não a chama — ela não tinha mana pra chama que prestasse, e graças a isso eu ainda estava de pé, porque uma Freala cheia teria me derrubado com o próprio Rugido que acabara de aprender. O que sobrava nela dava pra pouco, e o pouco que ela escolheu foi gelo: um sopro de frio no chão entre nós, uma placa fina e molhada onde os meus pés iam cair.
Eu escorreguei como qualquer idiota escorrega no gelo, e o chão veio me encontrar de lado, e foi nesse instante que o Gobe, com o cisco de mana que ainda tinha, cortou o ar pra cima. Uma Lâmina de Vento curta, malfeita — não em mim. Na estalactite que pendia do teto bem acima de onde eu tinha caído. A pedra comprida se soltou e desceu como uma lança que o próprio Fosso jogava. Eu rolei; ela estourou no gelo onde a minha cabeça tinha estado e cuspiu lascas. E o Quagô já vinha por cima, o chicote de mandíbulas estalando, o gancho de garra mordendo a junta do meu ombro e arrancando.
Eu me levantei do gelo com o ombro reclamando e olhei os três fechando em meia-lua, coordenados, rápidos, calados a não ser pela mesma reza escorrendo das três bocas, e tive um pensamento que, em qualquer outra hora, teria sido engraçado.
A vida nova inteira eu implorei pra esse grupo lutar coordenado. A fala mental não custa equilíbrio; eu falava caindo, levantando, rolando. Bastou alguém mandar eles me matarem.
*
A primeira regra de quando o mundo te dá um problema impossível é parar de tratá-lo como o problema que ele parece. Parecia uma briga. Não era. Numa briga você quer derrubar quem vem. Eu não podia derrubar quem vinha. Eu precisava segurar quem vinha, sem ferir, sem quebrar — e segurar gente que não quer ser segurada é mais difícil que matar, porque matar você faz uma vez e segurar você faz o tempo todo.
Por sorte eu tinha a ferramenta. E nunca, nem uma vez, tinha usado ela pra cuidar.
As Garras da Sombra subiram do meu Manto em sete braços de breu, e pela primeira vez eu não as mandei agarrar pra rasgar. Mandei agarrar pra abraçar. Um braço envolveu a Freala dos ombros aos cotovelos, prendendo os braços dela ao corpo antes que a mão desenhasse outra runa — sem apertar a ponto de quebrar, firme como se segura quem está caindo. Dois enrolaram o Gobe, pequeno e furioso e escorregadio, como se enrola uma criança numa manta contra a vontade dela. O Quagô deu mais trabalho — saltou, se contorceu, o chicote abriu um segundo talho no meu braço —, mas três Garras o pegaram no ar e o trouxeram ao chão de costas.
E aí veio a parte que só o meu caminho sabe fazer. A Flecha Negra não fere; rouba vigor, deixa lento, pesado, mole. Eu vinha usando ela a vida nova inteira como faca — empilhar até o inimigo afundar. Mas a mesma coisa que afunda um inimigo acalma um amigo, se você dosar. Passei pela ponta das Garras não a torrente que eu jogaria num Cavaleiro, mas um fio, o mínimo, um sonífero e não um martelo. E senti, pelo breu, o vigor dos três descer. A Freala parou de empurrar contra o braço. O Gobe afrouxou. O Quagô deixou de espernear. Não dormiram — a compulsão não deixava —, mas ficaram moles, devagar demais pra cumprir a ordem que os habitava, rezando ainda, louvado o sonho, apaguem a praga, com as vozes deles e a fé de outro.
E então eu os deitei. Um por um, com o último cuidado que me sobrava, pus a Freala, o Gobe e o Quagô no chão do largo, contra a parede mais longe da briga, moles e murmurando e — eu confirmei, com um fio de breu em cada um pra manter — incapazes de levantar. Não dava pra lutar segurando eles. E o que vinha agora pedia as minhas mãos livres.
[Dano recebido: PV 198 → 173.]
*
O Fanático tinha esperado tudo isso com a paciência fria de quem reza. Agora avançou.
Veio pesado, sem pressa, certo de que o lixo que tinha acabado de engaiolar os próprios amigos não ia durar contra ele. A primeira garra desceu, e eu girei o tronco e deixei ela raspar a placa de basilisco nas minhas costas em vez de me abrir ao meio, e respondi com a espada de adamante. A lâmina entrou na couraça e abriu um talho fundo no flanco dourado dele — fundo, real, do tipo que mata um Cavaleiro Alado.
Não matou este.
Porque o Fanático recuou um passo, abriu a boca de quitina, e gritou pra dentro do chão — não a reza, outra coisa, uma nota que não era pra mim nem pros meus, era pra Colônia. E a Colônia respondeu como sempre responde quando uma parte sua chama: do escuro das galerias laterais, dos buracos que eu nem tinha visto, despejou o corpo.
Vieram às centenas. Operários de placas douradas e mandíbulas de triturar pedra, Soldados maiores com as tesouras vivas estalando, uma maré dourada enchendo o largo de patas e cheiro e fome, fluindo pra cima de mim de todo lado de uma vez. E o Fanático, no meio da própria enchente, fez a coisa que eu vou lembrar por muito tempo: pegou o primeiro Soldado que passou ao alcance da garra, fechou a mão sobre ele — e bebeu. Não com a boca. Com o corpo inteiro, do jeito que a Colônia faz tudo, sugou do irmão a vida que o irmão tinha, e eu vi o talho que a minha espada abrira fechar, a carne se refazendo, enquanto o Soldado murchava na mão dele até virar casca seca e cair.
Ele estava comendo os próprios irmãos pra se curar. Chamava eles em nome do sonho, e eles vinham honrados, e ele os secava um a um e fechava com a vida deles cada ferida que eu abria. Eu podia cortar a noite inteira. Ele tinha um exército pra sangrar no lugar dele.
E eu não tinha como matar centenas um por um.
*
A Lança de Fogo fura um. A Flecha Negra afunda um. A espada decepa um. Tudo o que eu sei fazer é um por um, e "um por um" é uma piada contra uma maré. Eu sempre soube que esse dia ia chegar — o dia dos muitos de uma vez — e sempre adiei a resposta pra ele, porque a resposta que eu queria era a Bola de Fogo, e a Bola de Fogo morava num degrau de Focus que eu ainda não tinha.
Mas o fogo não era o meu único caminho que sabia o "muitos".
Tem uma coisa que eu carregava na cabeça havia tempo e nunca tinha tecido, porque nunca tinha tido contra o que tecer. A Flecha Negra rouba o vigor de um alvo num fio. A Lança Negra rouba num furo. E eu sempre soubera, do jeito que a gente sabe das coisas que nunca precisou, que o mesmo roubo cabia numa terceira forma — não um fio, não um furo, mas um lençol. O breu aberto sobre tudo o que estivesse embaixo dele, sugando o vigor de muitos de uma vez, do jeito que a noite cai sobre um campo inteiro sem escolher uma folha.
Eu nunca tinha precisado. Eu nunca tinha tido centenas. Agora tinha.
Larguei o medo de gastar, abri a mão pro alto, e em vez de juntar o breu numa garra eu o espalhei, deixei cair como cai um manto grande demais, sobre a maré inteira.
[Magia adquirida: 《Mortalha》.]
A escuridão desceu sobre o largo como água preta, e onde tocou, o corpo afundou. Os Operários da frente travaram no meio do passo, de repente pesados demais pras próprias patas; os Soldados atrás arrastaram as tesouras pelo chão, lentos, mornos, o vigor escorrendo pra dentro do breu que eu segurava aberto. E aqui estava a diferença que eu não tinha previsto: numa coisa grande, a Mortalha só cansa. Numa coisa pequena, ela mata. Um Operário não tem vigor de sobra como tem um Cavaleiro; quando o lençol bebeu o que ele tinha até o fim, ele simplesmente parou — as patas dobraram, a luz que move um inseto se apagou, e ele caiu seco, morto de ter perdido tudo o que o mantinha andando.
E os que não morriam de uma vez, eu queimava.
Porque a Mortalha não só cansava — ela amolecia. O vigor que sai de um corpo leva junto a dureza dele, e a casca de um Operário, de um Soldado raso, já é fina perto da couraça de catedral de um Cavaleiro. A minha Lança de Fogo nunca tinha furado quitina; mas quitina drenada, amolecida, esvaziada, fina de nascença — essa ela furava como ferro em brasa fura cera. Eu cravava a lança de fogo nas fileiras que a Mortalha tinha deixado moles e elas abriam, queimavam, caíam. O breu derrubava; o fogo limpava o que o breu derrubava.
[Você subiu de nível!]
[Você subiu de nível!]
A maré não parou de vir. Mas a maré começou a morrer mais rápido do que crescia.
*
E enquanto eu sangrava a horda, eu sangrava o pastor dela.
Porque o Fanático bebia mais rápido do que eu cansava — cada inseto que a Mortalha amolecia, ele puxava pra si e drenava o resto, e o que sobrava de vida virava cura na carne dele —, e a única coisa que eu tinha pra furar a distância entre nós era a 《Agulha de Água》. Então eu a usei. Não na couraça, que ela nunca venceu; na ferida. No talho que a adamante abrira no flanco dele e que ele insistia em fechar com a vida dos irmãos. Toda vez que a carne se refazia ali, eu cravava a Agulha no ponto exato, sob altíssima pressão, e reabria o que ele acabara de costurar. Não o matava. Mas obrigava ele a beber outro irmão só pra fechar de novo o que eu reabria, e outro, e outro, e cada gole que ele gastava comigo era um a menos pra jogar contra mim.
Nós dois nos alimentávamos da mesma maré. A diferença é que a maré era dele — vinha pra ele, nascia pra morrer por ele — e mesmo assim estava acabando, porque eu matava de um lado e o obrigava a queimar reservas do outro. Era uma conta lenta. Se ela fosse até o fim, eu não sabia quem ficava de pé. Eu não tinha PV pra uma noite inteira disso.
[Dano recebido: PV 173 → 112.]
E foi quando a laje do outro lado do largo se mexeu.
*
A pedra que tinha enterrado o segundo Cavaleiro ergueu-se de baixo, rachou, deslizou — e ele saiu de debaixo dela com a lentidão de uma coisa que esteve quieta tempo demais. A quitina dele estava rachada num ombro, a poeira do desabamento ainda escorrendo das placas. Mas não foi pra mim que ele olhou ao sair. Foi pro irmão. Pro Fanático, no meio da própria enchente, bebendo o terceiro, o quarto, o quinto irmão.
E falou — alto, na língua dos homens, pra todo o largo ouvir, pro irmão ouvir.
— Tu estás comendo o corpo. A voz dele não tinha fervor nenhum; tinha um espanto baixo, doente. Eu sou o que cato os restos, irmão. Eu ando atrás do corpo recolhendo o que ele deixa cair — uma lasca de casca, um fio de presa, o que ninguém quis. Eu conheço cada coisa que cai, porque é o meu trabalho conhecer. E nunca, em todas as eras que eu sou, vi o corpo se comer assim. Por um talho. Por um talho que sara sozinho.
— Eles não são nada. O Fanático respondeu sem parar de beber, com a paz horrível da fé. O corpo é um só. As partes não são nada. Só o sonho é. Tu nasceste sabendo disso, como todos nós.
— Eu nasci sabendo disso. O Cata-Restos deu um passo pra dentro do largo, e os olhos dele — se aquilo eram olhos — passaram pela carnificina devagar, pesando cada casca seca como quem confere um inventário. Mas eu passei a existência olhando as partes. Sou eu que cato elas depois. E uma coisa que tu olhas tempo demais para de ser nada. Cada um desses subiu um dia à bolha de céu falso, lá em cima, sangrou a coisa antiga que as guardiãs protegem e bebeu o que escorre dela — um gole, o que pinga, o bastante pra erguer um cupim um dedo acima do molde em que nasceu. Tu estás secando esse gole, irmão. Estás bebendo o que ergueu cada um deles, e chamando de nada.
Foi pra mim que ele virou a cabeça coroada então. E o que ele disse, ele disse alto também, pra que o irmão ouvisse cada palavra.
— Eu te observo desde o primeiro degrau, coisa-de-osso. O corpo não te cheira, mas eu te vejo; é o que eu faço, eu vejo. A primeira vez foi num corredor de fungo, lá em cima. O corpo te procurava e não te achava, e eu vi por quê: tu te enrolaste no escuro. Não te escondeste atrás dele como faz uma presa — tu o vestiste, como veste uma pele, e o escuro te obedeceu. Eu ando no escuro a vida toda, cata-restos que sou, e nunca tinha visto o breu escutar alguém. A voz dele baixou, e ficou quase reverente. Eu guardei aquilo. Estudei aquilo toda vez que tu sumias. E pela primeira vez na minha existência inteira eu vi uma coisa e quis ela pra mim.
*
O Fanático largou o irmão que tinha começado a falar como coisa que pensa por si.
— Tu o queres, ele disse, e o tremor de devoção dele virou um tremor de outra coisa. Tu queres a blasfêmia. Estás corrompido. O corpo é um só, e tu te estás cortando do corpo.
Eu vi a brecha. E sou rápido pra brechas — é o que me manteve vivo num mundo grande demais pra um saco de ossos. Mas o que eu fiz com ela não foi o que eu costumo fazer.
Eu costumo enganar. Mexer na vaidade, plantar a mentira certa, virar o orgulho do inimigo contra ele. Foi assim que o irmão maior deles caiu, lá no fim da estrada de cima. Eu tinha um truque pronto pra esse também.
Não usei. Porque olhando aquela coisa de quitina dourada parada no meio de uma matança, dizendo em voz alta que uma coisa que se olha tempo demais para de ser nada, eu não vi um inimigo pra enganar. Eu vi uma coisa que o mundo inteiro chamou de peça a vida toda, descobrindo, tarde e com medo, que talvez fosse alguém. E disso eu entendo mais que de qualquer outra coisa nessa vida nova de osso.
Então eu falei a verdade, e falei aberto — joguei na cabeça dos dois ao mesmo tempo, pro irmão ouvir tanto quanto o irmão.
Você não é o corpo, eu disse. Você acabou de provar isso. O corpo não pararia pra olhar os irmãos morrerem. O corpo não acharia errado. Você achou. Uma parte que acha que uma coisa é errada não é mais uma parte. É alguém.
— Eu sou o que cato os restos, ele disse, mas a voz tremeu, e o tremor dele não era o do irmão.
Você é o que repara. O que olha. O que quis uma coisa pra si pela primeira vez e descobriu que conseguia querer. Eu segurava a Mortalha aberta sobre o que restava da maré, os meus a salvo contra a parede, o Fanático entre nós dois, e falei a coisa que eu queria que alguém tivesse me dito no primeiro dia em que eu acordei sem nome num chão de masmorra. Você não precisa morrer por um sonho que não é seu. Não precisa ser nada do que te disseram que você é. Larga o corpo. Vai ser o que você quiser ser. O mundo lá fora é grande, e tem nele coisa que nem você, que repara em tudo, jamais imaginou. Vai ver. Vai descobrir. Eu não vou te impedir, e não vou te caçar. Eu só queria, faz tempo, ter alguém pra dizer isso pra mim. Agora tenho pra quem dizer.
O Cata-Restos ficou imóvel. E no meio do largo, no meio da reza e do fogo e do breu, a coisa de quitina dourada ficou parada como se o resto do mundo tivesse desacelerado.
— Eu, ele disse. Baixinho. Pra si mesmo. Experimentando a palavra como quem prova uma comida que nunca viu. Eu.
E o Fanático, que ouviu o irmão dizer "eu", entendeu — do jeito que só um fanático entende — que tinha acabado de ver a pior blasfêmia da noite. Pior que a coisa de osso. Pior que o morto que anda. Uma parte do corpo que se separou do corpo.
Largou o que restava da maré. Largou a mim. Virou-se inteiro pro irmão, a reza já não reza, agora sentença — Não há "eu". Não há "eu". O corpo é um só — e avançou pra apagar a parte que tinha ousado se nomear, com as garras abertas e a velocidade que ele não tinha gastado comigo porque tinha gente pra gastar no lugar dele.
*
E o Cata-Restos, encurralado, fez a coisa que ele me contou que tinha estudado a existência inteira.
Eu vi antes de acontecer, porque eu compreendo as runas: quando as vejo desenharem o ar, leio o que dizem antes de elas dizerem. E ali, diante das garras erguidas do Cata-Restos, no instante em que o irmão caía sobre ele, eu vi as linhas começarem a nascer — as linhas tortas e fundas do caminho de Trevas, as mesmas que eu desenho sem desenhar quando puxo o breu pra perto. Eu as conhecia de cor. Eram as minhas. Era a runa do Manto, a primeira sombra que eu vesti, aquela que ele me viu fazer num corredor de fungo eras atrás e guardou — e eu soube, lendo a runa subir no ar, o que ele ia fazer um instante antes de ele fazer.
Ele vestiu o escuro.
O breu subiu em volta do Cata-Restos do jeito exato que sobe em volta de mim — malfeito, eu vi as falhas, vi a sombra não colar direito nas bordas, vi onde a mão de um aprendiz hesita —, mas subiu. E a garra do Fanático, que vinha certa de encontrar carne, encontrou sombra, e a sombra não estava onde a carne tinha estado. O Cata-Restos saiu de dentro do próprio breu um passo ao lado, intacto, e ficou olhando as próprias garras como quem vê as mãos pela primeira vez.
E aí começou a mudar.
Não num estalo. Devagar, como uma coisa que custa. A quitina dourada escureceu de dentro pra fora, a cor velha de bronze afundando num azul de meia-noite tão fundo que era quase preto, liso e novo. A silhueta de catedral começou a desabar pra dentro de si — não a cair, a se refazer: a metade de cima que se erguia como um homem armado virou um torso, ombros, a couraça encolhendo e ajustando ao corpo como uma armadura viva feita sob medida. As garras longas se recolheram em dedos — longos, finos, mas dedos, com nós, dedos que fecham em punho. As patas traseiras se firmaram numa postura ereta, quase humana, terminadas em pés de lâmina. A coroa de chifres caiu, e do crânio subiram duas antenas finas, e na frente dele dois olhos se acenderam — não os pontos negros das castas baixas, mas dois olhos grandes, de um azul frio e luminoso, com luz própria no breu. Das costas, onde tinham estado as quatro asas imensas de Cavaleiro, abriu-se um único par de asas membranosas, de um âmbar translúcido, que pegavam o pouco de luz e a devolviam dourada.
Eu conhecia aquele tipo de cara — não a forma exata, o tipo dela. A minha cabeça velha, cheia das imagens da vida que eu tinha antes de morrer, foi buscar a referência sozinha: os heróis de armadura de inseto da televisão de domingo de manhã, os homens que apertavam o cinto e viravam gafanhotos de olhos grandes pra salvar a cidade. Kamen Rider, eu pensei, no automático. E teria rido, se não tivesse entendido, no mesmo instante, o que eu estava vendo de verdade.
*
O Fanático recuou um passo do irmão que tinha deixado de ser irmão. E nesse passo, cego de horror sagrado, ele esqueceu de mim.
Guerreiro não desperdiça as costas de um inimigo. A maré dele estava quase no fim — o que eu não tinha matado definhava na Mortalha, secando devagar até morrer —, e a fonte que a chamava tinha me dado as costas. Eu atravessei o largo no que me restava de pressa, a espada de adamante na mão, e por baixo dos braços de cada lado eu já era outra coisa do que tinha começado aquela briga: mais alto na conta que o sistema faz, mais rápido, mais forte, porque matar uma horda inteira sobe a gente muitos degraus de uma vez, e eu tinha sentido cada um subir nas costas enquanto a maré morria.
O Cata-Restos transformado, com a forma nova ainda fumegando de mudança, ergueu uma das mãos de dedos longos contra o irmão — não pra matar, eu acho, não havia matar nos olhos novos dele —, só pra barrar, pra segurar um batimento. E um batimento foi tudo de que eu precisei.
Eu entrei por baixo, pra dentro, pra zona morta que é o único lugar do mundo onde um saco de ossos vence um tanque com coroa. O Fanático sentiu, virou, abriu o tórax pra gritar a compulsão de novo, me virar os amigos outra vez —
— e não teve tempo, nem irmão pra beber. A espada de adamante subiu pela junção do peito com a garganta, atravessou a couraça e cravou no lugar de onde a reza nascia. Não foi um golpe limpo de mestre. Foi o último golpe de uma luta longa demais, dado por uma coisa que mal se segurava de pé. Entrou torto, entrou fundo, e bastou.
A reza parou no meio de uma sílaba.
[Você derrotou: Cavaleiro Alado Isopteriano.]
[Você subiu de nível!]
A compulsão se soltou dos três contra a parede como quem corta um fio. Eu ouvi a Freala arquejar, o ar dela de volta, e dizer "o quê" com a confusão de quem acorda num cômodo onde não lembra de ter entrado.
*
— Olha pra mim, disse o Cata-Restos, e a voz tinha mudado junto com o resto: ainda metálica, mas mais limpa, o estalo de cupim quase sumido. Olha o que eu virei.
— Tô olhando, eu disse. E estava, e era difícil parar.
E eu juntei as peças, do jeito que junto quando o mundo me dá uma metade e o sistema a outra. Ela bebeu do que escorre no coração até deixar de ser uma de nós — o Fanático tinha dito isso, na cara dura de quem reza. Uma coisa que se bebe, então: não uma magia, não um título, uma coisa líquida. E o Cata-Restos tinha dito de onde ela vinha — lá em cima, na bolha de céu falso, da coisa antiga que as guardiãs protegem; um gole que ergue um cupim acima do molde. O mesmo líquido, racionado: um gole pros servos, a fonte inteira pra Ela, que bebeu fundo o bastante pra deixar de ser uma delas. E mais cedo, num templo dourado lá em cima, eu tinha lido em voz alta uma pergunta que os donos do Fosso anotaram e deixaram sem resposta: por que só os cupins evoluíram além do molde? — e, embaixo, num canto, quase um sussurro de tinta: algo aqui os alimenta.
Aqui estava o algo, de pé na minha frente, azul e brilhando. Não nascia neles. Vinha de fora, de cima, da coisa antiga ferida na bolha de céu falso que era o Pavilhão, escorrendo de uma árvore que outras criaturas guardavam e que os cupins subiam pra sangrar. Uma seiva.
Vocês bebem de uma árvore, eu disse, e não era pergunta. Lá em cima. E é isso que ergue vocês acima do que deviam ser.
— Nós provamos o que pinga. O Cata-Restos ergueu uma das mãos novas e olhou os dedos abrirem e fecharem, maravilhado. Eu provei o que pinga a existência inteira e nunca aconteceu nada. Mas hoje eu vi uma coisa e quis ela pra mim, e quis ser o que faz e não o que serve — e o que pinga em mim, que estava ali dormindo o tempo todo, acordou. Os olhos azuis vieram pra mim. Tu não me transformaste. Tu só estavas perto quando eu descobri que podia.
A seiva ergue o corpo, eu pensei. O querer ergue o resto. A seiva já estava nele havia eras, esperando; a sombra roubada foi só o gatilho; o desejo de ser um fez o que a seiva sozinha nunca fizera em servo nenhum, porque servo nenhum tinha querido.
— E agora?, eu perguntei.
— Agora eu não sei o que sou. As asas âmbar bateram uma vez, experimentais, e o ergueram um palmo do chão. E faz eras que eu não tinha uma pergunta que eu não soubesse responder. Dói. E é bom. Ele recuou pra dentro do escuro, leve agora, sem o peso de catedral. Tu disseste pra eu ir ver o mundo.
— Disse.
— Então eu vou. Os olhos azuis brilharam mais um instante no breu. Vou fazer o que sempre fiz: observar do escuro, catar o que cai, juntar o que ninguém quis — só que pra mim, agora. Talvez a gente se veja de novo, coisa-de-osso. Eu ainda não sei de que lado eu vou estar quando isso acontecer. Uma pausa, e algo na voz que era quase um sorriso, se aquilo pudesse sorrir. Mas obrigado por ter me chamado de alguém antes de eu ser.
E vestiu o escuro de novo — melhor desta vez, as bordas colando, o aprendiz já menos aprendiz — e o breu o engoliu, e os olhos azuis foram a última coisa a sumir.
[Alvo perdido.]
Eu fiquei olhando o lugar onde ele tinha estado, e soube, do jeito frio que eu sei as coisas que vão custar caro depois, que aquilo não tinha sido um inimigo fugindo. Tinha sido uma coisa nova nascendo, com a minha sombra nas costas, indo embora pra um mundo grande. O Gobe ia me dizer que eu devia me arrepender. Eu sei o que é o mundo te chamar de coisa, e eu acabara de chamar uma coisa de alguém. Disso eu não consigo me arrepender nem que me custe a cabeça lá na frente.
*
— Osso. A Freala estava de pé, mal, escorada no Gobe que estava pior. A gente atacou você. Eu senti o gelo sair da minha mão. Eu vi a estalactite cair, e uma parte de mim — ela engoliu — uma parte de mim ficou feliz.
— Não era você, eu cortei, na cabeça dela. Era ele na sua mão. E eu não deixei. Olha. Mostrei as mãos vazias, os três inteiros, nem um arranhão neles. Eu segurei.
Ela me olhou por um tempo longo, daquele jeito que ela tem de pesar uma coisa antes de aceitar que é verdade. Depois assentiu, devagar, e não disse obrigada, porque não se diz, nesse grupo. Só encostou dois dedos no talho que o chicote tinha aberto no meu braço e que já fechava no breu, e isso bastou.
O Gobe recolheu a moeda do chão, esfregou-a na roupa, e olhou o lugar onde o Cata-Restos tinha sumido.
— Você deixou um deles ir embora, ele disse. Um que aprende olhando. Um que te viu a noite inteira e agora tem a sua sombra e uma cara nova pra usar ela. Ele me encarou. Você sabe o que você fez, né, osso.
— Sei, eu disse, e dessa vez não menti, nem pra ele nem pra mim. Fiz exatamente o que eu queria ter feito.
*
Foi só quando o último inseto da maré parou de se mexer na Mortalha — seco, vazio, morto de ter perdido tudo — que o sistema fechou a conta de tudo o que eu tinha matado naquele largo, e me mostrou o tamanho dela.
★★★
Nome: Thasjo Gênero: Masculino
Estado: Normal Rank: H
Tipo: Esqueleto / Morto-vivo
Classe: Mago / Guerreiro
Nível: 35 Título: «Predador Paciente»
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PV: 320/138 Força: 80
MP: 1.000/1.000 Agilidade: 69
Dano: 14,9 Vitalidade: 64
Defesa: 7,0 Sentidos: 1 [bloqueado]
Inteligência: 1 [x200]
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Pontos de Status: 0 Pontos de Magia: 1
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✧ Habilidades Especiais ✧
[Ressurreição Lv 1] [Visão Noturna Lv 1]
['O Conhecimento de Babel'] [Telepatia]
[Compreensão de Runas] ['Jera - A Runa de Odin' 1/1]
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✧ Habilidades Mágicas ✧
Magias: 《Labareda》《Agulha de Água》《Véu de Sombras》
《Manto de Sombras》《Flecha de Fogo》《Lança de Fogo》
《Bola de Fogo》《Flecha Negra》《Lança Negra》
《Garras da Sombra》《Mortalha》
Técnica: 《Imbuir》
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Caminhos da Magia
Terra: 0/10 Luz: 0/10
Água: 1/10 Trevas: 3/10
Fogo: 3/10 Vácuo: 0/?
Ar: 0/10 Éter: 0/?
★★★
Dez degraus de uma vez. Eu nunca tinha subido tanto num fôlego só — mas eu nunca tinha matado uma colônia inteira de uma vez, e o sistema, que é burocrata mas é justo, pagou cada casca seca espalhada pelo largo. Dez níveis. Dois pontos de magia. E quando o segundo ponto piscou na tela eu nem precisei pensar no primeiro, porque o primeiro era uma dívida que eu cobrava de mim mesmo desde um esgoto, no começo de tudo, quando eu ainda achava que magia era ver inimigo voar pela sala.
Empurrei o ponto pro Fogo, do dois pro três, e a porta abriu, e do outro lado dela estava ela. A forma de grau três. A bola.
[Caminho da Magia: Fogo — Focus 2 → 3.]
[Magia adquirida: 《Bola de Fogo》.]
Não a chamuscadeira de asa. Não o jato teimoso. Fogo que estoura num ponto e come tudo num raio — a resposta de fogo pro "muitos de uma vez", a irmã barulhenta da Mortalha silenciosa. A coisa que o menino que eu fui antes de morrer teria pedido no primeiro dia, se soubesse pedir. Eu a senti pronta na cabeça, esperando a primeira vez, e por um instante — só um — eu fui só alegria, a alegria boba de quem finalmente ganhou o brinquedo que queria.
O outro ponto eu deixei onde estava, piscando, sem gastar. Tinha uma porta que ele podia abrir agora — Fogo dois e Trevas três, fogo e escuro, e eu sabia o nome do que morava na junção dos dois —, mas aquela eu não ia atravessar com pressa, no fim de uma noite dessas, com o tanque de todo mundo no chão. Algumas portas a gente abre com calma, ou não abre direito.
Eu fechei a tela. A Freala já tinha sentado contra a parede, de olhos fechados, recuperando o fôlego que os vivos sempre precisam recuperar. O Gobe cuidava de uma torção no tornozelo do Quagô. O largo cheirava a fumaça e a casca queimada e àquela doçura podre de vida demais que tinha parado de ser tanta vida.
Lá embaixo, no escuro pra onde a estrada continuava descendo, havia uma coisa que tinha bebido a fonte inteira, que sonhava num fundo mais fundo que este, e que agora — eu não duvidava mais — já tinha ouvido falar de mim. Pela boca do que morreu rezando, ou pela do que fugiu pra ser dono de si.
Mas isso era pra depois. Hoje a gente tinha quatro de pé, ou de pé o bastante, e uma bola de fogo nova na minha mão, e um morto enorme esfriando no chão de um largo que já tinha visto demais por uma noite.
Hoje a gente ficava.