Capítulo 20 — Entre Conhecimento e Fé
O vento que atravessava as torres de Aetheryon parecia diferente de qualquer outro lugar do mundo.
Não era apenas frio.
Era constante.
Como se o próprio ar daquele reino nunca descansasse.
Daichi já estava ali há semanas, mas ainda não havia se acostumado completamente com a sensação de estar em um lugar onde tudo parecia… antigo demais para ser recente.
Aetheryon era um reino novo em influência política, mas velho em conhecimento.
Muito velho.
Aetheryon — O Silêncio que Ensina
Daichi caminhava por um dos corredores internos da fortaleza principal.
As paredes eram claras, construídas com uma pedra que refletia suavemente a luz do sol. Não havia símbolos exagerados, nem esculturas religiosas como na ilha. Apenas marcas discretas — linhas, padrões geométricos e runas extremamente antigas.
Ali, o conhecimento não era exibido.
Era guardado.
Um soldado passou por ele e apenas assentiu em respeito. Daichi ainda estranhava aquilo.
Ninguém ali o tratava como um estranho.
Mas também não o tratavam como alguém importante.
Ele estava ali para aprender.
E isso era suficiente.
Treino… mas não de combate
Ao chegar ao campo circular de treinamento, Daichi encontrou novamente Lysera.
Ela mantinha a mesma postura calma de sempre, com os braços cruzados e o olhar atento.
— Você demorou hoje.
— Eu estava revisando os registros que o Eryndor me mostrou.
— Conhecimento sem controle não serve para nada.
Daichi respirou fundo.
— Eu sei.
Lysera caminhou até o centro do círculo.
— Então mostre.
Daichi fechou os olhos.
O treino ali era diferente de tudo que ele já havia feito.
Na ilha, o foco era sempre impacto: força, velocidade, ataque.
Em Aetheryon, o primeiro passo era estabilidade.
Uma energia suave começou a surgir ao redor do corpo dele.
Ainda irregular.
Pequenas distorções apareciam no ar.
Lysera observava cada detalhe.
— Você ainda força demais.
— Eu estou tentando manter constante.
— Não tente manter.
Controle.
A palavra parecia simples.
Mas na prática era outra coisa.
Daichi ajustou a respiração.
Lentamente, a energia deixou de vibrar de forma agressiva.
Ela começou a se espalhar de maneira uniforme ao redor do corpo.
O ar parou de distorcer.
O chão não reagiu.
Pela primeira vez, ele manteve o fluxo estável por vários segundos.
Lysera assentiu.
— Melhor.
Ela apontou para uma pequena coluna de pedra posicionada no lado do campo.
— Agora ataque.
Daichi estranhou.
— Mas sem perder o controle.
Ele entendeu.
Respirou fundo novamente.
Concentrou a energia.
Avançou.
O golpe atingiu a pedra.
Não houve explosão.
Não houve impacto exagerado.
Apenas um som seco.
Uma fissura perfeita surgiu no centro da coluna.
Daichi arregalou os olhos.
Era completamente diferente de tudo que ele fazia antes.
Menos força.
Mais precisão.
Lysera falou:
— Agora você começou a aprender.
Observação
No topo de uma das torres, Eryndor observava.
Os cabelos claros balançavam com o vento constante.
Seu olhar era tranquilo, mas extremamente atento.
Ele não analisava apenas a evolução de Daichi.
Ele analisava o tempo.
Quanto tempo ainda restava até a verdade inevitavelmente voltar à superfície.
— Ele ainda não está pronto — disse um dos soldados próximos.
Eryndor respondeu sem desviar o olhar:
— Ainda não.
Mas em breve estaria.
A Ilha — Treinos Sob o Olhar da Igreja
Enquanto isso, a vila seguia seu ritmo normal.
Após a derrota de Raizen e o fim da presença dos Kurogane, a ilha voltava lentamente à estabilidade.
As estruturas estavam sendo reconstruídas.
Os moradores retomavam suas rotinas.
Mas a igreja estava mais presente do que nunca.
Treinos estavam mais frequentes.
Observações mais rígidas.
Preparação constante.
Campo de Treinamento — Ren e Aoi
O sol ainda estava baixo quando Ren chegou ao campo.
Ele sempre chegava cedo.
Disciplina havia se tornado parte dele.
Alguns segundos depois, Aoi apareceu.
A lâmina de treino presa nas costas.
O olhar focado.
— Hoje você não vai ficar repetindo o mesmo golpe, né?
Ren sorriu levemente.
— Só se você parar de desviar.
Ela respondeu com um meio sorriso.
— Então vamos ver.
Os dois assumiram postura.
A energia espiritual começou a surgir ao redor dos corpos.
Ainda era uma aura leve.
Instável.
Eles eram jovens.
Mas talentosos.
O primeiro movimento partiu de Ren.
Um avanço direto.
Golpe horizontal.
Aoi girou o corpo desviando por poucos centímetros.
Contra-atacou rapidamente.
Ren bloqueou.
O impacto fez o ar vibrar levemente.
Nada exagerado.
Mas já mostrava evolução.
Eles continuaram.
Movimentos rápidos.
Troca constante de golpes.
Pequenas liberações de energia surgiam a cada impacto.
A poeira no chão começava a se mover com a pressão.
Ren tentou concentrar energia nos braços para aumentar a força.
A aura intensificou.
Mas perdeu estabilidade.
Aoi percebeu.
Ela avançou.
Desarmou a postura dele com um golpe técnico.
A lâmina de treino encostou no ombro de Ren.
Silêncio.
Ren respirava fundo.
Depois riu.
— Você sempre encontra a abertura.
Aoi respondeu:
— Você sempre tenta resolver na força.
Kanzaki Observa
Alguns metros atrás, Kanzaki assistia ao treino.
Braços cruzados.
Expressão séria.
Mas havia orgulho ali.
Ele não era apenas um dos nomes mais respeitados da igreja.
Era também o pai de Aoi.
E conhecia exatamente o potencial da filha.
Quando os dois terminaram o treino, ele se aproximou.
— Melhoraram.
Ren imediatamente assumiu postura respeitosa.
— Ainda falta muito.
Kanzaki assentiu.
— Sempre falta.
Ele olhou primeiro para Aoi.
— Seu controle está melhor.
Ela respondeu de forma simples:
— Estou tentando manter estabilidade.
— Continue.
Depois olhou para Ren.
— Você tem força natural.
Mas precisa aprender a economizar energia.
Ren concordou.
— Eu percebi isso hoje.
Kanzaki então demonstrou.
Sem preparação exagerada.
Ele apenas concentrou energia por um instante.
Um golpe rápido contra um tronco de treino.
CRACK.
O tronco partiu em dois.
Limpo.
Sem explosão.
Sem excesso.
Ren ficou impressionado.
Aoi já conhecia aquela técnica.
Mas ainda assim observava com atenção.
Kanzaki falou:
— Poder não é sobre quanto você libera.
É sobre quanto você controla.
Conversa Depois do Treino
Mais tarde, Ren e Aoi caminharam pela parte alta da vila.
O vento trazia o cheiro do mar.
O clima estava calmo.
Mas havia uma ausência ali.
Daichi.
Ren quebrou o silêncio:
— Você acha que ele vai voltar logo?
Aoi demorou alguns segundos.
— Acho.
— Ele ficou estranho antes de ir.
— Ele sempre foi curioso.
Ren olhou para o horizonte.
— Curiosidade pode ser perigosa.
Aoi não respondeu.
Mas seu olhar ficou mais distante por alguns instantes.
Aetheryon — A Verdade Começa a Se Abrir
Naquela noite, Daichi foi chamado novamente por Eryndor.
Uma sala silenciosa.
Sem guardas.
Sem mapas.
Apenas uma mesa de pedra e alguns registros antigos.
Eryndor estava de pé, olhando pela janela aberta.
— Você está começando a controlar melhor sua energia.
— Ainda é pouco.
— Para combate, sim.
Para entender… não.
Daichi franziu levemente a testa.
— Eu não vim aqui para ficar forte.
— Eu sei.
Eryndor se virou.
Os olhos dele estavam mais sérios do que o normal.
— E é exatamente por isso que você está aqui.
Ele colocou sobre a mesa alguns documentos antigos.
Não eram livros completos.
Eram fragmentos.
Relatos incompletos.
Partes de registros históricos.
— A igreja não mentiu completamente.
Daichi ficou em silêncio.
— Mas também não contou tudo.
Ele começou a ler.
As palavras descreviam:
batalhas antigas
entidades chamadas de ancestrais
destruições massivas
Mas então aparecia algo diferente.
Um termo repetido várias vezes.
Pacto.
Daichi levantou o olhar lentamente.
— Isso…
— Sim.
Eryndor respondeu.
— Não foi apenas uma guerra.
Silêncio.
O vento atravessava a sala.
— Foi um acordo.
Daichi sentiu o coração acelerar.
Era exatamente aquilo que ele suspeitava.
Mas ver escrito…
Era diferente.
— Por quê?
Eryndor respondeu sem hesitar:
— Porque ninguém venceria aquela guerra.
Preparação para o Retorno
Daichi permaneceu em silêncio por vários segundos.
O mundo que ele conhecia começava a mudar.
Não de forma explosiva.
Mas inevitável.
— Ainda falta muita coisa, não é?
Eryndor assentiu.
— Sim.
— Então por que me mostrar isso agora?
Eryndor respondeu:
— Porque você vai precisar decidir o que fazer com essa verdade.
Daichi ficou imóvel.
— Decidir?
— Você não veio aqui apenas para aprender.
Você veio porque já estava procurando respostas.
Silêncio.
Daichi respirou fundo.
— Eu vou precisar voltar.
— Vai.
O vento aumentou.
Os papéis sobre a mesa se moveram levemente.
— Mas ainda não.
Daichi sabia.
Ainda havia muito para entender.
Mas agora…
Ele já não conseguiria ignorar o que havia descoberto.
Encerramento do Capítulo
Naquela mesma noite:
Na ilha — Ren continuava treinando.
Em Aetheryon — Daichi continuava lendo.
Em dois lugares diferentes…
Dois caminhos começavam a se afastar.
Sem que nenhum deles percebesse ainda.
Que não voltariam a ser os mesmos.