Canção de ninar
— Que inferno é isso?! — Baruk, assim como os demais, teve um surto com a abertura repentina da porta, sentindo os pelos dos braços se arrepiarem.
Um cheiro de mofo forte veio como um vendaval, fazendo os quatro arregalarem os olhos, prontos para o que estivesse por vir. Mas nada aconteceu.
Arthurn já não tinha mais a cabeça iluminada; perdera a concentração com o susto da porta se abrindo, segurando com força a panela em sua cabeça. Felizmente, a sala à frente possuía algum tipo de luz natural, permitindo que o jovem enxergasse melhor.
— O que são essas caixas? — perguntou Ness, com a voz trêmula.
As “caixas” às quais ela se referia eram grandes caixotes de pedra, com mais de um metro de altura, dispostos em fileiras. O ambiente era abafado, tomado por fungos de várias cores e formatos, que cresciam em todas as frestas possíveis. A luz vinha de pequenas velas dispostas acima dos caixotes, iluminando um tablado de pedra com escritas cunhadas.
— Não são caixas — corrigiu Elara, fazendo uma pausa. — São lápides.
— Ih… — Ness tremeu de medo.
— Lápides? — Arthurn perguntou à colega.
— É onde guardam gente mor… — começou Baruk, intrometendo-se, mas Elara o interrompeu rapidamente:
— É… é quando as pessoas ficam muito cansadas e decidem dormir aqui — improvisou Elara, evitando usar a palavra “morte”.
— Ah…! — respondeu Arthurn, ingênuo.
Além das lápides, a sala possuía prateleiras esculpidas na pedra, onde uma gama de objetos estranhos estava disposta, conferindo certa personalidade fantasmagórica ao local. Do outro lado, a sala seguia para uma passagem lateral.
— Eu estou sentindo alguma coisa… — murmurou Ness, apontando para a passagem além das lápides. Ela abraçava o próprio corpo, tremendo de frio — ou talvez de medo. — A gente não vai entrar lá, né?
— Se a gente quer salvar a outra criança, precisa seguir em frente — disse Baruk com firmeza, apoiando o bastão improvisado no ombro.
Elara caminhou devagar pela sala, examinando as inscrições nas lápides e os objetos que estavam ao lado.
— Aqui estão todos da família Darkmore — disse a elfa, parando diante de uma lápide e lendo em voz alta: — “Tully Darkmore, um pai justo e honrado.” — Ao lado, repousava um retrato de um humano esbelto, moreno, com uma pinta em uma das bochechas.
— Olha, tem até o retrato de uma menina mais nova — disse Ness, inclinando-se sobre a tumba do outro lado. — “Pequena e amada Brienês Darkmore.” Ela também tem uma pinta na bochecha — apontou Ness.
— Bem… — Elara levou a mão ao queixo. — São sete lápides.
— Nossa, você é realmente um gênio, cabelo branco — provocou Baruk, impaciente. — Ela sabe contar, pessoal!
Arthurn sorriu e começou a bater palmas, orgulhoso.
Elara fez cara feia. — Eram oito pessoas no quadro da família Darkmore, lá na sala do piano. E aqui temos só sete.
— Tá… e daí? — disse Baruk, sem fazer o menor esforço para entender.
— Então a mulher que a gente viu… Madame Evelyn… é a última viva, certo, Elara? — completou Ness.
— Tá, e o que isso ajuda em alguma coisa? — perguntou Baruk, pela primeira vez demonstrando interesse.
Vendo com mais calma, o túmulo de Brienês Darkmore era um pouco mais curto que os demais. Além de objetos infantis, um pequeno retrato estava exposto ao lado da lápide. Era uma garota magra de olhos grandes; tinha a pinta na bochecha como os demais da família, mas possuía um certo ar de inocência.
— Acho que essa família sofreu algum tipo de maldição… ou algo assim — disse Elara, pensativa, analisando que Brienês morreu jovem, não muito tempo depois da pintura.
— Gente… não querendo interromper — disse Ness, olhando em volta como uma coruja — mas… onde está o Art?
Foi só nesse instante que perceberam que Arthurn não estava mais na sala com eles. Baruk se agitou, virando a cabeça para todos os lados. Ness correu até a porta por onde haviam entrado e gritou o nome do garoto. Elara, por sua vez, tentou se concentrar em sua visão mágica, mas o campo de aura estava completamente distorcido no lugar. Algo muito grande e poderoso estava próximo.
— Cabeçudo! Onde você está?! — berrou Baruk.
— Art? Você foi por aí? — chamou Ness.
Os três se entreolharam, apreensivos.
— Ele deve ter seguido por aquele caminho — disse Elara, apontando para a passagem. — Melhor a gente correr!
Baruk disparou pela passagem.
— Vamos, Ness! — disse Elara, puxando a mão da amiga e correndo atrás de Baruk.
A passagem finalmente se abriu, dando para uma sala ampla, de teto baixo. Diferente da sala das lápides, esta não tinha o mesmo esmero nos detalhes; parecia ter sido escavada diretamente na terra. As paredes terrosas eram úmidas e escorriam água, tornando o ambiente insalubre.
À sua frente, Baruk viu Arthurn parado de costas. Ele olhava para cima, quase deixando cair a panela, observando fixamente uma grande cápsula branca que levitava a alguns palmos do chão.
— Ei, pirralho! Por que você sumiu assim? — Baruk chamou o garoto.
— Ah… — Arthurn basicamente ignorou a presença do colega.
A cápsula tinha forma arredondada e parecia feita de algum material branco desconhecido das crianças; era como um objeto único, sem emendas ou ranhuras, balançando lentamente como se estivesse dando pequenos pulinhos no ar. Mas algo parecia não estar certo; uma tênue fumaça azulada saía de dentro da cápsula como em uma panela de pressão.
— Ei, Baruk, por que não esperou a gente? — Elara e Ness chegaram quase tropeçando. As duas, então, avistaram Arthurn e a cápsula, enquanto Baruk empunhava seu bastão, aproximando-se com cautela.
— Ih… O que está acontecendo? — murmurou Ness, assustada.
A fumaça azul se intensificava. Ness e Elara encararam a cápsula com atenção: era nítido, para ambas, que aquela fumaça tinha origem mágica — embora não parecesse agressiva ou querer causar mal.
— Ele está pedindo ajuda — o comentário de Arthurn surpreendeu a todos.
— Como assim, Art? — perguntou Ness, aproximando-se do garoto, passando por Baruk, que ainda mantinha postura de combate.
Arthurn parecia diferente. Seus olhos verdes claros agora brilhavam num laranja incandescente, como se enxergassem muito além da visão normal.
— Que fumaça é essa? — Baruk segurava firme seu bastão.
— Acho que ela não quer nos fazer mal, Baruk. — Elara se aproximou da cápsula, estendendo uma das mãos e tocando a fumaça azulada. — Você consegue entender, Arthurn? — perguntou, olhando para o garoto.
— Ah… não sei — Arthurn respondeu confuso, voltando a puxar a panela em sua cabeça, enquanto seus olhos voltaram ao tom verde natural.
Quase como uma panela liberando a pressão, a fumaça azul exalou com força da cápsula, fazendo Arthurn e Elara darem um salto para trás. Baruk ficou ainda mais tenso, segurando firme o pé da mesa, enquanto Ness observava, fascinada.
— Vocês estão ouvindo? — perguntou Ness.
— O quê? — Baruk olhou ao redor, tentando entender o que ela queria dizer.
— Esta música! — disse Ness, sorridente.
Baruk franziu a testa, confuso, enquanto a elfa começava a balançar levemente no próprio eixo, como se dançasse ao som de algo que somente ela ouvia. No mesmo instante, Arthurn começou a bater palmas em uma sincronia ritmada, como se estivesse acompanhando notas musicais.
— Que merda é essa?! — Baruk esbravejou. Sentia-se deslocado. A frustração começou a fervilhar dentro dele; parecia ser o único que não compreendia o que estava acontecendo.
— É música, Baruk. Ele está cantando — disse Elara, com um leve sorriso, balançando a cabeça levemente.
— Parece que faz anos que eu não me sentia tão alegre! — Ness girou sobre os pés, dançando com mais energia.
— Vocês estão ficando loucos! — rugiu Baruk. Mas então… ele também começou a ouvir. Primeiro um som leve, quase um sussurro, depois uma melodia rítmica, que crescia em intensidade a cada segundo.
Era uma sensação estranha. Os quatro estavam em uma missão de resgate, com a adrenalina à flor da pele e um medo intrínseco ao desconhecido, mas não imaginavam presenciar uma espécie de espetáculo mágico. Agora, todos sentiam um turbilhão de emoções — felicidade, aconchego e um leve frio na barriga que dava o toque final para aquele mix sensorial.
A fumaça azul foi ganhando corpo, perdendo o aspecto enevoado e assumindo uma forma mais selvagem — quase como se estivesse envolta em água do mar. Ondulações ritmadas se formavam, e as cristas dessas ondas pareciam carregar notas musicais.
Os quatro se viram dançando. Ness e Elara, como damas em um baile formal, giravam graciosamente, como se usassem saias esvoaçantes. Arthurn seguia um ritmo acelerado, balançando os braços de um lado para o outro com um sorriso largo. Baruk, embora mais resistente à experiência, observava a cápsula com atenção, mas não conseguia evitar de balançar a ponta dos pés.
— É… Até que gostei — exclamou Baruk.
Foi então que a música cessou abruptamente, como se o último som tivesse sido um grande ronco.
— Ah, pena que acabou — murmurou Ness, decepcionada.
— Ah… — resmungou Arthurn.
— O que foi isso? — perguntou Baruk, ainda atento.
Os quatro se agruparam diante da cápsula.
— Acho que fomos, de certa forma, enfeitiçados... como se a música despertasse um sentimento específico. Felicidade — disse Elara.
— É ela, não é? — continuou Ness. — A outra criança...
— Acho que sim, Ness — confirmou Elara.
— O que a gente fez? — perguntou Arthurn, olhando para os outros.
— Bem, se esse carinha tentar enfeitiçar a gente de novo, eu desço a lenha nele — disse Baruk, empunhando o bastão.
— Acredito que ele não quer nos fazer mal — respondeu Elara, observando a cápsula. — Ness, me ajuda aqui.
— Tá — respondeu a elfa. As duas começaram a circundar o objeto flutuante, até que Nessaldom notou algo diferente marcado no casco da cápsula.
— Aqui, pessoal! — disse, apontando para um ponto alto demais para alcançar. — Me dá uma mão, Elara.
Elara se agachou, entrelaçando os dedos em forma de apoio. Ness apoiou os pés e foi erguida com esforço. Por pouco, conseguiu alcançar o que parecia ser um botão. Ao tocá-lo, a superfície afundou suavemente.
Com um estampido, novas marcações surgiram. O que antes era uma superfície lisa agora revelava uma espécie de boca. A cápsula, então, rotacionou, ficando em posição horizontal quase como uma cama em formato cilíndrico, até que um novo estalo soou e a cápsula começou a se abrir lentamente, como se estivesse sendo destampada.
Com o coração na boca e o nervosismo à flor da pele, os quatro se alinharam à frente da cápsula. Arthurn agarrava novamente as vestes de Ness, que levava uma das mãos à boca, roendo a unha. Baruk mantinha o bastão erguido, pronto para agir. Elara canalizava sua aura mágica para um dos braços, preparada para disparar uma fagulha.
A cápsula finalmente se abriu por completo. Nesse mesmo momento, enquanto os quatro garotos encaravam quem estava lá dentro, uma sensação de alívio percorreu seus corações, desarmando-os completamente.
Lá estava um garoto corpulento, de cabelos cacheados, volumosos e castanho-escuros. Era robusto e atarracado, tinha mais ou menos a mesma altura que as elfas e ostentava uma barbicha considerável para a idade. Vestia as mesmas roupas dos demais — pijama branco e chinelos — mas, em comparação, estava limpo e bem cuidado, como se fosse novo. O que mais chamou a atenção dos quatro foi que o novo garoto roncava pesadamente.
— Ele é um... — Ness o encarava com os olhos vidrados.
— Um anão — disse Baruk, curioso, atraindo o olhar dos outros.
— É mesmo, ele é um anão — confirmou Elara, se aproximando com cautela. — E está... — observou mais de perto — dormindo profundamente.
— O que é um anão? — perguntou Arthurn.
— São tão fortes quanto eu, só que mais baixos — falou Baruk com um tom de admiração, embora não soubesse explicar exatamente o porquê.
O garoto continuava lá, deitado dentro da cápsula, dormindo profundamente e roncando alto — quase como se assobiasse de forma cômica. Ness jurou ter visto um fio de baba escorrendo pelo canto da boca do garoto.
— Oi, garoto, você está aí? — chamou Arthurn em voz alta. — Tem um monstro aqui!
— Será que não seria melhor a gente simplesmente levar ele embora? — sugeriu Elara ao grupo.
— Vai sobrar para mim, né? — resmungou Baruk, fazendo cara feia.
— E se a gente jogar água na cara dele? — perguntou Ness, ainda observando o garoto.
— Acho melhor não acordá-lo — advertiu Elara. — Tem muita coisa acontecendo... E se ele se descontrolar como... — ela lançou um olhar para Arthurn — pode ser pior. Melhor a gente já estar fugindo daqui.
— E a gente ainda vai ter que descobrir como — completou Baruk.
Mais uma vez, os três — Baruk, Elara e Ness — discutiam o que fazer, deixando de lado o pequeno Arthurn, que agora olhava fixamente para o garoto. Decidiu então cutucar-lhe as bochechas.
— Oi. Tem alguém aí! — disse.
Os três se viraram ao vê-lo perturbar o novo garoto. Quando Elara cogitou protestar, para impedir que Arthurn o acordasse, Baruk foi mais rápido:
— Ei, moleque! Tu só faz merda! — advertiu Baruk, deixando Elara aliviada… até que:
— É assim que se faz! — Então, o orc puxou fôlego e gritou com todas as forças: — ACORDAAAAA!!!
Elara arregalou os olhos em espanto, Ness tapou os ouvidos e até Arthurn deu um salto.
— Eita... eu dormi? — Para espanto de todos, o garoto — o anão de cabelos ondulados — falou de supetão, despertando de seu sono profundo. Os quatro se agruparam, encarando a nova criança que se levantava da cápsula metálica.
— Sempre falam que eu sou sonâmbulo. Vocês escutaram alguma coisa? — perguntou ele, sorridente, olhando para os quatro.
— Falando nisso... — começou a observar o local ao redor — vocês moram aqui?
— Não — respondeu Elara, com certa frieza.
— Ah, ainda bem. Já ia começar a questionar seus gostos — respondeu com humor.
— A gente veio te tirar daqui — Baruk se adiantou, apoiando o bastão no chão.
— Pode guardar isso aí, garotão — disse o anão, olhando fixamente para a arma do orc. — Então devo me apresentar aos meus heróis.
Ele saltou da cápsula, ficando de frente para os outros quatro, e falou em tom cantante:
— Meu nome é Dirgah. Ao seu dispor! — finalizou com uma reverência, como se estivesse encerrando uma peça de teatro.