A cartografia do Mar das Almas era como um lago gigante dividida em cinco domínios de desespero: a Costa Oculta, onde Agnes despencara; a Costa Sangrenta; a Costa Elegiva; e a Costa do Rei Escorpião. A quinta e última porção, que fica no centro do mar, é o destino de todos os seres vivos que buscam viver um pouco mais: a sagrada Outra Costa.
Quanto mais a marcha colossal de Go se aproximava do epicentro desse território, mais o ambiente se metamorfoseava, abandonando o vazio abissal para abraçar o caos da civilização medieval. O oceano escuro passou a fervilhar. Bandos de criaturas marítimas e abominações lovecraftianas migravam na mesma direção, aglomerando-se gradativamente até formarem um mercado flutuante e grotesco. Era uma favela aquática erguida sobre a miséria mútua e a vontade de viver.
Polvos de pele necrosada vendiam bolhas de água doce filtrada(e roxa) por dentes; feras terrestres de raças que pareciam ter saído de uma perversão de contos de fada consertavam embarcações feitas de ossos desgastados e couro apodrecido pela maresia e cipó-raio que se alastraram pelo casco como cracas, ou se entregavam à entropia dos prazeres carnais no que pareciam ser bordeis… Agnes não sabia já que muitos desses lugares eram dentro de criaturas vivas
“E essa é apenas a periferia, minha jovem” a voz rascante de Go reverberou, enquanto a multidão de bestas abria caminho à força diante da imponência do ser primordial. “Este lugar mimetiza uma cidade humana. As criaturas mais baixas fagocitam o poder das mais fortes, apenas um terço deles sobrevive á grande onda vivendo aqui mas esse lugar sempre fica cheio.”
No submundo, a audácia costuma ser um sintoma de desespero. Algumas mãos trêmulas e apêndices viscosos tentaram avançar contra a maré negra para agarrar os minúsculos filhotes que nadavam junto às patas de Go. Para o azar dos saqueadores, o caranguejo gigante era desprovido de misericórdia. Quando um ser anfíbio, semelhante a um sapo vermelho superdesenvolvido, saltou em direção a um dos pequenos, a pinça maior de Go estalou com a velocidade de um raio. O baque foi úmido e definitivo. O sapo foi triturado no ar, transformado instantaneamente em uma pasta proteica que choveu sobre a água, servindo de papinha nutritiva para a prole agitada.
Agnes já havia se acostumado com essa rotina de carnificina paterna. Nenhuma besta obtinha sucesso; todas viravam adubo ou refeição. Um peixe-espada vermelho, pego no fogo cruzado da violência do mago, acabou com sua parte de cima arremessado e preso na carapaça do caranguejo. Com sua mente de engenheira analisando a rigidez óssea e a aerodinâmica natural da criatura, Agnes o retirou e testou seu equilíbrio. O bicho estava morto, mas a estrutura de sua espinha e o bico longo e afiado formavam uma lâmina orgânica quase perfeita. Ela acabara de ser promovida a espadachim, restando apenas descobrir como usar a carcaça com eficiência e arranjar um cabo melhor que uma cabeça de peixe com olhos mortos de enfeite.
Quanto mais adentravam o coração da Outra Costa, mais a inteligência e a "riqueza" das criaturas ao redor aumentavam. A paisagem evoluía para um reflexo distorcido de uma sociedade feudal e escravista. Agnes chegou a avistar outros de sua espécie (os Mayatosh), primatas musculosos com patas de ave, andavam em quatro patas mas podiam ficar sob duas, muito mais limpas e com corpos bem alimentados.
Todos naquela area moravam em casas flutuantes mais estruturadas, mas a inteligência não os impedia de cometer o mesmo erro estúpido: tentavam roubar os caranguejinhos, apenas para serem obliterados pelas garras do mago.
“Qual é o problema desses caras? Por que eles querem tanto seus filhotes?” Agnes questionou, a exaustão colorindo seu tom estridente. A tensão de esperar a qualquer momento por um enxame de idiotas suicidas a estava enlouquecendo.
“Quanto mais a mente de um indivíduo evolui e se complexifica neste abismo, mais aguda se torna a ausência de uma alma” explicou Go, a voz carregada de um peso secular. “Todos os meus filhotes nascem com uma centelha anímica. Roubar um deles equivale a ter uma chance em mil de processar essa faísca e ancorar a própria existência, e principalmente, viver mais.”
“Então quer dizer que…” Agnes já se via sendo caçada como um animal em um safári.
“Não se preocupe” Go a interrompeu com suavidade. “Não é possível roubar algo que transcende o plano físico. Almas íntegras não podem ser tomadas à força, apenas oferecidas em sacrifício ou pacto. Sem o rito correto, tentar engolir uma alma é inútil. Já uma centelha não formada é um recurso explorável e descartável.”
O olhar nos olhos pedunculados do caranguejo escureceu. Agnes conhecia bem aquela expressão. Era a incerteza melancólica típica de adultos sobrecarregados e sem rumo ou com medo do futuro; uma dor que, mesmo moldada na face alienígena de um crustáceo, era inegavelmente humana. Ela apertou o peixe-espada nas garras e calou-se. Não era seu dever interrogar o anfitrião que mantinha sua cabeça grudada ao pescoço.
Finalmente, a verdadeira fronteira da Outra Costa se ergueu diante deles. Era uma fortaleza colossal de madeira petrificada, cartilagem e ossos de leviatãs, habitada pela elite do desespero. Raças bípedes e humanoides, adornadas com peles exóticas, eram transportadas em palanquins por bestas de carga acorrentadas. As “correntes”, para o horror imediato de Agnes, eram trançadas com cipó-raio, cujas gavinhas pareciam se enraizar diretamente nos pontos de contato com a pele, lembrando ela diretamente de seu último pesadelo .
nas partes onde se encontram com a pele do escravo.
Guardas armados até os dentes repeliam e com olhares implacáveis, mutilavam qualquer plebeu que ousasse se aproximar da muralha de ossos. Ironicamente, nenhum deles levantou uma arma contra o caranguejo gigante, mas seus olhos ardiam com uma inveja venenosa e um desejo mal disfarçado quando pousavam em Agnes. Eles sentiam o peso da alma dela ou só a lâmina vermelha invejável em suas mãos.
A aproximação do Sexto Mago causou pânico na nobreza marginal. Eles fugiram em debandada carregando suas posses; os menores foram pisoteados nos ossos negros que formam os caminhos desse lugar, enquanto os grandes e lentos eram derrubados e saqueados pela própria guarda. Quando Go chegou aos portões, a ilusão da fortaleza de ossos cedeu, revelando uma passagem massiva que conduzia ao interior de uma cúpula de vidro insondável.
Dentro da redoma, a física e a atmosfera do inferno não tinham jurisdição. Um sol artificial de luz azul orbitava no zênite, banhando ilhas verdejantes em um brilho magnífico e pacífico. Não havia a podridão social, o cheiro de necrose ou a escravidão armada. Era um santuário incongruente: um cruzamento bizarro entre uma creche e um asilo.
Idosos de raças incompreensíveis descansavam sob a sombra de árvores pálidas, enquanto filhotes variados corriam pelas praias de areia branca brincando ou comendo frutas. Os caranguejinhos de Go não hesitaram; espalharam-se alegremente pela areia cristalina e mergulharam nas águas límpidas em total segurança.
“Bem-vinda à Outra Orla, criança” disse o caranguejo, enquanto Agnes, segurando sua espada de peixe morto, tentava processar aquele resort de férias absurdo cravado no coração do inferno.
***
A quilômetros acima daquela paz artificial, na superfície do deserto de cinzas, o cenário era um monumento ao horror puritano.
Ao redor da imensa cratera deixada pela queda da fênix dourada, materializavam-se aparições corpóreas abissais. Elas não possuíam anatomia própria; seus corpos altos e esguios eram amálgamas gestalts grotescos formados por pilhas de dezenas de criaturas mortas fundidas umas às outras. As bocas dos cadáveres que as compunham estavam escancaradas em um grito eterno e silencioso de pura agonia.
As aparições não se moviam. Apenas cercavam a fossa, aguardando com uma paciência ancestral.
Do fundo do abismo escuro, um gigantesco e contorcido cipó-raio emergiu, serpenteando para fora da terra como um tentáculo autônomo e consciente. Em sua extremidade, ele trazia os restos da divindade abatida: um bico vítreo e fossilizado, com seu interior cheio de veias douradas e inertes.
As aparições tremeram em uníssono. Sob o toque das abominações, o bico divino começou a se desintegrar, convertendo-se em uma avalanche de cinzas pesadas que despencou de volta para o buraco, selando a cratera quase por completo. Tudo o que restou flutuando acima da terra morta foi um cristal translúcido e pulsante, crepitando com relâmpagos contidos, o núcleo, a alma decantada da ave.
“Levem a alma até a Mãe das Chamas” sibilou uma das aparições. A voz não era um som natural, mas uma ressonância emitida pela única boca funcional daquele corpo retorcido. “O resto deve procurar um novo líder para o ninho do Devora-Luas.”
Sem questionamentos ou hesitações, o bando de aparições se dispersou, escorregando pelas sombras em direções opostas. A criatura que proferira a ordem afundou lentamente, derretendo no chão profano até se fundir de volta ao mar de cinzas. A roda do sofrimento voltava a girar.
(Fim do capítulo)