CAPÍTULO 3
O som do aço sendo afiado substituiu o canto dos pássaros naquela manhã.
A vila já não parecia a mesma.
As ruas estreitas estavam parcialmente ocupadas por tendas negras com detalhes dourados. Lanças alinhadas em fileiras. Barris organizados com disciplina militar. Soldados de Kurogane patrulhavam em silêncio, passos firmes, sincrônicos, como se cada movimento tivesse sido ensaiado por anos.
Ren observava da beira da rua enquanto dois homens erguiam uma estrutura de madeira com rapidez impressionante.
— Eles trabalham como se estivessem em território inimigo — Daichi murmurou ao lado dele.
— Talvez estejam — Ren respondeu.
Daichi franziu a testa.
— Isso é só uma vila.
Ren não respondeu.
Para ele, nenhuma vila era “só uma vila”.
Aoi surgiu da capela naquele momento. A expressão dela estava mais dura que nos dias anteriores.
Ela analisava cada movimentação dos soldados de Kurogane com atenção crítica.
Um deles esbarrou levemente em uma senhora que carregava água. Não foi agressivo. Mas também não pediu desculpas.
Aoi fechou a mandíbula.
— Eles estão agindo como se já fossem donos do lugar — ela disse.
Ren deu de ombros.
— Talvez sejam.
Ela virou o rosto para ele.
— A Igreja permitiu a presença deles. Não significa que mandam aqui.
Antes que Ren pudesse responder, um novo grupo de cavaleiros surgiu na estrada principal.
Diferente do exército de Kurogane, esses usavam armaduras prateadas com detalhes azul-escuros. Símbolos da Igreja marcavam os peitorais.
A presença deles mudava o ar.
No centro, montado em um cavalo negro, vinha um homem cuja postura não precisava de anúncio.
Cabelos escuros começando a ganhar fios grisalhos. Rosto firme. Olhar afiado como lâmina recém-polida.
Aoi endireitou a postura instantaneamente.
— Meu pai chegou.
Ren sentiu algo diferente naquele homem.
Não era apenas autoridade.
Era controle absoluto.
O cavalo parou diante da capela. O homem desmontou sem pressa.
— Alto General Kanzaki — murmurou o padre local, inclinando a cabeça.
Ele não era apenas um líder militar.
Ele era o braço armado do Alto Clero.
Responsável pela contenção de ameaças espirituais, insurgências e… assuntos que a população comum nunca ficava sabendo.
Os olhos dele passaram pela vila inteira em segundos.
Avaliaram tudo.
Calcularam tudo.
Quando encontrou o olhar de Aoi, a expressão endurecida suavizou por um instante mínimo.
— Você está bem.
Não foi pergunta.
Ela assentiu.
— Sim, senhor.
— E disciplinada?
— Sempre.
Ele fez um leve movimento de aprovação.
Então o olhar dele mudou novamente quando encontrou o estandarte negro e dourado de Kurogane.
Sem dizer mais nada, começou a caminhar na direção do acampamento principal.
Ren, Daichi e Aoi seguiram a uma distância segura.
No centro do acampamento, General Raizen Kurogane já aguardava.
Como se soubesse exatamente o momento da chegada.
Os dois homens ficaram frente a frente.
Silêncio.
O tipo de silêncio que não é desconfortável — é pesado.
— Alto General Kanzaki — Raizen disse, voz firme.
— General Raizen.
Nenhum dos dois se curvou.
Nenhum ofereceu gesto formal além do mínimo.
— Seu exército está ocupando mais espaço do que o combinado — Kanzaki declarou.
— Não recebi limite oficial — Raizen respondeu.
— O acordo era temporário.
— Continua sendo.
— Defina temporário.
Raizen não piscou.
— O tempo necessário.
Os soldados ao redor permaneceram imóveis, mas atentos.
Aoi sentiu o próprio pulso acelerar.
Ren também percebeu algo.
Não era só política.
Era força.
Duas presenças enormes no mesmo espaço.
Kanzaki deu um passo à frente.
— A vila é território sob proteção direta da Igreja.
— E está sendo protegida — Raizen respondeu.
— Por quanto tempo pretende ficar?
— Até que o norte pare de se mover.
O padre local se aproximou rapidamente, suor visível na testa.
— Senhores… por favor… esta vila é pequena…
Raizen desviou o olhar por um instante, como se o padre fosse apenas um detalhe menor.
Kanzaki manteve os olhos fixos nele.
— Não ultrapasse seus limites, Raizen.
O ar pareceu vibrar por meio segundo.
Ren sentiu.
Não foi imaginação.
O chão sob seus pés pareceu pressionar para baixo.
Raizen colocou a mão sobre o cabo da espada.
Não puxou.
Mas colocou.
— Não confunda presença com invasão.
A mão de Kanzaki também se moveu levemente.
Não para a espada.
Mas para frente.
Como se estivesse segurando algo invisível.
Aoi percebeu primeiro.
O ar ao redor do pai começou a ficar denso.
Quase pesado demais para respirar.
Raizen inclinou a cabeça levemente.
Os soldados de Kurogane ajustaram a postura ao mesmo tempo.
Um único passo a mais e aquilo viraria combate.
O padre ergueu a voz, quase desesperado.
— Pela Luz Suprema, senhores! Estamos do mesmo lado!
Silêncio.
O vento soprou forte entre as tendas.
Depois de alguns segundos longos demais…
Raizen retirou a mão do cabo.
Kanzaki relaxou os ombros quase imperceptivelmente.
— Duas semanas — Kanzaki disse.
— Três — Raizen respondeu.
Os olhos dos dois se encontraram novamente.
— Duas — repetiu Kanzaki.
Raizen manteve o olhar por mais alguns segundos.
— Duas e meia.
O padre quase caiu para trás de alívio.
Kanzaki virou o rosto.
— Quinze dias.
Raizen sorriu pela primeira vez.
Não foi um sorriso amigável.
— Quinze dias.
O acordo estava selado.
Mas o clima não estava em paz.
—
Mais tarde, Aoi treinava com intensidade incomum.
Os golpes eram mais rápidos. Mais agressivos.
Ren bloqueou um ataque lateral e recuou.
— Você tá com raiva.
— Estou focada.
Ela avançou de novo.
Dessa vez ele não hesitou.
Desviou por pouco e girou, quase acertando o ombro dela.
Ela bloqueou no último segundo.
Os dois estavam melhorando.
Mais rápidos. Mais precisos.
Daichi assistia da beira do campo.
— Vocês parecem que vão se matar.
— Ainda não — Aoi respondeu, respirando firme.
Ren sentiu algo diferente naquele treino.
Ela não estava lutando contra ele.
Estava descarregando.
— Você odeia eles — ele disse.
Ela parou por um segundo.
— Eles não respeitam nada além de força.
— E a Igreja respeita?
Ela não respondeu.
Apenas atacou de novo.
O som da madeira ecoou pelo campo enquanto o sol começava a descer.
No alto da colina, um soldado de Kurogane observava os três jovens.
E mais distante ainda…
Raizen conversava sozinho com um de seus oficiais.
— O Alto General está tenso — o oficial disse.
— Ele sente — Raizen respondeu.
— Sente o quê?
Raizen olhou para o céu.
As estrelas começavam a surgir.
— Que algo aqui não está adormecido.
Ele não parecia preocupado.
Parecia… interessado.
—
Naquela noite, Ren demorou a dormir.
A vila estava mais silenciosa do que deveria estar, mesmo com tantos soldados.
Silêncio demais nunca era bom.
Ele olhou pela janela.
As estrelas estavam alinhadas.
Mas por um instante…
Uma delas pareceu pulsar.
Muito fraco.
Ele piscou.
Sumiu.
Talvez fosse cansaço.
Talvez não.
E, enquanto os exércitos descansavam e acordos eram firmados…
Algo observava.
Não com pressa.
Ainda não.