Capítulo 6: É Sua Culpa
A fumaça não tinha cheiro ainda.
Só existia no céu — grossa, escura, subindo devagar demais para ser acidente. Fiquei olhando para ela por alguns segundos sem conseguir montar o quebra-cabeça. Ou talvez sem querer.
— Roni.
A voz da Lucie era diferente. Baixa demais.
Virei.
Ela estava com as mãos sobre a boca, os olhos verdes fixos naquela coluna de fumaça com uma expressão que eu havia aprendido a ler nos últimos dois meses mas nunca tinha visto nessa intensidade. Era o rosto de alguém que já esteve do lado de fora de uma tragédia antes. Que reconhece a fumaça não pelo cheiro, mas pela forma.
— Não está vindo da direção de sua casa?
O mundo demorou um segundo a mais para responder.
Depois eu estava correndo.
Ouvi os passos dela atrás de mim, mais leves que os meus. Não disse para ela ficar.
O cheiro chegou antes da imagem.
Madeira. Resina. Palha. O cheiro específico de uma coisa construída para durar sendo destruída depressa demais — denso, quente, diferente de fogueira de quintal, que chegava em rajadas e cada vez que chegava eu precisava de um segundo para continuar respirando direito.
Depois veio o calor.
Ainda longe, mas real. O tipo que você sente na pele antes de ver a fonte.
Parei na beira da propriedade.
Onde havia cerca agora havia postes tortos e madeira chamuscada. Os campos ao redor estavam intactos. A destruição tinha sido direcionada — alguém havia escolhido o que queimar e o que deixar. A casa ainda estava de pé nas paredes, mas o telhado havia cedido num canto e as chamas subiam por ali com uma indiferença que não tinha nada a ver com acidente.
E no quintal.
Meus olhos foram primeiro para o chão porque era onde havia movimento, e o movimento era meu pai.
Ethan Rowenvald estava na terra batida, apoiado num cotovelo, com o cajado partido em dois ao lado. O peito subia e descia — eu fixei nisso por um segundo antes de forçar os olhos a verem o resto. Um dos lados do corpo estava diferente. O chão embaixo dele estava escuro, e continuava escurecendo, e a mancha não parava de crescer.
Compreendi. Não queria compreender, mas compreendi.
A minha visão tremeu.
Não foi metáfora. Foi de verdade — o quintal balançou por um segundo como reflexo na água e eu precisei piscar, uma, duas, três vezes, antes do mundo parar de se mover.
Os olhos percorreram o quintal sem que eu mandasse.
Dois homens perto das paredes com tochas, alimentando o fogo contra a madeira com a eficiência de quem está cumprindo um item numa lista.
E então minha mãe.
Anne Rowenvald estava de pé no centro do quintal com a espada na mão. A de verdade — a que ficava no quarto, a que eu havia visto ela afiar no corredor à luz da lua, a que eu havia achado que era relíquia.
Não era.
Ela segurava aquela espada com a forma de alguém que passou décadas com aquele peso específico na palma. O ombro direito estava ensanguentado. Não o suficiente para pará-la.
Os olhos dela estavam fixos no homem à frente.
Era alto. Cabelos loiros longos e soltos que o vento movia sem que ele parecesse notar. Uma cicatriz horizontal que atravessava o rosto inteiro de uma bochecha à outra, passando pelo nariz. Sob a capa vermelha havia só um peitoral de couro. A espada estava na mão e tinha sangue nela, e ele não estava olhando para minha mãe.
Estava olhando para o horizonte.
Com a expressão de alguém esperando um compromisso chato terminar.
— Você. — A voz da minha mãe cortou o ar. — O herói da espada. Veio pessoalmente.
Não era pergunta. Era a voz de alguém que acabou de medir o tamanho do problema à sua frente e não vai recuar por isso.
A mão da Lucie fechou no meu braço.
— Roni. Não se mexa.
— Meu pai está—
— Eu sei. — Ela não soltou. — Mas se você sair agora pode morrer. Fica aqui.
Eu sabia que ela estava certa.
Sabia e não me importei e comecei a me mover de qualquer forma, porque meu pai estava ali e minha mãe estava sozinha na frente de algo que ela não podia vencer e meus irmãos estavam dentro daquela casa e eu tinha saído furioso sem olhar para trás—
A Lucie se colocou na minha frente.
Não me empurrou. Não gritou. Só ficou ali, entre mim e o quintal, com as mãos no meu peito e aqueles olhos verdes fixos nos meus.
— Se você morrer — disse ela, baixinho — não vai sobrar ninguém para fazer o que precisa ser feito.
A frase chegou ao lugar certo.
Parei.
Ela me guiou devagar para as sombras perto da cerca quebrada, onde a fumaça era menos densa e não havia linha de visão direta do quintal. Me encostei no poste chamuscado.
E ouvi.
Metal contra metal tem um som que não se confunde com nada.
Não é o som das espadas de madeira dos treinos com o Garrick — aquele som seco e administrável, com pausas que eu havia aprendido a antecipar. Isso era mais agudo e carregava dentro de si uma informação que o corpo processa antes da mente: que cada vez que os dois lados se encontram, um deles pode ser o último.
Eu precisei ver.
Só por um segundo.
Virei a cabeça ao redor do poste.
Minha mãe atacou e eu percebi que nunca a havia visto lutar de verdade.
Os treinos comigo eram pedagógicos — ela ia devagar, pausava para corrigir, escolhia os golpes que eu precisava aprender a defender. Isso era outra coisa. Cada movimento encadeado no próximo sem pausa, sem espaço entre a decisão e a execução, o corpo inteiro funcionando como uma única e contínua intenção. Eu reconhecia os fundamentos dos mesmos cortes que havia recebido no quintal durante anos, mas nessa velocidade real eram irreconhecíveis — como a diferença entre ler sobre uma tempestade e estar dentro dela.
O herói desviava de quase tudo quase sem se mover. Bloqueava o que não desviava. Recuava quando precisava, mas nunca mais do que o necessário. Aguardava com aquela expressão de quem está esperando o ponto onde a força de alguém vai acabar.
Meu pai se mexeu.
Pelo canto do olho eu vi ele arrastar o corpo para uma posição diferente — devagar, lento, deixando um rastro escuro na terra — e estender uma mão para a frente, a palma aberta. A mana começou a se acumular.
A cor era diferente.
Eu havia visto mana de fogo antes — nos livros, nas demonstrações de Mira, nos meus próprios treinos frustrados com o elemento. Tinha sempre aquela qualidade laranja-avermelhada de coisa que quer se expandir. A mana do meu pai tinha outra cor. Mais profunda, mais densa, com um vermelho que puxava para o centro em vez de se espalhar. Como se a força não estivesse no fogo, mas em tudo que vinha antes do fogo.
A reserva de mana do Ethan Rowenvald.
Eu tinha crescido ouvindo histórias sobre isso. Que podia encher um rio inteiro. Que quando ele entrava numa sala todo mundo já sabia — não por arrogância, por presença.
Eu entendi o que presença significava naquele momento.
O pilar veio.
Não foi Bola de Fogo. Não foi nenhum feitiço que eu tivesse nome para nomear. Foi um pilar inteiro, vermelho vivo e branco no centro onde a temperatura ficava além da cor, que saiu da mão do meu pai deitado na terra com um som que eu senti nas costelas e nos dentes e na sola dos pés antes de processar como som. O quintal inteiro clareiou. As sombras desapareceram por um segundo. O calor chegou até onde eu estava como parede de ar quente.
Era a coisa mais poderosa que eu havia visto na minha vida.
E meu pai estava fazendo isso sem uma perna, deitado, perdendo sangue há tempo demais.
O herói da espada girou levemente o corpo.
Só isso. Uma rotação pequena nos quadris, a espada subindo num arco que eu quase não acompanhei com os olhos — e o pilar de fogo se dividiu ao redor dele como água encontrando uma pedra, passando pelos dois lados e explodindo no campo atrás num calor e numa luz que fez os meus olhos arderem mesmo atrás do poste.
O herói não saiu do lugar.
A Lucie puxou minha cabeça de volta. Com firmeza. Pressionou minha têmpora contra o próprio peito e ficou assim, e eu deixei porque as pernas não estavam me obedecendo de qualquer forma.
Ouvi minha mãe gritar alguma coisa que não eram palavras.
Ouvi as espadas continuando.
Ouvi meu pai dizer algo em voz baixa — curto, uma frase, o tom de alguém que está decidindo alguma coisa — e depois o som da mana se acumulando de novo. Muito mais fraco dessa vez. O tipo de som que o fogo faz quando quem está canalizando não tem mais muito para dar, mas está dando de qualquer forma.
Ouvi o herói da espada falar pela primeira vez.
Uma frase. Baixa. Sem variação de tom. Não ouvi as palavras — só o tom. O tom de alguém encerrando uma reunião. Informando que o tempo havia terminado.
Depois houve silêncio.
Depois houve um som que eu não consigo escrever.
A Lucie apertou mais.
Eu deixei.
O som das espadas continuou por um tempo. Parou. Recomeçou mais pesado, mais espaçado — o ritmo de alguém lutando com menos do que tinha antes. Os dois homens com tochas trocavam palavras entre si com a indiferença de quem está esperando o trabalho de outra pessoa terminar.
A casa estralava ao ceder.
Em algum momento a Lucie afrouxou levemente os braços e eu percebi que estava com o rosto molhado sem lembrar de ter começado a chorar. Não havia sido uma decisão. Tinha simplesmente acontecido, como sangramento.
Olhei de novo.
Não consegui não olhar.
Minha mãe ainda estava de pé.
Sangrando em mais lugares agora — o ombro, um corte no braço, algo na lateral do tronco que ela estava ignorando com a teimosia de alguém que aprendeu a ignorar dor há tanto tempo que o sinal e a resposta ao sinal se desconectaram. O herói estava na mesma posição de sempre. Observando. Aguardando.
Ela atacou.
Foi lindo e desesperado ao mesmo tempo. Uma sequência de cortes que eu reconhecia dos treinos mas nunca havia visto em velocidade real — o corpo da minha mãe se movendo com a fluidez de décadas, cada movimento encadeando o próximo sem hesitação, sem poupar nada.
O herói recuou dois passos.
Só dois.
E então contra-atacou.
A Lucie me puxou de volta antes que eu pudesse ver o fim.
Mas eu ouvi.
E o silêncio que veio depois era do tipo que dura mais do que deveria. O tipo que continua depois que termina, que ocupa o espaço onde um som estava e lembra a todos que esse som não vai voltar.
Os passos do herói na terra.
Lentos. Regulares. Saindo do quintal em direção à estrada, passando a alguns metros de onde estávamos. Eu estava absolutamente imóvel. A Lucie estava absolutamente imóvel. Nem a respiração.
Ele parou.
A cabeça virou levemente na nossa direção.
Os olhos encontraram os meus.
A luz das chamas distorcia as cores e eu não conseguia ter certeza de nada — algum cinza-esverdeado, ou talvez só o laranja do fogo sobre algo claro. O que eu conseguia ter certeza era outra coisa. Havia algo naquele olhar que fazia a pele arrepiar de um jeito para o qual eu não tinha nome, porque nunca havia precisado de nome antes. Não era crueldade — crueldade implicaria que a outra pessoa importasse o suficiente para ser odiada. Era algo mais perturbador que crueldade: a ausência de qualquer coisa que reconhecesse em mim alguma coisa que valesse reconhecer.
Vazio onde deveria haver alguma coisa.
O sorriso foi pequeno. Quase não era sorriso — uma alteração leve na linha da boca, assimétrica, que não chegava aos olhos. O tipo de expressão sem nome porque não há contexto onde ela faça sentido.
Meu estômago revirou.
Ele desviou o olhar. Continuou andando.
Os passos se afastaram pela estrada e sumiram no escuro. Os dois homens com tochas foram atrás sem dizer nada, sem olhar para trás.
E então havia só o fogo, a fumaça, o cheiro, e eu encostado no poste com a Lucie ao lado e o quintal à frente.
Dei um passo. Outro.
Meu pai estava onde eu o havia visto pela última vez.
Me ajoelhei na terra ao lado dele. A terra estava quente e úmida de um jeito que eu processei mais tarde, num momento separado, quando já estava tarde demais para a informação doer da forma que devia. Minha mão encontrou a mão dele antes que eu decidisse estender o braço.
Estava fria.
— Pai.
O peito dele subia e descia. Devagar demais. Com aquele espaçamento irregular de coisa que está se encerrando — não do jeito que termina de repente, mas do jeito que vai ficando mais espaçado até o intervalo ser maior que qualquer coisa que se possa chamar de ritmo.
Levantei a mão livre. Fechei os olhos.
— Que a vida retorne ao que foi ferido, que o fluxo se restaure, que o corpo encontre—
Nada.
Respirei fundo. Tentei de novo — mais devagar, cada sílaba no lugar, com toda a intenção que eu tinha.
Nada.
A mana saía. Eu sentia ela saindo, tomando direção, chegando até as feridas. E então escorregava. Não encontrava onde se fixar. Era como tentar segurar água com a mão aberta — a força estava lá, mas a forma estava errada, e eu não sabia a forma certa.
Eu sabia o básico de cura. O básico serve para arranhões e para câimbras e para a febre de uma criança.
Não para isso.
Tentei uma terceira vez. Quarta. Quinta.
A mana continuava saindo e continuava escorregando e a mancha embaixo dos meus joelhos continuava escurecendo e a mão do meu pai não se movia. Os olhos dele estavam abertos — olhando para o céu com a expressão de alguém que havia terminado de calcular alguma coisa e havia chegado a uma conclusão que ele havia aceito antes de eu chegar.
Parei de contar.
Em algum momento comecei a recitar sem intenção, as palavras saindo porque eram as únicas palavras que eu tinha, até que não consegui mais recitar porque alguma coisa na garganta não deixava passar mais som.
A Lucie estava atrás. Perto o suficiente para estar presente.
Minha mãe estava do outro lado do quintal.
Não vou escrever isso.
Fiquei de joelhos olhando para o chão. O fogo havia diminuído porque havia menos para queimar. As paredes ainda estavam de pé mas o interior era cinza e preto e tinha o silêncio específico de lugares que antes foram cheios de som.
Em algum momento a Lucie ficou ao meu lado. Não disse nada. Não tocou nada. Só estava presente, e isso foi suficiente para alguma coisa dentro de mim que havia estado se segurando parar de se segurar.
Não foi gradual. Foi de uma vez, como estrutura que cede.
O som que saiu veio de algum lugar abaixo da garganta, abaixo do peito — de algum lugar que eu não sabia que existia porque nunca havia precisado dele antes. A Lucie me alcançou antes que eu caísse. Ficou ali com o meu rosto contra o peito dela, uma mão nos meus cabelos, e eu chorei do tipo que sai em ondas e cada onda parece que é a última mas não é. O tipo que não tem nada de catártico nele. Que não resolve nada. Que só é o que é.
E então no meio de uma dessas ondas o pensamento chegou.
Meus irmãos estavam dentro da casa.
O choro parou por um segundo — não porque havia passado, mas porque algo maior ocupou o mesmo espaço. Meu irmão caçula aprendendo a andar pelas vigas da sala. Minha irmãzinha que ria de coisas que ninguém mais via.
Eu tinha saído de casa furioso.
Tinha passado pelo meu pai no corredor e não parado.
Não estava lá.
A onda voltou maior que todas as outras e eu não tentei resistir porque não havia mais nada estrutural por baixo.
A Lucie não disse nada.
Ficou ali.
E isso foi tudo que havia no mundo por um tempo que eu não consegui medir.
De manhã o fogo havia ido.
Restavam os escombros. Paredes enegrecidas ainda de pé, vigas caídas cruzadas. O cheiro de madeira queimada que não sai da roupa nem do cabelo, que fica na memória com uma permanência que outras memórias não têm.
A Lucie havia ficado a noite toda.
Antes do amanhecer os dois havíamos adormecido encostados na cerca. Quando o sol começou a nascer ela abriu os olhos, me olhou por um segundo, e disse: — Vou buscar minha mãe. Não sai daqui.
Assenti.
Entrei nos escombros sozinho.
Andei devagar. O chão estava coberto de cinza e fuligem, quente em alguns pontos sob os pés, frio em outros. Passei pelo que havia sido a cozinha — reconhecível só pela posição das paredes e pelo fogão de pedra que não havia queimado. Estava lá igual a sempre, como se não tivesse entendido o que havia acontecido.
Encontrei algumas moedas perto da entrada da sala. Guardei sem pensar muito.
Encontrei a carta da universidade no corredor. Dobrada, chamuscada nas bordas, mas o centro protegido pelas dobras havia sobrado. O emblema da torre com as três janelas ainda visível no selo. A letra caprichada, a tinta escura.
Temos razões para acreditar que seu filho honrará essa herança.
Olhei para ela por um momento. Guardei também.
A pedra do cajado do meu pai estava entre os escombros. Pequena, oval, do tipo que encaixa no topo de um cajado específico e em nenhum outro. Pedras não queimam — estava coberta de cinza e quando eu a limpei na barra da camisa ela ficou lisa e fria na palma da mão.
Fechei os dedos ao redor dela e fiquei assim um momento antes de continuar.
Encontrei minha mãe onde o quintal encontrava o que havia sido a varanda.
Não vou escrever isso.
Mas havia algo no bolso da roupa dela que saiu quando eu me ajoelhei ao lado. Um papel dobrado várias vezes, do tipo que alguém carrega por tempo suficiente para que as dobras virem sulcos. Manchado nas bordas mas intacto no centro.
Abri.
A letra era diferente da minha mãe. Mais elegante, mais fria — caligrafia aprendida como obrigação, não como expressão. O papel tinha uma qualidade diferente do papel de Sitári. O selo no topo estava rompido mas reconhecível.
Família Velluwarg.
Li.
Demorei para entender tudo porque algumas palavras eram formais demais e outras eram veladas demais. Mas o tom chegou antes do sentido. O tom específico de carta escrita por alguém que está acusando mas é culto o suficiente para nunca usar a palavra acusação.
Seraphine.
Conspiração.
A coroa saberá.
Li de novo. E de novo. Até as palavras formais pararem de ser obstáculo e o conteúdo ficar nu.
A Isolde Velluwarg havia mandado uma acusação formal à coroa. Conspiração na morte de uma prima. A acusação era velada o suficiente para nunca ser provada falsa, específica o suficiente para nunca ser ignorada. O nome Rowenvald havia sido atrelado a traição. E a coroa havia enviado alguém para resolver.
Minha mãe guardou essa carta.
Por quanto tempo? Por que não fugiu? Por que ficou em Sitári sabendo que isso podia chegar, com os filhos dentro de casa e os filhos que não sabiam de nada?
A resposta chegou antes de eu terminar a pergunta.
Por causa de nós.
Por causa de mim.
Por causa do irmão caçula aprendendo a andar. Da irmãzinha que ria de coisas que ninguém mais via. Do filho mais velho que achava que era um prodígio e que saiu furioso pela porta da frente na noite anterior sem olhar para trás.
Ela sabia.
Sabia que a carta havia chegado. Sabia o que a carta significava. E ficou.
A carta amassou na minha mão antes que eu percebesse que estava apertando.
A raiva não tinha forma ainda. Era só calor — no lugar onde a mágoa e a injustiça e a impotência ficam quando não têm para onde ir. Eu queria gritar mas já havia gritado tudo. Queria atacar alguma coisa mas não havia nada. Queria que alguém fosse responsável de um jeito que eu pudesse resolver agora, neste quintal, neste momento.
Mas a Isolde estava na capital. O herói da espada estava em algum lugar que eu não sabia. E o deus que havia deixado isso acontecer estava em algum lugar que ninguém alcança.
— É sua culpa — disse eu para o nada.
Para a carta. Para o céu cor de manhã cedo que não sabia que não deveria ser cor de manhã cedo. Para a cinza ao redor dos meus pés.
A voz saiu rouca e pequena e não era suficiente. Nada era suficiente. O mundo inteiro não era suficiente para conter o que eu estava sentindo, e ainda assim eu estava ali, entre os escombros da casa onde cresci, com uma pedra fria na mão esquerda e uma carta amassada na direita.
Apertei a pedra.
Apertei a carta.
O sol da manhã batia com aquela indiferença de sol que nasce todo dia independente do que aconteceu na noite anterior.
E não havia nada mais para fazer exceto continuar respirando.
Porque a alternativa era a única coisa que eu não me permitia considerar.
Não ainda.