Primeiro, veio a desorientação crassa. "Eu estava no meio do meu plano C planando sobre o céu, a sensação era incrível, mas agora a luz apagou e eu estou nessa escuridão úmida e nojenta… pera! Isso não é" O pensamento lógico de Agnes foi estilhaçado por um grito mudo e agonizante que rasgou seu caminho para fora de sua garganta.
AAAAAH!
Antes que pudesse processar a sua estadia dentro de um trato digestivo, uma corrente de alta voltagem fritou seu sistema nervoso central de uma só vez.
A dor não era apenas um choque elétrico padrão; era uma falha catastrófica e generalizada em toda a sua biologia. Os espasmos violentos e a sensação esmagadora do miocárdio entrando em colapso eram quase irrelevantes comparados a algo muito pior: a dilaceração interna.
O cipó-raio, o resto daquela praga botânica útil e amaldiçoada enraizada em sua carne, reagiu instantaneamente à energia bruta que inundava o papo da fênix dourada. Alimentado por toda aquela energia ela recomeçou seu crescimento caótico e incontrolável, o parasita começou a crescer em ritmo exponencial, rasgando órgãos e tecidos de dentro para fora com a agressividade de um tumor demoníaco.
E então, a forma frágil e desnutrida de seu corpo cedeu. Agnes morreu.
E, no segundo seguinte, ressuscitou. Apenas para morrer de novo. Foram cinco mortes consecutivas. Um ciclo fechado de tortura Física e mental. O sangue da fênix, inerentemente projetado para a ressurreição, agia como um desfibrilador cósmico bruto forçando a alma a continuar agarrado ao corpo mesmo que isso seja equivalente a tortura.
E graças ao ferimento fatal causado na garganta da ave a mesma começou a afogar em sangue que preencheu seu interior, isso forçou as células de Agnes a se regenerarem violentamente junto com as da ave, apenas para serem estilhaçadas pelo cipó elétrico em um loop que só terminou quando as raízes saíram do braço de Agnes e se enraizaram na ave de dentro pra fora.
Essa anomalia parasitária de dupla ligação anulou a capacidade da própria ave divina de renascer, drenando seu sangue divino até o limite absoluto. Quando a matriz energética da fera finalmente entrou em colapso irreversível, o interior da criatura se desfez em uma massa quente e eletrificada de pó dourado. Matando de vez o cipó-raio e salvando Agnes do paradoxo, mas a um custo absurdo da imortalidade do pássaro… (Agnes realmente não se importa com isso)
***
O oxigênio voltou aos seus pulmões em um tranco rasgado. Agnes estava no banheiro de sua casa. O azulejo frio nos pés, o cheiro de sabonete barato de lavanda, tudo “normal”... exceto pela falta de cipós prateados, poeira mágica ou aves deuses querendo matá-la.
Ela estava nua, enrolada apenas em uma toalha felpuda úmida, pisando descalça em cacos de um espelho estilhaçado pelo chão, e com uma sensação de dejavu que acendeu a vela da paranóia. Seu cérebro analítico disparou um alerta vermelho imediato. Com a bagagem de vídeos sobre sonhos lúcidos e testes de realidade da internet, ela elaborou uma verificação rápida: pegou a primeira ferramenta de escritas que ela viu (um batom) e tentou escrever o próprio nome na parede de cerâmica.
Uma desconexão física preencheu seu corpo inteiro. Era como se as sinapses não chegassem aos nervos periféricos; sua coordenação motora fina estava completamente corroída. O traço que deveria formar um "A" saiu como um borrão caótico. Ao mesmo tempo, uma dor aguda e latejante irradiou diretamente de seu braço direito.
Ela olhou para o membro e o terror visceral congelou seu estômago evitando um vômito sem igual. Uma flor alienígena, grotesca e pulsante, desabrochava rasgando sua carne, enquanto veias grossas e escuras (raízes) se infiltravam ativamente por baixo da derme enquanto causavam necrose dos tecidos. Elas mapeavam seu sistema vascular em tempo real, na tentativa agressiva de tomar o hospedeiro por inteiro. A lógica fria em sua mente gritou a única solução viável: amputar e extirpar. Agnes se abaixou desesperadamente para agarrar a lâmina afiada de um dos cacos de espelho, disposta a cortar o mal pela raiz.
Mas, ao fechar a mão rígida, o ambiente colapsou. A física do local quebrou. A gravidade inverteu e uma sensação de afogamento denso, como alcatrão invadindo as vias respiratórias, esmagou sua alma. "N- Hna...", ela tentou gritar a plenos pulmões, mas seus lábios só liberaram bolhas de ar espessas. O desespero escalou enquanto as raízes continuavam avançando sob a pele necrosando e a carne em uma infecção bizarra enquanto revelavam seus ossos brancos.
No pico absoluto do pânico, uma variável no cenário se manteve intacta: ela percebeu que a mão direita ainda apertava firmemente o tubo de batom. A constante provou a hipótese lógica. Aquilo era, sem dúvida, um sonho induzido pelo trauma físico. Agnes forçou seu controle sobre a sua própria mente. É mentira. Acorda agora.
A cada pensamento o mundo parecia tremer um pouco até que ela sentiu algo diferente…
Seu corpo esquentou levemente, foi estranhamente relaxante como se todas as suas preocupações fossem inúteis.
Então ela escorregou e bateu a cabeça na areia.
***
Agnes abriu os olhos. O silêncio ao seu redor era quase sepulcral, quebrado apenas por um chiado distante. A iluminação era terrível, tingida de um vermelho opressivo e doentio. Quando as pupilas finalmente dilataram, ela enxergou um céu prateado cravejado de estrelas vermelhas e rosadas, orbitando um sol rubro e pulsante no zênite.
Fascinante e profundamente bizarro, duas palavras com as quais ela já se acostumou. Uma análise visual rápida bastou para que sua mente treinada com livros de engenharia dissecasse a estrutura: não era um céu natural, mas uma cúpula geodésica colossal feita inteiramente de cipó-raio. As "estrelas" eram mais bulbos parasitários que cintilavam graças à tempestade. O "sol" brilhante no topo era, na verdade, um bulbo maior carnoso e translúcido abrigando um feto gigante e disforme do que parece ser um inseto, batendo no compasso de um coração arrítmico.
Antes que pudesse decidir se entrava em pânico ou voltava a dormir para ignorar o absurdo, um arrepio subiu por sua espinha. Uma sensação tátil roçou sua perna. Ela saltou para trás com um reflexo brusco. O chão sob ela era areia fina e úmida. Ela havia acordado no que parecia ser uma praia subterrânea. A água negra e límpida engolia a base de uma procissão silenciosa de dezenas de pequenos caranguejos marchando para o fundo.
A adrenalina do salto a fez perceber uma incongruência estrutural gritante na própria biomecânica. O centro de gravidade de seu corpo estava totalmente recalibrado. Seu esqueleto, antes estruturado em uma curvatura meio felina (em "C") que dificultava seu caminhar bípede, agora formava um "S" dinâmico e projetado para frente. Ela olhou para baixo e a ficha caiu, não dá forma que devia já que ela já tinha passado por isso quando veio parar nesse mundo.
Suas pernas haviam sumido, substituídas por espessas articulações digitígradas (patas escamosas de pássaro), terminando em uma pélvis remodelada e uma traseira coberta por uma camada de penas douradas flexíveis. O design é bem mais fofo do que a sua traseira ressecada anterior.
‘Eu acho que isso é uma cloaca, talvez eu sempre tenha sido um pássaro pra início de conversa, um bem feio… tipo o patinho feio’ sua mente fazia comparações com sua antiga forma de diabrete que também não possuía nenhum órgão reprodutor aparente.
As mãos, outrora secas e finas, agora eram revestidas de escamas rígidas de quatro dedos bem mais longos e equipados com juntas extras e garras bem mais lisas como uma opala como se tivessem saído de uma manicure. A estética era assustadora, mas era definitivamente mais confortável: a alavanca daquelas falanges oferecia uma precisão motora assombrosa para qualquer artesão.
O centro do rosto parecia mais denso. Ao tocar as feições, sentiu a queratina dura de um bico incipiente fundido à mandíbula, além de uma plumagem reluzente cobrindo a cabeça. Seu braço direito, o epicentro do horror no sonho, exibia apenas uma tatuagem cicatrizada que lembrava raízes queimadas a laser.
"Caramba, o sonho foi~ uhp."
Como de costume Agnes tentou falar, e quando algo que não fosse ruídos guturais ou palavras tremidas saiu, ela travou. A voz que vibrou de suas cordas vocais redimensionadas não era a dela. Era estridente, aguda e pateticamente infantil. O que antes era um bloqueio que a impedia de falar qualquer coisa sem parecer um demônio, agora resultava em falar com a cadência de uma criança do pré-escolar. Foi um golpe baixo no ego.
Suspirando fundo e aceitando sua nova carcaça aberrante, ela mapeou o terreno. O chão estava forrado de purpurina dourada brilhante — as cinzas mágicas do pássaro divino —, havia um bico decepado do tamanho de um carro ao seu lado, e um gigantesco túnel desabado no teto da abóbada mostrando de onde ela havia despencado.
Sem nada melhor para fazer e sentindo-se estranhamente saudável (na medida do possível), Agnes estalou os dedos escamosos e se preparou para explorar a caverna. Foi quando o som rascante de algo batendo na pedra ecoou atrás dela.
Ela girou sobre os calcanhares emplumados.
Saindo das sombras avermelhadas da costa, um caranguejo colossal, do tamanho de uma van, caminhava em sua direção. A criatura segurava uma longa vara entalhada que lembrava um cajado ritualístico em sua garra menor, enquanto sua pinça estava gravada com várias runas estranhas. Seus longos olhos pedunculados desceram, escaneando metodicamente a nova e bizarra estrutura aviária da garota.
O crustáceo estalou as mandíbulas, e uma voz antiga e incongruente ressoou:
"Olá, crianças. O que faz aqui no Mar das Almas?" Sua voz era velha e engraçada, como um palhaço fumante ou um demônio do sono famoso.
Diante de um crustáceo falante gigante, o ocultismo incompreensível do ambiente e a falha total da lógica física ao seu redor, o cérebro de Agnes simplesmente superaqueceu. O estresse acumulado acionou o disjuntor de emergência do novo corpo. Antes mesmo de pensar em elaborar qualquer teoria construtiva enquanto começa a correr, os joelhos invertidos cederam, e a engenheira desmaiou de bico na areia.
(Fim do capítulo)