CAPÍTULO 65 — SOMBRAS NO HORIZONTE
MAR ABERTO
O mundo havia desaparecido.
Não existia mais céu.
Não existia mais mar.
Não existia mais dor.
Apenas… vazio.
Isamu já não sentia o próprio corpo. Seus dedos não respondiam. Seus olhos estavam fechados… e dessa vez, parecia definitivo.
O barco continuava à deriva.
Sozinho.
Pequeno.
Insignificante diante da imensidão.
O silêncio era absoluto.
…
Até que—
— …ele tá morto?
Uma voz.
Distante.
Arrastada pelo vento.
— Não se mexe faz tempo…
Outra.
Mais próxima.
— Capitão, isso aí já era. Vamos seguir viagem.
Um som pesado.
Madeira rangendo.
Passos.
— Cala a boca.
A voz que veio dessa vez… era diferente.
Firme.
Grave.
Autoridade natural.
— Ele ainda respira.
Silêncio.
O som das ondas voltou.
O mundo… começou a voltar.
Lentamente.
Pesado.
Isamu não abriu os olhos ainda.
Mas sentiu.
Uma sombra.
Grande.
Cobrindo o sol.
Cobrindo tudo.
O calor desapareceu.
O vento mudou.
Algo enorme… estava acima dele.
E então—
Seus olhos se abriram.
Com dificuldade.
A visão turva… demorou alguns segundos para focar.
Mas quando focou—
Ele viu.
Uma embarcação.
Gigantesca comparada ao seu pequeno barco.
Escura.
Robusta.
Velas negras marcadas com um símbolo agressivo, como garras rasgando o tecido do céu.
Figuras… olhando para baixo.
Observando ele.
Algumas desconfiadas.
Outras curiosas.
Uma… completamente séria.
— Hm.
O homem à frente inclinou levemente a cabeça.
Alto.
Postura relaxada… mas pesada.
Como alguém que não precisava provar nada.
— Então ainda tá vivo mesmo.
Isamu tentou falar.
Nada saiu.
Sua garganta queimava.
Seu corpo não respondia.
— Tá consciente? — perguntou o homem.
Silêncio.
Isamu piscou.
Devagar.
— Olha só… achei que tava morto. — alguém atrás comentou.
— Cala a boca, Ravik — disse o homem à frente, sem nem olhar.
Um leve riso veio do grupo.
— Só tô dizendo, capitão.
Capitão.
Isamu registrou a palavra.
Seu olhar subiu lentamente… até encontrar os olhos dele.
O homem.
O capitão.
Veyrion D. Kael.
Silêncio.
Os dois se encararam por alguns segundos.
Isamu… mesmo naquele estado… ainda avaliava.
Desconfiado.
Sempre.
— Você consegue se mexer? — perguntou Veyrion.
Nada.
— Hm…
Ele virou levemente o rosto.
— Joguem a corda.
— Sério? — uma voz feminina surgiu. — Vai trazer ele pra bordo?
— Vai deixar ele morrer? — respondeu Veyrion, simples.
Silêncio.
— …tanto faz — ela murmurou.
Uma corda foi lançada.
Caiu ao lado do barco de Isamu.
Bateu na madeira com um som seco.
Isamu olhou para ela.
Depois… para o grupo.
Desconfiado.
Sempre.
— Relaxa — disse uma voz diferente, mais leve. — Se a gente quisesse te matar, você nem teria acordado.
Isamu respirou fundo.
Ou tentou.
Seu corpo falhou.
Droga.
— Ele não vai conseguir subir sozinho — disse outro.
Passos.
Pesados.
Alguém pulou.
O impacto fez o pequeno barco balançar violentamente.
Uma figura enorme se aproximou.
— Hm.
Drogan.
Sem falar muito.
Apenas analisou Isamu por um segundo.
E então—
O pegou.
Como se não pesasse nada.
Isamu tentou reagir.
Falhou.
— Relaxa — disse Drogan, com uma voz grave.
E então saltou de volta.
Levando Isamu com ele.
A BORDO
O impacto foi pesado.
Mas firme.
Isamu foi colocado no chão do convés.
Madeira escura.
Gasta.
Mas sólida.
Passos ao redor.
Várias presenças.
Observando.
— Água.
Uma garota se aproximou rapidamente.
Selka.
Ela se ajoelhou ao lado dele.
Levantou levemente sua cabeça.
— Devagar.
A água tocou seus lábios.
Ardeu.
Mas… salvou.
Isamu bebeu.
Pouco.
Depois mais.
E mais.
Como se estivesse voltando à vida aos poucos.
— Já chega — disse ela, afastando a garrafa. — Se beber tudo de uma vez, você apaga.
Ele respirou fundo.
Mais forte agora.
Ainda fraco.
Mas vivo.
— Comida.
Outro homem se aproximou, jogando algo ao lado dele.
Brakk.
— Come isso aí.
Isamu olhou.
Pão.
Simples.
Mas naquele momento…
Parecia tudo.
Ele pegou.
Com dificuldade.
Comeu.
Sem pensar.
Sem falar.
Silêncio ao redor.
Eles observavam.
Sem pressa.
Sem julgamento.
Apenas… vendo.
— Então…
A voz voltou.
Veyrion.
Agora mais próximo.
Ele se agachou na frente de Isamu.
Os olhos fixos.
Calmos.
Mas atentos.
— O que aconteceu com você?
Isamu ficou em silêncio.
Respirando.
Pensando.
Observando.
Olhos passando por cada um deles.
O grandalhão.
A garota que ajudou.
O cara com armas.
A mulher das lâminas.
O homem quieto no fundo… observando tudo.
Não pareciam… ruins.
Mas também não eram ingênuos.
— …mar — Isamu conseguiu dizer.
A voz falha.
— Fugi.
Silêncio.
— De quem?
Isamu não respondeu.
Os olhos desceram levemente.
— Hm…
Veyrion inclinou a cabeça.
— Entendi.
Ele se levantou devagar.
— Não precisa falar agora.
Uma pausa.
— Mas vai precisar em algum momento.
Isamu apertou levemente o pão nas mãos.
Pensativo.
— Capitão — disse Ravik, apoiado ao lado, girando a pistola no dedo — a gente vai mesmo levar ele?
— Já trouxemos — respondeu Veyrion.
— Pode dar problema.
— Tudo dá problema.
Um leve sorriso surgiu em Ravik.
— Justo.
— Além disso — continuou Veyrion — ele não tem cara de problema.
Silêncio.
Isamu levantou levemente o olhar.
— Tem cara de alguém que perdeu tudo.
…
Ninguém falou nada.
Nem mesmo Isamu.
Mas algo… mudou.
Um pouco.
Muito pouco.
Mas mudou.
— Bom — disse Veyrion, cruzando os braços — acho que já tá na hora.
Ele olhou para o grupo.
— Apresentações.
Alguns reviraram os olhos.
Outros ignoraram.
Mas ninguém saiu.
— Somos o Bando Kurotsume.
O vento passou pelas velas negras.
— Aqueles que não pertencem a lugar nenhum.
Ele apontou com o queixo.
— Ravik “Deadshot” Kross.
Ravik levantou a mão sem muito interesse.
— Nyra.
Ela apenas cruzou os braços.
— Drogan.
Um leve aceno de cabeça.
— Brakk.
— Selka.
Ela deu um pequeno sorriso.
Um silêncio.
— Lorian.
No fundo.
Apenas observando.
Sem dizer nada.
E então…
Os olhos voltaram para Isamu.
Veyrion deu um passo à frente.
— Agora…
Uma pausa.
— Qual é o seu nome?
O vento soprou.
As velas estalaram.
O mar seguiu infinito ao redor.
Isamu respirou.
Mais firme.
Mais presente.
Seus olhos subiram lentamente.
Encontraram os do capitão.
E pela primeira vez desde que acordou…
Havia algo ali.
Não só dor.
Não só vazio.
Mas… algo voltando.
— …Isamu.
Silêncio.
O capitão manteve o olhar.
— Certo.
Uma leve pausa.
— Então me diz, Isamu…
O tom mudou.
Mais sério.
Mais profundo.
— O que aconteceu com você… pra te deixar naquele estado no meio do nada?
O mar seguiu.