Capítulo 8
O Homem que Caminha Entre Eras
O silêncio após a queda do Guardião de Elite era diferente.
Não era apenas ausência de som.
Era como se o próprio desfiladeiro estivesse respirando de novo.
A energia no ar estava mais leve.
Mas não vazia.
Algo permanecia.
Ren ainda estava ajoelhado.
A respiração pesada.
As mãos tremendo levemente pelo esforço extremo.
Aoi estava de pé, mas exausta.
Daichi apoiado numa rocha, tentando reorganizar o fluxo interno de energia.
Então os passos vieram.
Não ecoaram como pedra.
Ecoaram como tecido tocando o chão.
Calmos.
Medidos.
Os três olharam ao mesmo tempo.
Ele estava descendo pela lateral do desfiladeiro como se aquela inclinação absurda fosse uma escada comum.
Vestes claras. Cabelos longos e dourados que refletiam a luz do fim de tarde. Rosto sereno. Olhos que não demonstravam hostilidade… nem surpresa.
Ele parou a alguns metros deles.
Nenhuma postura de combate.
Nenhuma ameaça visível.
Mas a presença dele era mais pesada que a do Guardião de Elite.
Aoi deu um passo à frente.
— Você estava observando.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Estava.
A voz era tranquila.
Sem arrogância.
Sem pressa.
Daichi analisava cada detalhe.
Nenhum símbolo imperial. Nenhum brasão conhecido. Nenhuma marca da Igreja.
Ren se levantou devagar.
Mesmo exausto, manteve o olhar firme.
— Aquilo foi você?
O homem olhou para os fragmentos do guardião espalhados pelo chão.
— Eles cumprem sua função.
Não confirmou. Não negou.
Aoi percebeu algo no modo como ele falava.
Era formal. Mas não distante.
Ele olhou diretamente para Ren agora.
— Você lutou além do limite do próprio corpo.
Ren não respondeu.
O homem continuou:
— Poucos fazem isso sem se despedaçar.
Daichi interveio:
— Quem é você?
Ele fez uma pequena pausa.
Como se estivesse decidindo o quanto dizer.
— Meu nome é Eryndor Valeth.
O nome pairou no ar como algo que não pertencia àquela era.
Ele continuou:
— Filho da linhagem Valeth. Descendentes dos primeiros que sobreviveram à ruptura da Primeira Era.
Aoi franziu o cenho.
Primeira Era.
Termo antigo.
Pouco mencionado.
Quase proibido nos textos oficiais da Igreja.
Ela cruzou os braços.
— Nunca ouvimos falar de você.
Um leve sorriso.
Não ofensivo.
— Isso é esperado.
Daichi perguntou:
— Você controla esses guardiões?
Eryndor olhou para os fragmentos novamente.
— Eles protegem o que resta.
Ren percebeu algo no tom dele.
Não era dominação.
Era vínculo.
— O que exatamente eles protegem? — Ren perguntou.
Silêncio.
Os olhos de Eryndor se moveram.
Por um instante, passaram pelo símbolo da Igreja na armadura de Aoi.
Algo mudou.
Muito sutilmente.
— Conhecimento que não pertence à Igreja.
Aoi deu um passo à frente.
— A Igreja protege este mundo dos Ancestrais.
Eryndor a encarou agora.
Não com desprezo.
Mas com algo mais complexo.
— A Igreja protege o que pode controlar.
A tensão ficou instantânea.
Daichi sentiu.
Ren também.
Mas Eryndor não avançou.
— Vocês enfrentaram fragmentos de algo muito maior hoje — ele disse calmamente. — Aqueles guardiões não eram ameaça real.
Aoi respondeu, firme:
— Aquilo quase nos matou.
— Exato.
A frase não tinha sarcasmo.
Era constatação.
Ele continuou:
— O que dorme sob esta ilha é apenas uma das muitas cicatrizes deixadas pela Primeira Era.
Ren sentiu o peso daquela frase.
— Você sabe sobre os Ancestrais.
Não era pergunta.
Eryndor não confirmou diretamente.
Mas respondeu:
— Sei como pará-los.
Silêncio absoluto.
O vento soprou mais forte.
Aoi estreitou os olhos.
— Então por que não faz?
Ele a encarou por alguns segundos.
Depois disse:
— Porque o mundo ainda não está pronto para saber o preço.
Ela ficou sem resposta imediata.
Daichi falou:
— Seu reino… onde fica?
Eryndor virou levemente o corpo.
Apontou para além das montanhas ao norte.
— Ao outro lado do Mar Cinzento.
Ren franziu a testa.
— Não há nada ali.
— Havia.
Ele corrigiu.
— Agora há novamente.
Aoi percebeu.
— Você está formando um reino.
— Estou restaurando o que foi apagado.
O tom não era revolucionário.
Era quase… inevitável.
Ren perguntou:
— E a Igreja?
Um silêncio pequeno.
Mas significativo.
— A Igreja já sabe da nossa existência.
Daichi entendeu antes.
— Vocês estão lutando.
Eryndor não negou.
— Eles chamam de rebelião.
Ele ergueu o olhar para o céu.
— Eu chamo de correção.
A tensão com Aoi aumentou.
Ela deu um passo à frente.
— Você está colocando o mundo em risco.
Eryndor olhou para ela com uma serenidade quase cruel.
— Não. O mundo já está em risco.
Silêncio.
Ren sentia algo diferente.
Não medo.
Não submissão.
Mas curiosidade.
Eryndor voltou a olhar para ele.
— Você sentiu hoje.
Ren não respondeu.
Mas sabia do que ele falava.
A compressão da energia. O reconhecimento. A sensação de algo maior observando.
— Seu fluxo não é comum — Eryndor continuou. — Ele não foi moldado pela Igreja.
Aoi ficou rígida.
— Cuidado com suas palavras.
Ele não reagiu.
— Quando descobrir a verdade sobre o que realmente protege… me procure.
Ren sustentou o olhar.
— E onde eu encontraria você?
Um leve sorriso.
— Reino de Aetheryon.
O nome parecia carregar vento.
— Ao norte do Mar Cinzento. Onde o céu permanece aberto mesmo no inverno.
Ele começou a se afastar.
Sem pressa.
Sem virar as costas abruptamente.
Antes de desaparecer entre as rochas, disse apenas:
— Você não pertence às correntes que te deram.
E então sumiu.
Sem explosão. Sem espetáculo.
Apenas ausência.
O Retorno
A viagem de volta foi silenciosa.
Muito mais do que na ida.
Aoi caminhava rígida.
Daichi pensativo.
Ren… inquieto.
Quando a vila finalmente surgiu no horizonte, o cheiro de pedra quebrada ainda estava no ar.
Marcas do confronto estavam visíveis.
Rachaduras na praça.
Madeira queimada.
Soldados Kurogane reorganizando formações.
Sacerdotes feridos sendo tratados.
Kanzaki estava de pé na escadaria da capela.
Quando viu os três retornando, seus olhos analisaram imediatamente o estado deles.
E depois…
Algo mais.
Ele sentiu.
A presença residual de Eryndor.
E isso o preocupou mais do que o confronto com Raizen.
Ren olhou para o pai de Aoi.
E pela primeira vez…
Ele não tinha certeza de que a Igreja estava contando tudo.
O mundo não estava dividido apenas entre Império e fé.
Havia algo nascendo.
E aquele nome ecoava na mente dele:
Aetheryon.
Eryndor Valeth.
E “quando souber a verdade… me procure.”