Capítulo 4: Uma Semana no Limite
— ...E lembrem-se: o Torneio das Vilas Elementais não é um parquinho de diversões — a voz firme e ranzinza do Instrutor Vance cortou o burburinho do campo de treinamento, trazendo os alunos de volta à realidade após o anúncio das três vagas.
Ele semicerrou os olhos, encarando as fileiras com sua típica falta de paciência.
— A diretoria da academia decidiu liberar vocês dos próximos sete dias de aula. Uma semana inteira sem testes teóricos.
Um suspiro coletivo de alívio percorreu os alunos, mas Vance soltou uma risada sarcástica que congelou o pátio na mesma hora.
— Não comemorem, seus tolos. Isso não é férias. É um prazo de preparação. Usem esse tempo para afiar suas lâminas, calibrar seu fluxo de fogo e descansar o corpo. Se vocês acham que o ranking vai ser moleza, preparem-se para beijar o chão no primeiro dia. Segunda-feira, o placar abre. Estão dispensados. Sumam da minha frente!
O pátio explodiu em conversas barulhentas assim que o instrutor virou as costas.
Rogan limpou a poeira de seu uniforme com um sorriso arrogante, gesticulando com seu grupo de amigos sobre como pretendia dominar o topo do placar com sua espada moderna antes de se afastar.
Shin apenas ajeitou a alça do bastão nas costas, trocando um olhar determinado com Sumi.
Uma semana livre.
O tempo perfeito para se preparar.
— Uma semana de treino intenso, então — disse Sumi, ajeitando a katana na cintura.
Sua expressão mudou rapidamente quando três figuras se aproximaram de onde eles estavam. Ela semicerrou os olhos e cruzou os braços.
Shin olhou para o lado.
Eram alunos da mesma ala de combate corpo a corpo, mas que costumavam treinar mais afastados. À frente deles estava uma garota segurando uma foice de combate curvada. Ao seu lado, um rapaz de postura impecável carregava uma lança de aço escuro. Fechando o trio, um jovem de grande porte trazia um enorme machado de guerra apoiado sobre os ombros.
— Então o Vance resolveu jogar pesado com essas três vagas — disse a garota da foice, olhando para Shin e Sumi.
Ela não tinha a arrogância de Rogan, mas exalava uma confiança nítida.
— Prazer. Sou Hana. Já vi vocês dois na aula. O bicho vai pegar na segunda-feira para arrancar nota daquele velho.
— Com certeza — o gigante deu um sorriso de canto, apoiando a base do machado na terra. — Sou Takeru. Uma semana para a ala inteira disputar só três vagas no placar... Não vai ser brincadeira.
Sumi manteve o corpo rígido, observando primeiro o enorme machado de Takeru e depois a lâmina da foice de Hana.
Shin percebeu o leve desconforto da amiga.
Até para uma prodígio como ela, ver o arsenal e o nível técnico daqueles alunos deixava claro que alcançar o topo do ranking seria difícil. Ninguém ali daria pontos de graça.
— O instrutor vai exigir o ápice de cada arma nos testes de desempenho — o rapaz da lança comentou com calma e disciplina, olhando diretamente para o bastão de oitenta anos nas costas de Shin.
Ele fez um breve aceno respeitoso com a cabeça.
— Sou Jin. É raro ver alguém escolher o bastão hoje em dia. Aquela arma antiga tem uma história rica. Vai ser interessante ver suas notas no placar, Shin.
— Digo o mesmo, Jin. Boa sorte para vocês no treino — Shin respondeu sinceramente.
Apesar da rivalidade pelas três vagas, aqueles três pareciam dispostos a competir de forma justa.
— Onde vocês vão se preparar? — Hana perguntou, ajustando a alça da foice. — Se quiserem, podemos dividir o campo secundário perto da floresta para treinar os alvos.
— Eu vou usar o campo secundário — Sumi respondeu, com a voz um pouco mais séria e focada do que o normal. — Mas prefiro treinar sozinha para focar na velocidade dos meus cortes.
— Justo — Jin assentiu. — Nos vemos na segunda-feira, então. Consigam boas marcas.
O trio se afastou em direção à saída.
Shin olhou para Sumi, que ainda encarava as costas deles com os olhos semicerrados.
— Eles são fortes, Shin — Sumi comentou baixinho, ajeitando a postura. — Aquela foice da Hana dá bastante alcance e exige muita precisão. E o poder de impacto daquele machado do Takeru provavelmente vai render notas altas nos testes de força. Entrar no top 3 por pontos vai ser muito mais difícil do que eu imaginava. A ala inteira vai vir com marcas absurdas.
— Em compensação, nós vamos subir nesse placar — Shin colocou a mão no ombro dela, tentando passar confiança. — Eu vou treinar em casa esta semana. Meu pai está livre dos deveres da guarda e vai me ajudar a melhorar meus movimentos.
Sumi relaxou os ombros de leve e esboçou um sorriso de canto.
— Ter um Guerreiro de Elite para te ajudar é uma boa vantagem. Vai fundo, Shin. Não deixa as notas deles passarem das nossas.
Shin se despediu e caminhou em direção à sua casa.
Enquanto cruzava as ruas de terra da Vila do Fogo sob o céu alaranjado do fim de tarde, a determinação em seu peito só crescia.
Seu sonho era se tornar um Guerreiro de Elite como o pai, ser forte para ajudar o próximo e estender a mão para quem tivesse caído.
Sabia que a concorrência no mural seria implacável.
Mas estava pronto para lutar por suas notas.
Ao empurrar o portão de madeira de sua casa, o cheiro de comida caseira logo o recebeu.
Seus pais eram seu maior incentivo.
Ali na sala, limpando suas braçadeiras, estava seu pai. O homem ergueu os olhos, exibindo as cicatrizes de batalhas reais nas fronteiras, mas o olhar direcionado ao filho era cheio de orgulho.
Após Shin contar sobre o anúncio das três vagas e a semana de folga, o veterano endireitou a postura e sorriu de canto.
— Uma semana para a ala inteira disputar três vagas por pontuação? É um teste implacável — o pai comentou. — Mas sei o quanto você quer isso. E sei que os seus motivos são os certos, Shin. Despeje essa mochila no quarto, jante bem e descanse. A partir de amanhã bem cedo, o quintal é nosso.
A manhã do primeiro dia começou antes mesmo de o sol nascer na Vila do Fogo.
Shin foi levado para o quintal pelo pai, que proibiu qualquer menção ao bastão.
— O fogo responde à pressa e à ansiedade, Shin. Se sua mente estiver uma bagunça, suas chamas perderão precisão — ordenou o pai, mandando o jovem sentar-se de pernas cruzadas na terra e fechar os olhos. — Treino mental. Concentre-se no fluxo de energia interna e isole o mundo ao redor.
Shin respirou fundo, fechando os olhos e tentando se concentrar.
Mas a paz durou pouco.
Ploc!
Uma pequena pedrinha atingiu de leve o lado da cabeça de Shin.
— Ai! — Shin exclamou, abrindo os olhos num pulo e levando a mão à testa.
Ele olhou para o pai, indignado.
— Pai! Por que você jogou isso?!
— Concentre-se! — o pai ralhou de volta, com a voz firme, segurando algumas pedrinhas nas mãos. — Se você estivesse realmente focado no seu fluxo, não teria se abalado. De novo. Feche os olhos.
Shin resmungou baixinho, cruzou as pernas outra vez e fechou os olhos, tentando afastar a irritação.
"Foco, foco..."
Repetia mentalmente, buscando estabilizar o calor no peito.
Ploc!
Outra pedrinha acertou de leve sua bochecha.
Shin abriu os olhos, bufando, com o rosto vermelho de frustração.
— Mas, pai, como eu vou me concen...
— Concentre-se! — o pai cortou a frase antes mesmo que Shin terminasse de reclamar.
Ele deu um passo à frente, apontando para o chão com um olhar firme.
— No meio do ranking, Rogan vai gritar no seu ouvido, os outros alunos vão fazer barulho e o som das armas vai ecoar ao seu lado. Se uma pedrinha de quintal consegue tirar sua atenção e fazer você abrir os olhos, uma finta nos testes da arena pode arruinar sua nota. Esqueça que eu estou aqui!
O restante do dia foi uma sequência de tentativas de Shin para manter a concentração enquanto o pai testava sua paciência com pequenas pedras e folhas secas.
Ao fim da tarde, Shin finalmente conseguiu permanecer concentrado mesmo com as distrações.
O segundo dia trouxe o treino físico.
O pai montou um circuito simples no quintal, com corridas curtas, agachamentos, flexões e exercícios de equilíbrio. Shin precisava completar cada etapa mantendo a postura correta, sem deixar que o cansaço prejudicasse seus movimentos.
Depois de algumas séries, Shin se sentou no chão, respirando pesadamente.
— Finalmente...
— Descanse por alguns minutos — respondeu o pai. — Depois continuamos.
Shin arregalou os olhos.
— Você não vai me mandar continuar agora?
O pai deu um pequeno sorriso.
— Um Guerreiro de Elite precisa saber quando avançar e quando recuperar as forças. Força sem controle não serve para nada.
No terceiro dia, veio o teste do elemento puro.
Sem o bastão, o pai o fez manifestar chamas diretamente nos punhos para atingir troncos de madeira úmida, usando o calor concentrado para secá-los por dentro sem deixar o fogo se espalhar.
No fim da tarde, Shin chegou ao último e mais grosso tronco.
Estava cansado, mas manteve a postura.
Respirou fundo.
Concentrou o fogo.
E golpeou.
O fogo alaranjado envolveu seu punho e atingiu o tronco com força. Uma parte da madeira se partiu, revelando o interior seco.
Shin respirou fundo, satisfeito.
Por um instante, porém, sentiu uma estranha sensação de calor no pulso esquerdo, escondido sob a faixa branca.
Ele olhou para o próprio braço.
Nada.
A sensação desapareceu tão rápido quanto surgiu.
— Consegui... — murmurou.
Seu pai assentiu, satisfeito.
— Melhor. Você está começando a entender que controlar o fogo é mais importante do que simplesmente produzir mais dele.
Shin continuou olhando para o pulso por alguns segundos.
Havia alguma coisa estranha ali.
Mas ele não fazia ideia do que era.
No quarto dia, o pai finalmente devolveu o bastão ancestral, desafiando o filho a unir tudo o que havia aprendido.
O formato cilíndrico, antes tão desafiador, agora parecia mais familiar para Shin.
Ele liberou o fluxo.
Num piscar de olhos, o fogo alaranjado cobriu o bastão de ponta a ponta, formando uma camada intensa e controlada ao redor da arma.
Shin girou o bastão com velocidade, alternando movimentos defensivos e ataques precisos.
O pai lançava alvos móveis pelo quintal, e Shin precisava acertá-los sem perder o controle das chamas.
A transição entre lutar com o bastão e usar o fogo diretamente também começou a ficar mais natural.
Ele ainda tinha muito a aprender.
Mas estava evoluindo.
Os três dias restantes da semana passaram em um ritmo intenso de treinamento, ajustes de postura e prática constante.
Shin treinava de manhã, descansava quando necessário e retomava os exercícios mais tarde.
À noite, jantava com os pais e aproveitava aquele pouco tempo para recuperar as forças.
Ele não voltou a sentir aquela estranha sensação no pulso, mas a firmeza e a velocidade que ganhou em cada movimento mostravam que o treinamento havia feito diferença.
Ele estava pronto.
No amanhecer de segunda-feira, o céu da Vila do Fogo despertou com uma tonalidade avermelhada e intensa.
Quando Shin cruzou os portões de ferro da academia ao lado de Sumi, o pátio principal parecia uma panela de pressão prestes a estourar.
Um imenso mural de metal escuro havia sido fincado perto da entrada da ala de combate corpo a corpo. No topo da estrutura, três espaços dourados e destacados brilhavam intensamente sob a luz do sol, ainda vazios.
Os outros alunos se aglomeravam ao redor em grupos tensos.
O tilintar do metal ecoava pelo pátio enquanto a galera exibia orgulhosamente suas katanas afiadas, lanças longas de ponta dupla, machados pesados de guerra e foices de combate reluzentes.
Rogan estava escorado em um pilar ao longe, com a espada longa presa à cintura, encarando as três vagas douradas com um olhar faminto e competitivo, como se já se considerasse dono de uma das posições mais altas.
Shin respirou fundo e ajeitou a alça do bastão nas costas.
Ele não tinha uma lâmina moderna como os outros.
Mas sua mente estava fria, seu corpo estava preparado após aquela semana de treinamento e a determinação em seu peito permanecia inabalável.
Os sete dias de preparação haviam acabado.
O ranking ia começar.