CAPÍTULO 2
O dia começou antes do sol.
Ren acordou com o som de madeira sendo cortada ao longe e o cheiro de fumaça entrando pela janela. Ele abriu os olhos devagar, ainda deitado no colchão simples encostado na parede do quarto que dividia com Daichi desde que fora acolhido pela família Moriyama.
Por um momento, ele não sabia onde estava.
Isso ainda acontecia às vezes.
Em sonhos, a casa era outra. O teto era mais baixo. Havia uma pequena rachadura acima da porta que ele costumava contar antes de dormir.
Ele virou o rosto.
O teto ali era liso.
Silencioso.
Seguro.
Seguro o suficiente.
Daichi estava de bruços, com o braço pendurado para fora da cama improvisada. Respirava pesado. Murmurava algo incompreensível.
Ren se levantou sem fazer barulho. Já estava acostumado a acordar antes dos outros. Vestiu a camisa escura, amarrou a faixa nos pulsos e saiu.
O ar da manhã era frio e úmido. A vila ainda despertava devagar. Um galo cantou atrasado. Uma mulher abriu a janela com esforço.
Ren caminhou até o campo aberto atrás da capela.
Ele começou com alongamentos lentos. Ombros. Pulsos. Joelhos.
Depois assumiu postura.
A espada de madeira cortou o ar.
Uma vez.
Duas.
Três.
Movimentos repetidos. Não por força bruta, mas por precisão.
Ele lembrava da voz do pai.
“Não segura a espada como se estivesse com medo dela.”
“Espada não gosta de mão hesitante.”
“Confia no próprio corpo.”
Ren ajustou o pé direito.
Girou o quadril.
Corte diagonal.
O som da madeira deslocando o ar ecoou seco.
— Sua guarda ainda abre demais no segundo movimento.
A voz veio atrás dele.
Ren não se virou imediatamente.
— Você acorda cedo demais.
Aoi estava parada a alguns metros, já vestindo roupas de treino. O cabelo preso alto, como sempre. Sem expressão de sono.
— Você acorda cedo demais — ela repetiu.
Ren girou a espada no ar antes de apoiar no ombro.
— Não gosto de ficar parado.
Ela se aproximou.
— Então me mostra.
Ele não hesitou.
Partiu para cima primeiro.
O choque de madeira ecoou firme quando as espadas se encontraram.
Aoi não era mais forte que ele em aparência.
Mas a base dela era sólida demais.
Ela desviou o primeiro golpe com um pequeno giro de punho. O segundo, com o mínimo movimento de braço.
Ren avançou com mais intensidade.
Ela recuou dois passos calculados.
— Você pensa demais antes de atacar — ela disse, enquanto bloqueava outro golpe.
— E você ataca sem pensar.
— Não. Eu penso antes de lutar.
Ela girou o corpo, prendeu a espada dele contra a própria e empurrou com o ombro.
Ren perdeu o equilíbrio por meio segundo.
Foi o suficiente.
A ponta da madeira encostou no peito dele.
Ele respirava mais pesado.
Ela não.
— De novo — ele disse.
Ela não recusou.
Eles lutaram por quase meia hora.
Daichi apareceu no meio do treino, esfregando os olhos.
— Vocês dois são doentes.
Ren ignorou.
Aoi apenas lançou um olhar breve.
— Você devia treinar também.
— Eu treino.
— Ler não conta como treino físico.
Daichi fez careta, mas se aproximou mesmo assim.
Pegou uma espada de madeira menor.
A postura dele era torta.
Os pés desalinhados.
Aoi corrigiu sem tocar.
— Base mais aberta. Peso distribuído.
Daichi tentou ajustar.
Quase caiu.
Ren segurou o riso.
— Cala a boca — Daichi resmungou.
O treino dos três seguiu.
Desajeitado, mas genuíno.
Por alguns minutos, o mundo parecia simples.
—
Mais tarde, enquanto ajudavam a carregar sacos de grãos, um som diferente ecoou ao longe.
Não era sino.
Não era ferramenta.
Era grave.
Ritmo repetido.
Como se o chão estivesse sendo pressionado.
Ren foi o primeiro a parar.
Daichi também sentiu.
Aoi já estava olhando para a estrada antes mesmo do som ficar claro.
Cavalos.
Muitos.
E algo mais pesado.
Eles caminharam até a entrada da vila junto com outros moradores.
A poeira começou a subir antes que o exército fosse visível.
Bandeiras surgiram primeiro.
Preto e dourado.
Um símbolo de lâmina atravessando um círculo.
Daichi murmurou:
— Eu nunca vi esse brasão.
Aoi respondeu baixo:
— Reino de Kurogane.
O nome ficou no ar.
O exército apareceu por completo alguns segundos depois.
Fileiras organizadas.
Armaduras negras com detalhes dourados.
Lanças longas.
Espadas largas.
Não eram soldados comuns.
A disciplina deles era visível até na forma como respiravam.
No centro, um cavalo branco avançava um pouco à frente.
Montado nele, um homem que parecia deslocado do próprio mundo.
Alto.
Ombros largos.
Cabelos longos presos atrás.
Armadura negra mais detalhada, com marcas que não pareciam apenas decorativas.
Os olhos dele não analisavam a vila com curiosidade.
Analisavam com cálculo.
Ren sentiu algo estranho no ar.
Não como na noite do massacre.
Mas pesado.
Denso.
O homem puxou as rédeas e o cavalo parou perfeitamente alinhado.
O padre da vila se aproximou, nervoso demais.
— Seja bem-vindo…
O homem desmontou antes que a frase terminasse.
A bota dele tocou o chão com firmeza.
— General Raizen Kurogane.
A voz era grave. Controlada.
Não alta.
Não precisava ser.
— Estamos de passagem por ordem conjunta do Alto Clero e da Coroa de Kurogane.
Aoi ficou imóvel.
Ren percebeu que o rosto dela havia mudado ligeiramente.
Não medo.
Respeito.
Ou reconhecimento de poder.
— Precisaremos utilizar esta vila como ponto estratégico por tempo indeterminado — Raizen continuou.
— Estratégico para quê? — alguém murmurou entre os moradores.
Os olhos de Raizen se moveram na direção do som.
Não houve ameaça.
Mas houve silêncio imediato.
— Movimentações ao norte.
Ele não explicou mais.
Não precisava.
Ren cruzou os braços.
— Movimentações de quem?
Raizen olhou diretamente para ele.
Por um segundo inteiro.
E algo ali avaliou.
— De coisas que você não quer encontrar.
O olhar de Raizen desceu para a espada de madeira ainda presa na cintura de Ren.
— Você treina.
— Sim.
— Continue.
E então ele passou.
O exército começou a se organizar pela vila com eficiência assustadora.
Tendas erguidas.
Postos definidos.
Sentinelas posicionadas.
Daichi engoliu seco.
— Isso não parece “de passagem”.
Aoi permaneceu em silêncio.
Mas os olhos dela acompanhavam cada movimento militar.
Ren olhou para o céu.
As estrelas ainda não haviam surgido.
Mas o ar parecia mais pesado do que deveria.
E pela primeira vez em anos…
Ele teve a sensação de que a vila estava sendo medida.
Não pelos homens.
Mas por algo que observava acima deles.