Capítulo 13
O céu escureceu antes do tempo.
Nuvens densas cobriram o sol como se o próprio mundo soubesse que algo estava prestes a acontecer.
A vila ainda consertava os danos do ataque anterior quando os sinos da igreja começaram a tocar.
Uma vez.
Duas.
Três.
Longo. Grave. Urgente.
Ren estava ajudando a erguer um novo armazém quando ouviu.
Ele congelou.
Aoi já estava correndo antes mesmo de olhar para trás.
— Eles voltaram.
Não era dúvida.
Era certeza.
No horizonte, não havia névoa dessa vez.
Havia navios.
Menos do que antes.
Mas organizados.
Firmes.
Determinados.
Bandeiras negras tremulavam.
O símbolo dos Kurogane estava rasgado — mas não escondido.
Eles não vinham em silêncio.
Eles vinham para encerrar.
Kanzaki estava parado na entrada da vila.
Manto branco da Igreja ao vento.
Armadura sob o tecido.
Espada na mão.
O padre aproximou-se.
— Está decidido, então.
Kanzaki não tirava os olhos do mar.
— Ele não vai recuar de novo.
— E você?
— Também não.
Os barcos tocaram a areia.
Dessa vez, os Kurogane desembarcaram em formação.
Poucos.
Mas veteranos.
Cicatrizes. Armaduras marcadas.
Homens que já tinham sobrevivido demais.
Raizen desceu por último.
Sem pressa.
Espada nas costas.
Olhar fixo.
Ele não olhava para as casas.
Não olhava para o fogo antigo.
Ele olhava apenas para Kanzaki.
E Kanzaki olhava apenas para ele.
Ren tentou avançar.
Kanzaki ergueu a mão sem sequer virar o rosto.
— Não.
A palavra saiu firme.
Irrefutável.
Aoi segurou o braço de Ren.
— Ele quer isso.
— Eu sei.
— Então confia.
Ren respirava pesado.
Mas ficou.
Os soldados da Igreja formaram linha atrás de Kanzaki.
Sacerdotes ergueram selos de proteção.
Os Kurogane avançaram em silêncio.
O primeiro choque foi brutal.
Espadas se encontrando.
Escudos quebrando.
Gritos contidos.
Ren queria entrar.
Queria lutar.
Mas algo dizia que aquilo não era batalha dele.
Era deles.
Kanzaki caminhou para frente.
Raizen também.
Os dois atravessaram o campo de combate como se o resto não existisse.
E quando ficaram frente a frente…
O mundo pareceu ficar menor.
— Você demorou — disse Kanzaki.
— Eu precisava garantir que não haveria interrupções.
Raizen puxou a espada.
A lâmina era longa. Negra. Marcada por runas discretas.
— Hoje termina.
Kanzaki ajustou a postura.
— Concordo.
E então eles desapareceram.
O primeiro impacto foi tão violento que o chão ao redor rachou.
O som foi seco.
Pesado.
A pressão do choque empurrou areia e poeira para longe.
Ren sentiu o impacto no peito mesmo à distância.
Raizen girou a lâmina com força bruta.
Kanzaki bloqueou, mas foi empurrado dois metros para trás.
Os pés dele cavaram sulcos na terra.
Raizen avançou.
Golpe vertical.
Kanzaki desviou por centímetros.
A lâmina atingiu o chão e abriu uma fissura profunda.
Kanzaki contra-atacou.
Um corte lateral rápido como um raio.
Raizen bloqueou — mas a força o fez ajoelhar por um instante.
Ele sorriu.
— É disso que eu falo.
Explosão de energia.
Raizen liberou uma onda escura que empurrou Kanzaki para trás.
Ele deslizou, mas manteve o equilíbrio.
— Você ficou mais forte — disse Raizen.
— Você ficou mais imprudente.
Raizen riu.
Avançou de novo.
Agora mais rápido.
Muito mais rápido.
Troca de golpes.
Um.
Dois.
Cinco.
Dez.
Nenhum som além de metal colidindo.
Faíscas voavam.
A pressão do ar fazia os soldados próximos recuarem.
Kanzaki girou, usando o impulso do próprio impacto para acertar o ombro de Raizen.
A armadura partiu.
Sangue escorreu.
Raizen não recuou.
Ele avançou mais.
Como um animal ferido.
A lâmina negra raspou o rosto de Kanzaki, abrindo um corte fino.
Primeiro sangue dele.
Ren sentiu o coração disparar.
— Ele acertou…
Aoi não piscava.
— Meu pai ainda não começou.
No campo central, os dois agora estavam envoltos por energia visível.
Raizen liberava uma aura densa, quase sufocante.
Kanzaki mantinha algo mais controlado.
Concentrado.
Raizen atacou com tudo.
Uma sequência brutal de golpes que não davam espaço.
Kanzaki bloqueava, desviava, absorvia.
Mas estava sendo pressionado.
O chão começou a ceder sob os pés deles.
Uma cratera se formava lentamente.
— Você protege mentiras! — Raizen rugiu enquanto atacava. — A Igreja apodrece o mundo!
Kanzaki bloqueou um golpe que faria qualquer outro homem partir ao meio.
— Você destrói vilas para provar seu ponto!
— Eu destruo o que precisa cair!
— E quem decide isso?!
Raizen forçou o peso da lâmina contra a de Kanzaki.
Os dois travados, rostos a centímetros.
— Eu!
Explosão.
Ambos foram lançados para trás.
Raizen caiu de pé.
Kanzaki também.
Sangue agora marcava os dois.
Respiração pesada.
Mas nenhum ajoelhava.
Ao redor, o combate entre Igreja e Kurogane diminuía.
Todos olhavam para o centro.
Era ali que o destino estava sendo decidido.
Raizen limpou o sangue do ombro.
— Você poderia ter ficado do meu lado.
Kanzaki ajustou a pegada.
— Eu já escolhi meu lado.
— Então morra com ele.
Raizen avançou novamente.
E dessa vez…
Kanzaki avançou junto.
Os dois colidiram no meio do campo.
A explosão foi maior que qualquer anterior.
A cratera afundou ainda mais.
O impacto levantou uma onda de areia que cobriu metade da vila.
Quando a poeira começou a baixar…
Os dois ainda estavam de pé.
Espadas cruzadas.
Olhos queimando.
A luta estava só começando.