Aquele deserto cinzento fedia a ozônio e morte… mais do que de costume. O céu, antes uma maravilha arco-íris, agora se preparava para mais um ciclo de tempestade de relâmpagos sobrenaturais. A cada clarão, o horizonte tremia quase como um efeito dominó causado pela armadilha deixada por Agnes. A casa estava em ruínas, mas o terreno ao redor havia se transformado num moedor de carne elétrico, disparando arcos de energia pura que estalavam contra o chão morto.
No meio dessa tempestade caótica, o Caçador não se movia. Ele era uma estátua de quitina negra. Na sua mão, a lança viva — sua arma suprema, criada e espelhada pela sua primeira derrota — contorcia-se. A ponta farpada de arraia raspava no ar, e o ferrão de escorpião estalava, pingando um veneno espesso e escuro. O Caçador fervia em uma fúria silenciosa. Seu alvo final, o prêmio pelo qual ele cruzou aquele inferno, havia sido roubado. Agnes foi devorada.
A ladra estava bem na sua frente. Uma ave colossal, uma monstruosidade de penas douradas que irradiava um calor capaz de distorcer o ar. O bico do pássaro brilhava como um sol enjaulado, uma centelha de algo que nem existia nesse mundo. Ela se achava uma divindade intocável. E por que não acharia? Naquela terra apodrecida, a ave não temia nada além do próprio chefe e da violência bizarra de seus pretendentes durante a época de acasalamento.
Para ela, o Caçador não era um assassino letal. Era mais um rato irritante andando no balcão da cozinha, prestes a ser torrado na boca do fogão. Ela tinha a missão de matá-lo, mas tratava isso como um mero incômodo rotineiro.
O Caçador discordava. Ele não tinha chegado aqui à toa, uma máquina de abate moldada por cada presa devorada e vontade de ser o melhor! Sob as placas de seu exoesqueleto, válvulas orgânicas se abriram. Ele comprimiu o ar em suas pernas, misturou com a força elástica de seus músculos modificados e disparou.
Foi como o estouro de um canhão. O chão cedeu. Ele cruzou o espaço tão rápido quanto os raios que rasgavam o cenário e cravou as garras diretamente no peito em chamas da ave como se fosse um carrapato em um mar dourado de penas.
A escalada começou. O calor era absurdo, fritando a carne por baixo da armadura, mas o Caçador ignorou a dor. Ele atacou com tudo o que tinha. Girou a lança e fincou o ferrão entre as penas de ouro, injetando toxinas necróticas o suficiente para apodrecer um batalhão. Não funcionou. Ele retraiu o pescoço e cuspiu um jato denso de ácido corrosivo direto na base das asas. Inútil. A biologia daquele monstro era o ápice da sua espécie. A carne se curava antes mesmo de sangrar; as penas mal se danificavam, repelindo o dano com uma facilidade que beirava o deboche.
Faltavam opções. O Caçador acionou o mecanismo de suas placas peitorais. Elas não serviam apenas como armadura leve; eram granadas de gás biológico. Ele as ejetou contra o corpo da fera e detonou. A explosão mal chamuscou o pássaro, mas o empurrão cinético lançou o Caçador dezenas de metros para cima. Ele se agarrou mais alto, mais perto da cabeça, mas percebeu a dura realidade: seus ataques normais eram completamente inúteis.
Enquanto isso, a ave mal sentia a luta. No auge do seu ego inflado, achava que as explosões eram apenas cócegas estáticas. Com um movimento preguiçoso do bico, ela sugou a energia elétrica da armadilha no chão e bateu as asas. O vento jogou cinzas para todo lado. Ela começou a voar. Seu destino era o prato principal: as nuvens de tempestade carregadas no céu escuro.
No rápido momento da subida, a ave teve um pensamento fútil. ‘Um metamorfo é mais gostoso cozido ou assado?’. Ela já havia trucidado vários, mas nunca teve paciência para preparar um. Talvez hoje fosse o dia do lanche especial.
A subida virou um pesadelo absoluto para o Caçador. A gravidade esmagava seus órgãos feitos para o combate. O vento supersônico arrancava lascas da sua carapaça. Quando mergulharam nas nuvens escuras, os raios líquidos de pura energia engoliam os dois.
A ave brilhava a cada raio que atravessava suas penas, enquanto o Caçador sentia o resto do seu corpo lamentar (com exceção das partes criadas à base do cipó-raio que pareciam vibrar em êxtase) todas as células do seu corpo pareciam ferver. A dor era cegante. Os músculos falharam. Para não ser jogado no abismo, ele fincou as próprias presas na carne da ave. Segurou-se com a boca. O calor era tamanho que seu maxilar começou a derreter, misturando osso, sangue e a quitina negra que escondia seu rosto insectoide.
No meio desse inferno sensorial, um flash chamou sua atenção. Não era um raio. Era um brilho pálido e rítmico vindo do interior do papo da ave. Um corpo pequeno e inferior… Sua presa! Agnes!
A raiva pura anestesiou a dor. O Caçador puxou o resto de suas forças e arrastou seu corpo derretido até a base da cabeça do colosso.
A ave finalmente parou de subir. Virou a cabeça gigante, pronta para abocanhar a iguaria encouraçada de uma vez por todas. Mas a arrogância cobra seu preço. Ela não percebeu que a lança viva do Caçador já havia rastejado pelo seu pescoço. Quando o bico se abriu, o Caçador puxou a haste da lança.
A arma orgânica se contraiu como uma jiboia de metal e osso, esmagando a traqueia divina porém pequena. A ave engasgou. O ar sumiu. O Caçador usou a lança enforcada como rédea, torcendo o pescoço do bicho. O voo perfeito foi quebrado. O pânico tomou conta da fera gigante enquanto eles começavam a despencar, rasgando as nuvens em uma queda livre mortal.
O chão de cinzas se aproximava rápido. Quando o impacto se tornou inevitável, o Caçador agiu. Ele largou a arma, impulsionou-se para longe do corpo do pássaro e rasgou as costas da própria armadura. Asas membranosas e escuras de morcego se abriram. Elas não o fariam voar de volta para as nuvens, mas frearam a queda abruptamente, permitindo que ele planasse para longe do caos iminente.
Como último ato, ele usou a conexão mental com sua arma. A lança foi criada com um propósito biológico autodestrutivo, uma explosão orgânica que deveria ter vaporizado Agnes, uma forma de devolver mil vezes mais o dano que ela lhe havia causado. Agora, não havia Agnes. Mas havia uma divindade engasgada.
A lança viva explodiu, arrancando metade do pescoço da ave em um show de sangue fervente e osso estilhaçado e principalmente sem salvação.
Segundos depois, o cadáver colossal atingiu o deserto. O impacto foi surdo, um terremoto de proporções impresionantes. O solo, fino e leve das cinzas, somando ao poder das explosões, desabou completamente. Um buraco descomunal engoliu a ave morta, arrastando o corpo, agora sem luz ou glória, direto para as profundezas desconhecidas daquele inferno.
O Caçador pousou. Dobrou as asas que voltaram para debaixo da quitina. Não houve grito de vitória. Não houve alívio em sua mente. Ele olhou para a fossa engolindo sua caça roubada e percebeu a dura realidade.
Ele estava vitorioso. Ele venceu um deus. E estava absolutamente vazio. Sem Agnes, não havia mais propósito ali. Ele deu as costas para a destruição e caminhou para longe, em silêncio. Neste mundo desgraçado, não havia mais nada além da próxima caçada.
(Fim da caçada)