Isolados em um plano fora do tempo-espaço, encontram-se os seres da aurora da criação, que transcendem a compreensão e lógica, capazes de moldar e distorcerem a realidade sem esforço, como uma criança que molda montes de terra, seres que habitam isolados da realidade convencional, pois caso tocassem outro plano, os demais universos e planos colapsariam sob o peso de sua presença.
Mas houve um instante em que quatro deles colidiram, e resquícios de seu embate ecoaram para além do véu da existência. Onde galáxias se apagaram, estrelas se despedaçaram em cinzas, planetas colapsaram, leis e conceitos antes imutáveis se contorceram sob o impacto. O impacto não foi imediato, ele não destruiu tudo de uma vez. Ele se espalhou, silencioso, imperceptível, infiltrando-se nas engrenagens do destino, alterando caminhos, cruzando linhas que jamais deveriam se encontrar, mundos inteiros, até outros planos foram tocados por essa distorção, ainda que nunca viessem a compreender sua origem. Um desses planos era Tiryak.
Um universo onde a magia não era um milagre raro, mas uma verdade viva. Onde o impossível poderia se tornar real, e caminhar lado a lado aos mortais, e a realidade aceitava ser dobrada. Feras ancestrais habitavam florestas e bosques, criaturas aladas cortavam os céus, e montanhas respiravam Éter. Em Tiryak, o extraordinário não causava espanto. Ele fazia parte da ordem natural das coisas.
Foi nesse mundo, moldado pelo fantástico e silenciosamente tocado pelo eco dos seres primordiais, que o destino começou a se desviar, e ele afetou a vida de um pequeno garoto.
Em Tiryak, Século IX, ano de 914. No Reino de Aethernys, da orbe de Samsyra, em uma viela humilde, vivia Gabriel, uma criança de 8 anos, extrovertida, com cabelos curtos e acobreado escuro, olhos verdes e um olhar vivo e irradiante, junto a seus pais, Kalchas, um homem de 27 anos, cabelo loiro comprido. preso em um coque, barba rala e profundos olhos azuis escuros, incapaz se mover completamente, por uma tragédia que ocorreu antes do nascimento de Gabriel, se locomovia por uma cadeira com rodas improvisada por sua esposa e filho, que o ajudavam com tudo, e Astradamas, uma alta mulher de 25 anos, ruiva, sardenta e olhos verdes, junto a Gabriel, ambos trabalhavam para manter o sustento da família, mesmo criança Gabriel fazia entregas para ajudar com a casa, já que seu pai estava acamado.
Até que um dia Gabriel teve um sonho diferente de todos os anteriores, vívido, lúcido.
“Que sonho estranho” — Gabriel pensou, olhando para os lados, mas sem conseguir se mover, apenas assistindo de cima.
A figura de um rei, o rei de Aethernys, e ao seu redor 8 figuras com os rostos borrados, mas Gabriel pareceu reconhecer duas daquelas pessoas.
“O rei?” — Ele divagou. — "E aqueles dois atrás dele...".
— Eu, Rei Uther Pendragon, o Pilar Leste Varanth, nomeio, [*******], co... mo H...ói de Aet...nys. — As palavras do rei pareciam som de uma multidão comemorando ao fundo assustou Gabriel, que o fez acordar.
“Mas que porcaria, eu não consegui ver o rosto deles…”
Gabriel acordou logo após, desnorteado, onde permaneceu encarando o teto de sua casa durante longos minutos, e escolheu mantar o sonho em segredo de seus pais, por achar ser apenas um sonho incomum.
Gabriel costumava brincar com alguns meninos por entre as vielas, ele estava no portão de casa, calçando sua sandália, com algumas crianças o esperando do lado de fora, prestes a sair quando sua mãe o chamou.
— Gabriel, cuidado com as caixas velhas da loja do senhor Ramil. — Ela o alertou, com um grito gentil.
Gabriel soltou os ombros.
— Tá bom mãe! — Ele respondeu, saindo logo após se calçar.
Ele se juntou com um grupo de crianças e começaram a correr por entre os becos.
— Ei Gabriel, sua mãe é super protetora em. — Afirmou um dos meninos.
— Verdade, uma mãe coruja. — Respondeu outro.
— Ei... essa não é a loja do velho carniceiro Abil? — Perguntou um mais novo.
— É Ramil... — Gabriel o corrigiu, se lembrando do aviso de sua mãe.
Eles pararam de brincar por um instante, e o maior dos meninos foi até os fundos da loja.
— Quem for homem de verdade me siga. — Ele disparou na frente, e os demais foram atrás, Gabriel hesitou por um instante, mas os seguiu.
E lá estavam as caixas de madeira que a mãe de Gabriel o alertou para tomar cuidado.
— Oh não. — O maior dos meninos começou. — As caixas são mesmo muito perigosas, eu posso me furar com uma farpa. — Ele provocava Gabriel, enquanto zombava de sua mãe. — Sua mãe é uma velha chata, isso sim. — Ele começou a chutar uma das caixas que estava que estava no chão. — Viram?
Mas após algumas batidas na caixa ela se rompeu, e um felino selvagem e arisco surgiu e o atacou, os demais garotos recuaram, o animal o arranhou e o mordeu diversas vezes, ao parar ele encarou os demais garotos, exibiu as presas e foi embora logo após,
— Aiiiii… que droga… — O garoto estava caído no chão, enquanto resmungava de dor, com lágrimas visíveis nos olhos.
— Bem que sua mãe disse em Gabriel. — Comentou o mais novo.
Os demais garotos riram baixo.
— Ei isso não tem graça. — O garoto machucado se levantou com dificuldades. — Gabriel você armou isso pra mim não é? Isso vai ter volta. — O garoto rugiu enquanto corria para casa mancando e com dificuldades.
— Cara o que deu nele? — Perguntou um dos amigos de Gabriel.
— Eu não sei, mas acho que você deveria tomar cuidado Gabriel. — Respondeu outro.
Gabriel engoliu seco, e logo após voltaram a brincar, ao anoitecer, Gabriel já estava em casa dormindo em sua cama, ao lado de seu pai e sua mãe, que estava com um sorriso sereno e calmo no rosto, eles o abraçavam. Era uma noite tranquila, até que o garoto de antes retornou, e com um pedaço de pau nas mãos, visando quebrar as janelas da casa de Gabriel.
— Agora vocês vão ver hehehe. — Ele ergueu o pedaço de madeira prestes a golpear, mas antes que pudesse golpear, seus pais apareceram.
— Hector?! — Sua mãe exclamou, tentando manter o tom baixo para não acordar os vizinhos. — O que pensa que está fazendo?
Seu pai caminhou até ele nitidamente furioso.
— ORA SEU! — Ele puxou a madeira de suas mãos e o puxou pela orelha. — Você vai ver só viu.
Eles o arrastaram de volta até a casa, enquanto o davam broncas e sentenciavam castigos.
A paz perdurou no reino de Aethernys, até o ano de 920, Gabriel já estava com 16 anos, até que um incidente ocorreu, o vilarejo em que moravam foi invadido e atacado por orcs, e os cidadãos entraram em desespero, e começaram a correr para dentro de suas casas.
— Onde estão os heróis? — Perguntou um morador nervoso, largando uma bacia com alimentos enquanto corria para sua casa.
— Ouvi que estavam em uma missã… — Uma mulher estava prestes ao responder, até que uma flecha perfurou seu pescoço, ela caiu no chão agonizando, até que um bando de orcs apareceu e começaram a mutila-la.
— Mas que mer… — Um enorme cutelo partiu o homem em dois, separando seu torso do resto do corpo.
Os orcs, estavam matando e destruindo tudo, eles seguiram para a viela em que Gabriel morava, ao notar o ataque, sua mãe fechou e trancou todas as portas e janelas, mas um orc os farejou, ele parou em frente ao portão da casa de Gabriel, e com um chute ele arrombou a entrada.
Um orc invadiu sua casa, ele tinha entre 1,80m, e carregava uma adaga velha, vendo os três juntos, Kalchas que estava na cama abraçando a mãe de Gabriel junto a ele, o olho do orc emanou um púrpura profundo e logo após se dissipou.
O orc caminhou lentamente em suas direções, até que Gabriel se soltou e avançou em direção ao orc, que deu um tapa em Gabriel e o arremessou contra um armário, quebrando-o no processo.
— GABRIEL! — Seu pai exclamava furioso, apertando suas pernas.
Gabriel apagou por alguns minutos, até acordar e ver sua mãe sendo levada inconsciente pelo orc, enquanto seu pai estava desmaiado no chão, com o rosto coberto de sangue. Gabriel se enfureceu e estava prestes a partir para cima do orc novamente, até que sua mão encontrou uma caixa antiga que estava guardada em cima do armário, semiaberta, e um feixe da luz solar reluziu no conteúdo dentro da caixa, e Gabriel a abriu, encontrando uma espada estranha, a lâmina alaranjada escura, como um sol apagado, ele não pensou duas vezes e a empunhou, e no mesmo instante a lâmina se acendeu, em um dourado vívido, similar a labaredas solares, ele avançou em direção ao orc, e dessa vez ele acertou um corte, superficial, mas o suficiente para o afastar e soltar sua mãe, que despertou.
— Gabriel? — Sua mãe murmurava desnorteada.
O orc agora ergueu a adaga e correu em direção a Gabriel, que ajeitou sua postura momentaneamente, similar a um guerreiro experiente, seus olhos faiscaram por um momento, e até a aura de Gabriel pareceu mudar.
— Ooof... — Gabriel suspirou levemente.
O orc golpeou, mas Gabriel desviou no mesmo instante para atrás dele e golpeou, partindo o orc no meio, em um breve arco de chamas que se dissipou logo após, Gabriel caiu de joelhos, fincando a espada no chão logo após, ela se apagou novamente, e Gabriel pareceu voltar ao normal.
— Gabriel...? — Sua mãe o chamou.
Ele se virou para ela.
— Mamãe. — Ele sorriu aliviado. — Você está bem... que bom. — Ele começou a chorar brevemente.
Kalchas acordou a pouco.
— Gabriel... Astradamas... vocês... vocês estão bem? — Perguntou, ainda no chão, lutando para se rastejar até eles.
— Papai. — Ele correu em direção ao seu pai, para o ajudar, o apoiando nos ombros, e o colocando na cadeira de rodas para que pudessem fugir.
Astradamas se levantou, e foi os ajudar, eles já estavam fora de casa, olhando o estrago ao redor eles começaram a fugir, até que o ar ao redor deles começou a pesar no mesmo instante.
— Não pode ser... — Astradamas murmurou, olhando para trás.
Um enorme orc de aproximadamente dois metros e meio e enormes presas inferiores, o líder do bando, que carregava um enorme cutelo com diversas manchas e manchas vermelhas antigas, lembranças do terror e caos que causou, Gabriel foi para frente de ambos, empunhando novamente a espada.
— GABRIEL... o quê pensa que está fazendo? — Seu pai gritou.
— Mamãe... — Sua voz estava trêmula. — Leve o papai e fujam.
Astradamas estava paralisada.
— Ga... não... — Ela tentou dizer algo, mas as palavras não saiam.
Seu pé se moveu levemente, e logo após o outro, e ela junto ao seu pai começaram a fugir.
— Astra... o que pensa que está fazendo? — Kalchas perguntou confuso.
Ela não respondeu, apenas o olhou com os olhos cheios de lágrimas e acenou levemente para ele, que apertou as pernas uma vez mais.
Gabriel avançou contra o orc, que repelia seus ataques apenas balançando o cutelo, enquanto gargalhava, ele cutucou o nariz no processo, e atirando a sujeira no olho de Gabriel, que se desconcentrou por um instante, no mesmo momento o orc avançou e golpeou o chutou.
Astradamas e Kalchas fugiam.
— Merda... não importa o resultado, o que importa é el... — Ele estava prestes a parar a cadeira de rodas e se virar para o cenário em que fugiam, quando viu Gabriel ser arremessado por eles e colidir com uma parede vizinha, arrancando pedaços de pedra e desmaiando no processo
— FRACO! — Decretou o orc, com sua voz rouca, gargalhando logo após
— O quê? — Kalchas se espantou. — Gabriel...?
— GABRIEL!! — Sua mãe gritou estática.
O líder orc se aproximou e a nocauteou com um leve soco que deixou um filete de sangue escorrendo pela boca.
— ASTRADAMAS... MERDAAA! — Kalchas tentou se levantar mas caiu no chão, ele tentou se rastejar até ela, mas o orc a interceptou.
— HAHAHAHAHA! — Gargalhou, o chutando, o fazendo vomitar sangue e desmaiar.
— GABRIEL! — Seu pai gritava desesperado, enquanto sua mãe permanecia inconsciente.
Kalchas tentou se rastejar até Gabriel preocupado, o orc notou que ele pretendia interferir, e destruiu a passagem, o impedindo de ir até Gabriel, que estava caído no chão, o orc gargalhava.
— BWAHUAHAHUWA!
O orc caminhou até ele e o pegou pelos cabelos, rindo de sua cara. No mesmo instante algo estranho aconteceu, uma onda de energia atravessou Tiryak, invertendo conceitos, gravidade e causando fenômenos que não eram para acontecer, no mesmo instante Gabriel despertou, seus olhos emanaram labaredas novamente, e a lâmina da espada se ascendeu, e ele perfurou o olho do orc, fazendo ele o soltar, Gabriel aproveitou esse instante para tentar cortar sua cabeça, mas foi chutado para cima, Gabriel cuspiu sangue, e o orc pela primeira vez segurou seu cutelo com a intenção de matar, Gabriel tentou bloquear o ataque com sua espada, mas teve seu braço espada e peito partidos pelo seu golpe. Caindo no chão quase sem vida, o orc se virou indo em direção a sua mãe.
"Então eu vou morrer aqui? E meu pai... minha mãe? Alguém, por favor, salve eles, ajude eles, por favor” — A visão de Gabriel escurecia, seus últimos pensamentos que vinham, era sobre a segurança de seus pais, enquanto sua visão ficava turva e seus olhos se fechavam.
— NÃO! — Gabriel gritou, abrindo os olhos, emanando uma aura de cor magenta e despertando inconsciente e incompleto algo desconhecido para ele, o Thyr e o Éter.
Seus ferimentos se fecharam por um breve momento, a dor havia desaparecido, seus sentidos se tornaram mais aguçados, Gabriel subiu por algumas caixas que estavam na rua, pulando em cima do orc que se virou com o seu grito, e usando o resto de sua espada quebrada para enfiar no olho perfurado do orc, que se debateu contra a parede para o tirar de cima dele, e sem muito esforço arrancando a espada.
— Eu não vou morrer aqui! E não vou deixar que machuque mais ninguém, e nem que leve minha mãe!— Gabriel exclamou.
Mas o orc o agarrou novamente, Gabriel apertou firme o braço do orc, o perfurando com os dedos, que estavam revestidos de uma aura rubra, mas o orc o esmagou contra o solo violentamente, fazendo sua visão turvar uma vez mais.
— N…nã…o… — Ele murmurava enquanto o sangue escorria por seus olhos, enquanto tossia mais sangue ainda.
Ele se virou para o lado com o restante de força que tinha e viu sua mãe sendo carregada inconsciente, a cabeça sangrando, sendo levada pelo orc para um portal, ele tentou se rastejar, mas a ferida em seu peito voltou a se abrir, e a perda de sangue o enfraqueceu cada vez mais, até que uma horda de aproximadamente 30 orcs menores apareceram e estavam prestes a matar Gabriel e seu pai.
"Dro...ga...". — Sua visão se turvava mais, sua respiração falhava.
Um dos orcs saltou e tentou golpear com uma espécie de machadinha, enquanto alguns disparavam com flechas e facas, mas quando estavam prestes a o acertarem, todas congelaram no ar juntamente ao orc que foi cortado ao meio no mesmo instante, Gabriel já não tinha forças nem para erguer a cabeça, e tudo o que pode fazer era olhar os pés alguém que chegou de repente no mesmo instante.
— Seus malditos... — A pessoa misteriosa rugiu.
E no instante seguinte em que Gabriel piscou, todos os 30 orcs estavam no chão mortos, ele tentou levantar seu rosto por um breve momento, mas já não lhe restavam forças, e por fim ele cedeu, desmaiando enfim.