CAPÍTULO 4
O cheiro de ferro ficou mais forte na vila.
Não era sangue.
Era metal demais.
Forja demais.
Espadas demais.
Kurogane não agia como hóspede.
Agia como se estivesse se preparando para cerco.
Em menos de três dias, parte da floresta ao redor havia sido derrubada para abrir campo de visão. Árvores antigas cortadas sem cerimônia. Troncos empilhados. Madeira usada para reforçar barricadas improvisadas.
Ren caminhava ao lado de Daichi quando viu dois soldados empurrando um agricultor mais velho para fora da própria plantação.
— Essa área agora é zona de treinamento — um deles disse.
— Mas essa é minha colheita — o homem respondeu, voz trêmula.
O soldado não discutiu.
Apenas fincou uma estaca no chão marcando território.
Ren sentiu a mandíbula apertar.
Aoi apareceu segundos depois.
Ela viu a cena.
Os olhos escureceram.
— Isso não estava no acordo — ela disse.
O soldado olhou para ela.
Reconheceu o símbolo da Igreja na roupa dela.
— Ordem direta do General Raizen.
— A Igreja tem jurisdição aqui.
— Então fale com ele.
Simples assim.
Sem insulto.
Sem provocação.
Mas também sem respeito.
Aoi virou as costas imediatamente.
— Venham.
Ren e Daichi seguiram.
—
O campo principal de treinamento de Kurogane era organizado como um organismo vivo.
Fileiras alinhadas. Soldados executando movimentos simultâneos. Lanças girando no mesmo ritmo. Espadas cortando o ar com precisão assustadora.
Não havia gritos.
Apenas comandos curtos.
Secos.
Ren observava fascinado.
Daichi engoliu seco.
— Eles são… diferentes.
— Eles são disciplinados — Aoi respondeu.
No centro do campo, três soldados enfrentavam um único homem.
Raizen.
Sem armadura completa. Apenas a espada presa à cintura.
Ele não parecia se esforçar.
Os três avançaram ao mesmo tempo.
Ele se moveu meio passo.
A lâmina dele saiu da bainha com um som limpo.
Primeiro soldado: desarmado com um giro mínimo de punho.
Segundo: derrubado com a parte plana da lâmina no ombro.
Terceiro: bloqueou, mas foi projetado para trás com força absurda.
Tudo em menos de cinco segundos.
Ren sentiu o coração acelerar.
Não era só habilidade.
Havia algo a mais ali.
Algo pesado.
Raizen percebeu a presença deles.
Virou lentamente.
Os olhos pousaram primeiro em Aoi.
Depois em Ren.
Depois em Daichi.
— Filha do Alto General.
— General Raizen.
— Veio reclamar?
— Vim lembrar do acordo.
Ele deu um leve sorriso.
— Acordos são ajustáveis.
Ren deu um passo à frente sem perceber.
— Tomar plantação de civil não parece ajuste.
Os olhos de Raizen se fixaram nele.
Silêncio.
— Seu nome.
— Ren.
— Você fala com convicção para alguém que ainda treina com madeira.
Ren não desviou o olhar.
Raizen caminhou até ele.
A presença dele era esmagadora de perto.
— Mostre sua base.
Ren não hesitou.
Assumiu postura.
Aoi ficou tensa.
Daichi sentiu as mãos suarem.
Raizen desembainhou a espada.
A lâmina não parecia comum.
O metal tinha um tom escuro, quase absorvendo luz.
— Ataque.
Ren avançou.
O primeiro golpe foi bloqueado sem esforço.
O segundo também.
Raizen girou o punho levemente e desarmou Ren com um toque preciso no pulso.
A espada de madeira caiu.
Raizen colocou a ponta da própria lâmina no peito de Ren.
— Você hesita no segundo movimento.
Aoi ficou imóvel.
Ele repetiu exatamente o que ela havia dito dias atrás.
Raizen recuou a espada.
— Continue treinando.
Ele virou para Aoi.
— E ensine melhor.
Ela não respondeu.
Mas os olhos dela queimavam.
—
Naquela tarde, os três treinaram juntos.
Não leve.
Não brincadeira.
Aoi corrigia postura de Daichi com paciência forçada.
— Pés mais afastados.
— Assim?
— Não, você vai cair de novo.
Ren entrou no meio.
— Ele tá jogando o peso errado.
Daichi bufou.
— Vocês dois são insuportáveis.
Aoi suspirou.
— De novo.
Eles repetiram movimentos até o sol começar a descer.
Daichi caiu três vezes.
Levantou quatro.
Ren começou a controlar melhor o impulso.
Aoi começou a ajustar o próprio ritmo para lutar em dupla.
Sem perceber, estavam evoluindo.
Sincronizando.
—
Enquanto isso, no outro lado da vila, soldados de Kurogane recolhiam barris de água além do permitido.
Pegavam ferramentas. Usavam madeira reservada. Ocupavam celeiros inteiros.
A tensão crescia.
O padre tentou intermediar.
— Por favor, não podemos sustentar tudo isso…
— Não pedimos — o oficial respondeu.
— Informamos.
—
Naquela noite, Kanzaki caminhou pelo acampamento de Kurogane.
Os olhos dele não perdiam detalhe algum.
Ele viu madeira demais sendo usada. Recursos além do acordo. Sentinelas posicionadas fora do perímetro combinado.
Raizen apareceu ao lado dele como se já soubesse que ele viria.
— Você está testando limites.
— Estou garantindo segurança.
— À custa da vila.
— À custa de prevenção.
Kanzaki olhou para o céu.
As estrelas estavam visíveis.
— O que você sabe que eu não sei?
Raizen não respondeu de imediato.
Depois disse apenas:
— Eu sei que o norte não se move sozinho.
O vento soprou mais frio naquela noite.
Ren estava deitado olhando pela janela.
Daichi dormia profundamente. Aoi provavelmente ainda estava acordada.
Ren sentiu novamente.
Aquela leve pressão.
Não como na noite do massacre.
Mas… próxima.
Como se algo estivesse se aproximando.
E no campo de treinamento vazio, um soldado de Kurogane olhava para a floresta.
Ele jurava ter visto algo entre as árvores.
Algo alto demais.
Parado demais.
Observando.
Quando piscou…
Não havia nada.
Ainda.