Capítulo 4: O Moinho
A grama baixa perto da cerca ainda brilhava.
Era aquele brilho de orvalho que desaparece quando o sol sobe de verdade, e eu estava de joelhos no meio dele, respirando com cuidado, tentando convencer os pulmões de que a quantidade de ar disponível era suficiente para o que o corpo pedia. O gosto na boca era de esforço e terra e aquela ferrugem específica que aparece quando você morde o interior da bochecha sem perceber.
Garrick estava a alguns metros, limpando o suor da testa com as costas da mão. Não disse nada por um tempo.
Eu havia aprendido isso nos últimos meses — que o silêncio dele depois do treino não era indiferença. Era digestão. Ele processava o que havia visto antes de abrir a boca.
— Está mais firme — disse ele. — Nas costas. Nos ombros. Dá pra ver.
Erguei a cabeça.
Elogio do Garrick tinha a raridade das coisas que aparecem uma vez por estação e desaparecem antes que você termine de olhar. Eu havia aprendido a não desperdiçar.
— Mas ainda está lento. Os pés não acompanham o que os braços decidem fazer. Numa luta de verdade, essa diferença de meio segundo é suficiente.
— Estou tentando corrigir.
— Tentar não move os pés. — Uma pausa. — E um golpe mal amparado quebra o pulso de quem dá antes de machucar quem recebe.
Soube na hora em que ele disse, porque os tendões do pulso direito estavam latejando de um jeito específico desde a quinta repetição. Eu havia atribuído ao esforço geral. Agora identificava: apoio errado, força no lugar errado, o tipo de erro que se repete uma vez por semana e em dois anos vira lesão permanente.
— Sei agora — disse eu.
Garrick ficou em silêncio, olhando para o campo além da cerca. As espigas novas de trigo balançavam devagar — baixas, finas, verdes, completamente diferentes das espigas douradas do fim do ano. Era o mesmo trigo em outra vida. Tinha uma paciência naquele campo que eu achava difícil de olhar por muito tempo.
— Seu pai — disse ele, mais quieto — era igual a você nessa parte. Confiante demais nas mãos.
Parei de espanar a terra das calças.
O polegar dele passou pela cicatriz na sobrancelha. Aquele gesto que eu havia aprendido a reconhecer: memória.
— Achava que o corpo seguia automaticamente. Mas quando estava bem, quando havia treinado de verdade... entrava numa sala e todo mundo já sabia que ele estava lá. Não por arrogância. Era presença. — Uma pausa. — E generoso demais para o próprio bem. Sempre o último a recuar.
— Você sente falta disso.
Não foi pergunta. Saiu sozinho antes que eu decidisse se queria dizer.
Garrick me olhou por um segundo. Depois desviou o olhar para o campo.
— A gente sente falta de muita coisa — disse ele. — O importante é não parar por causa disso.
O vento empurrou as espigas para um lado e depois para o outro.
Fiquei tentando sobrepor duas imagens do meu pai: a que Garrick havia descrito, preenchendo uma sala sem precisar de barulho, e a que eu conhecia, fazendo caretas horríveis para minha irmã na cozinha, os dois completamente entregues àquele jogo idiota e alegre. Eram a mesma pessoa. Não conseguia encaixar as duas numa única figura.
Talvez eu simplesmente não tivesse o ângulo certo ainda.
— Foca na esgrima, Aaron. — Garrick jogou a espada de madeira na minha direção. Peguei no ar. — Magia você já tem. Esgrima você ainda está péssimo. Não abandona o que está incompleto só porque o outro é mais fácil.
— De novo.
O almoço cheirava a alho e carne seca desde o corredor.
Entrei pela porta dos fundos e o cheiro me acertou primeiro — cebola refogando, algo assando devagar no fogão a lenha, a madeira crepitando baixo. A cozinha estava cheia de uma forma que raramente estava, com todos ao mesmo tempo, cada um no seu canto do caos habitual.
Minha mãe estava de costas para a porta, mexendo na panela, a postura ereta como sempre. Meu pai estava à mesa com minha irmã no colo, fazendo caretas de uma feiura tão comprometida que eu parei por um segundo só para observar — ele havia dobrado o lábio inferior para cima e cruzado os olhos ao mesmo tempo, e minha irmã respondia com aquela gargalhada dela, pequena e boba e completamente sem inibição.
A sala parecia menor com ele rindo assim. Do jeito que uma fogueira pequena faz um quarto parecer menor — porque há um centro de calor e tudo converge para ele sem esforço.
Meu irmão estava na cadeirinha com papa laranja espalhada pelo rosto inteiro. Garrick sentado num canto, cajado na parede, braços cruzados. Mira do outro lado, folheando alguma coisa — mas havia um copo de água na frente dela que ela não havia pedido. Minha mãe havia colocado antes que ela sentasse.
Esse tipo de coisa, eu havia aprendido a notar.
— Lava as mãos — disse minha mãe, sem virar.
— Eu ia lavar.
— Lava de verdade. Não só molha os dedos.
Meu pai ergueu os olhos da minha irmã com aquele sorriso de canto de boca. Lavei as mãos de verdade.
A mesa foi posta rapidamente, daquele jeito eficiente da minha mãe para essas coisas — sem cerimônia, sem descuido. Pão escuro, carne seca, legumes cozidos, manteiga no centro. A tigela de sopa soltava vapor em fio fino.
Sentei entre meu pai e Garrick, que era em tese o lugar mais intimidador da mesa e na prática o mais confortável, porque nenhum dos dois falava à toa.
— Como foi? — meu pai perguntou.
— Bem.
— Mais firme — disse Garrick, sem olhar para cima. — Mas os pés ainda travam.
— Os pés sempre travam no começo.
— No começo, sim. — Garrick ergueu os olhos. — Já faz mais de seis meses.
Meu pai fez uma careta levemente divertida na minha direção. Eu fingi não ver.
Mira fechou o que estava lendo.
— A teoria está sólida. A aplicação tem melhorado.
Para o padrão dela, era quase um discurso.
Minha mãe sentou por último, como sempre, depois de resolver o episódio da papa laranja com uma paciência que eu nunca conseguiria ter. Minha irmã continuou rindo de algo que nenhum de nós via.
A conversa foi crescendo do jeito que acontece quando as pessoas estão confortáveis. Meu pai contou uma história de uma dungeon, antes de eu nascer, e Garrick acrescentou uma versão do mesmo evento com um humor tão seco que demorei um segundo para perceber que era piada. Mira corrigiu um detalhe factual. O canto da boca da minha mãe subiu um pouquinho.
Comi devagar, prestando atenção em tudo.
A tigela de sopa esfriando. O cheiro de madeira queimando. A gargalhada pequena da minha irmã. A voz do meu pai preenchendo a cozinha sem esforço, como água encontrando o nível.
Eu amava isso tudo com uma intensidade que não sabia nomear e que por alguma razão me dava uma vontade estranha de guardar — como se fosse possível dobrar o momento e colocar no bolso para mais tarde.
Não era possível. Mas a vontade estava lá de qualquer forma.
— Posso ir até a vila?
Saiu mais abrupto do que eu pretendia, no meio de um silêncio entre dois assuntos.
Meu pai parou com o garfo no ar. Minha mãe continuou alimentando meu irmão sem virar.
— Agora? — perguntou meu pai.
— Depois do almoço. Queria ver o Arlo. Faz tempo que não apareço por lá e... — Parei, respirei. — Você mesmo disse. Que eu deveria sair mais.
Meu pai pousou o garfo devagar. Havia um sorriso tentando aparecer no rosto dele que ele estava claramente segurando com esforço visível.
— Você quer ir brincar.
— Eu não disse brincar. Disse ver o Arlo.
— Claro.
— Pai.
— Pode ir — disse minha mãe, sem virar da cadeirinha. A colher continuou o movimento. — Volta antes de escurecer.
Dei a cadeira para trás.
— E não apronta nada.
— Eu nunca apronto nada.
Garrick fez aquele som que podia ser risada ou só ar saindo pelo nariz. Eu ignorei com dignidade.
Meu pai olhou para minha mãe por um segundo antes de eu sair — um daqueles olhares rápidos que carregam mais conteúdo do que o tempo que duram. O tipo que eu havia aprendido a não perguntar sobre.
Não perguntei.
A estrada para Sitári era de terra batida, larga o suficiente para uma carroça passar com espaço sobrando. Meus pés a conheciam de memória e seguiam sozinhos enquanto minha cabeça ficava em outro lugar.
O sol estava alto mas sem o peso sufocante do verão. Uma brisa vinha dos campos e empurrava as espigas novas para frente e para trás — finas, baixas, verdes. Era o mesmo trigo de outro ângulo do ciclo. Tinha uma paciência naquele campo que eu achava difícil de olhar por muito tempo sem sentir alguma coisa vagamente incômoda que eu não saberia nomear se alguém perguntasse.
Uma formiga carregava alguma coisa enorme pelo meio do caminho com uma determinação completamente desproporcional ao tamanho dela.
Pensei na universidade.
O pensamento veio sozinho, como sempre. A carta dobrada na mesa de cabeceira, o emblema da torre, aquela linha que não saía da cabeça.
Honrará essa herança.
Faltava menos de um ano. Corredores que eu nunca havia visto, biblioteca de três andares, professores que eram gênios ou impossíveis, às vezes os dois — tudo isso segundo meu pai, que havia andado por lá dezenove anos atrás e que iluminava quando falava sobre aquilo, a presença dele ficando ainda mais densa, a sala encolhendo em volta dele sem que ele percebesse.
E se não for suficiente?
A formiga passou pela minha bota e continuou firme na direção oposta, sem se importar minimamente com minha crise existencial.
Empurrei o pensamento para o lado. Tinha uma elfa para encontrar.
Sitári cheirava a pão.
A padaria ficava perto da entrada da rua principal e ainda soltava aquele cheiro de massa e canela naquela hora. Passei por ela, acenei para o velho que varria a calçada sem me reconhecer, e continuei.
O Arlo não estava na fonte. Procurei com o olhar — a ferraria com sua fumaça boa, a mercearia do Hans, a costureira que estava sempre na janela e nunca costurando nada que eu pudesse ver.
Encontrei ele do lado de fora da padaria. Encostado na parede de pedra, braços cruzados, olhar fixo na janela lateral com a concentração de um estrategista antes de uma batalha importante.
— O que você está fazendo?
Ele levou um susto pequeno, se recompôs em menos de um segundo.
— Apreciando a arquitetura.
— Arlo.
— O Benedikt vai sair daqui a pouco — disse ele, abaixando a voz. — Quando sai, deixa um pão esfriando no parapeito. É questão de timing.
A família dele não passava necessidade. Todo mundo em Sitári sabia disso.
— Isso é sobre o desafio.
— Exatamente. — A convicção na voz dele era completamente genuína, o que era a parte mais desconcertante. — Não é sobre o pão. É sobre conseguir.
Fiquei um segundo sem saber se estava com raiva ou com vontade de rir. Sentei na pedra ao lado dele.
— Esquece o pão. Preciso te contar uma coisa.
— Sobre a elfa. — Não era pergunta. Ele havia guardado aquilo.
Contei tudo que meu pai havia explicado. As raças, os territórios, os jeitos de viver. Anões nas montanhas, ferais com seus traços animais, demônios com sua reputação injusta. Elfos, com suas florestas fechadas e sua raridade fora delas.
Arlo ouviu sem interromper. Por si só, isso já era incomum o suficiente para eu perceber.
Quando terminei, ficou quieto um momento. — Anões eu já sabia. Meu avô trabalhou numa mina. Disse que eram teimosos e orgulhosos dos dois.
— E ferais?
— Minha prima tem uma amiga feral. Orelha de gato. Parece completamente normal. — Uma pausa. — Mas elfos?
Ele virou o rosto com uma expressão que eu não via nele com frequência — algo entre espanto genuíno e indignação levemente ultrajada, como se o mundo houvesse guardado essa informação dele de propósito.
— Elfos são reais?
— Você viu uma.
— Eu achei que tinha visto. Achei que estava ficando louco. Todo mundo na vila me zoou até hoje. — Ele se levantou de um salto, o pão completamente esquecido. — Eles são reais. Eu vi uma elfa de verdade e ninguém acreditou em mim.
— Acredito em você.
— Você é o primeiro. — Ele enxugou os olhos com o dorso da mão, de forma cômica e completamente sincera ao mesmo tempo. Apontou para a direção do moinho. — Vamos lá agora?
Já estava de pé antes de ele terminar.
O moinho ficava onde a rua principal virava trilha e a trilha virava grama pisada. Chegamos lá depois de uns dez minutos, o Arlo na frente apontando direções com a confiança de quem lembra melhor do que lembra de fato.
Era maior do que eu esperava. Pedra escura e madeira velha, as paredes espessas como as de algo construído para durar mais do que deveria. Uma das quatro pás estava partida ao meio — a madeira havia cedido, a metade de baixo caído fora e nunca substituída. As outras três ficavam paradas, sem água no riacho seco de verão, sem grãos para moer, sem razão para girar. Só existiam ali, esperando que alguém consertasse o que estava quebrado.
— É aqui — disse o Arlo, com solenidade desnecessária.
— Eu sei. Você falou três vezes no caminho.
— Confirmar é importante.
Demos uma volta completa. Espiei pela janela entreaberta — só a maquinaria parada lá dentro, coberta do mofo específico de madeira que não seca direito. Grama alta nas bordas. Uma árvore torta do lado esquerdo com os galhos indo em direções que não faziam sentido geométrico, como se tivesse crescido tentando desviar de algo e continuado desviando depois que o obstáculo foi embora.
Não havia ninguém.
— Ela não está aqui.
— Estava na semana passada.
— Isso foi semana passada.
— Talvez venha mais tarde. — A confiança na voz dele estava sendo sustentada por esforço puro de vontade, o que eu podia ouvir claramente.
— Ou talvez — eu disse, sentindo alguma coisa murchar levemente no peito — você tenha visto uma pessoa normal com um chapéu estranho.
— Eram orelhas pontudas, Roni. Eu sei a diferença entre uma orelha e um chapéu.
— Tudo bem, tudo bem. Mas ela não está aqui. Vamos embora antes que—
O Arlo parou.
Parou de um jeito tão abrupto que eu caminhei direto nas costas dele, o nariz quase amassando no ombro.
— Que foi? Por que—
Levantei a cabeça.
Ela estava na entrada do moinho, a alguns passos de distância, com um livrinho pequeno apertado contra o peito com as duas mãos.
Alta para uma garota — mais ou menos da minha altura, talvez um pouco mais. Uma capa simples, roupas escolhidas para serem confortáveis antes de bonitas. O cabelo era branco. Não loiro, não prateado — branco do tipo que parece que sempre foi assim, como neve que esqueceu de derreter. Caía pelos ombros de um jeito que eu não sabia descrever melhor do que arrumado por si mesmo.
E as orelhas.
Longas, pontudas, levemente inclinadas para cima — e naquele momento específico, visivelmente coradas. Uma cor rosada subia devagar pela borda delas quanto mais os segundos passavam sem ninguém dizer nada.
Os olhos eram verdes. Verde claro do tipo que parece capturar a luz e fazer alguma coisa diferente com ela antes de devolver. Olhavam para nós com uma mistura de susto contido e o embaraço específico de quem chegou ao próprio lugar e encontrou duas pessoas dentro.
Tentei processar tudo ao mesmo tempo.
O cabelo dela era o oposto do meu em todos os sentidos. Eu tinha cabelo preto, tão escuro que as pessoas às vezes perguntavam se era mesmo preto ou só muito escuro. O dela era a ausência disso. Os olhos dela eram claros demais comparados com os meus, que eram castanhos tão fundos que de longe pareciam sem cor. Até a pele dela era diferente — clara de um jeito que não era palidez de doença mas de algo anterior, como porcelana antes de alguém decidir que porcelana era frágil.
Ela parecia saída de um livro.
Não do tipo que eu lia. Do tipo que meu pai guardava na prateleira mais alta da biblioteca, aqueles volumes que ele nunca explicava muito bem o que eram.
Abri a boca.
— A gente não estava... quer dizer, a gente estava, mas não de propósito. Ou era de propósito, mas não do tipo... — Fechei a boca. Abri de novo. — Do tipo ruim de propósito.
O Arlo virou o rosto para mim devagar. A expressão dele era a de alguém assistindo algo desabar em câmera lenta e sem poder fazer absolutamente nada.
As orelhas dela ficaram um pouco mais coradas.
— Eu quero dizer — tentei de novo, sentindo o calor subir pelo pescoço num jeito que eu esperava sinceramente que não estivesse aparecendo no rosto — que a gente ouviu que tinha uma... que o Arlo viu você semana passada e eu nunca tinha visto um... uma...
Parei.
Elfa. A palavra era elfa. Eu sabia falar elfa. Tinha dito elfa umas quinze vezes no caminho até aqui. Quinze vezes, sem nenhum problema, e agora a palavra simplesmente não existia mais.
— Uma pessoa — terminei, miseravelmente. — Com orelhas.
Silêncio.
O vento passou pela pá partida do moinho e fez um som baixo, quase um suspiro, como se a estrutura toda houvesse decidido comentar.
O Arlo colocou a mão no rosto.
Ela olhou para mim por um segundo. Depois para o Arlo. Depois para mim de novo — e havia algo nos olhos verdes dela que eu não consegui identificar na hora. Não era desdém. Não era exatamente diversão. Era algo mais quieto. Como quem reconhece alguma coisa sem saber ainda o que fazer com esse reconhecimento.
Ela abaixou levemente o queixo. O livrinho continuava apertado contra o peito.
— Lucie — disse ela. A voz era baixa, cuidadosa, como quem mede cada palavra antes de soltar. — Meu nome é Lucie.