— Então… teu nome é Kenichi, né?
A pergunta veio casual, quase jogada no ar
Kenichi demorou alguns segundos para responder, como se o nome precisasse atravessar um terreno minado antes de sair da boca.
—…é.
Yuri o encarou em silêncio por um instante longo demais
Os olhos atentos, curiosos, como quem observa algo frágil sem querer assustar.
Em seguida, perdeu o interesse aparente, esticando a mão até a tigela e pegando mais frutas, comendo como se estivesse na própria casa.
Porque estava.
— Ótimo, sou Yuri
Então, Keni…
disse, encurtando o nome sem pedir licença, com um sorriso leve demais pra situação
— Você tá muito magrinho pra alguém que disse que não tava com fome...
Ela pegou um pequeno cacho de uvas e estendeu na direção dele.
— Pega uma aí, vai!
Kenichi hesitou menos dessa vez. Aceitou, comeu devagar, mastigando com cuidado e sentindo o doce estourar na boca
a tensão nos ombros ainda estava ali, mas já não era tão rígida.
Seu rosto relaxou só um pouco, quase imperceptível.
Yuri riu baixo ao observá-lo...
— Nossa… você dormiu bem. Um sono tão bom que deixou teu cabelo todo bagunçado.
Antes que ele pudesse reagir, ela se aproximou e começou a mexer em seu cabelo com naturalidade, ajeitando mechas rebeldes como se fosse algo óbvio, cotidiano.
O toque fez Kenichi enrijecer por um segundo, não por medo, mas por estranhamento...
Aquilo, definitivamente não fazia parte do mundo dele.
Se preocupar com seu cabelo, que ele mesmo nunca ligou tanto?
Ainda assim, não se afastou, não desconfiou.
Pela primeira vez, tentou apenas… aceitar.
O silêncio ficou pesado demais pra ele.
— Por que você tá fazendo isso? — perguntou Kenichi, finalmente
— Hm? — Yuri murmurou, confusa.
— Você nem me conhece...
E se eu tentar te atacar ou algo assim? Você não tá segura. Eu não acho que—
Ela interrompeu a frase enfiando uma uva na boca dele, fechando o assunto junto com os dentes dele.
— Eu já disse — falou com calma, firme sem ser dura. — Você não precisa ficar desconfiado de nada. Esquece isso, aqui você tá seguro.
Kenichi só mastigou em silêncio, sem rebater
Ele quer perguntar mais alguma coisa, mas algo além das uvas não permite que saiam as palavras pensadas
Quem é aquela mulher? Quem é essa garota?
De qualquer forma, Yuri continuou ajeitando o cabelo dele, agora com mais cuidado, fazendo um penteado simples, quase improvisado.
O cabelo liso e consideravelmente grande de Kenichi era bem maleável, deixando a garota indecisa sobre como arrumar os fios
Quando decidiu, deu um passo pra trás, feliz com o resultado
— Isso deve resolver!
Ela se levantou de repente, agora cheia de energia
— Agora, vamos para a melhor parte do dia...
Comer doces!
E você vem comigo, Keni!
Ele hesitou, contudo, a pestinha não deu espaço
Segurou-o pelo antebraço e o puxou para fora do quarto
A sala de estar se revelou simples.
Confortável, nada exagerado. Nenhum luxo gritante
Nada que lembrasse que alguém ali era capaz de gastar milhões num leilão, ainda mais humano
Isso incomodou mais do que deveria.
Yuri já colocou um pirulito na boca enquanto caminhava devagar em direção à cozinha.
— Se quiser, pode ficar aí enquanto eu pego mais uns doces pra gente — disse com uma felicidade bem genuína
Mas uma presença repentina toma conta do pequeno espaço
— Ah, oi, Tsugi, Bom dia!
...
Um silêncio breve
Uma voz grossa respondeu da direção oposta.
— Dia.
O homem saiu da cozinha, alto, imponente.
Kenichi precisou de um segundo a mais para entender.
Quando entendeu, o corpo reagiu antes da mente...
Era ele.
O cara que o nocauteou no leilão.
No mesmo segundo, alerta, o sangue esquenta
Ao mesmo tempo, o suor escorrendo friamente
Tsugi olhou para ele apenas uma vez, com indiferença absoluta.
Começou a andar em sua direção.
Mas Kenichi não recua, pronto pra qualquer confronto físico, como sempre
Só que...
Ele foi apenas ignorado.
Só passa por ele, como se fosse um simples móvel, ou até mesmo um nada
Kenichi trava
Pois o dano não foi físico
Mas sim mental, já que esperava acertar as contas.
Aparentemente, essas contas...
Terão de ficar pendentes.