O Caçador observava.
De seu poleiro, aninhado nas cinzas a cem metros de distância, ele tinha uma visão clara. A noite havia chegado, e com ela, o calor. O ar ondulava, e o céu carmesim pulsava, mas para seus novos olhos, adaptados à escuridão, a presa estava perfeitamente iluminada.
Ele a observou por horas, a paciência uma ferramenta recém-adquirida, afiada pela sua nova mente. A criatura — sua presa — era um ser de rituais bizarros e ineficientes. Ele a viu emergir de seu buraco de concreto. Ela se moveu com um propósito sem sentido para o caçador, coletando tiras de carne seca de um varal improvisado. Ela verificou um recipiente estranho, também feito da carapaça de cinzas, derramando água de um cantil de couro nele. Ela se sentou por um longo tempo, mexendo em pedaços de madeira e osso, aparentemente fabricando mais daquelas varas inúteis que ela chamava de armas.
E então ela fez a coisa mais estranha de todas. Sentou-se no chão, abriu um "livreto" de couro em algum tipo de ritual bizarro, e começou a... arranhar. Com um graveto, ela fazia marcas metódicas na superfície das páginas de couro. O Caçador inclinou a cabeça, sua nova mente se esforçando para processar a informação. Não era uma arma. Não era comida. Não era um abrigo. Era um ato sem propósito biológico. Um desperdício de energia. E, por isso mesmo, era a coisa mais irritante e fascinante que ele já havia visto. Aquela criatura não apenas sobrevivia; ela desperdiçava tempo, algo que nem ele ousava fazer.
Sua observação foi animada, um prazer visceral correndo por suas veias. Cada movimento dela era um dado para sua equação de caça. Ela armazena comida ali? Ela depende daquele poço de água? Ela gasta tempo com rituais inúteis... Ele traçou mil planos. Poderia esperar que ela saísse para caçar e emboscá-la em terreno aberto. Poderia usar sua nova montaria para atropelá-la. Ou poderia simplesmente entrar lá e matá-la.
Mas a memória da dor em seu ombro o deteve. A memória de seus ninhos vazios. A soberba havia sido queimada de sua mente, substituída por um rancor frio. Ele não a mataria. Primeiro, ele a encurralaria. Ele a desmantelaria. Ele a entenderia.
Ele olhou para o céu, para as nuvens de fogo que se fechavam. E pela primeira vez em sua curta e gloriosa vida, sua nova mente processou a vastidão. O calor opressor. A luz carmesim sem fonte. Ele não era o ápice. Ele era um grão de poeira em uma fornalha. O pensamento o encheu de um pavor existencial que ele nunca havia conhecido. Um pavor que rapidamente se solidificou em mais fúria. Ele odiava aquele lugar. E odiava aquela criatura por fazê-lo pensar sobre isso. Ele iria saborear a carne, dor e sons de agonia dessa presa por isso.
***
Dentro da toca, o calor era sufocante. A base de Agnes era um triunfo da engenharia infernal. Um espaço cúbico de 4x4x4 com paredes, chão e teto meticulosamente fundidos em seu concreto de cinzas e aglutinante. O ar cheirava a poeira seca, minerais e o leve odor de batata dos cipós de raio que formavam a viga de suporte central. Em um canto, um colchão de couro recheado de plumagens de pássaros servia como cama, algo que Agnes valoriza mais do que até mesmo a sua atual casa, afinal, já perdeu tantas que mais uma não faz muita diferença, já o colchão...
Centralizado em uma das paredes, o esqueleto bizarro parecido com uma girafa de uma criatura que ela ainda não havia identificado estava sendo montado, destinado a se tornar a estrutura de um forno de alta temperatura.
Móveis básicos, feitos de ossos e couro trançado, pontilhavam o espaço: uma mesa de trabalho, prateleiras. Mas seu maior orgulho (além de seu colchão) era o "resfriador". Uma estrutura complexa de ossos de aves, naturalmente porosos, empilhados em uma treliça. A água pingava lentamente de um reservatório de concreto acima, evaporando nos ossos quentes e sugando o calor do ar. Era um sistema rudimentar de refrigeração por evaporação, mas baixava a temperatura do abrigo em pelo menos dez graus, mas principalmente, também servia como chuveiro.
Ela estava recarregando o reservatório para a longa noite quente como sempre, quando ouviu.
Não foi um som. Foi uma sensação. Um zumbido agudo em seus ouvidos, uma frequência que nenhum humano poderia ouvir, mas que seu novo corpo de diabrete registrava como um grito. O alarme.
Seu coração disparou, mas o pânico não a dominou. Ela treinou para isso. O alarme era sua maior conquista: um pequeno aparelho, escondido do lado de fora, feito de um fio de liga de metal refinado (um processo infernal que envolveu a centrifugação de litros de sangue de várias bestas para separar os metais pesados) e um crânio de morcego, que tinha uma fina estrutura óssea que vibrava ao menor som. Quando uma criatura de grande massa passava por perto, o crânio vibrava emitindo a onda pelo fio de metal até o interior da casa de Agnes, som ultrassônico que apenas ela podia ouvir ecoava por toda casa.
Algo estava lá fora. E era grande o suficiente para perturbar o aparelho.
Ela se moveu com uma eficiência fria, a engenheira dando lugar à soldado mal treinado, porém bem calma. Primeiro, os "Molotovs". Potes de concreto selados com resina, cheios de metano líquido destilados de esterco de besta-rocha fermentado, facilmente encontrados pelo deserto. Um processo nojento, mas o líquido era altamente inflamável. Não mataria, mas cegaria e espantaria. Ela pegou três.
Em seguida, a armadura. Ela vestiu sua nova túnica, a camisa folgada de couro curtido e a saia de folhas de cipó, e por cima dela, as placas. O couro elástico do gorgorejador, cuidadosamente moldado e endurecido, cobria seu peito, ombros e antebraços. Era leve, mas incrivelmente resistente, além de duas aljavas pequenas, contendo virotes e os três potes explosivos.
Finalmente, as armas. A besta atiradora, sua obra-prima, estava pronta, um virote com ponta de bulbo de raio já engatilhado. Em suas costas, ela afivelou sua nova lança. Não era mais uma vara afiada; era um arpão. A ponta era um esporo pontiagudo de um cogumelo gigante esquisito — um material estranhamente flexível, quase como aço — que ela encontrou crescendo nas profundezas do deserto de cinzas criando uma impressionante floresta pontiaguda e mortal.
Ela estava pronta… o mais pronta que ela conseguia. Mas não iria lutar ali. Aquele era o seu lar. Era uma fortaleza, não uma tumba.
Ela correu para um canto escuro de seu quarto e puxou um tapete de couro, revelando um alçapão de cipó trançado. Ela o abriu. Abaixo, a escuridão era total. O túnel. Durante a escavação de sua base, ela havia invadido os restos de um verme gigante fossilizado, algo que fez Agnes questionar a segurança de se fazer uma base subterrânea.
O túnel de seu corpo petrificado se estendia por centenas de metros abaixo do deserto, provavelmente levando a lugares perigosos, mas por alguma sorte o fim daquele túnel era específicamente na base de Agnes, assim as coisas só virão e única que poderia sair era Agnes, se é que fazia algum sentido, mas de qualquer forma, o túnel servia de entrada e saída principais enquanto a entrada de cima servia como uma “saída de emergência/armadilha”.
Sem hesitar, ela mergulhou na escuridão, fechando o alçapão acima dela.
O silêncio era absoluto. O cheiro era de terra antiga e minerais. Ela não precisava de luz. O túnel, com sua estrutura tubular e paredes lisas, era um amplificador perfeito para sua audição ultrassônica. Com uma série de cliques baixos de sua cavidade nasal, o mundo se iluminou em sua mente em ecos fantasmagóricos, ela ainda preferia ter um nariz normal, mas não vai questionar o que a natureza já havia dado. Ela "via" cada curva, cada pedra solta… Talvez cheirar seria o termo correto… ‘anotação mental, seria ouvir com o nariz ou cheirar o som?’ pensa Agnes, entretida com tal pensamento.
Ela já havia percorrido esse caminho dezenas de vezes, preparando-o para este exato momento. O túnel era sua rota de fuga principal.
Mas desta vez, algo estava errado.
O eco de seus cliques retornou... diferente. Havia uma interferência. Uma forma que não deveria estar ali. No meio do túnel, a cinquenta metros de distância, uma silhueta estava parada. Humanoide. E usava... uma lança.
Um arrepio de puro terror a percorreu. Ele a conhecia. Ele sabia de sua fuga, mas principalmente, só uma espécie além dela usava lança. Ratos! Aqueles ladrãozinhos de uma figa, e ainda mandaram o maior deles atrás de mim!
Não havia tempo para pensar. Ela se virou e correu de volta para o alçapão. Atrás dela, ela ouviu o som de garras batendo na pedra. Estava vindo.
Agnes correu, o pânico alimentando sua velocidade. Ela pegou um dos Molotovs de seu cinto, o pavio, feito de fibras embebedadas de suco de bulbos verdes que quando entrava em contato com o líquido dentro do pote, liberava pequenos feixes de raio. Jogando o pote para trás no túnel, o pote de quebra misturando os fluidos e gases junto com as fibras carregadas de raio. A explosão de metano foi um fuum alto, enchendo o túnel com chamas. Ela não parou para olhar. Chegou à escada improvisada, pulou por cima de uma fina cordinha de gatilho perto da base e subiu.
Quando seus pés bateram no chão de concreto de seu abrigo, ela puxou a corda com força.
Atrás dela, no túnel, uma série de bulbos de raio "verdes", cuidadosamente amarrados ao teto junto a potes explosivos, foram perfurados por agulhas de osso. A energia elétrica contida neles se misturou com os vapores de metano dentro do pote. O túnel se encheu de uma luz branca e ofuscante. O som foi ensurdecedor, uma explosão que fez o chão de sua base tremer e quebrou sua panela de cerâmica cheio de cozido de carne pelo chão. O túnel de fuga havia desmoronado.
Ela estava segura. Mas temporariamente presa. Uma dor aguda encheu seu peito. A perda de recursos era imensurável. Tantas granadas explosivas, semanas de preparação para aquela rota de fuga, tudo perdido. Ela teria que cavar uma nova passagem, e...
CRACK.
O som não veio do túnel. Veio de baixo. Do alçapão.
Com uma violência explosiva, o alçapão de cipós trançados foi quebrado. Uma criatura bizarra, parecida com uma formiga gigante com uma carapaça negra e brilhante, forçou sua entrada. Ela abriu suas mandíbulas, e um líquido verde e fumegante saiu de sua boca, atingindo o chão de concreto. O material derreteu como plástico, enquanto as cinzas soltas ao redor dele se solidificaram instantaneamente. O inseto a olhou, os olhos multifacetados estavam vazios de pensamento além da predação.
Agnes não hesitou. A besta atiradora subiu. O gatilho clicou. O virote de bulbo de raio voou. Rápido e implacável, ele atingiu o crânio de quitina do inseto. Houve um pequeno estalo elétrico, e a criatura desabou, morta em convulsões pelo efeito dos raios.
Agnes olhou para o buraco quebrado, seu coração batendo como um tambor. Aquilo não era o caçador. O caçador... o caçador tinha amigos? E principalmente, eram realmente ratos?
***
O Caçador observava, a mente uma colmeia de atividade. Ele havia usado uma estratégia básica: expulsar a presa do ninho. Abriu um bolsão em sua montaria, um órgão de gestação cheia de matéria orgânica envelopada em cascas, basicamente ovos, ele os devorou como uma cobra. Seu estômago expandiu-se e, de forma repugnante, ele regurgitou dois grandes ovos. Eles eclodiram imediatamente.
O primeiro, uma versão menor de si mesmo, bípede e com garras, mas sem armadura. Sua persona junto de uma versão simples de sua lança. O segundo, um escavador, um inseto com glândulas de ácido e muito parecido com um cupim. Nascidos sem mente com apenas sentimentos primitivos como guia, eles aguardavam ordens.
Através de uma conexão neural que ele não entendia, mas controlava, ele deu as ordens. A persona foi enviada para a entrada da caverna. O inseto foi enviado para escavar por baixo, para uma emboscada caso a persona falhasse. Logo começaram seus movimentos.
O feedback veio depois de alguns segundos. A persona relatou uma armadilha óbvia na entrada principal, espinhos que cheiravam a veneno ocultados em montes de cinza além da vaga sensação de eletricidade passando pelos cipós ao redor de forma anormal.
O inseto relatou uma estrutura de túnel oca, de origem biológica, conectada à base.
Interessado pelas várias formas de escapar de sua Presa. Ele ordenou à persona que entrasse no túnel. Ordenou ao inseto que continuasse sua operação.
O mini caçador se moveu pela escuridão do túnel. Sua estrutura interna foi projetada para percepção e silêncio. Ele "viu" o alvo no momento em que ela acendeu o Molotov, o calor foi irritante e doloroso e teve que fechar os seu olhos sensíveis a luz devido ao forte brilho. Ele notificou seu criador: Alvo localizado. Perseguindo.
Ele correu. A presa era rápida, mas ele tinha certeza de que poderia alcançá-la e se preparou para lançar sua lança. E então, ela pulou por cima de algo. Uma armadilha.
Sua última visão foi uma luz branca e ofuscante que queimou seus olhos. Sua última sensação foi seu corpo paralisando, a energia do raio sobrecarregando seu sistema nervoso, e então o fogo o consumindo. Ele mal notou a própria morte.
***
O inseto terminou seu trabalho. O túnel que ele estava seguindo havia desmoronado, matando seu colega. Um sentimento autoimposto de realização o invadiu. A glória seria somente dele. Ele avisou seu criador: Começando o ataque.
Ele avistou a passagem no teto – o alçapão escondido no que restou do túnel. Com animação, ele destruiu a barreira de cipós. Queria ver o medo no olhar de sua presa. Ele olhou para ela. E viu apenas um estranho esporão voando em sua direção.
O virote invadiu sua cabeça. Ele ficou cego. Depois, surdo. E então, não conseguia mais pensar. Seu corpo ainda estava vivo, feito para durar, mas seu criador nunca pensou que a cabeça, sua parte mais resistente e responsável por comandar o corpo, seria o primeiro a ser destruído.
O Caçador absorveu as visões e sentimentos de suas proles fracassadas. A fachada do ninho, agora visível, havia se tornado um carnaval de raios e fumaça. E a visão de sua presa... vista pelos olhos do inseto...
Ele a havia visto ao longe, mas agora... era clara. Uma criatura pequena, bípede, meio curvada, com uma face com características de filhote. Ela estava vestida com uma estranha combinação de proteções que não faziam sentido tático. Ela segurava uma nova arma e sua lança também parecia diferente da que perfurou sua carne. Ela estava em um ninho estranho, cheio de armadilhas. Ela estava fora de tudo que ele imaginava.
Ele estava enlouquecido.
A fúria primitiva para matar foi substituída por algo novo. Uma necessidade mais profunda. Ele precisava entender. O que ela faz? Do que ela é feita? Como ela pensa? E... por que ela pensa?
Mas, acima de tudo, um sentimento visceral, vindo do núcleo de seu ser, o dominou. Ele precisava de sua carne. Era natural. Era o próximo passo para a perfeição. Consumi-la não era mais uma caçada; era uma ascensão, como se um ser maior o guiasse.
Ele iria caçar.
O Caçador segurou firme sua lança-viva. Sem se preocupar com os raios que ainda caíam, sem se preocupar com as armadilhas que ela poderia ter, ele correu. Correu em direção ao buraco fumegante no chão. Correu em direção à sua presa em seu ninho, era agora, sem mais contratempos. Ele iria caçar.
(Fim do capítulo)...
Alto, muito acima, no pináculo do osso do leviatã, uma criatura estava aninhada. A grande ave que governava aquela carcaça, que se alimentava das tempestades, esperava o começo da chuva de raios para se alimentar. Mas um cheiro novo atingiu suas narinas. O cheiro de uma presa específica. Um metamorfo.
Ela olhou para baixo, para a base da carcaça. Viu o brilho dos raios da armadilha de Agnes. E viu a forma escura do Caçador correndo em direção a ela. O seu Lorde, o mestre supremo e seu criador, havia dado uma ordem clara: todos os metamorfos, todas as criaturas que mudavam de forma e roubavam poder, deveriam ser eliminados sem exceção.
A ave viu uma chance. Uma recompensa de seu Lorde. E um lanchinho antes do prato principal.
Suas vastas asas carmesim se abriram, e raios vermelhos começaram a se formar entre suas penas. Ela mergulhou do topo da carcaça, uma queda livre sem medo iluminando a escuridão profunda no processo.
As poucas criaturas da noite que ainda estavam acordadas tremeram de medo. Um deus estava descendo. E traria destruição essa noite.