CAPÍTULO 67 — O QUE SE ESCONDE SOB O MAR
MANHÃ — CONVÉS
O som do mar era constante.
Agora… familiar.
Isamu estava de pé.
Pela primeira vez desde que foi salvo.
O corpo ainda doía, cada movimento lembrava o quão perto ele esteve da morte… mas ainda assim, ele estava ali.
Vivo.
O vento bateu contra seu rosto.
Salgado.
Frio.
Real.
— Já tá de pé?
A voz veio atrás.
Isamu virou levemente o rosto.
Veyrion.
Braços cruzados, expressão tranquila, como se nada no mundo realmente pesasse sobre ele.
Mas havia algo novo ali.
Um leve sorriso.
— Achei que você ia ficar mais tempo deitado — disse ele.
Isamu soltou um pequeno suspiro.
— Também achei.
Veyrion soltou um riso curto.
— Bom sinal então.
Ele deu alguns passos à frente.
E então—
Jogou algo.
Isamu reagiu por instinto.
Mesmo lento… ele pegou.
Seus olhos desceram.
Sua katana.
Silêncio.
Seus dedos apertaram levemente o cabo.
Como se… estivesse tocando algo que não via há muito tempo.
— Guardei pra você — disse Veyrion. — Não parecia o tipo de coisa que alguém abandona.
Isamu não respondeu.
Mas seus olhos disseram tudo.
Ele prendeu a lâmina na cintura.
O gesto… automático.
Natural.
— Então — continuou Veyrion, inclinando levemente a cabeça — você sabe usar isso aí… ou só carrega pra parecer perigoso?
Isamu ergueu o olhar.
— Sei lutar.
Simples.
Direto.
Veyrion sorriu.
— Ótimo.
Uma pausa.
— Porque aqui… todo mundo precisa saber.
Ele virou o rosto.
— Principalmente quando o mar decide testar a gente.
Isamu não respondeu.
Mas ficou.
MAIS TARDE — INTERAÇÃO DO BANDO
O convés estava vivo.
Movimento.
Risos.
Discussões pequenas.
O bando… funcionava.
Mesmo com personalidades completamente diferentes.
Isamu observava.
Aprendendo.
— Então você realmente veio de Aetheryon… — disse Ravik, encostado ao lado, girando a pistola.
— Vim.
— E saiu vivo — ele assobiou baixo. — Já gosto de você.
Nyra passou por eles.
— Não começa.
— O quê? Eu só tô sendo sincero.
— Você nunca é sincero.
— Aí você me magoa.
Selka apareceu com um pano.
— Você precisa limpar isso — disse para Isamu, apontando para o sangue seco ainda em parte de sua roupa.
— Já tá fedendo.
Isamu quase soltou um pequeno riso.
Quase.
— Valeu.
Drogan passou carregando um barril enorme como se fosse nada.
Parou ao lado de Isamu por um segundo.
— Tá mais forte.
Isamu olhou para ele.
— Tô tentando.
Drogan assentiu.
E seguiu.
Simples.
Direto.
Brakk, mais afastado, trabalhava em peças metálicas.
Batidas secas ecoavam.
— Se tua espada quebrar, eu faço outra melhor — ele disse sem olhar.
— Mas não quebra.
Isamu respondeu.
Brakk soltou um leve som nasal.
— Gosto disso.
Silêncio.
E então—
— Você segura bem a postura.
A voz veio… diferente.
Mais baixa.
Mais calma.
Isamu virou o rosto.
Lorian.
Encostado na sombra.
Observando.
Como sempre.
Mas agora… falando.
— Mesmo depois de tudo.
Isamu não respondeu de imediato.
— Hábito.
Lorian inclinou levemente a cabeça.
— Não.
Uma pausa.
— Sobrevivência.
Silêncio.
Isamu olhou para ele.
Por um segundo… parecia que Lorian enxergava mais do que devia.
— Aetheryon não forma soldados fracos — continuou Lorian.
— Forma pessoas quebradas… que continuam andando.
O vento passou.
Isamu desviou o olhar.
— Talvez.
Lorian ficou em silêncio por alguns segundos.
— Você não é o problema.
Isamu franziu levemente o cenho.
— O problema… é o que vai vir atrás de você.
…
Silêncio.
Pesado.
Mas antes que qualquer coisa continuasse—
— OI, FILÓSOFOS!
A voz de Veyrion cortou o momento.
Ele apareceu no meio do convés com um pedaço de comida na mão.
— Se for pra ficar depressivo, pelo menos faz isso depois de comer.
Ravik riu.
— Capitão sendo profundo de novo.
— Cala a boca.
Veyrion jogou um pedaço de pão na cara dele.
O clima… quebrou.
Naturalmente.
E isso…
Era exatamente o tipo de liderança dele.
TARDE — O MAR MUDA
Demorou.
Mas aconteceu.
Primeiro…
Foi o vento.
Mudou de direção.
Sem aviso.
Depois…
O mar.
Mais pesado.
As ondas começaram a se comportar estranho.
Não maiores.
Mas… erradas.
— …
Nyra parou.
O olhar no horizonte.
— Isso não tá certo.
Ravik franziu o cenho.
— Nem um pouco.
Selka apertou levemente o pano nas mãos.
— Tá ficando frio…
Brakk levantou o olhar do trabalho.
Drogan parou completamente.
Lorian… já estava olhando.
Antes de todos.
— Capitão.
Veyrion não respondeu de imediato.
Ele já estava encarando o mar.
Sério agora.
Sem sorriso.
Sem brincadeira.
— Recolhe parte das velas — disse, calmo.
— Agora.
O tom… mudou.
Todos se moveram.
Sem questionar.
O céu começou a escurecer.
Mas não como pôr do sol.
As nuvens…
Se retorciam.
Como se estivessem sendo puxadas.
— Isso não é tempestade… — murmurou Selka.
— Eu sei — respondeu Veyrion.
Silêncio.
O som…
Começou.
Baixo.
Distante.
Tum…
Isamu sentiu.
No peito.
Não nos ouvidos.
Tum…
— Vocês tão ouvindo isso…? — Ravik falou.
Ninguém respondeu.
Porque todos estavam ouvindo.
Tum… tum…
O mar… afundou.
Por um segundo.
Como se algo gigante estivesse puxando ele para baixo.
— …
Isamu apertou o cabo da espada.
Instinto.
Puro.
Lorian deu um passo à frente.
O olhar… diferente agora.
— Capitão.
Uma pausa.
— Isso não é mar.
Silêncio.
E então—
Veio.
O IMPACTO
O mundo explodiu.
Uma massa gigantesca emergiu do mar.
Não como algo que sobe.
Mas como algo que rasga a superfície.
Água foi lançada aos céus.
O navio—
Foi atingido.
Jogando todos para lados opostos.
Madeira rangendo.
Cordas estourando.
Gritos.
Isamu foi lançado contra o convés.
O ar saiu dos pulmões.
Por um segundo… ele achou que ia apagar de novo.
Mas não.
Ele levantou.
Forçando.
E então—
Ele viu.
ABYSSARION
Primeiro… olhos.
Vários.
Brilhando na escuridão da água.
Depois…
Tentáculos.
Gigantes.
Se erguendo como pilares vivos.
E então…
A cabeça.
Emergindo lentamente.
Grande demais.
Errada demais.
A mandíbula se abrindo além do possível.
Rachaduras brilhando em energia roxa.
O som—
TUM… TUM… TUM…
Mais forte.
O ar ficou pesado.
Difícil de respirar.
— …
Ninguém falou.
Nem Ravik.
Nem Nyra.
Nem ninguém.
Até—
— Ah…
Veyrion soltou.
Baixo.
Mas… não assustado.
Um leve sorriso surgiu.
Pequeno.
Mas real.
— Então é você.
O vento passou violento.
O monstro observava.
Como se… escolhesse.
Como se… pensasse.
— Capitão… — Selka sussurrou.
— O que… é isso?
Silêncio.
O olhar de Veyrion não saiu da criatura.
— Uma história…
Uma pausa.
— Que devia ter ficado no fundo do mar.
Isamu não desviava o olhar.
Seus músculos tensos.
Seu coração… acelerado.
Mas seus olhos…
Firmes.
Porque lá no fundo—
Ele sentiu.
Algo.
Não só medo.
Mas…
Destino.
O mar rugiu.
Os tentáculos se moveram.
A água se ergueu ao redor.
E o monstro…
Avançou.