Capítulo 86 — Ecos do Passado
Quatro dias.
O tempo não corria.
Arrastava.
Mas fora das paredes da Igreja…
O mundo continuava.
E Ren se movia dentro dele.
A cidade era estranha.
Silenciosa demais.
Casas abandonadas.
Janelas quebradas.
Portas entreabertas rangendo com o vento.
Nenhuma voz.
Nenhum passo.
Só ecos.
Ren caminhava pelo meio da rua.
Sem pressa.
O capuz cobrindo o rosto.
Os olhos atentos.
Cada detalhe.
Cada sombra.
Ele para.
À sua frente…
Um coliseu.
Gigante.
Desgastado pelo tempo.
Marcas de batalha nas paredes.
Pedras quebradas.
Arquibancadas vazias.
Um lugar que já foi vivo.
Agora…
Um cemitério de ecos.
Ren entra.
Os passos ecoam no interior vazio.
Ele desce.
Vai até o campo central.
Olha ao redor.
Nada.
Silêncio.
Mas então—
Um som.
Leve.
Quase imperceptível.
E de repente—
Uma lâmina.
Encostada em seu pescoço.
Fria.
Precisa.
Ren para.
Imóvel.
A voz vem logo atrás.
Baixa.
Firme.
— Se identifique.
Silêncio.
— Agora.
Ren não reage de imediato.
O vento atravessa o coliseu.
E então…
Ele levanta levemente a cabeça.
Lentamente.
A mão sobe.
E ele abaixa o capuz.
Revelando o rosto.
Silêncio.
Atrás dele…
Kanzaki arregala os olhos.
— …
— Ren?
A lâmina hesita por um segundo.
E nesse segundo—
Ren desaparece.
E reaparece metros à frente.
De frente para ele agora.
Os dois se encaram.
O vento corta entre eles.
— Há quanto tempo… Kanzaki.
A voz de Ren é calma.
Mas carregada.
Kanzaki observa.
Os olhos descem.
O manto.
Os símbolos.
Aetheryon.
— Eu…
Ele dá um passo à frente.
— Eu não acredito…
— Ren… por quê?
Silêncio.
Ren levanta o olhar.
E a resposta vem.
Cortante.
— Porque a Igreja mente.
Uma pausa.
— E nós vamos destruir ela.
Os olhos dele se estreitam.
— Mesmo que isso custe a vida de milhares.
E então—
Ele avança.
Rápido.
A lâmina surge.
Um golpe direto.
Kanzaki reage no último instante.
Desvia.
E empurra Ren para trás.
— Eu não vou lutar com você!
Ren desliza alguns metros.
Se estabiliza.
Os olhos queimam.
— Não vai?
Kanzaki mantém a postura.
— Não.
Silêncio.
— Isso não vale a pena.
Ren ri.
Baixo.
— Não vale a pena?
Uma pausa.
— Valeu a pena…
Os olhos dele escurecem.
— Quando você mandou a Aoi matar o Daichi?
O nome ecoa.
Kanzaki trava.
O olhar muda.
— Eu…
Silêncio.
— Eu não queria.
A voz dele falha levemente.
— Eu adorava aquele garoto.
Uma pausa.
— Vocês erraram.
Ele levanta o olhar.
— Ao achar que eu não recebo ordens também.
Silêncio.
— Era necessário.
A palavra pesa.
— Mesmo que eu não quisesse.
Ren aperta o cabo da arma.
— Necessário…
Ele repete baixo.
— Sempre necessário.
Silêncio.
Kanzaki abaixa levemente a lâmina.
— Vai embora, Ren.
Uma pausa.
— Não importa o que você faça…
Ele fecha os olhos por um segundo.
— Eu não vou lutar com você.
Silêncio.
O vento sopra.
Ren observa.
Por alguns segundos.
E então—
Ele range os dentes.
— Eu vou acabar com a Igreja.
A voz sai baixa.
Mas firme.
— Não importa quanto tempo leve.
Uma pausa.
— Nem quem tenha que cair.
E então—
Ele desaparece.
Deixa o coliseu.
Kanzaki fica sozinho.
Imóvel.
A lâmina ainda em mãos.
Mas o olhar…
Pesado.
De volta à Igreja…
A cela.
Mais escura.
Mais fria.
Isamu está no chão.
De joelhos.
A cabeça baixa.
Os lábios secos.
Respiração pesada.
O corpo… mais fraco.
Quatro dias.
Sem descanso.
Sem paz.
Só pensamentos.
Sempre os mesmos.
Kurotsume.
Lysera.
Hikari.
Fracasso.
— Por quê…
A voz sai quase inaudível.
— Por que eu nunca consigo…
Silêncio.
A execução.
Mais quatro dias.
Fim.
No exterior…
O mesmo lugar.
Mar.
Noite.
Yang espera.
Eryndor ao lado.
E então—
Ren retorna.
Silencioso.
Ele para.
Olha para o chão.
— Encontrei Kanzaki.
Silêncio.
— Cidade fantasma.
— Ao norte.
Uma pausa.
— Sem sinais de Vorthal.
Yang ri.
— Interessante.
Eryndor fecha o punho.
— Eu vou matar aquele servo da Igreja.
A voz sai carregada.
— O quanto antes.
Yang levanta a mão.
— Se acalma.
Silêncio.
— Quer acabar com nosso plano?
Ele encara Eryndor.
— Depois que tudo estiver feito…
Uma pausa.
— Eu deixo você ir atrás dele.
Os olhos dele ficam frios.
— Mas agora…
— Foquem no plano.
— Sem mais.
— Sem menos.
Silêncio.
Eryndor assente.
Ren também.
Mas sem dizer nada.
E então—
Ren quebra o silêncio.
Baixo.
— E o Isamu?
Yang responde sem hesitar.
— O prisioneiro?
Uma pausa.
— Faltam quatro dias.
Ele dá de ombros.
— Podem assistir.
— Mas não cheguem perto.
— Vai ter muita gente da Igreja.
Silêncio.
Ren hesita.
E então—
— Posso… falar com ele?
Os dois olham.
Estranham.
Eryndor franze o cenho.
— Pra quê?
Yang observa por um segundo.
E então—
— É arriscado.
Uma pausa.
— Mas…
Ele dá de ombros.
— Se você quer tanto.
De volta à cela…
Isamu está ajoelhado.
O olhar fixo.
No baú.
Do lado de fora.
Kagetsukiba.
Hanabira.
Hantei.
Tão perto.
E tão longe.
Passos.
Guardas entram.
Se posicionam.
Mas então—
Uma presença maior.
— Podem sair por um momento.
A voz.
Yang.
Os guardas hesitam.
Mas obedecem.
Saem.
Yang se aproxima da cela.
Sorrindo.
Isamu reage.
Os dentes rangem.
— Se acalma.
Yang levanta a mão.
— Hoje não é comigo.
Uma pausa.
— Tem alguém querendo te ver.
Ele se vira.
— Aproveita.
E vai embora.
Silêncio.
Isamu encara o vazio.
Sem entender.
E então—
Uma presença.
Ali.
Como se sempre estivesse.
Capuz.
Parado.
Ren.
Isamu arregala os olhos.
— Ren…?
A resposta vem imediata.
— Isamu.
O tom é frio.
Controlado.
Ren se aproxima da cela.
E Isamu fala.
Rápido.
Desesperado.
— Eu não sou um traidor!
— Foi um engano!
— Eu tive que fugir—
— Eryndor matou a Lysera!
Silêncio.
Ren escuta.
Sem reação.
E então—
Ele levanta a mão.
E tira o capuz.
Os olhos encontram os de Isamu.
— Eu sei.
Silêncio.
Isamu trava.
— O quê…?
Ren continua.
— Você não é o traidor.
Uma pausa.
— O papel do continente…
Os olhos dele não desviam.
— Era meu.
Silêncio absoluto.
Isamu fica imóvel.
A mente… trava.
— Tudo isso…
A voz dele falha.
— Foi um erro?
Ren responde sem emoção.
— Sim.
Silêncio.
O mundo parece parar.
— Então…
Isamu dá um passo à frente.
— Então isso tudo—
Ren corta.
— Não muda nada.
A frase cai como uma lâmina.
— Eu não posso fazer nada por você.
Uma pausa.
— Antes você morrer…
Os olhos dele escurecem.
— Do que eu.
Silêncio.
— Eu não vou ficar feliz com a sua morte.
Ele continua.
— Mas também…
Uma pausa.
— Não muda nada na minha vida.
Isamu recua um passo.
Sem palavras.
— E sinceramente…
Ren inclina levemente a cabeça.
— Eu prefiro ver você morto…
Os olhos frios.
— Do que lutando ao nosso lado.
Silêncio.
— Fraco.
A palavra ecoa.
Isamu aperta as grades.
— Eu—
Ren continua.
— Eu fui até o navio.
Uma pausa.
— Pra te buscar.
— Mas aqueles piratas…
Um pequeno sorriso surge.
— Interferiram.
Silêncio.
— Lealdade.
Ele diz.
— Um conceito interessante.
Uma pausa.
— Mas inútil.
Isamu treme.
— Porque no fim…
Ren se aproxima mais.
— Não adiantou.
Silêncio.
— Você vai morrer.
Os olhos de Isamu se arregalam.
— De qualquer forma.
Ren recua um passo.
— Aqueles piratas…
Uma pausa.
— Pareciam gostar de você.
Silêncio.
— Talvez fossem os únicos.
Outra pausa.
— Além daquela outra inútil.
O nome não é dito.
Mas pesa.
— Lysera.
Isamu trava.
— Mas estranho…
Ren olha ao redor.
— Onde estão eles?
Silêncio.
— Te abandonaram?
A pergunta é calma.
Mas destrói.
— Ninguém nunca fica, Isamu.
Uma pausa.
— Ninguém.
O olhar final.
— Agora…
— Você vai morrer como traidor.
Silêncio.
— Enquanto o verdadeiro dono daquele papel…
Ele toca o próprio peito.
— Está aqui.
Uma pausa.
— E ninguém nunca vai saber.
Ren se vira.
— Adeus, Isamu.
E desaparece.
Como se nunca estivesse ali.
Silêncio.
Pesado.
Isamu permanece parado.
Imóvel.
Os olhos vazios.
E então—
Uma lágrima.
Escorre.
Depois outra.
— Eu…
A voz falha.
— Eu mereço isso…?
Silêncio.
— O que eu fiz…?
Ele levanta o olhar.
Para o nada.
— O que eu fiz pra tudo isso acontecer…?
A voz quebra.
As lágrimas caem.
Sem controle.
Sem resposta.
E a cela permanece.
Silenciosa.
Indiferente.