CAPÍTULO 66 — AQUELES QUE NÃO TEMEM O MAR
CONVÉS — FIM DE TARDE
O sol começava a cair no horizonte.
O mar já não parecia tão infinito quanto antes.
Ainda imenso… mas agora, pela primeira vez, Isamu não estava sozinho nele.
O balanço do navio era constante.
Pesado.
Estável.
Diferente do pequeno barco que quase virou seu túmulo.
Isamu estava sentado, encostado em um dos barris, ainda com o corpo fraco… mas já recuperando parte das forças.
Seus olhos estavam mais vivos.
Mas ainda carregavam algo.
Peso.
Silêncio.
— Então…
A voz veio de lado.
Veyrion.
De pé, apoiado na amurada, olhando o mar como se aquilo fosse rotina.
— Tá melhor?
Isamu demorou um segundo.
— …tô.
A voz ainda falha.
Mas firme o suficiente.
Veyrion soltou um leve som nasal, quase um riso curto.
— Sobreviveu. Já é mais do que muita gente consegue.
Silêncio.
O vento passou entre eles.
Isamu respirou fundo.
Ele sabia.
Não dava mais pra esconder.
— Eu vim de… Aetheryon.
O efeito foi imediato.
O ar… mudou.
O convés, que antes estava cheio de pequenas conversas e movimentação, ficou… pesado.
Olhares.
Vários.
Direcionados a ele.
— …
Isamu continuou.
— Eu… fugi de lá.
Uma pausa.
— O rei…
Ele apertou levemente a mão.
— Eryndor… mandou me matar.
Silêncio absoluto.
Nem o vento parecia fazer barulho por um segundo.
Ravik parou de girar a pistola.
Nyra descruzou os braços lentamente.
Brakk franziu o cenho.
Até Drogan… ficou imóvel.
— …Eryndor? — Ravik falou baixo.
— Você tá de brincadeira… — murmurou Nyra.
Selka olhou para Isamu… com preocupação real agora.
— Isso não é coisa pequena…
Lorian, no fundo… apenas observava.
Analisando.
Como sempre.
O silêncio se manteve por alguns segundos.
E então—
— Capitão.
Ravik chamou.
Sem tirar os olhos de Isamu.
— A gente precisa conversar.
LADO DO NAVIO — CONVERSA DO BANDO
O grupo se afastou alguns passos.
Mas não o suficiente para esconder completamente.
Isamu ainda conseguia ouvir.
Não tudo.
Mas o suficiente.
— Isso é um problema — disse Nyra, direta.
— Não. Isso é uma sentença de morte — completou Ravik.
— Eryndor não é qualquer um — disse Brakk. — Se esse cara tá sendo caçado por ele, então—
— Então a gente tá com um alvo nas costas — finalizou Nyra.
Selka respirou fundo.
— Ele tava morrendo…
— E agora a gente pode morrer junto — rebateu Ravik.
Silêncio.
Pesado.
— Capitão… — disse Brakk, mais sério. — Isso é diferente. Não é um ladrão qualquer, nem um mercenário qualquer.
— É alguém marcado por um rei.
Uma pausa.
— A gente pode estar cavando nossa própria cova.
Silêncio.
Todos olharam para Veyrion.
Ele… não parecia preocupado.
Não parecia tenso.
Na verdade—
Ele parecia… tranquilo demais.
Então ele soltou um leve riso.
Baixo.
Quase divertido.
— Interessante…
Os olhos dele passaram por cada um deles.
Um por um.
— Ajudar alguém… pra vocês… virou um erro?
Silêncio.
Ninguém respondeu.
— Engraçado…
Ele deu mais um passo à frente.
O olhar mais firme agora.
— Porque eu tenho quase certeza que…
Uma pausa.
— Eu salvei cada um que tá aqui.
O vento passou.
Ninguém falou nada.
Mas o impacto foi claro.
— Você — ele apontou com o queixo para Ravik — tava prestes a levar um tiro na cabeça quando eu te encontrei.
Ravik desviou o olhar.
— Nyra… tava cercada.
— Brakk… enterrado até o pescoço em dívida.
— Selka… sozinha.
— Drogan… acorrentado.
Silêncio.
Pesado.
Veyrion abriu um leve sorriso.
Mas não era leve de verdade.
Era… firme.
— E agora vocês querem me dizer…
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Que salvar alguém… é um erro?
Silêncio absoluto.
Ninguém respondeu.
Porque não tinha resposta.
E então ele soltou uma risada curta.
— A gente nunca teve medo de ninguém.
Uma pausa.
O olhar ficou mais afiado.
— E não vai começar agora.
Ele virou o rosto levemente… na direção de Isamu.
— Esse reizinho não me intimida.
Silêncio.
E então—
Ele ergueu um pouco a voz.
— ISAMU!
Isamu levantou o olhar.
Surpreso.
— Você agora…
Uma pausa.
O vento bateu forte nas velas negras.
— É um Kurotsume!
Silêncio.
Mas dessa vez… diferente.
Ninguém contestou.
Ninguém falou nada.
Mas ninguém discordou.
Porque no fundo…
Eles já sabiam.
NOITE — CONVÉS
O céu estava escuro.
Pontilhado de estrelas.
O mar refletia tudo.
O navio cortava as águas com constância.
O som da madeira, das cordas, do vento… tudo criava um ritmo quase tranquilo.
Uma fogueira improvisada iluminava parte do convés.
O grupo estava reunido.
Comendo.
Conversando.
Rindo… em alguns momentos.
Isamu estava ali.
Sentado.
Com comida nas mãos.
Ainda estranho.
Mas… presente.
— Então… — ele falou, depois de alguns segundos — pra onde a gente tá indo?
Veyrion deu uma mordida tranquila.
Engoliu.
— Continente.
Simples.
— Continente? — Isamu franziu levemente o cenho.
— Você não ouviu falar? — perguntou Ravik, com um meio sorriso.
— …não.
— Hah… — Ravik riu de leve. — Então você tava vivendo debaixo de uma pedra mesmo.
Nyra revirou os olhos.
— É o lugar mais movimentado que existe.
Brakk completou:
— Comércio, guerra, contratos… dinheiro.
— E problemas — disse Selka.
— Muitos problemas — corrigiu Ravik.
Veyrion apoiou o cotovelo no joelho.
— Melhor lugar pra quem vive como a gente.
Uma pausa.
— Trabalho.
— Saques.
— Oportunidades.
Isamu ouviu em silêncio.
Absorvendo.
Um mundo… completamente diferente do que ele conhecia.
— E vocês… — ele falou — por que se juntaram?
Uma pausa.
Alguns trocaram olhares.
Ravik soltou um leve riso.
— Porque a gente não tinha opção melhor.
Nyra bufou.
— Fala por você.
— Ah, claro… você tinha um plano perfeito, né?
— Melhor do que o seu, com certeza.
Selka deu um leve sorriso.
— Eu… só não queria ficar sozinha.
Brakk deu de ombros.
— Capitão me tirou de um buraco.
Drogan apenas falou:
— Eu sigo ele.
Simples.
Direto.
Isamu olhou para cada um deles.
E então—
— E você?
Ele olhou para Veyrion.
— Como começou tudo isso?
Silêncio.
O fogo estalou.
O vento passou.
Veyrion ficou alguns segundos… olhando para o nada.
Como se estivesse lembrando.
Ou… escolhendo não lembrar.
E então ele sorriu.
De leve.
— É uma longa história…
Uma pausa.
Ele pegou mais comida.
— Deixa isso pra lá.
Outro sorriso.
Mais leve agora.
— Come antes que esfrie.
Isamu ficou em silêncio.
Mas entendeu.
Não era hora.
Ainda não.
PROA — MAIS TARDE
A noite avançava.
O convés estava mais quieto.
Alguns já dormiam.
Outros apenas observavam o mar.
Isamu estava na ponta do navio.
Olhando o horizonte.
Escuro.
Infinito.
O vento batia em seu rosto.
Seus olhos… mais calmos agora.
Mas ainda carregados.
Ele fechou os olhos por um segundo.
E então—
Hikari.
O rosto dela surgiu na memória.
O sorriso.
A voz.
A casa.
O silêncio depois.
Ele abriu os olhos.
Respirou fundo.
E então…
Lysera.
O rosto dela.
O olhar.
O momento em que ela ficou.
O momento em que ele fugiu.
Seu peito apertou.
— …
Ele não sabia.
Não sabia onde ela estava.
Se estava viva.
Se—
Ele não terminou o pensamento.
Mas ele veio mesmo assim.
Os piores cenários.
Sempre os piores.
Isamu apertou levemente a mão na madeira do navio.
O olhar firme agora.
Mas carregado.
— Aguenta…
Ele murmurou.
Baixo.
Quase sem som.
— Só aguenta…
O mar seguiu.
Infinito.
Mas agora…
Ele não estava mais sozinho.
E mesmo assim…
A tempestade dentro dele…
Só estava começando.