CAPÍTULO 2 — ECOS DO ROUBO
O silêncio no Templo do Colar foi quebrado pelo som pesado de passos. As chamas das tochas nas paredes vacilavam a cada segundo, como se o próprio ar estivesse com medo da presença que invadira o santuário.
No centro do salão, o Guardião do Colar tossiu, sentindo o gosto de sangue na boca. Ele tentou se levantar, apoiando-se nos braços trêmulos, mas acabou caindo novamente. Suas defesas haviam sido completamente superadas. À sua frente, a silhueta de um homem de armadura escura erguia-se de forma imponente, sem um único arranhão.
Drevon caminhou calmamente até o altar central. Com um movimento lento e entediado, estendeu os dedos e ergueu o artefato que descansava ali: o colar mágico.
A joia começou a pulsar com uma névoa escura assim que sentiu sua aura opressiva. No segundo em que Drevon fechou a corrente ao redor do próprio pescoço, uma onda de choque invisível e gélida se expandiu pelo templo, reverberando até o horizonte.
— Você é um tolo... — sussurrou o Guardião, com a voz falhando. — Você sabe o que o aguarda se seguir com esse plano. O colar permite roubar o poder elemental dos outros... mas as pulseiras lendárias cobram um preço amargo. Se você derramar o sangue de um portador digno para arrancar o poder dele, a energia vai rejeitar você! Ela vai consumir sua carne e corromper sua alma. Você vai morrer aos poucos!
Drevon finalmente desviou o olhar da joia, encarando o velho caído. Ele chutou uma lança quebrada que estava no caminho, afastando-a com irritação.
— Cale a boca, velho decrépito — respondeu Drevon, com uma voz mansa, mas cortante feito navalha. — Você e suas lendas de panfleto não significam nada para mim. Acha que me importo com as regras dessas pulseiras? Acha que tenho medo de morrer aos poucos?
Num último lampejo de desespero, o Guardião rugiu, reunindo o restante de sua energia elemental. Suas mãos calejadas acenderam em chamas douradas e ele disparou uma rajada de fogo concentrado direto no peito do vilão. O ataque iluminou o salão inteiro.
Drevon sequer piscou. Apenas estendeu a mão esquerda aberta em direção ao solo e, num estalo, grossas raízes de madeira escura e espessa brotaram do mármore do chão, formando um escudo retorcido à sua frente. O fogo do Guardião atingiu a barreira, mas a madeira invocada por Drevon era tão densa que abafou as chamas, dissipando o ataque em fumaça.
Antes que o fogo sumisse por completo, Drevon moveu os dedos com desdém. Um cipó fino e flexível brotou do chão logo abaixo do Guardião e o atingiu, fazendo-o perder o equilíbrio e cair de joelhos. Das pontas da planta, uma substância roxa escorreu sobre o ferimento, fazendo o velho perder rapidamente as forças.
— Viu só? Um único ataque da minha planta e já era para você — desdenhou Drevon, fechando a mão para fazer o cipó desaparecer de volta na terra.
Ele caminhou através da fumaça restante sem sofrer um único arranhão, deu um passo à frente e pisou pesado bem ao lado da cabeça do Guardião, mantendo-o encurralado contra a pedra fria.
— O mundo pertence aos fortes, e os fracos existem apenas para serem pisados — continuou Drevon. — Se o meu corpo vai sofrer depois que eu arrancar o poder daqueles malditos portadores das pulseiras, eu não ligo! É um preço pequeno a pagar, desde que eu tenha o poder absoluto sobre as oito vilas antes do meu fim. Ninguém vai me parar. Nem você, nem essas pulseiras, e muito menos os lixos que o mundo escolher para usá-las.
O Guardião arregalou os olhos diante da determinação brutal daquele homem, mas já não tinha forças para reagir.
Antes que Drevon pudesse fazer qualquer outra coisa, o chão sob seus pés estremeceu violentamente. O templo inteiro rangeu.
Longe dali, nos confins do mundo, o Santuário das Pulseiras detectou a ativação do colar de drenagem. Um antigo mecanismo de proteção, criado séculos atrás para preservar as energias elementais, foi ativado automaticamente diante da ameaça.
No altar distante, três fagulhas puras ganharam vida, quebrando suas amarras de pedra e disparando pelos céus em busca daqueles que fossem dignos de recebê-las.
No templo do colar, as paredes balançaram. Drevon olhou para o teto quando o chão parou de tremer, sentindo o ar ficar mais denso por um breve segundo. Ele não viu nada além da escuridão da noite através das fendas da estrutura, mas soltou um riso anasalado, ajustando o colar no pescoço.
— Podem tremer o quanto quiserem — murmurou Drevon, com um sorriso de puro desdém. — Não importa o que mude neste mundo, ou quantos anos eu leve para dominar tudo. O mundo agora está sob a minha mira. Quando esses pirralhos dignos finalmente aparecerem, eu estarei pronto para arrancar as pulseiras deles.
A manhã seguinte na Vila do Fogo nasceu clara e movimentada. O som dos ferreiros batendo o metal e o falatório dos mercadores já ecoavam pelas ruas.
Diferente da noite anterior, onde as lágrimas haviam dominado seu quarto, Shin saltou da cama antes mesmo do sol estar completamente alto. Ele esticou os braços, sentindo os músculos rígidos pelos tombos que levou na arena, mas a sensação de dúvida havia sumido. O choro da noite passada havia virado combustível.
Ele olhou para o pulso esquerdo. A pele parecia normal sob a longa faixa branca protetora. Sem fazer a menor ideia de que uma energia carmesim havia mergulhado em seu peito na madrugada, ele apenas sorriu, pegou seu bastão e desceu as escadas correndo.
O cheiro de pão fresco assado na hora e chá inundava a cozinha.
— Alguém acordou com pressa hoje! — disse Ami, a mãe de Shin, virando-se com um sorriso caloroso enquanto ajeitava os pratos na mesa.
— Eu não posso perder nem um minuto, mãe! — Shin respondeu com os olhos brilhando, puxando a cadeira com entusiasmo e já pegando um pedaço de pão. — Ontem eu caí na arena porque ainda não conheço o balanço do bastão. Mas hoje vai ser diferente. Eu vou treinar o dobro! Vou fazer essa arma funcionar de um jeito ou de outro!
No canto da cozinha, um homem alto e de ombros largos observava a cena em silêncio. Aran, o pai de Shin, terminou de amarrar sua braçadeira de couro preta. Ao esticar o braço, a manga curta de sua túnica revelou uma longa e profunda cicatriz esbranquiçada que cruzava quase todo o seu antebraço — a marca eterna de uma batalha brutal do passado.
Aran não era um camponês qualquer; ele era um legítimo Guerreiro de Elite da Vila do Fogo, respeitado por todos por sua força devastadora.
— Esse é o espírito que eu quero ver, meu filho — disse Aran, aproximando-se da mesa com passos firmes e pousando a mão pesada no ombro do garoto. — A arena ontem não foi uma vergonha. Foi apenas o seu primeiro teste de resistência. Sabe o que acontece com quem ataca com fúria cega?
Shin olhou para o pai, mastigando o pão.
— Eles erram muito? — perguntou o garoto.
— Exatamente. Eles se cansam rápido e cometem erros fatais — explicou Aran, com um olhar sério e firme. — Mas quem defende com paciência e usa um bastão com precisão, domina o ritmo do combate. Coma bem, porque hoje eu faço questão de te acompanhar até os portões da academia.
Ami deu uma leve risada, servindo mais chá para os dois.
— Escute bem o seu pai, Shin. Ele sabe muito bem o que diz. E não ligue para o que os outros meninos disseram sobre o seu bastão. O seu coração é o que te torna forte.
— Eu sei, mãe! Eles vão engolir cada piada quando eu conseguir bloquear os ataques deles — Shin respondeu, rindo e limpando a boca.
Pouco depois, os dois caminhavam lado a lado pelas ruas da vila. O movimento era intenso. Ferreiros paravam o martelo na bigorna, guardas em patrulha batiam continência e os moradores acenavam com profundo respeito quando Aran passava. O pai de Shin caminhava de cabeça erguida, com uma presença que impunha respeito imediato, mas mantinha um olhar sereno e um aceno humilde para cada trabalhador.
Shin olhou para o lado, observando o pai caminhar com tanta imponência. O peito do garoto inflou de orgulho.
— Pai... — Shin quebrou o silêncio, apertando o cabo do bastão contra o corpo.
— Diga, meu filho.
— As pessoas aqui na rua te olham de um jeito tão incrível. Os garotos na academia e os instrutores riram de mim ontem, me chamando de fraco por não querer uma espada. Mas vendo você agora... eu não ligo mais para as piadas deles.
Aran parou de caminhar no meio da rua de terra batida e encarou o filho de frente.
— Eles riram porque são ignorantes, Shin. Eles acham que ser forte é apenas destruir coisas.
— Eu sei disso — disse Shin, olhando nos olhos do pai. — Por isso eu vou continuar treinando com esse bastão todos os dias. Porque um dia, eu vou me tornar um Guerreiro de Elite forte, honrado e respeitado exatamente igual a você.
Aran encarou o filho por alguns segundos em silêncio. Viu o brilho de determinação pura, sem um pingo de arrogância, nos olhos do garoto. O guerreiro veterano sentiu o peito aquecer e disfarçou com um sorriso largo, puxando Shin para perto e bagunçando os cabelos pretos do menino com força.
— Você não vai ser igual a mim, Shin — disse Aran, voltando a andar ao lado dele e apontando para o grande arco de pedra da academia logo adiante. — Se você mantiver essa pureza e dominar essa arma, você vai ser ainda melhor do que eu jamais fui. Agora vá, entre lá e mostre a eles o verdadeiro peso da sua escolha.
— Eu vou mostrar, pai! Até mais tarde! — gritou Shin, correndo em direção aos portões com os punhos firmes e um sorriso gigante no rosto.
O jovem não fazia a menor ideia, mas bem ali, sob as dobras da faixa branca em seu pulso esquerdo, a marca oculta da pulseira elemental reagiu sutilmente à promessa que ele acabara de fazer. Por breves dois segundos, um calor invisível e pulsante correu por suas veias.
Shin, porém, não percebeu.
E entrou pelos portões da academia.
Fim do Capítulo 2.