Bem distante de onde o grupo da expedição se encontrava, Penny flutuava sob o céu limpo. Após ressuscitar Katerina, ela distorcera o espaço-tempo para se materializar acima de uma pequena e isolada ilha costeira, um lugar que outrora parecera um refúgio paradisíaco de férias, mas que agora exibia apenas a decadência do novo mundo.
— Tenho certeza de que esta ilha é o local que aquele cara que eu matei estava tentando alcançar — murmurou Penny, os olhos amarelos correndo friamente pelas estruturas e pelas pessoas lá embaixo. — Acho que eu vou dar um passeio por aqui. Talvez eu até encontre algo interessante no meio dessa ilha de merda.
Ativando suas habilidades, Penny tornou-se invisível e intangível. Ela desceu com leveza, seus pés tocando o solo úmido sem emitir som. À medida que caminhava entre os habitantes locais, um vinco de descontentamento moldou sua testa de porcelana.
— Que estranho... Já faz um bom tempo que estou andando e não vi nenhum civil por aqui. Tudo o que vejo são homens armados e patrulhas. Que lugarzinho entediante.
Penny finalmente deu-se conta da real natureza daquele lugar: não era um refúgio pacífico para sobreviventes, mas sim um acampamento militarizado de bandidos.
"Vejo que não tem nada de interessante nesse lugar. Só tem esses imbecis armados... Que perda de tempo. Eu deveria matar todos eles só para pagarem pelo tempo que me fizeram perder nesse lugarzinho de merda, mas estou misericordiosa hoje, então vou deixar passar", pensou Penny, dando um suspiro de tédio enquanto limpava seu vestido — que não tinha sujeira nenhuma, estando sempre impecável.
Contudo, enquanto se preparava para deixar a ilha, um eco de gritos abafados e desesperados chamou sua atenção, vindo do interior de uma grande cabana de madeira escura. Curiosa, Penny teleportou-se instantaneamente para dentro da estrutura.
O ar ali dentro era denso, impregnado pelo cheiro de mofo, suor e pavor. No chão, uma mulher sobrevivente sofria uma violência brutal nas mãos de dois agressores, lutando debilmente por ar enquanto um deles apertava sua garganta com força, silenciando seus clamores. Afastado da cena, um terceiro homem assistia a tudo friamente, sentado em uma cadeira de espaldar alto como se fosse um rei em seu trono decadente.
— Que coisa mais grotesca — comentou Penny, aproximando-se do grupo com total indiferença. — Fala sério... Sempre tem muitas dessas cenas de donzelas em perigo em praticamente toda história para onde eu vou. Esses humanos são todos um bando de criaturas nojentas. Vejam só o mundo em caos, os monstros matando o restante da humanidade em algum lugar, enquanto esses imbecis, agredindo outros de sua própria espécie, estão acelerando a própria extinção da raça humana. Eu poderia facilmente matar todos eles e ajudar essa mulher, mas não estou a fim. Ela que se vire por conta própria; não tenho mais tempo a perder com coisas inúteis.
Penny deu meia-volta, aproximando-se da parede rústica para atravessá-la com sua intangibilidade. Mas antes que pudesse se mover, a porta de madeira rangeu. Um quarto bandido irrompeu no recinto, o rosto pálido e a respiração ofegante. Ele marchou apressadamente até o homem sentado.
— Chefe! O plano deu errado! — exclamou o recém-chegado, a voz trêmula de tensão. — Parece que o Gideon está morto. Eu vi o jipe dele capotado no caminho para cá e o motorista estava sem vida... Mas não consegui encontrar o corpo do Gideon em lugar nenhum.
O líder no trono endireitou a postura, os olhos faiscando em fúria.
— Você está brincando comigo?! — esbravejou o chefe, socando o braço da cadeira. — Mesmo sendo o comandante mais fraco daquela base de sobreviventes, o Gideon ainda era extremamente forte! Ele nunca morreria para os monstros daquela área sem nem ao menos ter entrado na cidade em ruínas!
— Bem, chefe... Eu não sei o que o matou — gaguejou o lacaio, recuando um passo sob o olhar severo do superior. — Como não achei o corpo dele, só estou supondo que ele possa estar morto.
O líder soltou um riso nasalado, desdenhoso, relaxando os ombros.
— Bem, tanto faz. Não importa se ele morreu. De qualquer forma, nós iríamos matá-lo de qualquer jeito assim que assumíssemos o controle daquela base. Ele era apenas uma peça no meu tabuleiro — disse o homem sentado, sorrindo de uma forma psicopata enquanto falava com seu subordinado.
O homem no trono fez um gesto desdenhoso na direção dos bandidos, que pararam a agressão contra a mulher para ouvir o relatório. Logo voltou sua atenção para o lacaio à sua frente.
— Agora que o Gideon está fora do caminho, você não precisa mais fingir ser eu. Já pode ir e se preparar, pois nós iremos invadir aquele bunker e matar os comandantes restantes daquele lugar — disse o homem sentado, sorrindo com a mão tampando o rosto.
Ouvindo a conversa dos criminosos, as engrenagens na mente de Penny travaram. Um sorriso imenso, gélido e terrivelmente sádico desenhou-se em seus lábios infantis.
"Quer dizer que esses arrombados eram cúmplices daquele maldito que eu mandei dar um passeio no território dos meus bebês? Ótimo! Agora eu tenho um excelente motivo para acabar com todos esses insetos", pensou Penny, as pupilas amarelas incendiando-se em um dourado divino. "Vejamos... Matá-los usando monstros seria divertido, mas vai demorar muito. Acho que desta vez vou apenas eliminá-los rapidamente. Assim posso voltar a procurar um novo bebê bem lindo para enviar contra as muralhas daquele bunker."
Penny focou sua percepção cósmica, estendendo sua autoridade invisível por toda a extensão da ilha.
— Explodam — ordenou em um sussurro manso.
CRASH-BOOM!
O comando metafísico agiu instantaneamente e em perfeita sincronia. O corpo do chefe sentado no trono foi o primeiro a colapsar, expandindo-se em uma fração de milésimo de segundo antes de detonar violentamente. Uma chuva de carne, vísceras e sangue salpicou o recinto, com pedaços grudando nas paredes e no teto de madeira.
Logo em seguida, o bandido que estava sobre a mulher sofreu o mesmo destino um segundo depois de seu chefe: a metade superior de seu tronco explodiu em trilhões de partículas sangrentas, restando apenas a parte inferior de seu corpo, que desabou inerte sobre a vítima, cobrindo-a com uma torrente de vísceras e sangue escuro.
Do lado de fora da cabana, o cenário de horror repetiu-se em massa. Uma sinfonia de detonações ecoou em cadeia por toda a ilha, com os corpos de centenas de bandidos explodindo um após o outro, transformando o acampamento inteiro em um abatedouro silencioso sob a luz do fim de tarde.
— Que barulho foi esse vindo da cabana do chefe...
Antes que o bandido pudesse terminar a frase do lado de fora, seu tórax expandiu-se e explodiu brutalmente, acompanhado em cadeia por dezenas de outros homens ao seu redor. Uma chuva violenta de sangue, ossos e vísceras cobriu o solo do pátio, silenciando o acampamento de uma vez por todas.
— Acho que todos já estão mortos — comentou Penny.
Suas pupilas, brilhando em seu habitual amarelo cortante, pousaram sobre a mulher caída na cabana. A sobrevivente permanecia estática, com os olhos fixos e vidrados no teto.
— Que pena... Pelo visto, ela faleceu quando foi sufocada por aquele asqueroso. Eu poderia facilmente trazê-la de volta à vida, mas ela não me serviria de nada. Então, esquece.
Penny distorceu o espaço-tempo e desapareceu do recinto, deixando para trás um cenário de horror indescritível e absoluto.
No milésimo de segundo seguinte, a divindade reapareceu flutuando sobre a mesma cidade costeira de onde partira. O vento do oceano agitava seus cabelos loiros enquanto ela olhava para o horizonte azul.
— Bem... Agora, onde estão os monstros fortes desse lugar? — murmurou Penny, entediada.
Seus olhos incendiaram-se em um dourado divino e cortante enquanto ela estendia sua percepção cósmica, escaneando a cidade litorânea inteira de forma instantânea.
— Que decepção... Não tem nenhum monstro interessante por aqui — resmungou a garota, estalando a língua de irritação. — Certo, vamos ver em outra cidade.
Com um comando mental, ela transmigrou para uma nova cidade. Penny materializou-se flutuando alto no céu de uma cidade gigantesca e desconhecida. Desta vez, ela sequer precisou recorrer aos seus poderes de busca: seus olhos amarelos depararam-se imediatamente com várias silhuetas de abominações massivas, exibindo bocas grotescas e repletas de dentes no lugar das órbitas oculares, caminhando entre as ruínas.
— Vejam só... Exatamente os monstros que eu estava procurando! — exclamou Penny, abrindo um sorriso imenso e sádico.
Enquanto isso, a quilômetros dali, a realidade do grupo de expedição era de puro esgotamento. Enrique, Maria, Carlos e Katerina avançavam a passos lentos, aproximando-se da periferia que levava à saída definitiva daquela área amaldiçoada.
— Que bom que conseguimos chegar até aqui sem muitos problemas... — comentou Enrique, olhando para frente, onde Katerina estava.
O recruta caminhava com dificuldade, servindo de apoio para Carlos, que mancava pesadamente devido aos cortes profundos e ao sangue coagulado na perna ferida.
— Você tem razão — concordou Katerina, mantendo a farda alinhada apesar do cansaço visível. — Nós teríamos passado por sérios problemas se eu não tivesse recuperado uma pequena fração da minha energia. Felizmente, consegui ativar minha percepção a tempo de contornarmos os ninhos daquelas criaturas que encontramos no caminho.
Antes que pudessem cruzar o limite final das ruínas, os passos de Maria travaram no asfalto. Um som agudo e abafado cortou a brisa do fim de tarde.
— Vocês... Vocês também ouviram isso? — perguntou Maria, com os olhos arregalados de surpresa. — Parece o choro de uma criança vindo daquela estrutura.
Katerina semicerrou os olhos sob a aba de seu quepe militar, expandindo seu radar místico na direção indicada.
— Sim, eu escutei. E, de acordo com a minha percepção, o fluxo de energia aponta para a de um humano real, e não para um mutante — confirmou a comandante, apontando para uma pequena residência civil de alvenaria, parcialmente destruída pelos anos.
— Bem, já que não é um monstro, vou até lá ver quem é — determinou Maria, já mudando o rumo dos passos em direção à estrutura.
— Tem certeza de que é seguro ela ir sozinha até lá dentro? — perguntou Carlos, o cenho franzido em preocupação enquanto apertava o ombro ferido.
— Não precisa se preocupar, Carlos — acalmou Katerina. — Eu já chequei o perímetro inteiro e não há assinaturas de mutantes por perto. Além disso, nós já estamos muito distantes da zona principal de caça.
— Bem... Se a senhora está dizendo isso, então acho que vou acreditar — cedeu o jovem, relaxando a postura.
Maria empurrou a porta de madeira empenada e adentrou a penumbra da casa. O chão estava coberto de poeira e escombros de concreto. No centro do cômodo rústico, um garotinho que aparentava ter cerca de dez anos de idade estava de joelhos. Ele soltava soluços baixos e trêmulos, com o rosto escondido entre as mãos, chorando copiosamente ao lado do cadáver de uma mulher.
Ao presenciar a cena, o coração de Maria apertou-se em pura empatia protetora. "O que será que aconteceu aqui?", pensou ela, sentindo os olhos marejarem ao lembrar de sua própria dor. "Será que aquela mulher sem vida era a mãe dessa criança? Bem... No fim das contas, isso não importa agora. Eu preciso tirar ele desse lugar perigoso."
Com movimentos suaves para não assustá-lo, Maria aproximou-se a passos lentos e agachou-se no chão arenoso, ficando exatamente na altura dele.
— Olá... — chamou Maria, com a voz mais doce e acolhedora que conseguiu expressar. — Qual é o seu nome?
O garotinho cessou os soluços gradualmente. Ele ergueu a cabeça devagar, revelando traços calmos e profundos que contrastavam com as lágrimas falsas em suas bochechas. Ao fixar suas pupilas na jovem, ele respondeu:
— Meu nome é Neon.
— Nossa... Que nome bonito, Neon — disse Maria, abrindo um sorriso caloroso e estendendo a mão para acariciar suavemente os cabelos da criança. — Neon, você quer vir comigo para um lugar seguro? Lá é um abrigo para sobreviventes, existem outras pessoas, comida e água, e você ficará protegido do horror daqui de fora.
— Quero... — respondeu o menino, forçando um semblante dócil e indefeso.
Internamente, contudo, as engrenagens metafísicas da mente do Daftardar giraram em puro escárnio e divertimento: "Isso foi fácil demais... Eu realmente sinto muito por estar enganando essa mulher que parece ser realmente uma boa pessoa. Mas a culpa é dela por ter tão pouco intelecto. O importante é que agora eu poderei ir até onde minha adorável irmãzinha está."
Maria segurou a mão pequena de Neon e o conduziu para fora da estrutura. Ao cruzarem a soleira, o grupo recebeu o novo integrante com olhares curiosos, mas não tinham tempo para perguntas. Alinhando-se rapidamente sob o céu que escurecia, a expedição militar retomou sua marcha forçada, trilhando o caminho definitivo de volta ao bunker subterrâneo.
Fim do Capítulo 16