CAPÍTULO 72 — O PESO QUE PERMANECE
O primeiro som que Isamu ouviu… foi o rangido da madeira.
Lento.
Arrastado.
Como se o próprio navio ainda sentisse o impacto da batalha.
Depois veio o silêncio.
Seus olhos se abriram devagar.
A luz entrou primeiro — suave, filtrada por alguma abertura acima dele. Sua visão demorou a se ajustar, como se o mundo estivesse distante… como se ele ainda não tivesse voltado completamente.
O corpo não respondeu de imediato.
Pesado.
Denso.
Não era apenas cansaço.
Era como se algo tivesse sido colocado dentro dele… algo que não deveria estar ali.
Ele tentou mover o braço.
Uma dor profunda percorreu seus músculos, não como um corte ou impacto… mas como pressão. Como se algo apertasse por dentro.
Sua respiração falhou por um segundo.
E então voltou.
Irregular.
— Não se mexe ainda.
A voz veio ao lado.
Calma. Firme.
Isamu virou lentamente o rosto.
Selka estava ali.
Sentada ao lado da cama improvisada, com faixas e pequenos frascos espalhados sobre uma caixa de madeira. Seus olhos estavam atentos — não preocupados, mas vigilantes.
— Você ficou tempo demais lá embaixo — disse ela, sem rodeios.
Enquanto falava, suas mãos ajustavam uma faixa no ombro de Isamu.
— Seu corpo… não devia ter voltado assim.
Isamu tentou falar.
A voz saiu baixa.
— Quanto tempo…?
— O suficiente pra eu quase te considerar morto.
Ela não suavizou.
Mas também não havia dureza naquilo.
Era apenas verdade.
Ele fechou os olhos por um instante.
Lembrou da escuridão.
Do silêncio.
Do olhar.
Seus dedos se moveram lentamente sobre o tecido que cobria seu corpo.
E foi então que ele percebeu.
O casaco.
Ele puxou levemente o tecido.
Pesado.
Resistente.
Escuro.
O símbolo dos Kurotsume marcado nele.
Seus olhos permaneceram ali por alguns segundos.
Silenciosos.
— Foi o capitão — disse Selka, observando. — Ele colocou em você.
Uma pequena pausa.
— Isso não é algo que ele faz à toa.
Isamu não respondeu.
Apenas segurou o casaco com mais firmeza por um instante.
Então, com esforço, se sentou.
Selka observou.
Não impediu.
— Se for cair, tenta não quebrar nada dessa vez — disse ela, já recolhendo os frascos.
Isamu soltou o ar pelo nariz.
E se levantou.
O REFLEXO
O convés estava silencioso.
O mar, calmo.
O céu limpo.
Isamu caminhou devagar.
Cada passo ainda pesado.
Mas mais firme.
Ele parou próximo à lateral do navio.
Olhou para a água.
Seu reflexo apareceu.
Distorcido pelas ondas leves.
Mas visível.
E então…
seus olhos mudaram.
Não foi uma transformação completa.
Foi sutil.
Rápida.
A pupila afinou.
Vertical.
Um brilho profundo atravessou o olhar.
Algo… antigo.
Isamu ficou imóvel.
Observando.
E então os olhos voltaram ao normal.
Ele não disse nada.
Mas sabia.
Aquilo… não era mais só dele.
— Tá acordado mesmo, então.
A voz veio atrás.
Nyra.
Drogan.
Brakk.
Eles estavam reunidos próximos ao centro do convés.
E Nyra fez um gesto com a cabeça.
— Vem ver uma coisa.
Isamu se aproximou.
E então viu.
Sua katana.
Mas não como antes.
A lâmina estava mais escura.
Não opaca — mas com um brilho profundo, quase líquido, como se refletisse mais do que deveria.
O fio parecia mais fino.
Mais preciso.
A guarda havia sido reforçada.
Agora possuía um formato mais agressivo, com pequenas extensões que lembravam presas.
O cabo estava envolto em um novo tecido, mais firme, com marcas sutis gravadas — linhas curvas que percorriam até a base da lâmina.
Mas o mais estranho…
era a sensação.
Isamu pegou a katana.
O peso estava perfeito.
Mas havia algo mais.
Como se a lâmina… respondesse.
Drogan cruzou os braços.
— Tivemos que mexer nela.
Brakk soltou um leve sorriso.
— Depois do que você fez… a espada antiga não ia aguentar.
Nyra completou:
— Ajustamos o equilíbrio. E reforçamos o núcleo da lâmina.
Ela olhou diretamente para Isamu.
— Agora ela não quebra fácil.
Isamu passou o polegar levemente próximo ao fio.
Sem tocar.
Sentindo.
A lâmina… vibrava de leve.
Quase imperceptível.
— Nomeamos também — disse Brakk.
Isamu levantou o olhar.
— Kagetsukiba — disse Nyra.
Uma pausa.
— Maneiro, não é?
Silêncio.
Isamu fechou a mão no cabo.
Mais firme agora.
— Obrigado.
Foi simples.
Mas sincero.
— Não agradece ainda — disse Drogan. — Usa direito primeiro.
Passos se aproximaram.
Veyrion.
Ravik.
O capitão olhou diretamente para o casaco nos ombros de Isamu.
Um leve sorriso surgiu.
— Serviu bem.
Isamu ajeitou o tecido levemente.
— Sim.
Ravik cruzou os braços.
Observando.
— Ele decidiu confiar em você.
Sua voz foi direta.
Sem emoção.
Uma pausa.
— Eu não.
O olhar dele encontrou o de Isamu.
Frio.
Preciso.
— Se você fizer algo contra esse bando… eu te mato.
Silêncio.
Isamu não desviou o olhar.
— Justo.
Ravik ficou em silêncio por um segundo.
E então assentiu levemente.
— Ótimo.
Mais passos.
Lorian.
Ele se aproximou devagar.
Observando Isamu de cima a baixo.
— Seu corpo… estabilizou.
Uma pausa.
— Surpreendente.
Isamu respondeu:
— Eu estou bem.
Lorian inclinou levemente a cabeça.
— Não completamente.
Mas não aprofundou.
Ele olhou para o horizonte.
— Estamos próximos.
Todos voltaram o olhar para o mar.
— Recebemos informação — continuou Lorian. — Uma cidade no continente. Não muito distante daqui.
Nyra já se movia.
— Então vamos parar de olhar e vamos chegar lá.
Drogan soltou uma risada leve.
E foi direto para as cordas.
Brakk o seguiu.
As velas começaram a se ajustar.
O navio voltou a se mover.
— Norte — disse Nyra, firme, assumindo o leme.
O vento respondeu.
E o navio dos Kurotsume avançou.
HORAS DEPOIS
O clima havia mudado.
O convés estava mais leve.
Comida espalhada em caixas improvisadas.
Risos.
Conversas.
Drogan falava alto sobre o que faria quando chegassem:
— Quero ver se tem alguma luta decente naquela cidade.
Brakk respondeu:
— Você quer quebrar coisa, isso sim.
Nyra apenas revirou os olhos.
— Eu só quero um lugar onde ninguém tente me matar por cinco minutos.
Ravik, encostado:
— Eu quero munição.
Selka:
— Eu quero silêncio.
Veyrion riu.
— Eu quero lucro.
Todos olharam para Isamu.
Uma pausa.
— E você? — perguntou Nyra.
Isamu ficou em silêncio por um instante.
— Eu… não sei ainda.
Eles aceitaram.
Sem pressão.
Sem insistência.
A conversa continuou.
Mas a resposta… não era verdadeira.
MADRUGADA
O navio estava silencioso.
A maioria dormia.
A lua refletia no mar.
Isamu estava sozinho.
Dentro do navio.
Encostado em uma das paredes de madeira.
A katana ao lado.
O casaco ainda sobre seus ombros.
Seus olhos estavam abertos.
Pensando.
Hikari.
Lysera.
A guerra.
A fuga.
O mar.
Tudo parecia distante.
E ao mesmo tempo…
perto demais.
Ele fechou os olhos por um instante.
E então pensou.
Sem dizer.
Sem mostrar.
“Eu não quero isso.”
Sua mão se fechou levemente.
“Eu não quero mais lutar.”
Uma pausa.
“Eu só…”
A imagem de Lysera surgiu.
Viva.
Sorrindo.
“…quero te encontrar.”
O silêncio permaneceu.
O mar lá fora se moveu levemente.
Isamu abriu os olhos.
Olhou para frente.
E pela primeira vez desde que saiu de Aetheryon…
seu desejo estava claro.
Não era poder.
Não era vingança.
Era paz.
Mesmo que o mundo inteiro fosse contra isso.