Capítulo 78 — Laços que não se quebram
O som do mar era mais calmo daquela vez.
As ondas batiam suavemente contra o casco do navio, como se o próprio oceano tivesse decidido dar uma trégua depois de tudo que havia acontecido.
O convés estava silencioso.
Não era um silêncio desconfortável… era um silêncio pesado, carregado.
Isamu estava deitado, apoiado contra algumas caixas de madeira, seu corpo ainda marcado pela luta. Faixas envolviam seus braços, seu tronco, parte do rosto. A respiração vinha mais controlada agora, mas ainda irregular.
Selka estava ajoelhada ao lado dele, terminando de ajustar um dos curativos. Seus movimentos eram cuidadosos, quase delicados demais para alguém que vivia no meio de piratas.
Ela recua levemente, analisando.
— Você teve sorte.
A voz dela não era dura… mas também não suavizava a realidade.
— Se aquele homem quisesse… você não estaria aqui.
Isamu não responde de imediato.
Seus olhos estavam abertos, olhando para o céu.
Mais à frente, próximo ao leme, Lorian permanecia de pé, braços cruzados, observando o horizonte como sempre.
Mas dessa vez… ele fala.
Sem se virar.
— Aquilo que você enfrentou… não foi apenas um soldado forte.
O tom dele era calmo. Preciso.
— Kagetsu Arashi… Número 5 dos Shinpan-kan.
Agora alguns do bando voltam a atenção para ele.
Isamu move levemente o olhar.
Lorian continua.
— Shinpan-kan são a força suprema da Igreja. Executores diretos. Quando algo precisa ser eliminado… eles são enviados.
Ele finalmente vira o rosto, olhando diretamente para Isamu.
— E Kagetsu… nem está no topo.
Um leve silêncio se instala.
Brakk franze o cenho.
Drogan cruza os braços, pesado.
Ravik apenas observa, em silêncio.
Lorian dá alguns passos, agora mais próximo do centro do convés.
— Existem outros quatro acima ou ao lado dele… dependendo de como você mede força ou influência.
Ele começa a listar.
— Seinaru Hitomi… chamado de Pupila Sagrada. Pouco se sabe, mas relatos dizem que ninguém escapa do alcance dele.
— Sacré Dieu… uma figura envolta em fanatismo absoluto. Onde ele aparece… não sobra muito para contar história.
— Yoru Shin… conhecido como Noite da Morte. Um executor silencioso. Quando ele surge… já é tarde demais.
Uma pausa.
O vento passa.
— E acima de todos eles…
Lorian fecha levemente os olhos, como se até falar fosse incômodo.
— Sora The Kid.
Silêncio.
Até o mar parece diminuir.
— Não existem registros claros. Nenhuma descrição confiável. Nenhuma confirmação de habilidade.
Ele abre os olhos.
— Só uma coisa é certa.
Uma pausa curta.
— Ele existe.
O peso daquelas palavras fica no ar.
Isamu absorve tudo em silêncio.
Algum tempo passa.
O clima no convés muda aos poucos.
Brakk já está sentado, mexendo em um dos tesouros que haviam conseguido. Moedas brilhando sob a luz do sol.
Drogan segura um baú aberto, analisando o conteúdo com interesse.
Nyra gira uma pequena joia entre os dedos, refletindo a luz.
Veyrion se aproxima, com aquele sorriso leve de sempre.
Ele joga um pequeno saco de moedas perto de Isamu.
— Olha isso.
Ele abre os braços, indicando o resto.
— Tudo isso… sem precisar enfrentar um maluco daquele nível.
Um leve riso.
— Se você só pegar, subir no navio e ir embora… todo mundo aqui fica rico.
Ele olha para Isamu.
— Simples assim.
Uma pausa.
O sorriso dele muda um pouco.
— Mas… eu admito.
— Aquilo ali… foi coragem.
Ravik encostado em uma das estruturas, solta um leve som pelo nariz.
— Coragem vira burrice bem rápido… quando você resolve desafiar alguém que claramente está acima de você.
Ele cruza os braços.
— Você teve sorte de estar vivo pra ouvir isso.
Nyra se inclina um pouco.
— Ainda assim… foi bonito.
Selka completa, sem olhar diretamente:
— Idiota… mas bonito.
Drogan solta uma risada baixa.
— Eu teria feito o mesmo.
Brakk bate no ombro dele.
— Não teria não.
— Teria sim.
— Não teria.
Pequenos risos começam a surgir.
O clima muda.
Mais leve.
Mais humano.
Isamu observa tudo aquilo.
E então… ele ri também.
Baixo no começo.
Depois um pouco mais solto.
Mas o riso diminui.
E ele fala.
— Eu… ainda senti medo.
O silêncio volta, mas agora é diferente.
— Naquele momento… meu corpo travou.
Ele aperta levemente o tecido ao lado.
— Eu achei que tinha superado isso.
Uma pausa.
— Mas eu não superei.
Ele abaixa o olhar.
— Eu preciso de ajuda.
Simples.
Direto.
Sincero.
O som dos passos de Veyrion se aproxima.
Ele para na frente de Isamu.
Por um momento… ele não fala nada.
Só olha.
E então…
Ele sorri.
Mas não aquele sorriso leve de sempre.
Um sorriso mais firme.
Mais verdadeiro.
— Escuta bem.
Ele se agacha levemente, ficando na altura de Isamu.
— Você é um Kurotsume.
Uma pausa.
— E Kurotsume…
Ele olha para o resto do bando.
…não abandona os seus.
Ele volta o olhar para Isamu.
— Você acha que família é o quê?
— Gente perfeita?
— Gente sem medo?
Ele balança a cabeça.
— Não.
A voz dele fica mais firme.
— Família é quem fica.
— Mesmo quando você falha.
— Mesmo quando você erra.
— Mesmo quando você tem medo.
Ele coloca a mão no ombro de Isamu.
— Então para de tentar carregar tudo sozinho.
— Porque você não está sozinho.
Uma pausa.
— Nunca esteve.
O vento sopra mais forte.
As velas se movem.
O navio segue.
O sol começa a descer.
O céu se pinta em tons de laranja, vermelho e dourado.
A luz cobre o convés inteiro.
O mar reflete tudo, como um espelho infinito.
O bando está ali.
Espalhado.
Conversando.
Rindo.
Existindo.
Isamu observa.
Em silêncio.
Família…
O som de asas corta o ar.
Um pássaro branco surge no céu.
Mas não é comum.
Sua forma é perfeita demais.
Brilhante demais.
Quase… artificial.
Feito de Kai.
Ele passa sobre o navio.
E algo cai.
Um pequeno rolo de papel.
Todos percebem.
Os olhares se voltam.
O objeto cai no centro do convés.
Isamu se levanta com esforço.
Seus passos ainda são pesados.
Mas firmes.
Ele se ajoelha.
Estende a mão.
Seus dedos tocam o papel.
O vento sopra.
O pôr do sol ilumina o momento.
E ele pega.