Capítulo 80 — Às Portas de Celestria
O mar estava mais calmo.
Diferente dos dias anteriores, onde o vento empurrava o navio com agressividade, agora tudo parecia… mais controlado. O balanço era leve, quase hipnótico, como se o próprio oceano estivesse segurando a respiração.
O céu estava limpo.
E o navio dos Kurotsume seguia firme, cortando as águas rumo ao oeste.
Isamu estava apoiado na lateral do navio, olhando o horizonte.
Pensativo.
Mas dessa vez… não era um pensamento pesado.
Era expectativa.
— Ei.
A voz grossa interrompe.
Brakk.
Ele faz um gesto com a cabeça.
— Vem aqui.
Isamu se afasta da borda e caminha até ele.
Mais ao centro do convés, uma bancada improvisada estava montada, com ferramentas espalhadas, marcas de metal queimado e pedaços de aço ainda encaixados de forma bruta.
Brakk coloca uma caixa sobre a madeira.
Pesada.
O som oco ecoa.
Antes de falar qualquer coisa—
Passos.
Ravik surge.
Braços cruzados.
Olhar sério.
Como sempre.
— Não é nada demais.
Ele fala seco, sem nem olhar direto pra Isamu.
— Só… não se acostuma.
Brakk solta um pequeno riso pelo nariz.
— Ele pediu.
Brakk diz, batendo levemente na caixa.
— Eu só fiz.
Isamu olha entre os dois.
Confuso.
Ravik suspira.
— Considera isso… uma prova de confiança.
Uma pausa.
— E pela sua coragem.
Ele desvia o olhar por um segundo.
— Mesmo que seja meio idiota às vezes.
Brakk abre a caixa.
O som da madeira rangendo ecoa baixo.
E então—
Silêncio.
Dentro da caixa…
A arma.
Uma pistola.
Mas não comum.
O corpo era escuro, quase negro, com linhas prateadas correndo como veias pelo metal. A estrutura parecia viva, como se tivesse sido moldada mais por intenção do que por ferramentas.
O cano era levemente mais longo que o normal, com pequenas aberturas laterais que lembravam guelras… como se a arma respirasse.
O cabo era envolto por um material escuro, firme, com detalhes entalhados em padrões que lembravam escamas.
E no centro…
Um pequeno núcleo embutido.
Fraco.
Mas pulsando.
Isamu se aproxima devagar.
Os olhos fixos.
— Isso aqui…
A voz sai baixa.
Brakk cruza os braços.
— Não é uma arma comum.
Ravik dá um passo à frente.
— Ela funciona com Kai.
Isamu olha pra ele.
— Não é só pólvora.
Ravik continua.
— Você alimenta ela com o seu Kai… e ela responde.
Brakk completa:
— O núcleo no meio…
Ele aponta.
— Ele acumula e estabiliza o fluxo.
— Sem isso, você ia explodir sua própria mão.
Ravik solta um pequeno som de desprezo.
— Ainda pode acontecer se você for burro.
Brakk ignora.
— Você pode moldar os disparos.
— Intensidade, velocidade… até forma.
Isamu pega a arma.
O toque é frio no começo.
Mas… rapidamente esquenta.
Como se reconhecesse.
O núcleo pulsa.
Mais forte.
Ravik observa.
— Ela sincroniza com você.
— Quanto melhor você controlar seu Kai…
— mais absurda ela fica.
Isamu gira levemente a arma na mão.
Sente o peso.
O equilíbrio.
— E o nome?
Ele pergunta.
Brakk dá de ombros.
— Isso é com você.
Ravik cruza os braços novamente.
— Se quiser um conselho…
Uma pausa.
— Não dá nome idiota.
Isamu solta um pequeno riso.
Ele prende a arma ao lado da cintura.
Do outro lado…
Kagetsukiba.
Espada e pistola.
Ele olha pros dois.
— Obrigado.
Simples.
Mas verdadeiro.
Brakk apenas assente.
Ravik desvia o olhar.
— Não foi nada.
E então—
— OOOI!!
Um impacto.
Veyrion simplesmente surge.
Se joga nos três.
— Finalmente!
Ele ri alto.
— Ravik parou de ser um saco com você!
Brakk quase perde o equilíbrio.
Isamu segura o riso.
Ravik empurra Veyrion com força.
— Cala a boca.
— Eu sempre fui simpático!
Veyrion rebate, rindo.
— Mentira.
Nyra grita lá de trás.
— Nunca foi!
Drogan completa.
Selka ri baixo.
Até Brakk solta um som curto.
Ravik revira os olhos.
Mas… não responde.
O clima fica leve.
Risadas.
Por alguns segundos…
Tudo parece normal.
Mas então—
— Estamos chegando.
A voz de Lorian corta o ar.
Todos param.
— Celestria está próxima.
Ele olha pra frente.
— Muito próxima.
Silêncio.
— Vocês têm certeza…?
Ele continua.
— Na carta… foi dito que esse lugar tem uma das maiores concentrações da Igreja.
— E política.
— E gente influente.
Uma pausa.
— Isso não é como as outras cidades.
O clima pesa.
Veyrion suspira.
— A gente vai.
Simples.
— Pega a amiga do Isamu.
— E sai.
Ele dá de ombros.
— Depois… se quiser, a gente volta pra pegar o resto.
Selka aperta levemente o próprio braço.
— Eu… tô com medo.
Nyra olha pra ela.
— Eu também.
Ela admite.
Mas força um sorriso.
— Mas a gente já passou por coisa pior.
Ravik fala, seco:
— Isso é burrice.
Todos olham.
— Entrar num lugar desses…
— cheio de Igreja…
— só pra se meter em mais problema.
Drogan coça a cabeça.
— Ele não tá errado.
Brakk fica em silêncio.
Pensativo.
O clima fica dividido.
E então—
Veyrion se vira.
Olha pra todos.
E sorri.
— Vocês esqueceram quem é o capitão de vocês?
Silêncio.
— Eu já tirei vocês de situações piores.
— Já enfrentei coisa muito mais absurda.
Ele cruza os braços.
— E nunca deixei ninguém morrer.
Uma pausa.
— E não vai ser agora.
Silêncio.
Olhares.
Confiança.
E então—
Nyra para.
Os olhos dela se arregalam.
— …isso…
Ela fala baixo.
Todos olham.
Pra frente.
E veem.
Celestria.
Não era apenas uma cidade.
Era um colosso.
Torres enormes rasgando o céu.
Prédios alinhados com precisão absurda.
Pontes ligando estruturas.
Árvores espalhadas entre construções.
Movimento.
Vida.
Uma cidade que parecia… respirar.
Diferente de tudo que já tinham visto.
O navio avança lentamente.
O vento passa.
Isamu observa.
— Chegamos…
Baixo.
Mas todos ouvem.
E concordam.
Celestria.
O começo… de algo muito maior.