Capítulo 13: Punição
BOOM... BOOM... BOOM!
O monstro avançava por dentro do rio escuro, indo em direção a Katerina, que estava em uma estrutura a trezentos metros de distância dele. O monstro encarava Katerina, enquanto sua boca principal sorria de forma macabra.
E, no alto do arranha-céu, Katerina apontava seu rifle para o monstro, esperando ele chegar mais perto para atirar.
— Merda… A presença que eu sinto vindo dessa coisa é muito forte. Eu não acho que vou conseguir matar isso, mas acho que consigo, pelo menos ganhar tempo até que todos já estejam longe — disse Katerina consigo mesma, enquanto observava o rosto do monstro pela mira de seu rifle.
“Hum… Parando para pensar agora, isso é estranho. Como eu nunca ouvi falar em um mutante igual a esse nos registros de monstros da base? De qualquer forma, é melhor eu tentar matar logo essa coisa.“ — pensou Katerina, enquanto observava o monstro no meio do rio, vindo em sua direção.
Longe dali, no parapeito da janela do terceiro andar de um edifício condenado, o homem de capuz observava o monstro se aproximar do prédio onde Katerina estava.
— Pelo visto, valeu muito a pena atrair a atenção daquela monstruosidade usando aquela horda de zumbis inúteis... — murmurou ele, observando o monstro de longe.
“Maldito Gideon! Ele havia me dito que eu não precisava me preocupar, que essa mulher só tinha poderes mentais e de percepção. Ele nunca mencionou que ela tinha tanto poder destrutivo. De qualquer forma, isso já não importa mais, já que essa mulher vai morrer.“ — pensou o homem de capuz, observando o prédio onde Katerina estava.
O homem de capuz tocou de leve em um objeto metálico que ficava em seu pescoço. “Minha sorte é que eu tenho esse artefato que peguei daquele maldito laboratório. Se não fosse por isso, eu estaria morto agora. Realmente, os artefatos dos tempos antigos são realmente poderosos.“ — pensou o homem de capuz, enquanto tocava no objeto em seu pescoço.
— Pelo visto, o espetáculo já vai começar — disse o homem de capuz, vendo o monstro se aproximar do prédio onde Katerina estava.
Enquanto caminhava dentro do rio, do nada, o monstro desapareceu e reapareceu na frente do prédio onde Katerina estava.
“Mas que merda foi essa que aconteceu? Como essa coisa chegou aqui, se ela estava no rio há um segundo atrás? Não importa, tenho que matar logo isso.“ — pensou Katerina, apontando o rifle para o monstro à sua frente.
CRASH! THUD!
Com um movimento mecânico e devastador, o Titã ergueu seu braço colossal e desferiu um golpe brutal contra o edifício onde Katerina estava. A estrutura de concreto e ferro explodiu em uma chuva de estilhaços.
Antecipando o impacto, Katerina utilizou suas habilidades físicas sobre-humanas para saltar no último milésimo de segundo, pousando no teto de um prédio vizinho. Sem perder o equilíbrio, ela deslizou pelo concreto do terraço, posicionou seu rifle em direção ao monstro e disparou um feixe concentrado de energia mística.
O projétil colidiu diretamente contra o peito blindado do Titã, gerando uma explosão concentrada que fez o Titã recuar para trás. Quando Katerina olhou para o monstro, viu que não tinha um único arranhão no lugar onde ela disparou.
— Droga! Essa coisa não morre. Como é que ele não tem nem um arranhão depois daquele ataque? — esbravejou Katerina, a frustração misturando-se à adrenalina.
“A pele dessa coisa deve estar saturada de energia. Só assim para ser tão resistente a esse ponto. Vou precisar aumentar a potência dos meus disparos.“ — pensou Katerina, enquanto encarava o monstro vindo em direção ao prédio onde ela estava.
— Pelo visto, esse monstro maldito já me encontrou de novo — disse Katerina, apontando seu rifle para o monstro que vinha em sua direção.
“Se a pele dele é resistente a esse ponto, então o único lugar que parece ser um ponto fraco são aqueles olhos nojentos que parecem bocas. Vou aumentar a força da energia do meu disparo e atirar dentro da boca dessa coisa. Se isso não funcionar, então acho que irei precisar utilizar toda a minha energia para tentar destruir o corpo dele todo de uma vez. Mas primeiro eu preciso encontrar um bom lugar para atacar. “ — pensou Katerina, enquanto olhava para as bocas que ficavam no lugar dos olhos do monstro.
Enquanto o monstro se aproximava, Katerina começou a olhar para os prédios ao seu redor e achou um prédio imenso a algumas dezenas de metros de distância.
Buscando uma vantagem tática, ela correu pela borda e saltou entre os prédios, até alcançar o prédio que ela observava antes. Ajustando a mira eletrônica, ela focou nas órbitas do monstro, onde existiam bocas grotescas no lugar dos olhos. Ela puxou o gatilho de uma vez.
KABOOM!
O disparo místico foi certeiro, explodindo em milhares de pedaços, metade da cabeça da criatura em uma chuva de sangue e carne podre. O corpo do monstro permaneceu de pé, mesmo após metade de sua cabeça ter sido destruída. No mesmo instante, sua cabeça começou a se regenerar, reconstruindo a parte que foi destruída.
— Merda! Não deu certo de novo! — disse Katerina, olhando para a cabeça do monstro terminando de se reconstruir.
“Esse monstro, pelo seu tamanho, ele deve ser do tipo focado em força física. Se for, eu preciso destruir a cabeça dele inteira e metade de seu corpo. Para isso, vou precisar chegar mais perto.“ — pensou Katerina, enquanto observava o monstro.
Determinada a tentar um ataque à queima-roupa, ela saltou em direção ao topo de uma estrutura mais próxima do monstro. Mas, após reconstruir seu rosto, o monstro aumentou sua própria velocidade do nada e, antes que Katerina pudesse disparar contra ele, o Titã moveu sua mão gigante em um arco lateral, esmagando o prédio inteiro com a facilidade de quem esmaga uma caixa de fósforos.
Mas, antes de ser atingida, Katerina conseguiu fugir, ao antecipar o movimento do monstro com sua percepção.
— Que merda está acontecendo?! — gritou Katerina, saltando em meio ao desabamento, a visão nublada pela poeira secular. — Nada neste lugar maldito faz sentido nenhum! Como um monstro desse tamanho consegue se mover desse jeito?!
“Chegar perto dele novamente é perigoso. Vou recuar um pouco, mas para longe, para tentar matá-lo.“ — pensou Katerina, olhando ao redor, enquanto o monstro vinha em sua direção.
Então, ela recuou para um edifício um pouco mais longe do monstro. Ela canalizou o restante de suas energias para o seu rifle. Seus olhos focaram, travando a mira diretamente na boca principal do Titã.
THWIP-KABRAU!
O rifle disparou com a potência máxima, utilizando o restante da energia de Katerina. O feixe luminoso adentrou a garganta escancarada da abominação.
A energia explodiu por dentro do monstro, fazendo a parte superior inteira de seu corpo explodir em uma chuva de pedaços de carne que voaram para todos os lados. E, logo em seguida, a parte inferior do monstro desabou pesadamente para trás.
— Certo... Acho que dessa vez ele morreu — disse Katerina, olhando para o restante do corpo do monstro.
“Hum… Estou com uma sensação ruim de novo. Acho que mais alguma coisa vai acontecer. Que merda. É melhor eu ir embora logo daqui, antes que apareça outro monstro.“ — pensou Katerina, virando de costas.
Enquanto isso, a quilômetros dali, escondidos nas entranhas escuras de um prédio residencial abandonado, Maria, Carlos e Arthur mantinham a guarda alta. O clima era de pura apreensão.
— Hum… Será que a Comandante Katerina está bem? Ela está demorando muito — perguntou Maria, enquanto olhava para Carlos.
— Eu não sei — respondeu Carlos, encarando a poeira que entrava pelas frestas das janelas.
— Vocês não precisam ficar preocupados. Afinal, a Comandante Katerina é uma dos quatro comandantes do nosso bunker — interveio Arthur, mantendo o tom firme e pragmático para acalmar os jovens. — Além disso, o Soldado Enrique foi atrás dela para dar suporte. Então, nós só precisamos focar em permanecer escondidos, como ele nos pediu.
— Se você diz, então acho que vou acreditar — consentiu Maria, abaixando a cabeça de forma pensativa.
Longe dali, o Soldado Enrique corria em alta velocidade pelas calçadas esburacadas.
— Merda, eu devo ser maluco de dizer que vou ajudar em alguma coisa. Eu tenho certeza de que vou morrer se eu enfrentar aquele mutante — disse Enrique consigo mesmo, enquanto continuava correndo. — De qualquer forma, vou ajudar no que eu puder.
De volta ao campo de batalha, o alívio de Katerina transformou-se em um pesadelo definitivo.
Atrás dela, o cadáver do Titã, que deveria estar morto por ter perdido metade de seu corpo, começou a se erguer silenciosamente. Sem emitir um único som, o monstro regenerou toda a parte superior de seu corpo, em uma velocidade quase instantânea. Logo em seguida, o monstro ergueu sua mão, projetando uma sombra sobre o prédio onde Katerina estava.
— Droga...! — a fala de Katerina foi cortada pelo impacto bruto.
O golpe explodiu o prédio inteiro e a atingiu diretamente no flanco. O som agudo de suas costelas, braços e pernas quebrando foi a última coisa que ela ouviu. Antes de ser arremessada pelo ar, fazendo seu corpo desabar de uma altura de trinta metros diretamente para dentro das águas escuras e profundas do rio.
“Droga, isso está doendo muito. Quase não me sobrou energia. Acho que não vou conseguir me regenerar.“ — pensou Katerina, antes de apagar por completo, enquanto afundava no rio.
Seu corpo utilizou o restante de sua energia para iniciar uma regeneração celular que forçava seus ossos partidos a se alinharem sozinhos, sob a pele que foi rasgada pelos seus ossos quebrando.
Embora o processo estivesse curando lentamente as lesões mortais, sua energia era insuficiente para curar seu corpo completamente, o que fez seu coração parar de bater após suas energias se esgotarem por completo.
O monstro olhou para o rio, observando se Katerina estava viva. Mas, após o coração dela parar de bater, o monstro deu meia-volta e marchou lentamente para longe dali, desaparecendo entre as silhuetas dos arranha-céus.
E, no topo do prédio distante, o homem de capuz, que observou a luta, estava dando um sorriso leve, contente com o resultado.
— Pronto. Agora que o serviço está feito, estou caindo fora dessa maldita cidade — comemorou ele, ajeitando o capuz antes de se retirar para as sombras.
“Tsc… Depois de todo esse trabalho, eu espero que o maldito do Gideon cumpra sua parte do trato também e nos diga onde está a localização de todas as bases deles.“ — pensou o homem de capuz, enquanto caminhava, desaparecendo na escuridão do prédio.
Segundos antes de Katerina cair no rio, Enrique havia chegado a poucos segundos antes do monstro arremessar Katerina para dentro do rio. Seus olhos arregalaram-se em pavor ao ver o corpo inerte de Katerina ser engolido pelas escuras águas do rio.
— Comandante Katerina! — gritou Enrique, observando de longe Katerina afundando dentro do rio.
“Merda, ela vai morrer se eu não fizer nada. Mas esse rio deve estar cheio de monstros. Droga, não tenho tempo para pensar nisso. Preciso fazer algo logo.“ — murmurou Enrique consigo mesmo, enquanto corria até a margem do rio.
Esquecendo qualquer resquício de medo, Enrique correu até a borda e saltou em um mergulho desesperado para dentro das águas escuras do rio, nadando com todas as suas forças, até agarrar o corpo de Katerina, e arrastá-la de volta à terra, antes que ela afundasse até o fundo do rio.
Enquanto isso, a quilômetros dali, sob o céu avermelhado do fim de tarde, o jipe militar do Comandante Gideon avançava em alta velocidade pela estrada poeirenta, em direção à periferia da cidade em ruínas.
— A essa altura, a Katerina já deve estar morta — comentou Gideon, exibindo um sorriso cínico para seu motorista. — Isso é ótimo. Agora só faltam o Raven e a irritante da Comandante Lara, para que eu me torne o único comandante daquele bunker, hahaha! E quando isso acontecer, vou me livrar de todos aqueles malditos mortos de fome.
“Eu também vou ter que dar um fim naquele chefe dos bandidos, assim que terminarmos o serviço. Eu havia prometido dizer a ele onde fica a localização das outras bases, mas o coitado deveria saber que eu jamais cumpro com a minha palavra.“ — pensou Gideon, olhando para seu motorista.
De repente, a silhueta solitária de uma garotinha bloqueou a linha do horizonte. O sol poente projetava uma sombra longa e sinistra sobre a estrada a frente. No milésimo de segundo seguinte, o motorista pisou no freio bruscamente, fazendo os pneus cantarem.
— Mas que merda é aquela... Hum… É uma criança. O que uma criança está fazendo aqui? — perguntou o soldado que pilotava o jipe, tenso.
Gideon semicerrou os olhos, reconhecendo a figura de cabelos loiros. Um olhar de profundo nojo tomou conta de seu rosto.
— Essa criança é aquela morta de fome imunda do abrigo... Não faço a menor ideia de como ela chegou até aqui, mas não importa. Passe por cima dela — ordenou Gideon, implacável.
— Mas, Senhor Gideon... Ela é apenas uma criança! — gaguejou o motorista, paralisado pelo choque da ordem.
— Você é surdo por acaso?! Não escutou o que eu acabei de dizer?! — esbravejou Gideon, irritado, enquanto olhava para a garotinha ao longe. — Passe por cima! Eu não vou avisar novamente!
“Não sei como essa criança veio para aqui, mas é melhor continuarmos logo. Isso pode ser alguma armadilha criada por algum daqueles malditos do bunker.“ — pensou Gideon, olhando para seu motorista.
— S-Sim, senhor! — respondeu o soldado, engolindo em seco.
O motorista engatou a marcha e pisou fundo no acelerador. O motor utilitário rugiu alto, e o veículo disparou em direção à garotinha, ganhando ainda mais velocidade.
Penny, que estava observando o veículo vindo em sua direção em alta velocidade, deu um sorriso sinistro.
— Ótimo... Finalmente, aquele maldito insolente chegou — comentou Penny, enquanto observava o veículo vindo em sua direção.
Penny fechou seus olhos, e, quando os abriu, suas pupilas incendiaram-se em um dourado divino que brilhava de forma macabra sobre o sol poente do fim de tarde.
— Terremoto — ordenou ela, sua voz saindo como um sussurro.
CRASH! BOOM!
No mesmo instante, o chão sob as rodas do jipe estremeceu de forma violenta. Rachaduras massivas e fendas profundas rasgaram o asfalto da avenida. O solo colapsou, desestabilizando completamente o veículo militar. O terremoto fez o jipe capotar brutalmente, rolando várias vezes pela pista, em meio a um estrondo ensurdecedor de metal retorcido e vidros estilhaçados.
A fumaça do motor começou a subir. Gideon arrastou-se para fora dos escombros, com um gemido de pura agonia. O sangue jorrava de um corte profundo em sua testa, e seu braço direito estava visivelmente quebrado, com o osso sendo visível.
— Mas que merda foi que aconteceu?! — exclamou Gideon, tossindo em meio à poeira.
Gideon olhou para o jipe e viu que o pescoço de seu motorista estava quebrado.
“Esse inútil maldito, por culpa dele eu quase morro. Ele tem sorte de já estar morto. Se não, eu iria torturá-lo por ter deixado o jipe capotar.“ — pensou Gideon, enquanto seu braço se regenerava, juntamente com seus outros ferimentos.
Penny, que estava a centenas de metros dele, viu ele olhando o motorista. Ela desapareceu no mesmo instante, reaparecendo na frente dele, com sua sombra cobrindo a visão dele.
— Olá. Você está bem? — ecoou uma voz mansa e doce.
Gideon virou o pescoço e olhou no rosto de Penny, vendo um sorriso dócil e infantil se abrir no rosto dela.
— Como... Como você conseguiu sair daquele refúgio e chegar até aqui, criança?! — questionou Gideon, o pavor misturando-se à confusão.
— Isso não é da sua conta, sua aberração imunda — respondeu Penny, encarando-o.
O sorriso dócil da menina transformou-se instantaneamente em uma expressão fria, sádica e psicopata. O choque traumático paralisou os músculos de Gideon. Em seus pensamentos, o desespero foi absoluto: “O que está acontecendo aqui?! A presença que eu sinto ao redor dessa criança está me dando calafrios. Até o ar parece ter ficado mais pesado. Eu mal consigo respirar! Mas que merda é essa criança?!“
— Você me insultou profundamente lá no bunker — continuou Penny, a voz transbordando um desdém gélido. — Por isso, eu vim pessoalmente até aqui para te matar, mas mudei de ideia. Então, seja grato, já que está prestes a ganhar a vida eterna.
— Apareça logo, seja lá quem estiver escondido aí! — gritou Gideon, olhando freneticamente para os andares.
Ele estava convencido de que aquilo era uma emboscada criada por alguém que não gosta dele.
— Eu sei perfeitamente que essa pirralha não viria sozinha! Apareça!
— Não tem ninguém aqui além de nós dois, sua aberração em forma de gente — debochou Penny, encarando-o. — Como eu dizia, matar você seria algo muito leve para compensar o insulto que você me fez passar. Por isso, resolvi fazer algo um pouquinho diferente.
— Pare de falar bobagens, criança, e diga logo quem é você e quem te mandou até aqui. Você é algum tipo de arma viva criada pelo bunker, igual aos soldados de elite? — perguntou Gideon, encarando Penny.
Penny, irritada, deu um passo à frente, colocou a mão sobre a cabeça de Gideon e apertou seu cabelo, fazendo-o fechar levemente os olhos de dor.
— Já chega de enrolação — disse Penny, soltando a cabeça do general. — O ponto principal aqui é que você ousou me insultar. Matá-lo de forma rápida seria um presente para uma aberração como você, e não uma punição adequada. Portanto... decidi que vou mandar você para servir de entretenimento aos meus bebês.
No mesmo instante, as pupilas de Penny brilharam em um dourado divino. Ela apontou a mão para o nada.
CRAAAAASH!
O próprio tecido da realidade e do espaço-tempo atrás do general estilhaçou-se no ar, como se fosse um imenso espelho atingido por uma marreta. O vazio abriu-se, revelando um portal dimensional para outro mundo.
Ao olhar para dentro da fenda mística, o pavor de Gideon foi definitivo. Uma cena de horror indescritível ganhou forma em seus olhos. Dentro do portal, milhares de pessoas gritavam em puro desespero, correndo desesperadas em meio às ruínas de uma cidade destruída que ardia em fogo eterno.
— Por favor, alguém me ajude! — essa era a palavra que mais se ouvia das pessoas lá dentro, antes de serem mortas.
Ao redor delas, feras mitológicas e abominações colossais as caçavam, erguendo os corpos humanos no ar com as garras e rasgando-os ao meio, fazendo com que as vísceras e o sangue chovessem sobre o chão. Era um pesadelo infernal materializado.
— O que… O que é isso? — perguntou Gideon, olhando aquela cena macabra.
Subitamente, uma das criaturas aladas do enxame de monstros percebeu a abertura do portal. Ela avançou em alta velocidade e bateu a cabeça contra a fenda, tentando atravessar. Contudo, o monstro colidiu contra uma barreira invisível e intransponível, sendo impedido de cruzar. A criatura estabilizou o voo e cravou seus olhos injetados de sangue fixamente na figura de Gideon.
— Mas... Mas que diabo de lugar é esse?! — gritou o comandante, o rosto pálido e com lágrimas de pavor brotando nos olhos.
— Bem... Isso é apenas o porquinho de diversão que eu montei para os meus bebês — revelou Penny, orgulhosa, ao observar as criaturas dilacerarem as pessoas dentro do portal. — Eu adoro colecionar criaturas bonitas, iguais a essas, que eu encontro quase sempre que eu vou a uma nova história da minha torre. E aquelas pessoas lá dentro... São exatamente como você: aberrações que ousaram me insultar.
Gideon começou a olhar para Penny com tanto pavor que não conseguiu sequer falar alguma coisa. Penny, vendo o olhar de medo dele, deu um sorriso, sendo interrompida pelos clamores de ajuda de uma pessoa dentro do portal.
— Alguém me ajuda! Eu sou um nobre! Se alguém me ajudar, eu irei lhes dar quanto ouro vocês quiserem! — gritou uma pessoa dentro do portal, antes de um monstro aparecer, em meio aos prédios pegando fogo, e dilacerá-lo em pedaços.
— Hahaha, que cena belíssima! — exclamou Penny, observando as pessoas morrerem entre gritos de desespero e pedidos de socorro do outro lado do portal.
“Mas que merda. Por que aquele monstro não para de olhar para mim? Eu tenho que sair logo daqui, antes que eu também acabe morrendo igual àquelas pessoas.“ — pensou Gideon, enquanto observava o monstro encarando-o de dentro do portal.
— Você não vai a lugar nenhum — disse Penny, virando o rosto para Gideon e encarando-o de forma macabra. — Quem disse que você vai morrer? Eu acabei de te dizer que você vai ganhar a vida eterna.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou Gideon, olhando para ela.
Penny, sem responder nada, apontou a mão para Gideon, e seus olhos se incendiaram em um dourado divino. No mesmo instante, uma luz cobriu o corpo de Gideon, que ficou sem entender o que havia acontecido.
— Criança, o que você fez comigo? — perguntou Gideon, após a luz sumir de seu corpo.
— Hum… Eu acabei de retirar todos os poderes que você tinha e o amaldiçoei com uma imortalidade conceitual igual à deles — disse Penny, abrindo um sorriso radiante, enquanto observava o rosto de Gideon se encher de pavor. — Assim como eles, você irá morrer e reviver instantaneamente, em um ciclo eterno de agonia, servindo de alimento e entretenimento para os meus bebês. E meus parabéns, sua aberração imunda... Você acabou de ganhar a vida eterna, como pagamento pelo entretenimento que irá prover aos meus bebês. Acredito eu que esse pagamento é mais do que alguém como você merece. Mas não se preocupe, não precisa me agradecer.
Gideon encarou a garotinha, com o coração batendo feito um tambor ensandecido, totalmente quebrado pelo choque psicológico.
“Essa criança não é de jeito nenhum uma arma criada por nenhum cientista do bunker. Será que ela é uma daqueles tais demônios que existiam no passado?“ — pensou Gideon, enquanto olhava para Penny, com seu rosto tomado pelo desespero.
— Você... Você é um demônio! — exclamou ele, soltando um soluço de pavor.
— Não me compare a um ser de tão baixo nível quanto um demônio, ou um desses deuses insignificantes a quem a maioria de vocês humanos adoram — sibilou Penny, a voz soando de forma ameaçadora. — Eu sou uma dos nove Daftardares. Não que uma aberração como você precise saber disso, já que está prestes a virar o novo brinquedo dos meus mascotes.
Penny, olhando para o monstro que observava Gideon de dentro do portal, viu que o monstro estava babando sangue ao olhar para Gideon.
“Minha criança já está com fome. Bem, acho que já perdi tempo de mais aqui também. Meus planos desde o início eram achar alguma criatura interessante para mandar para o bunker, igual eu fiz antes. Mas não vejo nenhuma criatura interessante por aqui.“
— Bebê... Pode pegar — ordenou Penny, ao ver que a criatura já não se aguentava mais de tanto observar Gideon.
Após dizer o comando, a restrição invisível da barreira se estilhaçou como um espelho. E, logo em seguida, a cabeça colossal do monstro alado cruzou o limite do portal e avançou como um raio. As mandíbulas afiadas cravaram-se na metade do corpo de Gideon. Os dentes da criatura perfuraram profundamente a barriga de Gideon, esmagando seus ossos.
— AAAARRGH! — gritou Gideon em pura agonia e dor, com o som de seu grito ecoando pelo ar.
Com o único braço livre e quebrado, ele tentou desferir socos desesperados contra o focinho blindado da criatura, mas os golpes sequer causavam marcas. O monstro ergueu o corpo de Gideon e puxou-o logo em seguida para o interior do portal.
A fera ergueu voo na dimensão de tortura, arremessou o corpo do comandante para o alto e, com uma única e brutal mordida, engoliu seu torso por inteiro. E a cabeça decapitada de Gideon caiu pesadamente no chão da cidade, dentro da dimensão, onde a cabeça rolou até parar bem próxima da entrada do portal.
No milésimo de segundo seguinte, o processo de ressurreição conceitual foi ativado. O corpo inteiro de Gideon materializou-se na frente do portal, onde sua cabeça estava.
— Por favor, me tira daqui! — gritou ele, enquanto olhava para Penny e esmurrava uma barreira invisível que não o deixava atravessar o portal de volta.
— Tenham uma ótima diversão, crianças — despediu-se Penny.
Antes que Gideon pudesse formular outra frase, uma segunda abominação terrestre pisou sobre suas pernas e cravou os dentes em seu pescoço, reiniciando o loop de massacre.
Com um aceno sutil de mãos, Penny fechou a fenda espacial. O portal desapareceu no ar, sem deixar vestígios, restaurando a calmaria da avenida sob o pôr do sol. Logo em seguida, Penny desapareceu, reaparecendo de pé diante da imensidão azul do oceano de uma nova cidade em ruínas, que ficava em algum lugar daquele mundo pós-apocalíptico.
— Haha… Vamos começar um novo jogo — disse ela, olhando para o oceano à sua frente, que era iluminado pela luz da lua.
Fim do Capítulo 13