A vila estava silenciosa naquela manhã.
Não era um silêncio de paz — era um silêncio de cansaço.
A madeira recém-colocada nas casas ainda tinha cheiro de resina fresca. Martelos batiam ao longe. Algumas paredes estavam sendo erguidas de novo, outras permaneciam tortas, como cicatrizes mal fechadas.
O mar continuava ali, como sempre esteve. Mas até o som das ondas parecia diferente depois do confronto.
Ren estava no campo de treino atrás da igreja.
Sem camisa.
Respiração pesada.
A espada de madeira girava em suas mãos com mais firmeza do que semanas atrás. Seus pés agora se moviam com consciência. Ele não era mais o garoto impulsivo que só avançava.
Ele estava aprendendo a esperar.
— Mais firme no eixo — disse Kanzaki.
A voz era calma, mas carregava autoridade natural.
Kanzaki estava parado alguns metros à frente, braços cruzados, o manto da Igreja preso à cintura para não atrapalhar os movimentos. Mesmo em repouso ele parecia pronto para a guerra.
Ren avançou.
Passo curto. Giro. Golpe lateral.
Kanzaki desviou sem sequer tirar os pés do lugar. Dois dedos pressionaram o pulso de Ren e, com um movimento mínimo, o fizeram perder o equilíbrio.
Ren caiu de joelhos na terra.
— Você ainda pensa demais no próximo golpe — disse Kanzaki. — E esquece o atual.
Ren respirava fundo.
— Eu tô melhorando.
— Está. — Kanzaki olhou para ele com um leve sorriso. — Mas melhorar não é suficiente. Você quer ser forte.
Ren ergueu o rosto.
— Quero.
— Então pare de querer vencer. Comece a querer entender.
Ren franziu o cenho.
Antes que pudesse perguntar, ouviu passos leves atrás de si.
Aoi.
Ela carregava duas espadas de treino nos ombros, como se fossem galhos. O cabelo preso alto, alguns fios soltos caindo no rosto.
— Ele caiu de novo? — ela perguntou.
— Caiu melhor — respondeu Kanzaki.
Ren bufou.
Aoi riu.
Ela jogou uma espada para Ren, que pegou no ar.
— Vai. Agora comigo.
Eles se afastaram alguns passos.
Aoi não era brutal como Kanzaki. Ela era precisa.
Os dois começaram a trocar golpes rápidos. Madeira batendo contra madeira. Passos levantando poeira.
Ren tentou avançar com força.
Aoi girou o corpo, deslizou por baixo do braço dele e tocou a ponta da espada nas costas dele.
— Morto.
— Você sempre faz isso!
— Porque você sempre faz a mesma coisa.
Ela atacou dessa vez.
Ren bloqueou melhor. O impacto fez seus braços tremerem, mas ele manteve posição.
Os olhos de Kanzaki observavam cada detalhe.
Ren girou o pulso, empurrou a lâmina dela para o lado e avançou com um corte horizontal.
Aoi recuou por pouco.
Ela sorriu.
— Agora sim.
Os dois ficaram mais rápidos.
Os golpes começaram a sair do instinto.
Não era mais só treino.
Era evolução.
Quando finalmente pararam, ambos suavam, respirando pesado.
Kanzaki caminhou até eles.
— Vocês dois estão começando a se sincronizar.
Ren limpou o suor da testa.
— Isso é bom?
— É perigoso.
Aoi inclinou a cabeça.
— Como assim?
Kanzaki olhou para os dois com uma expressão que não revelava tudo o que pensava.
— Parceiros que lutam bem juntos criam dependência. E dependência cria fraqueza… se um deles cair.
O vento soprou entre os três.
Ren desviou o olhar.
Aoi permaneceu séria.
Enquanto isso, do outro lado da vila…
Daichi estava sentado no chão frio do depósito antigo da igreja.
Não era exatamente proibido entrar ali.
Mas ninguém costumava entrar.
Prateleiras antigas. Livros com capas gastas. Mapas enrolados. Registros velhos.
Ele passava os dedos pela lombada de um livro grosso.
“Registros das Primeiras Cruzadas.”
Ele abriu.
Páginas amareladas.
Relatos de batalhas contra “entidades antigas”.
Descrições vagas. Palavras como “purificação”, “selamento”, “sacrifício necessário”.
Daichi franziu o cenho.
— Estranho…
Ele virou mais páginas.
Havia trechos riscados. Parágrafos apagados com tinta mais escura.
Como se alguém tivesse corrigido a própria história.
Ele puxou outro livro.
“Tratado Sobre as Energias Primordiais.”
Ali a linguagem era diferente.
Menos religiosa.
Mais técnica.
Falava sobre “pactos”.
Sobre “equilíbrio entre mundos”.
Sobre “intermediários”.
Daichi sentiu o coração bater mais forte.
Ele não entendia tudo.
Mas algo estava errado.
Muito errado.
Se os ancestrais eram apenas demônios… por que os textos antigos os chamavam de “guardadores”?
Ele fechou o livro devagar.
O silêncio do depósito parecia mais pesado agora.
Ele passou a mão no cabelo, pensativo.
— Talvez eu esteja entendendo errado…
Mas mesmo dizendo isso, ele sabia.
Não estava.
No final da tarde…
Ren e Aoi caminhavam pela praia.
Sem armaduras.
Sem espadas.
Só o som das ondas e o céu ficando laranja.
— Você acha que meu pai pega leve com você? — Aoi perguntou de repente.
Ren riu.
— Ele quase quebrou meu braço ontem.
— Ele pega leve.
— Então eu vou morrer quando ele parar de pegar?
Aoi sorriu.
Eles caminharam em silêncio por alguns segundos.
— Ren… — ela começou.
Ele olhou para ela.
— Você já pensou em sair daqui?
A pergunta veio calma, mas tinha peso.
— Sair? Pra onde?
— Não sei. O mundo é maior que essa ilha.
Ren ficou em silêncio.
Ele lembrou do homem que os observava na batalha contra o guardião.
Da postura tranquila.
Da força contida.
Aetheryon.
Ele ainda não tinha falado sobre aquilo.
— Talvez — Ren respondeu por fim. — Mas… não agora.
Aoi olhou para o horizonte.
— Meu pai diz que a paz nunca dura.
— Ele já viu coisa demais.
— Ele nunca conta tudo.
Ren chutou uma pedra pequena.
— Talvez ele esteja tentando proteger você.
Ela parou de andar.
— Ou talvez ele esteja protegendo a Igreja.
O vento soprou mais forte.
Ren não respondeu.
Ele não queria entrar naquele assunto.
Ainda não.
Naquela noite…
Kanzaki treinava sozinho no campo.
Sem espada de madeira.
Sem limites.
A lâmina real cortava o ar com um som seco.
Seus movimentos eram perfeitos.
Cada passo calculado.
Cada golpe preciso.
Não havia hesitação.
Ele parou.
Respirou fundo.
O padre mais velho da vila se aproximou lentamente.
— Você vai acabar se esgotando.
— Não estou cansado.
— Está carregando algo.
Kanzaki permaneceu em silêncio.
O padre suspirou.
— O exército pode ter ido embora… mas o mundo lá fora está se movendo.
— Eu sei.
— E os três?
Kanzaki fechou os olhos por um instante.
— Ainda são crianças.
— Você também já foi.
Ele apertou o punho.
— Eu não tive o luxo de continuar sendo.
O padre observou as cicatrizes nos braços dele.
— Você nunca fala do passado.
Kanzaki olhou para o céu escuro.
— Porque ele não foi feito para ser repetido.
O padre ficou em silêncio.
Depois de alguns segundos:
— Você acredita que fizemos o certo?
A pergunta ficou suspensa no ar.
Kanzaki demorou a responder.
— Acreditar… não é o mesmo que saber.
Ele voltou a treinar.
Mas seus golpes estavam mais pesados agora.
No depósito…
Daichi ainda lia.
Outra pilha de livros ao lado.
Olhos cansados.
Mas atentos.
Ele murmurou para si mesmo:
— Se isso for verdade…
O som da porta rangendo o fez olhar para trás.
Era apenas o vento.
Mas por um segundo…
Ele teve a sensação de que estava sendo observado.
E, sem perceber…
Ele já estava começando a atravessar um caminho que não teria volta.