Capítulo 82 — O Silêncio que Sobrou
A rua era estreita demais.
Silenciosa demais.
Os passos de Isamu ecoavam contra as paredes desgastadas, voltando para ele como um lembrete constante de que… ali não havia mais ninguém.
Nem vozes.
Nem movimento.
Nem vida.
O vento passava fraco, arrastando poeira pelo chão de pedra irregular.
Portas fechadas.
Janelas quebradas.
Algumas casas pareciam abandonadas há anos.
Outras… simplesmente vazias.
Isamu diminui o ritmo.
Os olhos atentos.
O corpo tenso.
Lysera…
Ele respira fundo.
— Pode ser aqui…
A voz sai baixa.
No fim da rua…
Uma casa.
Diferente das outras.
Mais destruída.
Parte do teto desabado.
Madeira quebrada.
Pedras espalhadas.
Um esconderijo.
Faz sentido.
— Se fosse você…
Ele murmura.
— Você escolheria um lugar assim…
Ele se aproxima devagar.
A porta está entreaberta.
Range levemente com o vento.
Isamu encosta a mão nela.
Para.
Por um segundo.
Respira.
E empurra.
O som da madeira abrindo ecoa.
Lento.
— Lysera…?
Silêncio.
Ele entra.
O chão está coberto de destroços.
Pedaços de madeira.
Fragmentos de parede.
Cada passo é cuidadoso.
— Lysera… sou eu…
Nada.
O coração começa a acelerar.
— Eu cheguei…
O ar está pesado.
Algo… errado.
Muito errado.
Isamu dá mais alguns passos.
Desvia de uma viga caída.
Passa por uma parede rachada.
E então—
Ele vê.
Os olhos se arregalam.
O corpo trava.
A perna falha.
A respiração some.
A boca se abre… mas nenhum som sai.
Ali.
No meio dos destroços.
Lysera.
Imóvel.
O corpo caído de lado.
Cortado.
Feridas profundas atravessando o torso e os braços.
A roupa rasgada.
Manchada.
Sangue seco espalhado pelo chão.
E ainda assim…
Pequenos estalos.
O corpo… eletrizado.
Resquícios de energia percorrem lentamente a pele.
Como se o golpe que a matou ainda estivesse ali… preso.
Isamu dá um passo.
Outro.
As pernas tremem.
E então—
Ele cai.
De joelhos.
O impacto ecoa no chão.
— …não…
A voz falha.
— Não…
Mais fraca.
Ele se arrasta.
As mãos tremendo.
— Lysera…
Ele para ao lado dela.
Os olhos percorrem o corpo.
Tentando negar.
Tentando encontrar um sinal.
Qualquer um.
— Levanta…
Silêncio.
— Levanta…
Nada.
O mundo parece distante.
— Por que…
A voz quebra.
— …por quê…?
As mãos apertam o chão.
— Como…?
Respiração irregular.
— Eu… cheguei…
Os olhos começam a encher.
— Eu vim…
Uma lágrima cai.
— Eu vim te buscar…
Silêncio absoluto.
— Eu demorei…
A voz treme.
— Eu demorei demais…
Outra lágrima.
Depois outra.
— É minha culpa…?
Ele abaixa a cabeça.
— É…?
As mãos se fecham.
— Eu fugi…
A respiração falha.
— Eu deixei você pra trás…
O corpo treme.
— E agora…
A voz some.
— …de novo…
O silêncio responde.
Ele estende a mão.
Encosta nela.
Fria.
Parado.
— Eu… não consegui…
Ele se inclina.
Abraça o corpo.
Com força.
Como se ainda pudesse trazer de volta.
— Desculpa…
A voz some no meio do choro.
— Desculpa…
As lágrimas caem sem controle.
— Eu prometi…
Ele aperta mais.
— Eu prometi que voltava…
A respiração se perde.
— Eu prometi…
Silêncio.
E então—
Uma lembrança.
Hikari.
O mesmo vazio.
O mesmo peso.
O mesmo sentimento.
De novo.
De novo.
— Não…
A voz sai em um sussurro quebrado.
— Não de novo…
Ele afasta o rosto lentamente.
Os olhos ainda cheios de lágrimas.
E então—
Algo.
Nas costas dela.
Ele para.
O olhar trava.
Sangue.
Marcado.
Um símbolo.
Feito com lâmina.
Profundo.
Cruel.
O símbolo de Aetheryon.
O símbolo de…
Eryndor.
Silêncio.
As lágrimas ainda escorrem.
Mas algo muda.
Os olhos.
Não são mais só dor.
Agora…
Ódio.
Puro.
Frio.
Pesado.
Ele solta Lysera.
Devagar.
Com cuidado.
Como se ainda respeitasse o que restou.
A mão desliza ao lado do corpo.
E então—
Ele vê.
A katana.
Ainda ali.
Ao lado dela.
Manchada.
Mas intacta.
Ele pega.
Devagar.
Sente o peso.
Sente a presença.
Os olhos fecham por um segundo.
— Eu não vou deixar…
A voz sai baixa.
— você ser esquecida.
Ele abre os olhos.
Firmes.
— Eu juro.
Ele prende a katana.
Agora…
Duas lâminas.
Kagetsukiba.
E a dela.
E na cintura…
A arma.
Ele se levanta.
O corpo ainda tremendo.
Mas agora…
Diferente.
O silêncio da casa permanece.
Mas dentro dele…
Algo começou.
Algo que não vai parar.