A garra surgiu da escuridão antes mesmo de eu ver o resto do corpo. Rasgou o ombro da minha jaqueta e raspou a pedra atrás de mim. O duto era estreito demais pra criatura passar inteira. Só a cabeça e um braço conseguiram forçar a abertura, presos entre as pedras quebradas, rosnando a um palmo do meu rosto.
Não tive tempo de hesitar. Lembrei do que Theron descrevera sobre o que essas coisas faziam com a luz de Raken: bebiam. A faísca da manopla morreu na fenda, e depois a luz azul foi engolida pela criatura através da abertura. Então dei a ela mais do que podia beber.
Empurrei a manopla rachada contra o focinho dela e soltei tudo que ainda tinha de Raken — o meu e o que sobrava no metal, os dois de uma vez, sem cuidado nenhum com o quanto isso ia doer depois.
A explosão de luz azul queimou minha própria mão antes de queimar a dela. O estrondo no duto confinado foi ensurdecedor, zumbindo no meu cérebro enquanto a onda de choque me empurrava para trás. A criatura recuou com um guincho que não parecia bicho nenhum que eu conhecesse, engasgada, e a pedra ao redor da abertura, já rachada pelo primeiro golpe, cedeu de vez. Uma cortina de entulho caiu entre nós.
A manopla ficou fria na minha mão. Sem faísca, sem vibração, só metal negro e quebrado. Se os cães do Alto Comando estivessem lá em cima, tinham acabado de perder meu rastro. Eu também tinha ficado sem nada pra rastrear.
Corri pelo duto, mancando, a mão direita inteira dormente e o ouvido esquerdo zunindo, até a saída que dava no porão da ala de arquivos mortos. Era um corredor que ninguém além de mim sabia que existia, porque fui eu que desenhei a planta falsa que o escondia dos registros da cidade. Dez anos cuidando daquela biblioteca e catalogando o subsolo que a cidade esqueceu serviram pra alguma coisa, no fim.
Tranquei a grade de ferro atrás de mim. Escutei a criatura bater contra a pedra do outro lado por algum tempo, depois parar. Não fiquei para descobrir se tinha desistido ou se procurava outra entrada.
Segui pelo corredor até a sala de restauro, no fundo do porão. Paredes de pedra grossa, uma única porta estreita, a bacia de água que uso para amolecer páginas coladas. Fechei a porta e acendi uma vela com a mão esquerda. Lá em cima, os rosnados e o desabar de móveis chegavam abafados, como trovão distante.
Sentei no chão, a mão direita latejando, e abri o diário de novo. A página seguinte começava com a letra irregular de Theron. Depois daquela noite, eu precisava mais do que nunca saber para onde ele tinha ido.
Dia 8.
A costela lateja mais forte a cada passo, e a perna que abri em Varin voltou a sangrar de leve dentro da bota. O estojo pulsa nas costas, e isso não me deixa esquecer o homem morto que deixei na fenda.
Andei desde antes do amanhecer, esperando ouvir o bater de asas de outro corvo a cada passo.
Não veio nenhum.
Devia ter me acalmado. Não acalmou.
A manopla já não soltava faíscas, mas tinha voltado a vibrar fracamente contra o quadril. Não parecia responder ao meu Raken. Parecia responder ao estojo.
E o estojo também tinha mudado. Pulsava mais forte depois do que houve na fenda, como se alguma coisa dentro dele tivesse despertado.
Seris. O nome não sai da minha cabeça. Quem quer que seja, já sabia onde eu estava antes de eu saber que estava sendo visto. Continuo olhando as árvores como se cada uma tivesse olhos.
Andei durante a manhã, até os pinheiros darem lugar a rocha nua e à estrada de pedra que liga os postos de sinal do Círculo. Não pretendia me aproximar dela. Só a seguia de longe, pelas árvores, como referência até o próximo marco. Depois de Varin, depois da fenda, eu sabia o que um posto do Círculo podia esconder.
O posto de sinal de Kelvar fica numa torre baixa, erguida há cem anos para acender fogueiras quando o gelo fecha os passes. Não devia ter mais que dois homens de guarda.
Vi fumaça de longe e, por três passos, esqueci a cautela. Fogo quente, comida, uma muda de roupa seca. Depois lembrei de Varin e voltei para a linha das árvores, sem chegar mais perto do que já tinha ido.
Não era fumaça de fogueira. O fogo estava nos depósitos do térreo. Queimava por dentro, sem chama visível, escapando pelas frestas da pedra como se alguém tivesse abafado o incêndio de propósito. A sala do posto, no alto, ainda parecia preservada pelo fogo.
A fumaça era limpa demais. Não havia vento carregando cinza, nem estalos de madeira. Alguém queria que eu visse aquela torre.
Mesmo assim, subi.
Contornei a construção pelo lado oposto ao vento. Uma torre queimando em silêncio era o tipo de coisa que ninguém abandonaria sem motivo. Eu precisava saber o que tinha acontecido ali.
Os dois guardas estavam sentados lado a lado no parapeito, de costas para a escada, como se estivessem de vigia. Não estavam. Alguém tinha dobrado as mãos deles sobre os joelhos e fechado os olhos. Não havia sangue. Não havia luta. As lanças ainda estavam nos suportes.
Já vi isso antes. O primeiro homem que encontrei em Varin também parecia só descansando, mas aquele tinha a pele afundada, os lábios azuis, o jeito de quem foi esvaziado por dentro. Esses dois não tinham nada disso. Alguém os matou e depois arrumou os corpos, como quem arruma a cama antes de sair.
Não era fome de BloodMaren. Era paciência de gente.
E o modo de sentar, com as mãos nos joelhos, era o mesmo.
Alguém queria que eu reconhecesse o padrão.
O pombal estava vazio. As aves tinham sido soltas, não mortas, e nenhuma trazia mensagem presa à pata. Quem matou os guardas não queria que o posto avisasse ninguém do que tinha acontecido ali.
Sobre a mesa, debaixo de uma pedra, estava um despacho com o selo do Alto Comando. O selo de verdade, não o que qualquer capitão de guarnição usa. Era uma ordem que devia ser repassada por pombo aos outros postos da linha. Quem matou os guardas interceptou a ordem antes de ela voar e a deixou ali, onde eu a encontraria.
Ordem de patrulha silenciosa: interceptar o portador do Relicário antes de Solarion. Sem julgamento. Sem registro.
Relicário.
Nem o Círculo usa esse nome em documento oficial. Só quem já sabia o que eu carregava escreveria isso.
Não sei quem matou os guardas. Mas quem deixou aquele despacho sob a pedra sabia que eu passaria por Kelvar.
Pelo menos uma coisa boa: a ordem nunca saiu da torre. Os outros postos da linha ainda não sabiam de mim. Isso duraria enquanto ninguém perguntasse por que Kelvar tinha parado de responder.
Queimei o despacho na lamparina quebrada da torre, página por página, e pisei nas cinzas até não sobrar nada que desse para remontar. Um papel com aquele selo valia mais que a minha cabeça se caísse na mão errada.
Não vou pelos postos de sinal depois disso. Não vou por estrada nenhuma que o Alto Comando conheça.
E não vou mandar palavra nenhuma para Mara. Se quem mata em silêncio já está na linha dos postos, qualquer pomba que eu solte, qualquer mensageiro que eu pague, é uma porta que eu abro para alguém chegar nela antes de mim.
Ela vai pensar que eu morri em Varin. Vai chorar por um homem que jurou levar flores ao túmulo da mãe dela e nunca voltou. É mais seguro assim do que a verdade.
Segui a crista da montanha até o anoitecer, longe de qualquer marco que um mapa do Círculo mostrasse. Duas vezes encontrei trilhas de veado cruzando o meu caminho na direção errada, animais fugindo de mim, não da tempestade.
Na terceira vez, não vi trilha nenhuma.
Só um silêncio que não existe em floresta viva. Nenhum pássaro. Nenhum inseto. Nenhum galho quebrando sob peso que não fosse o meu.
A neve à minha frente estava lisa demais. Como se alguém tivesse alisado o caminho antes de eu chegar, só para me mostrar por onde ir.
Eu não escolhi aquele caminho.
Ele já estava esperando por mim.