O Deserto das Cinzas: após a partida de Agnes, o frágil ecossistema da superfície não apenas mudou; ele colapsou e se reergueu sob novos dogmas biológicos. Entre as abominações que vagavam por aquele mar de poeira calcária, os ratos abissais sempre foram os mais numerosos e adaptáveis. Havia os brutos de músculos retorcidos, os destemidos de garras afiadas e, crucialmente, os de intelecto desperto.
Como em uma epopeia traçada pelas mãos cruéis do destino, um roedor em particular encontrou o caminho para as ruínas do antigo assentamento. E lá, sob os escombros, ele desenterrou um artefato quase alienígena: o diário de Agnes.
O animal pouco compreendia as palavras, mas os desenhos de Agnes o impressionaram a ponto de despertar uma centelha de curiosidade anômala. Aos poucos, ele buscou entender o livro, mapeando os locais retratados e tentando decifrar o significado das escritas misteriosas.
Enquanto isso, alheio a qualquer evento fora de seu ninho, o Caçador vivia a monotonia inebriante do topo da cadeia alimentar. Não havia predador que pudesse rivalizar com sua biologia mutável, e agora, ele era o ápice incontestável daquele deserto. No centro da carcaça do lobo colossal, inspirando-se vagamente no antigo abrigo da humana, o metamorfo ergueu sua própria fortaleza — um zigurate macabro de ossos e cinzas, cimentado por uma secreção alquímica extraída da genética de cupins necrófagos que habitavam as frestas da ossada.
O Caçador, por si só, não possuía a paciência para construir tal monumento. Em vez disso, ele moldou servos. Fundindo memórias e habilidades genéticas de suas presas passadas, ele pariu de sua própria biomassa grandes aranhas-operárias, quimeras projetadas exclusivamente para a engenharia civil e para a captura de matéria-prima.
Esse era o devaneio de um ser que alcançou o zênite de sua existência. Contudo, sua letargia gerou uma hecatombe ecológica. As feras mais formidáveis daquela região inicialmente ignoraram a ascensão do Caçador, mesmo quando ele começou a monopolizar as presas menores. Quando perceberam que seus próprios pares começavam a desaparecer entre as teias e as paredes do zigurate, já era tarde. Dentro da carcaça do lobo, governava um tirano implacável; mas fora dela, um império silencioso havia nascido.
Os ratos aproveitaram o vácuo de poder deixado pela aniquilação dos grandes predadores para se unificarem. O catalisador dessa união foi o Rato Profeta.
Ele vestia uma manta grosseira de folhas secas e carregava o tomo de couro cru firmemente atado ao corpo. Sua pelagem era de um negro profundo e sem brilho, resultado de uma higiene atípica para sua espécie, e seus olhos carregavam a centelha gélida de um sábio que não temia mais a morte, apenas a ignorância. O Profeta era o mais próximo que aquele coletivo animalesco possuía de um monarca. A sociedade murina funcionava como uma anarquia orgânica e simbiótica, guiada não por ordens vocais, mas pelo respeito instintivo às criações de seu líder.
De alguma maneira insondável, o Profeta decifrou os padrões da escrita de Agnes, um fenômeno que o próprio rato só poderia descrever como iluminação mística. Tratando aquelas letras como runas de poder, ele aplicou o conhecimento para criar um oásis de necro-agricultura. Juntando carcaças velhas e novas em colinas de putrefação, ele plantou as raízes dos cipós-raio no topo. Era a alquimia perfeita: carne decomposta gerando a flora que jorrava água potável e bulbos eletrificados.
Foi apenas uma questão de tempo até que o método fosse copiado e multiplicado de forma descontrolada. Em pouco tempo, a planície ao redor do lobo colossal estava tomada por montanhas de cadáveres floridos. Os ratos não apenas aprenderam a neutralizar e cozinhar os bulbos, mas usaram as propriedades parasitárias das plantas para domar feras bestiais que antes os caçavam.
Somando a fartura de recursos à sua biologia de reprodução explosiva, a horda rapidamente ultrapassou a marca dos milhões. E então, o inevitável colapso matemático ocorreu: não havia mais bulbos, água ou cadáveres suficientes para sustentar o império.
A solução da colmeia foi instintiva e unânime. Eles ergueram seus focinhos para a colossal carcaça de osso no horizonte. Eles invadiriam o domínio proibido.
Do topo de sua pirâmide pálida, o Caçador observou a maré negra de roedores engolfar as fronteiras de sua ossada. O sentimento que o inundou foi uma mistura de êxtase predatório e fúria insultada. Por um lado, os ratos prometiam o maior banquete de sua existência; por outro, aquela civilização era uma imitação barata, um eco rústico e insolente da presa original que ele nunca conseguiu devorar.
O Caçador se ergueu. Em seu estado de repouso, ele havia se reduzido a uma massa amorfa de biomassa escura com um único e poderoso olho para observar além do espectro comum, destituída de rosto ou propósito além da mera observação. Mas agora, a carne fluida ferveu. Membros letais brotaram de seu núcleo, garras biológicas estalaram no ar morto e incontáveis olhos se abriram em sua superfície.
Ele iria aniquilar até o último deles.
Moldando-se na forma de uma armadura negra humanoide, o ser desceu até as profundezas de seu ninho. Ali, cercada por pilhas de corpos e ovos de suas crias e servos, repousava uma lança negra. A arma viva exibia a cabeça de uma arraia, uma haste escamosa e firme como uma serpente, culminando na ponta afiada de um ferrão de escorpião.
Aquela era sua nova lança, forjada para substituir a que havia matado a fênix. O Caçador olhava para sua arma palpitante com carinho e letalidade, pronto para exterminar hordas de inimigos.
(Fim do capítulo)