CAPÍTULO 1
O sino da vila tocava sempre no mesmo horário. Três batidas longas ao fim da tarde, quando o sol começava a descer atrás das colinas e a luz ficava dourada o suficiente para fazer até as casas simples de madeira parecerem bonitas.
Ren Akihara estava deitado no telhado do celeiro, com as mãos atrás da cabeça, sentindo o calor da madeira ainda morna do sol. O vento passava pelos campos de trigo e fazia um som constante, como se o mundo estivesse respirando.
Ele gostava daquele som.
Era diferente do silêncio.
Silêncio demais nunca significava coisa boa.
— REN! — a voz de Daichi veio lá de baixo.
Ren não respondeu.
— Eu sei que você tá aí em cima!
Ele suspirou e virou o rosto devagar para a beirada do telhado.
— Você vai cair um dia desses.
Daichi estava com um livro debaixo do braço, o cabelo bagunçado e o rosto levemente sujo de poeira. Ele não tinha postura de guerreiro. Nem de estudioso exemplar. Ele parecia apenas… um garoto comum tentando parecer mais confiante do que realmente era.
— Você que vai cair primeiro — Ren respondeu.
— Eu pelo menos sei usar escada.
Ren se sentou devagar e escorregou até a borda, descendo com um salto leve. Aterrissou com facilidade, dobrando os joelhos para absorver o impacto.
Daichi levantou uma sobrancelha.
— Exibido.
— Você chamou.
— O padre pediu pra gente ajudar a mover as caixas da capela.
Ren fez uma careta quase imperceptível.
— Agora?
— Agora.
Eles caminharam juntos pela rua principal da vila. Algumas crianças corriam atrás de um cachorro magro demais para parecer saudável, mas feliz demais para parecer abandonado. Uma mulher varria a frente da própria casa. Um ferreiro martelava metal ao fundo.
Era uma vila pequena, mas viva.
Ren sempre notava os detalhes. As rachaduras nas paredes. As telhas desalinhadas. As pessoas que pareciam cansadas demais para ter esperança, mas que ainda assim mantinham rotinas.
Daichi falava enquanto andava, mas às vezes tropeçava nas próprias palavras.
— Eu tava pensando… você lembra muito da sua vila?
Ren não respondeu imediatamente.
Ele olhou para o chão de terra batida enquanto caminhava.
— Lembro o suficiente.
Daichi percebeu a mudança de tom e mordeu o lábio.
— Desculpa.
— Não precisa.
Eles ficaram em silêncio por alguns passos.
— Eu lembro do cheiro — Ren disse de repente.
— Cheiro?
— Madeira molhada. Minha mãe sempre deixava as janelas abertas. O vento entrava cedo.
A voz dele não tremeu. Não ficou fraca.
Mas ficou distante.
Daichi não sabia o que dizer, então apenas escutou.
E Ren continuou, quase como se estivesse falando consigo mesmo.
— Eu lembro do meu pai tentando me ensinar a segurar uma espada. Eu tinha medo de machucar alguém. Ele ria.
O som do martelo do ferreiro ecoou mais forte naquele momento.
Ren parou de andar por um segundo.
O som metálico batendo contra metal fez algo vibrar dentro dele.
Não dor.
Não medo.
Só uma lembrança.
—
Era noite quando eles vieram.
Ren tinha onze anos.
Ele acordou com passos.
Passos demais.
Não eram corridas desesperadas. Não eram gritos. Eram passos organizados.
Sincronizados.
Ele saiu da cama e foi até a janela. A rua estava iluminada por tochas.
Homens.
Armaduras simples.
Nenhum símbolo claro.
Mas os olhos…
Os olhos não pareciam focar nas pessoas. Pareciam olhar através delas.
Seu pai abriu a porta antes que eles batessem.
— O que significa isso? — ele perguntou.
Um dos homens levantou a espada.
Não houve discussão.
Não houve anúncio.
A lâmina atravessou.
Limpa.
Rápida.
Ren não gritou.
Ele não conseguiu.
Ele ficou parado, sentindo o próprio corpo não obedecer.
Sua mãe tentou correr até o pai caído.
Outro golpe.
A irmã mais nova começou a chorar.
E então Ren sentiu.
Não no chão.
Não na casa.
No céu.
Ele levantou o rosto instintivamente.
As estrelas estavam… erradas.
Como se alguém tivesse movido algumas delas ligeiramente.
Pequeno demais para qualquer adulto notar.
Mas ele notou.
E naquele momento, algo imenso parecia observar.
Não com ódio.
Não com pressa.
Apenas registrando.
Quando os homens alinharam os corpos na praça, Ren já estava escondido sob o assoalho.
Ele ouviu o som das lâminas descendo juntas.
Exatamente no mesmo segundo.
Sem comando audível.
Como se obedecessem a uma ordem que não vinha da terra.
—
— Ren?
A voz de Daichi o trouxe de volta.
Eles já estavam na frente da capela.
Ren piscou algumas vezes.
— O quê?
— Você ficou parado.
— Só pensei em coisa velha.
Daichi não pressionou.
Eles entraram.
O interior da capela era simples. Cheiro de madeira e incenso leve. Um vitral azul no fundo mostrava uma figura descendo do céu com braços abertos, luz ao redor.
Ren nunca gostou daquele vitral.
As estrelas desenhadas no vidro estavam… organizadas demais.
— Vocês demoraram — disse uma voz firme atrás deles.
Ren virou.
Aoi estava parada perto do altar.
Ela não usava armadura completa, apenas roupas de treino com detalhes prateados no tecido. O cabelo preso alto deixava o rosto completamente exposto. Não havia suavidade na postura dela. Nem tensão. Apenas controle.
— A gente tava vindo — Daichi respondeu rápido demais.
Ela olhou para Ren por um segundo a mais.
— Você anda distraído.
Ren segurou o olhar dela.
— Eu sempre fui assim.
Ela não discutiu.
— Vamos mover as caixas.
Eles trabalharam juntos por quase uma hora. Caixas de livros antigos, mantos, ferramentas. O silêncio não era desconfortável.
Em determinado momento, Daichi tentou levantar uma caixa maior e quase perdeu o equilíbrio.
Aoi segurou antes que caísse.
— Usa as pernas, não as costas — ela disse.
— Eu sei.
— Então faz certo.
Ren observava os dois.
Havia algo diferente em Aoi.
Ela era da Igreja. Filha de alguém importante. Tinha postura de soldado.
Mas ali, ajudando com caixas, parecia só mais uma jovem tentando provar que merecia estar ali.
Depois do trabalho, o padre agradeceu.
Quando saíram da capela, o céu já estava escurecendo.
As primeiras estrelas surgiam.
Daichi se sentou na escada de pedra e respirou fundo.
— Às vezes eu queria sair da vila.
— Pra onde? — Ren perguntou.
— Não sei. Ver o mundo.
Aoi cruzou os braços.
— O mundo não é bonito como você imagina.
— Você já viu?
Ela demorou um segundo.
— O suficiente.
Ren olhou para o horizonte.
— Eu já vi o suficiente também.
Aoi virou o rosto para ele.
— Você não viu tudo.
— Não — ele respondeu. — Mas vi o bastante pra saber que algo tá errado.
O vento soprou mais forte naquele instante.
As estrelas estavam alinhadas.
Perfeitamente normais.
Mas, por um segundo…
Ren sentiu aquele peso antigo de novo.
Muito fraco.
Quase nada.
Ele piscou.
Passou.
Aoi estava olhando para o céu também.
Daichi não percebeu nada.
E a noite seguiu.
Calma.
Como se o mundo estivesse apenas… esperando.