Capítulo 19
Linhas de Guerra
Aetheryon — Câmara Estratégica
A sala estava silenciosa.
No centro, o mapa.
Ao redor, oficiais.
E à frente deles, Eryndor.
Daichi permanecia atrás, observando.
Ainda não tinha posição ali.
Ainda não tinha voz.
Mas estava sendo exposto.
Eryndor apontou para três pontos marcados em vermelho.
— A Igreja já percebeu movimentação.
— Não vão atacar direto — disse uma comandante de olhos cinzentos. — Eles testam antes.
Eryndor assentiu.
— Exato.
Ele olhou para Daichi.
— Na sua ilha… como reagem a ameaças externas?
Daichi respondeu automático.
— Defendem. Não provocam.
— E quando acreditam que é heresia?
Silêncio curto.
— Eliminam.
Um leve sorriso surgiu no canto da boca de Eryndor.
— Obrigado.
Ele voltou ao mapa.
— A Igreja não vai invadir agora.
Vai enviar um destacamento.
Pequeno.
Oficialmente diplomático.
Extraoficialmente avaliativo.
O ar ficou pesado.
— E vamos deixar que venham — continuou Eryndor.
Um oficial franziu o cenho.
— Isso não é arriscado?
— É necessário.
Ele virou para todos.
— Se reagirmos primeiro, confirmamos a narrativa deles.
Se recebermos, mostramos controle.
Daichi absorvia tudo.
Aquilo não era rebelião caótica.
Era guerra fria.
Estruturada.
Eryndor então olhou diretamente para ele.
— Você ficará.
— Como observador?
— Como alguém que precisa decidir de que lado está.
Daichi não respondeu.
Mas não desviou o olhar.
Ilha — Lealdade
Ren treinava ao lado dos outros jovens.
Movimentos firmes.
Disciplina intacta.
Sem distrações.
Aoi observava de longe.
Kanzaki estava presente.
A postura dele já era mais firme agora.
Ainda não totalmente recuperado.
Mas suficiente.
Ren finalizou uma sequência com precisão quase perfeita.
Kanzaki assentiu.
— Melhorou.
Ren respirou fundo.
— Ainda não o suficiente.
— Para quê?
Ren respondeu sem hesitar:
— Para enfrentar o que está vindo.
Kanzaki o encarou.
Não havia ironia na resposta.
Havia fé.
Ren ainda acreditava.
Ainda via a Igreja como protetora.
Aoi percebeu isso.
E sentiu um alívio estranho.
Ela não queria ver Ren quebrado.
Não ainda.
Aetheryon — Conversa Direta
Mais tarde, Daichi foi chamado sozinho.
Sala menor.
Sem mapas.
Sem oficiais.
Apenas Eryndor.
— Você ainda não acredita totalmente.
— Eu acredito que há mentira.
— Isso não é o mesmo que acreditar em nós.
Daichi não negou.
Eryndor caminhou até uma janela aberta.
— A Igreja foi necessária.
Daichi franziu o cenho.
— Necessária?
— Após a guerra, o mundo estava instável.
Alguém precisava organizar.
— Então por que se opor agora?
Eryndor virou devagar.
— Porque organização virou controle absoluto.
E controle absoluto gera estagnação.
Ele se aproximou.
— Você acha que eu quero caos?
— Eu não sei o que você quer.
— Equilíbrio.
A palavra ecoou simples demais.
— O selo dos ancestrais está enfraquecendo — continuou Eryndor. — Não por nossa ação. Por desgaste natural.
Daichi sentiu o impacto.
— E se quebrar?
— A Igreja vai usar isso como justificativa para expansão total.
Silêncio.
— Ou podemos nos preparar antes.
Daichi respirou fundo.
— E onde eu entro nisso?
Eryndor respondeu direto:
— Você conhece a fé deles por dentro.
Eu preciso entender como pensam agora.
Não como espião.
Como ponte.
A palavra ficou no ar.
Ponte.
Ilha — O Chamado
No fim da tarde, um mensageiro chegou à vila.
Símbolo oficial da Igreja estampado no manto.
Kanzaki recebeu o pergaminho em público.
Leu.
O maxilar dele tensionou.
Ren percebeu.
— O que houve?
Kanzaki ergueu os olhos.
— Um destacamento oficial será enviado para monitorar movimentações marítimas.
Ren não hesitou.
— Por causa de Aetheryon.
— Sim.
O clima mudou.
Os jovens ficaram inquietos.
Ren sentiu algo diferente agora.
Não dúvida.
Propósito.
— Se vierem aqui… estaremos prontos.
Kanzaki colocou a mão no ombro dele.
— Essa é a atitude correta.
Aoi observava em silêncio.
A guerra ainda não começou.
Mas o alinhamento estava sendo traçado.
Noite — Dois Céus
Em Aetheryon, Daichi observava as luzes do acampamento militar organizado como uma cidade em formação.
Na ilha, Ren observava o mar escuro sob a lua.
Dois jovens.
Dois caminhos.
Ainda não inimigos.
Mas cada vez mais distantes.
E no centro disso tudo…
Eryndor já estava três movimentos à frente.