Capítulo 84 — Correntes Invisíveis
Escuridão.
Não total.
Mas suficiente.
A luz que entrava na cela era fraca, filtrada por grades grossas e sujas, projetando sombras irregulares nas paredes de pedra.
O ar era frio.
Úmido.
Pesado.
Isamu estava sentado no chão.
Encostado na parede.
As correntes nos pulsos limitavam seus movimentos.
Mas ele nem tentava se soltar.
Seus olhos estavam baixos.
Vazios.
O tempo ali dentro era estranho.
Não passava.
Arrastava.
Silêncio.
Até—
CLANG.
O som metálico ecoa pelo corredor.
Um soldado para diante da cela.
Bate com a ponta da lança nas grades.
— Levanta.
Isamu não reage.
— Ei.
O soldado repete, mais forte.
— Tem alguém que quer te ver.
Silêncio.
Isamu levanta o rosto lentamente.
Os olhos… sem expressão.
O soldado observa por um segundo.
— Fica esperto.
Ele resmunga.
— Não é visita comum.
Passos.
Ele se afasta.
O corredor volta ao silêncio.
Mas não por muito tempo.
Outro som.
Passos.
Lentos.
Controlados.
Não são pesados como os dos soldados.
São… tranquilos.
Confiantes.
Isamu permanece imóvel.
Mas sente.
A presença.
Ela para diante da cela.
Silêncio.
E então—
A figura entra no campo de visão.
Um manto limpo.
Postura ereta.
E um sorriso.
Quando Isamu levanta o olhar—
Seus olhos se arregalam.
O corpo reage antes da mente.
— …
Tan Yang.
Ali.
Dentro da base da Igreja.
Sorrindo.
O mesmo sorriso.
Calmo.
Cruel.
— …
Isamu não fala.
Mas o olhar diz tudo.
Confusão.
Yang inclina levemente a cabeça.
— Surpreso?
A voz é leve.
Quase divertida.
Ele observa Isamu como se estivesse analisando uma peça rara.
— Faz sentido.
Ele continua.
— Eu também ficaria.
Ele dá um passo à frente.
— Guarda.
O soldado que estava próximo hesita.
— Saia.
O tom muda.
Frio.
O soldado engole seco.
— S-sim.
Passos apressados.
E então—
Sozinhos.
Yang volta o olhar para Isamu.
O sorriso aumenta.
— Então…
Ele abre levemente os braços.
— Olha só pra você.
Silêncio.
— Um traidor.
— Um fugitivo.
— E agora…
Ele observa as correntes.
— Um prisioneiro da Igreja.
Uma pausa.
E então ele ri.
Baixo no começo.
Mas cresce.
— Patético.
O som ecoa pela cela.
Isamu continua em silêncio.
Yang se aproxima mais.
— Sabe…
Ele inclina levemente o rosto.
— Eu não convivi tanto com você.
Uma pausa.
— Mas já sei o suficiente.
Os olhos dele se estreitam levemente.
— Você nunca passou de um erro.
Silêncio.
— Um traidor imundo.
O sorriso volta.
— E agora pior ainda…
Ele olha de cima a baixo.
— Um pirata.
O desprezo na voz é claro.
Yang se afasta um pouco.
Começa a andar lentamente pela frente da cela.
— Mas… devo admitir…
Ele levanta um dedo.
— Você veio parar exatamente onde a gente precisava.
Isamu franze levemente o cenho.
Yang ri baixo.
— Eu acho que você ainda não entendeu.
Ele para.
— Eu estou me elegendo.
Silêncio.
— Um cargo alto.
Ele ergue o olhar, como se pudesse ver além das paredes.
— Aqui.
— Dentro da Igreja.
Uma pausa.
— Ninguém me conhece.
O sorriso cresce.
— E isso é perfeito.
Ele se vira de volta para Isamu.
— Aetheryon não precisa mais atacar de fora.
A voz fica mais baixa.
— Nós vamos destruir tudo… de dentro.
Silêncio.
— Dados.
— Nomes.
— Rotas.
— Segredos.
Cada palavra sai com precisão.
— Tudo ao nosso alcance.
Ele abre levemente as mãos.
— E você?
Olha para Isamu novamente.
— Só mais um prisioneiro.
Uma pausa.
— Esquecido.
E então ele ri novamente.
Dessa vez mais aberto.
— Que final miserável.
Isamu aperta levemente os punhos.
Mas ainda não fala.
Yang então vira o olhar.
Para o lado de fora da cela.
Um baú.
Ele se aproxima.
Abre.
Lentamente.
E pega.
Kagetsukiba.
Ele gira a lâmina levemente.
— Hm…
Depois—
Hanabira.
Ele observa.
E então—
Para.
Os olhos reconhecem.
O sorriso muda.
— Ah…
Uma pequena pausa.
— Essa…
Ele levanta levemente a lâmina.
— Eu conheço.
Silêncio.
Ele olha de volta para Isamu.
— A espada daquela…
Uma leve inclinação de cabeça.
— Ex-guerreira de Aetheryon.
Uma pausa.
— A outra traidora.
O sorriso cresce.
— Lysera.
Silêncio.
— Ingênua.
Ele gira a espada entre os dedos.
— Se sacrificou…
— Por alguém que vai acabar igual.
O olhar dele se fixa.
— Você.
Isamu abaixa levemente a cabeça.
Mas os olhos…
Mudam.
Yang continua.
— Eryndor fez um bom trabalho.
Ele passa o dedo pela lâmina.
— Tirando aquela traidora dos nossos planos.
Uma pausa.
— E olha só…
Ele observa Isamu.
— Você já descobriu.
O sorriso cresce.
— E ainda pegou a arma dela.
Ele inclina a cabeça.
— Meio desleal, não acha?
Silêncio.
Isamu aperta os punhos.
As correntes rangem levemente.
Yang não para.
— Patético.
Ele devolve a espada ao baú.
— Igual aquele bando que você chama de família.
Uma pausa.
— Kurotsume…
Ele solta um pequeno riso.
— Piratas imundos brincando de lealdade.
Silêncio.
— Aposto que já foram embora.
Os olhos dele brilham levemente.
— Te deixaram pra trás.
Isamu levanta o rosto lentamente.
Mas não responde.
Yang observa.
— Ah…
Ele sorri.
— E o Ren…
Uma pausa.
— Ele está ansioso pra te matar.
O sorriso fica mais frio.
— Muito ansioso.
Silêncio.
— Mas infelizmente…
Ele dá de ombros.
— Não vai poder.
Uma pausa.
— Porque você…
Ele se aproxima da grade.
— Vai ser executado.
Silêncio absoluto.
— Em público.
A voz ecoa.
— Pela Igreja.
Ele se afasta.
— Como prova da minha eleição.
Uma pausa.
— Eu vou entregar a cabeça de um Kurotsume.
O sorriso cresce.
— Isso deve agradar bastante.
Silêncio.
— Dez dias.
Ele levanta dois dedos.
— É o que você tem.
Isamu permanece imóvel.
Mas os olhos…
Não estão mais vazios.
Yang fecha o baú.
Se vira.
E começa a sair.
Passos lentos.
Mas antes de desaparecer—
Ele para.
Sem olhar para trás.
— Boa tentativa, Isamu.
Uma pausa.
E então—
Ele vira levemente o rosto.
O sorriso ainda ali.
— Uma pena…
Silêncio.
— Que seus inimigos…
Os olhos brilham.
— São de Aetheryon.
E ele vai embora.
Os passos somem.
A cela volta ao silêncio.
Mas agora…
Não é o mesmo silêncio.
É mais pesado.
Mais cruel.
E muito mais perigoso.