— Certo, Soldado Enrique. Já chega de perder tempo aqui. Agora que aquela abominação finalmente foi embora, vamos direto para onde os outros estão abrigados — ordenou Katerina.
A comandante colocou-se de pé com movimentos firmes, espanando a areia úmida de suas vestes e ajeitando o quepe militar negro sobre os cabelos.
— Entendido, Senhorita Katerina — respondeu Enrique, saindo da água com o uniforme encharcado e pesado, seguindo os passos rápidos da capitã.
Longe dali, nas entranhas escuras do prédio residencial em ruínas, Carlos e Maria mantinham os olhos fixos na penumbra do corredor.
— Carlos... será que não seria melhor irmos atrás do Arthur? — perguntou Maria, o tom de voz trêmulo denunciando sua ansiedade. — Ele já está sozinho há tempo demais lá em cima.
— Não há necessidade. Tenho certeza de que ele vai voltar logo — respondeu Carlos, tentando manter a voz firme para acalmar a irmã, embora ele mesmo estivesse inquieto. — O melhor que fazemos agora é nos preocupar em não fazer nenhum barulho. Um estalo em falso e podemos acabar chamando a atenção dos monstros da avenida. Além disso... o Enrique e a Comandante Katerina estão demorando muito. O que será que aconteceu com eles lá fora?
— E se... e se eles tiverem morrido e nunca mais voltarem? — comentou Maria. Suas bochechas empalideceram e um vinco profundo de preocupação moldou seu rosto.
— Não pense nisso. Tenho certeza de que estão vivos — consolou Carlos, testando o peso do bastão de madeira nas mãos. — Afinal, eles fazem parte do esquadrão de elite. A Katerina é uma das quatro comandantes absolutistas do bunker. Eles são fortes.
— Está bem, então. Se você está dizendo...
Maria foi abruptamente interrompida. Um som seco de garras arrastando contra o concreto ecoou de um canto escuro e esquecido do prédio.
— O que foi esse barulho? — sussurrou Maria, o coração disparando instantaneamente contra o peito. — Você também escutou, Carlos?
— Sim, eu escutei. Esqueça o plano. É melhor sairmos daqui agora mesmo e ir atrás do Arthur nos andares superiores — determinou Carlos, a adrenalina limpando o cansaço de seus músculos.
— Também acho — anuiu Maria, recuando um passo.
No exato milésimo de segundo em que os irmãos viraram as costas para fugirem dali:
— SHHHHAAARRRGGGH!
Um zumbi comum irrompeu da escuridão absoluta do canto, com as mandíbulas escancaradas e os dedos decrépitos estendidos em direção ao pescoço de Carlos. O rapaz reagiu por puro instinto de sobrevivência. Em um movimento rápido e semicircular, ele desferiu um golpe brutal com seu bastão de pregos. Os pregos oxidados rasgaram a carne podre e o impacto seco esmagou o crânio da criatura em uma chuva de sangue. O zumbi desabou inerte no chão arenoso.
— Mas que merda...! Esse zumbi saiu do nada! — esbravejou Carlos, o peito subindo e descendo acelerado pelo susto repentino da aparição.
— Será que esse zumbi fazia parte daquela horda que nós vimos bloqueando a ponte? — perguntou Maria, olhando com nojo para o cadáver.
— Não sei e pouco me importa agora. Só vamos sair daqui logo, antes que outro apareça — disse Carlos, limpando o suor da testa e segurando o bastão ensanguentado com força.
Os dois começaram a correr em direção às escadarias de concreto, subindo às pressas para o andar onde Arthur havia ficado. Eles cruzaram um corredor estreito e abafado, flanqueado por dezenas de portas de quartos destruídos. Ao avistarem uma das portas parcialmente aberta, os irmãos entraram no cômodo empunhando as armas improvisadas.
No centro do quarto escuro, Arthur estava sentado em uma cadeira de madeira velha e empenada. Sua farda estava coberta de poeira e sua cabeça pendia levemente para a frente. Seus olhos estavam abertos, mas quase fechados em um semicírculo estático.
— Arthur! Vamos sair desse prédio agora mesmo! — disse Carlos, tentando recuperar o fôlego enquanto falava de forma apressada. — Nós vimos zumbis no andar de baixo. É melhor sairmos rápido daqui antes que uma horda inteira chegue a este lugar!
Maria deu um passo à frente, mas notou algo terrível: o veterano sequer movera uma única pálpebra ao ouvir os gritos de Carlos. Ele parecia não escutar absolutamente nada. Caminhando lentamente em direção à cadeira, o olhar de Maria desceu pelo corpo do amigo. Uma enorme mancha escura e viscosa de sangue cobria todo o abdômen do fardado, e uma poça escarlate já se espalhava pelo concreto arenoso sob os seus pés.
— O que... o que está acontecendo aqui, Arthur? Você está bem? Responde, por favor! — perguntou Maria, a voz embargada enquanto estendia as mãos trêmulas na direção do ombro dele, entrando em um estado de negação completo. O veterano continuava imóvel, gélido e em silêncio.
— Maria, sai de perto dele agora! Vem para cá já! — gritou Carlos, o pavor travando sua garganta ao notar a rigidez do corpo do homem. — Eu acho que... acho que ele já está morto.
Antes que Maria pudesse processar o choque traumático da perda, a grande vidraça da janela atrás da cadeira explodiu em um estrondo catastrófico.
CRASH-BOOM!
Estilhaços de vidro choveram pelo quarto. Do meio da poeira secular que subiu, um tentáculo longo, musculoso e repleto de muco disparou como um chicote de dentro da fresta escura do lado de fora. A ponta da estrutura mística — que na verdade era a língua de uma abominação — cravou-se com violência diretamente na cabeça do cadáver de Arthur.
Com uma arrancada brutal e mecânica, o tentáculo puxou o corpo inerte do veterano para fora do prédio, içando-o em direção aos andares superiores.
Carlos correu até a janela quebrada, ignorando os vidros cortantes, e olhou para cima. Preso à fachada externa do edifício vizinho, um monstro humanoide de dois metros de altura sustentava-se com garras cravadas no concreto. A criatura possuía a pele pálida, desprovida de olhos, exibindo apenas uma mandíbula colossal cheia de dentes apodrecidos.
O rapaz assistiu ao horror explícito em primeira fila: a língua-tentáculo puxou o cadáver de Arthur direto para a boca da abominação. Com uma única e brutal mordida que partiu os ossos do pescoço, o monstro arrancou a cabeça do veterano por inteiro e a engoliu de uma vez só.
O restante do corpo decapitado e sem vida de Arthur foi descartado no ar, despencando de vários andares de altura até colidir pesadamente contra o asfalto da rua abaixo, espalhando uma grande mancha de sangue.
No milésimo de segundo seguinte, o monstro humanoide girou o pescoço na direção da janela quebrada. Seus sentidos captaram a presença humana, e as mandíbulas ensanguentadas se abriram em um rosnado gélido.
Carlos puxou o tronco de volta para dentro do quarto, com o rosto completamente pálido pelo pavor e os nós dos dedos brancos.
— Corre, Maria! Agora! — berrou Carlos, agarrando o pulso da irmã e disparando em fuga desesperada para fora daquele abatedouro.
No exato instante em que Maria e Carlos dispararam em fuga pelo corredor, o monstro soltou um rugido estridente que fez as paredes de gesso vibrarem. Com movimentos rápidos e mecânicos, a abominação apoiou suas garras longas na moldura da janela estilhaçada e impulsionou-se para dentro do quarto, iniciando uma perseguição implacável através das ruínas.
Eles começaram a descer os degraus de concreto às pressas. No meio da descida, tomada pelo pânico cego, Maria tropeçou e desabou pesadamente contra os degraus arenosos. Carlos travou os passos imediatamente, ignorando o perigo colado em seus calcanhares; ele a segurou firme pelos braços, ajudando-a a se levantar, e ambos continuaram a correr pelo corredor do andar inferior.
De repente, um estrondo monumental ecoou logo acima deles. O concreto do teto estilhaçou-se como se estivesse sendo escavado por uma broca colossal. Entre blocos de cimento e uma grossa nuvem de poeira secular, o mutante despencou do teto, pousando pesadamente exatamente na frente de Carlos e Maria.
Encurralados, os irmãos recuaram a passos trôpegos. Carlos posicionou-se na vanguarda, erguendo seu bastão de pregos oxidados na direção da criatura pálida enquanto usava o próprio corpo como escudo para proteger a irmã mais velha.
— Maria... eu vou tentar distrair esse desgraçado. Quando ele avançar em mim, você corre com tudo em direção à saída — sussurrou Carlos, sem desviar os olhos das mandíbulas salivantes do monstro.
— Não! Eu não vou deixar você para trás de jeito nenhum! — rebateu Maria, as lágrimas quentes de desespero brotando em seus olhos enquanto apertava o braço do irmão com força. — Eu sou a sua irmã mais velha, Carlos! Sou eu quem tem o dever de proteger você neste mundo!
— Nós não temos tempo para discutir, Maria! Vai logo! — esbravejou o rapaz, a adrenalina limpando qualquer hesitação. — Não se preocupe comigo... Eu vou logo em seguida, eu prometo.
— Tudo bem então… eu vou te esperar do lado de fora, Carlos... Se você não vier...
Antes que ela pudesse completar a frase dolorosa, Carlos girou levemente o rosto e abriu um sorriso brando e reconfortante para ela.
— Não precisa se preocupar. Você esteve comigo a minha vida inteira, me protegendo e cuidando de mim desde o dia em que a nossa mãe morreu e o nosso pai nos abandonou e nunca mais voltou — disse Carlos, o olhar determinado fixo na abominação à frente. — Eu prometo para você, Maria... eu não vou morrer aqui.
Emocionada, com o coração despedaçado pelo medo, mas confiando na promessa, Maria soltou o braço do irmão e correu desesperadamente em direção à luz que vinha da saída do prédio.
No mesmo milésimo de segundo, o mutante desprovido de olhos flexionou as pernas e saltou com violência em direção a Carlos. O rapaz agiu com agilidade, jogando o corpo para o lado no asfalto arenoso. O monstro não possuía uma velocidade avassaladora se comparado aos outros monstros, de modo que errou o alvo e colidiu contra um velho balcão de recepção de concreto, destruindo a estrutura com suas garras pesadas.
— Droga... Eu preciso dar um jeito de sair vivo daqui — murmurou Carlos entre dentes.
Ele limpou o suor gélido do rosto e segurou o bastão de madeira firmemente com as duas mãos, esperando pelo próximo ataque. A abominação girou o corpo ágil, preparando-se para um novo bote.
O monstro pulou novamente com as mandíbulas escancaradas. Carlos tentou desviar para a esquerda, mas as garras da criatura rasgaram o ar de raspão, abrindo cortes profundos na carne de sua perna. O sangue começou a jorrar violentamente, ensopando sua calça rasgada. Apesar da dor excruciante que ameaçava fazê-lo desabar, Carlos cerrou os dentes e manteve a calma.
"Droga... Esse maldito me feriu. Isso dói demais, mas dá para aguentar", pensou Carlos, a mente trabalhando sob a adrenalina do horror. "Se eu não tivesse reagido a tempo e desviado no último milésimo de segundo, ele teria arrancado a minha perna inteira fora."
Decidido a não ser apenas uma presa passiva, Carlos avançou em um contra-ataque feroz. Contudo, o mutante reagiu com uma mecânica brutal: sua boca escancarou-se e a língua-tentáculo disparou como um chicote, perfurando o ombro direito do rapaz de um lado ao outro.
— AAAARRGH! — Carlos soltou um grito lancinante de agonia pura que ecoou pelas paredes do prédio.
O impacto e o rasgo nos nervos fizeram seus dedos perderem completamente a força, deixando o braço direito inerte e dormente. A língua da criatura começou a se contrair, puxando o corpo ensanguentado de Carlos diretamente em direção às suas fileiras de dentes apodrecidos.
Em puro desespero diante da morte iminente, Carlos usou o braço esquerdo livre para erguer o bastão de pregos e desferir um golpe violento contra o crânio da abominação. O impacto foi forte, mas os pregos oxidados ficaram tragicamente cravados no osso rígido da cabeça do monstro. Ele tentou puxar a madeira de volta, mas o bastão estava preso.
A criatura pálida estabilizou-se e abriu a mandíbula principal, preparando-se para decepar a cabeça de Carlos com uma única e brutal mordida.
BOOM-CRAAAAASH!
Antes que os dentes cravassem na carne do jovem, um disparo místico ensurdecedor rasgou a penumbra do saguão. O projétil luminoso de energia concentrada atingiu o crânio do mutante com precisão cirúrgica, explodindo sua cabeça inteira em uma chuva explícita de carne podre e sangue negro.
O corpo massivo e acéfalo do monstro desabou sem vida para o lado, soltando o ombro de Carlos.
A Comandante Katerina abaixou o rifle pesado, com a fumaça mística ainda subindo do cano da arma. Logo atrás dela, o Soldado Enrique surgiu correndo, completamente sem fôlego pelo esforço, acompanhado por Maria. Ao ver o irmão vivo e de pé, a jovem rompeu em prantos e correu em sua direção, envolvendo-o em um abraço apertado e desesperado.
— Seu idiota! Você realmente ia morrer mesmo tendo me prometido o oposto! Eu nunca mais vou acreditar em você, Carlos! — exclamava Maria entre lágrimas pesadas, enquanto abraçava seu irmão.
Carlos forçou um sorriso fraco, sentindo o alívio da sobrevivência lavar seu corpo.
Katerina caminhou com passos firmes até o cadáver do mutante. Ela manteve a guarda alta por alguns instantes, inspecionando detalhadamente os tecidos desfeitos para conferir se o monstro daria qualquer sinal de regeneração biológica ultra-avançada. Ao notar que o corpo permanecia estático e sem vida, ela jogou o rifle pesado nas costas com um estalo preciso e ajeitou o quepe.
— Certo, pessoal. Vamos embora rápido daqui antes que apareçam mais monstros — ordenou Katerina, a voz gélida mantendo a autoridade militar de sempre.
Em seus pensamentos, contudo, a preocupação tática começava a rastejar: "Estão aparecendo muitas dessas criaturas bizarras... Sem dúvida alguma, elas devem ter despertado e migrado para cá por causa dos estrondos da minha batalha contra aquele Titã gigante na avenida. O cenário está ficando caótico demais."
Enrique aproximou-se do trio de sobreviventes, correndo os olhos pelo recinto vazio com o cenho franzido.
— Maria... cadê o Arthur? Ele não estava com vocês aqui em cima? — perguntou o recruta.
Maria desfez lentamente o abraço de Carlos. Ela abaixou a cabeça, e sua voz soou extremamente baixa, trêmula e carregada de uma tristeza profunda:
— O Arthur... ele morreu. Aquele monstro o matou.
Enrique travou no lugar, e o choque empalideceu suas feições de recruta. O peso do luto bateu forte em seu peito ao lembrar do veterano.
— Eu sinto muito por vocês... Eu sei perfeitamente que vocês eram amigos muito próximos dele — sussurrou Enrique, com o olhar fixo no chão arenoso.
— Isso é realmente uma tragédia — interveio Katerina, o tom de voz pragmático cortando o clima pesado. — Mas vamos logo sair deste abatedouro antes que nós também sejamos sumariamente mortos pelo restante dos monstros que despertaram.
Então o grupo alinhou-se rapidamente. Arthur estava morto e o ombro de Carlos precisava de cuidados urgentes. Eles cruzaram a soleira da entrada do prédio residencial em ruínas e iniciaram uma marcha forçada e silenciosa, partindo em velocidade constante em direção à saída daquela perigosa cidade amaldiçoada.
Fim do Capítulo 15