Um dos soldados atravessou a porta do pátio às pressas.
— Majestade! — Ele parou, tentando recuperar o fôlego. — Há... há dezenas de denúncias e
confusões nas vilas próximas ao castelo! Os moradores estão apavorados com os tremores e
impactos... parte do distrito sul foi evacuado por segurança.
Mary arqueou as sobrancelhas, Lilith, que já estalava o pescoço suspirou.
— As pessoas não estão acostumadas com heróis lutando dentro dos muros, né? —
Comentou Lilith, com um meio sorriso.
— Talvez devêssemos adiar a luta. — Comentou Kaelis, aproximando-se, ainda limpando o
suor do rosto. — O rei vai querer resolver isso pessoalmente.
Poucos minutos depois, o som de trombetas ecoou no ar, o chamado real. O rei surgiu na
sacada, ladeado pelos heróis e seus guardas. Sua presença impôs silêncio em meio ao caos.
— Cidadãos de Aethernys! — Sua voz ecoou poderosa. — Os abalos que sentiram não
anunciam desastre algum, mas sim a força de nossos heróis em treinamento, preparando-se
uns contra os outros. — Ao erguer o braço, Mary respondeu com um gesto, fazendo surgir
uma tela translúcida no céu.
A imagem viva tomou forma. Gabriel e Alastor em meio a chamas e sombras, o impacto de
Riven e Amara entre luz e raios, e o confronto monumental de Kaelis e Aeron, refletido em
cada canto da cidade. A multidão se ergueu em um coro de exclamações e aplausos. O medo
deu lugar à admiração. O reino inteiro vibrou.
— Se é espetáculo que o povo deseja... — Murmurou o rei, um leve sorriso surgindo. —
Então, que o centro de Aethernys seja palco da glória de seus heróis.
Mary ergueu as mãos, e sua graça de reconstrução fluiu como uma onda. As ruas
começaram a se mover, os prédios se reordenando, até que o centro da capital se abriu, uma
gigantesca arena circular se erguendo, com arquibancadas em espiral, colunas adornadas
por brasões e um trono no ponto mais alto, reservado ao rei. Quando tudo cessou, o vento
trouxe o som de milhares de vozes, e o sol poente projetou sombras longas sobre a arena
recém-formada.
Lilith, sorrindo de orelha a orelha, deu um passo à frente.
— Então é isso... o palco está montado. — Disse. — Vamos dar a eles o que vieram ver,
Mary.
Mary caminhou ao lado dela, o olhar excitado.
— A última batalha do dia. — Murmurou ela. — Que seja memorável.
A multidão rugiu quando ambas adentraram a arena. O ar vibrava de expectativa. Mary
conjurou uma barreira luminosa em torno do campo, visando proteger os espectadores de
quaisquer resquícios de ataques que vazassem. Um contador de luz surgiu sobre a arena.
— 3! — Gritava a multidão.
— 2! — Lilith encarou Mary com um sorriso afiado.
— 1!
— Já!
No mesmo instante, Mary abriu suas asas, voando para o limite da barreira, disparando suas
penas, cada uma com efeitos distintos ,mas Lilith desviava com agilidade, conjurando feitiços
que as interceptavam no ar.
— Isso é tudo, irmãzinha? — Provocou Lilith.
Com um gesto, dezenas de portais se abriram abaixo de Mary. Correntes emergiram deles,
prendendo seus braços, pernas e asas, puxando-a para o solo. Mary colidiu com força, e
outro portal se abriu sob ela, chamas negras com um tom esverdeado emergiram,
engolindo-a completamente.
Das arquibancadas, Gabriel arregalou os olhos
— Mas o quê...? — Murmurou. — Aquilo são... presas?
Riven e Alastor também notaram as presas de Lilith, mas se mantiveram em silêncio, Lilith
sorria, presas surgiam em sua boca, seus olhos antes roxos se tornavam aos poucos
vermelhos. Mas a vitória foi curta. As chamas verdes se dissiparam em meio a uma explosão
dourada, e Mary emergiu, envolta por um casulo de fogo sagrado.
— Isso é tudo, irmãzona? — Provocou de volta, conjurando uma lança de luz.
Ela avançou, mas Lilith conjurou dois portais, e tentáculos sombrios bloquearam o golpe,
apenas para serem cortados logo em seguida. Lilith rugiu, a aparência tornando-se mais
demoníaca. Quando a poeira baixou, um ataque de Éter congelou Mary dentro de um cristal
de gelo negro, mas a imagem de Mary congelada desapareceu de dentro do gelo.
— Uma miragem? — Murmurou Lilith.
— Igual eu fiz contra Riven. — Comentou Amara nas arquibancadas.
Mary reapareceu ao seu flanco, golpeando-a com uma das asas e lançando-a contra o domo.
Lilith se chocou com força, e ao erguer o olhar viu uma criança entre o público, assustada.
Naquele reflexo, percebeu sua própria forma demoníaca, e entendeu o medo nos olhos do
povo.
— O que é... aquela forma? — Perguntou o rei, espantado.
Mary pousou suavemente.
— Minha irmã, Lilith, possui sangue demoníaco. — Anunciou com firmeza.
Um murmúrio percorreu a multidão.
— Mas isso não a torna menos humana. — Continuou Mary. — Pelo contrário. Ela é a
pessoa mais humana que já conheci. E isso não muda o fato de ser uma heroína, a heroína
de vocês, que salvou este reino incontáveis vezes... inclusive a mim, e eu amo minha
querida irmã mais velha, e nós não devemos ter aversão ou ódio às demais espécies, sejam
humano, demônio, fera, bestial, todos somos seres vivos.
O silêncio se transformou em emoção.
— É verdade! — Gritou um jovem em meio aos demais. — Eu já fui salvo por um homem
fera a muitos anos, quando eu era uma criança, eu estava cercado por dezenas de monstros,
ele me protegeu delas, e me trouxe de volta para o reino em segurança.
— Eu já fui salva por uma mulher pássaro que me resgatou de cair em um penhasco. —
Afirmou uma senhora.
Aos poucos, o medo cedeu lugar à empatia. Lilith, de joelhos, chorava, Mary se aproximou,
estendendo a mão.
— Eu amo você, irmã. — Disse ela. — E nada vai mudar isso.
Lilith se levantou, limpando as lágrimas, o Halo Profano ressoando intensamente. A auréola
se dividiu em duas asas, uma negra, outra branca.
— Você quem me salvou agora, Mary. — Declarou ela. — Mas eu não vou pegar leve com
você por causa disso!
O ar vibrou, correntes de vento escuro destruíram parte da arena, lançando Mary longe. Em
resposta, raios dourados caíram como chuva, mas Lilith bloqueou-os com sete tentáculos
que emergiram dos portais.
— Lua Negra! — Gritou Lilith, cobrindo toda a arena em trevas densas como aço. — Pensa
que eu me esqueci que o sol te fortalece? — Provocou.
— Tarde demais, irmã. — Respondeu Mary, os olhos ardendo como o próprio sol.
Labaredas vivas incendiaram o ar, mas antes que Lilith pudesse reagir, a gravidade se voltou
contra ela, as chamas a engoliram. Quando tudo pareceu terminar, ela emergiu,
transformada. O Halo Profano tornou-se uma auréola coroada por chifres, os olhos negros
com pupilas douradas, três pares de asas, negras e douradas e uma cauda se abrindo como
de um arcanjo caído.
— Esse é o seu despertar... — Murmurou Mary.
Lilith sorriu, e o campo tremeu, Mary foi arremessada novamente pela arena, colidindo
violentamente contra o solo e as paredes, como se a própria gravidade tivesse ganhado
vontade. O impacto ecoou, fazendo o chão estremecer. Quando enfim cessou, Mary mal
teve tempo de respirar antes que um raio negro a atingisse em cheio, rasgando o ar.
— Mas... isso é possível? — Amara perguntou, atônita.
— Ela... tem as mesmas graças da Mary... — Murmurou Gabriel, os olhos arregalados.
Da poeira, Mary ergueu-se lentamente. O corpo ferido tremia, mas em suas mãos se
formava uma lança de luz pura, todas as suas graças concentradas em um único ponto.
— Então esse é isso? — Murmurou, com um sorriso ansioso. — Vamos ver até onde ele te
leva.
Antes que pudesse avançar, Lilith conjurou um enorme cão negro de três cabeças que
emergiu do solo, abocanhando os braços e o torso da irmã. As presas espectrais a
prenderam com força, arrastando-a pelo chão. Mary tentou repelir a criatura, mas o
monstro explodiu em chamas negras, uma explosão que engoliu metade da arena. Quando a
fumaça se dissipou, a lua negra que cobria o céu começou a desaparecer, dando lugar a uma
lua cheia que brilhava sobre ambas. Uma das asas de Lilith irradiava um fulgor prateado,
pulsante.
— Empoderamento Lunar... — Murmurou Gabriel, a Incisão Solar ressoava levemente.
Das sombras, Mary surgiu cambaleante, caminhando lentamente em direção à irmã,
apoiando-se em uma lança de luz craquelada.
— Você realmente ficou mais forte, minha irmã... — Disse ela, a voz rouca. — Eu não tinha
chance alguma contra você, nem naquela época... nem antes. — Seu corpo estava coberto
de queimaduras, o sangue escorrendo. — Mas agora... agora eu sou outra pessoa.
Ela ergueu o rosto, as feridas começaram a desaparecer, as roupas se regeneraram, e a luz
ao redor se distorceu. Num piscar de olhos, a noite se fragmentou, revelando o pôr do sol
ardendo sobre elas. Toda a batalha, após o despertar de Lilith, a lua cheia... nada daquilo
era real, tudo não passara de uma ilusão de Mary, tão poderosa que enganou até mesmo
Kaelis.
— O quê...? — Um cidadão murmurou, confuso. — Ainda é de tarde?
— Era tudo uma ilusão...? — Outra voz sussurrou na arquibancada.
— A Manipulação e Indução de Sentidos evoluiu a esse ponto? — Perguntou Lilith, com um
misto de admiração e incredulidade. — Você foi capaz de prender todos nós... dentro da sua
ilusão?
— Eu não consegui perceber nada. — Gabriel admitiu.
— Nem mesmo eu. — Kaelis murmurou, inquieta.
— Esse nível de poder... — Aeron cruzou os braços, sério. — Ainda bem que ela está do
nosso lado.
Mary caminhou lentamente até Lilith, um leve sorriso cansado no rosto.
— E agora, irmãzona... ainda pretende continuar o duelo depois disso? — Disse, dando mais
um passo, mas parou abruptamente, o sangue escapou de seus lábios.
— O quê...? — Murmurou, antes de cair de joelhos.
A ilusão começou a se fragmentar, e diante de todos, a verdade se revelou. A vantagem de
Mary era falsa. Ela também estava presa, dentro de uma ilusão sobreposta por Lilith, que
havia tomado o controle da própria realidade projetada. O público ficou em silêncio
absoluto. Ninguém conseguia distinguir o que era real ou ilusão.
— Essas duas... — Gabriel respirou fundo, nervoso. — Estão em outro patamar.
— São irmãs mesmo. — Disse Amara, sorrindo de leve. — Iguais até nisso.
Lilith caminhou até Mary, que ainda se curava das feridas e com um gesto suave, tocou sua
testa e a mergulhou em um sono pacífico, encerrando o duelo. A transformação de ambas
desapareceu. A arena, graças ao domo de Mary, foi restaurada num piscar de olhos junto às
feridas de Mary. Com delicadeza, Lilith a ergueu nos ombros, caminhando para fora
enquanto o rei se erguia na sacada.
— Cidadãos de Aethernys — Anunciou com solenidade — Declaro encerrado o último duelo
do dia.
O público explodiu em aplausos, e enquanto o sol finalmente se punha, o reflexo dourado
iluminava as duas irmãs, uma sustentando a outra.
Com o encerramento da última batalha do dia, o rei ordenou que todos retornassem a seus
lares e aguardassem o dia seguinte, quando as disputas seriam retomadas. E assim o povo o
fez, deixando as arquibancadas em meio a risadas, murmúrios e comentários sobre o que
haviam presenciado, tanto nas telas de Mary quanto ao vivo.