Capítulo 87 — Promessas Vazias
Noite outra vez.
O mesmo lugar.
O mesmo mar.
O mesmo silêncio pesado.
Três sombras.
Tan Yang.
Eryndor.
Ren.
O vento passa entre eles como um sussurro.
Yang observa o horizonte, mãos atrás das costas.
— Aetheryon vai se erguer.
A voz dele sai calma.
Segura.
— Não importa quem tente impedir.
Uma pausa.
— Não importa… quantos sobrem.
Silêncio.
Eryndor sorri.
— Mesmo que só reste um de nós…
Ele fecha o punho.
— Ainda assim… será suficiente.
O olhar dele endurece.
— Aetheryon vai dominar esse mundo.
Yang inclina levemente a cabeça.
— Como sempre deveria ter sido.
Silêncio.
O vento muda de direção.
Yang então sorri.
Um sorriso pequeno.
Mas carregado.
— Falta um dia.
Eryndor solta um leve riso.
— Finalmente.
Yang continua.
— Um dia…
Ele olha para o mar.
— Para aquela população imunda me aplaudir.
Uma pausa.
— Para implorar por ordem.
O sorriso cresce.
— Para me entregar tudo o que eu preciso.
Eryndor cruza os braços.
— Informações.
— Nomes.
— Movimentos.
Ele ri baixo.
— Tudo na palma da mão.
Yang concorda.
— E tudo isso…
Ele fecha os olhos por um segundo.
— Começa com a cabeça de um traidor.
Silêncio.
Eryndor completa.
— E termina com Aetheryon sendo reconhecida…
Uma pausa.
— Como a maior potência desse mundo.
Silêncio.
Mas então—
Ren fala.
Baixo.
— Eu preciso falar com vocês.
O vento parece parar.
Yang e Eryndor olham.
Ren não levanta a cabeça.
— Eu só vou continuar…
Uma pausa.
— Se vocês me derem o que eu quero.
Silêncio.
Eryndor franze o cenho.
— O que você quer dizer?
Ren levanta o olhar.
Pela primeira vez.
— Poder.
Uma pausa.
— Força.
Outra.
— Recursos.
Silêncio pesado.
— Eu não sou um servo.
A voz dele endurece.
— Eu não sou um peão.
O vento volta a soprar.
Yang observa.
Eryndor cruza os braços.
— Você está se precipitando.
Ren não responde.
Yang dá um passo à frente.
— Espera.
A voz dele é controlada.
— Quando tudo der certo…
Uma pausa.
— Você vai receber o que merece.
Silêncio.
— Muito mais do que isso.
Ren aperta os dentes.
Mas não rebate.
Fica em silêncio por alguns segundos.
E então—
Ele se vira.
Começa a caminhar.
— Vou procurar vestígios de Vorthal.
A voz sai seca.
Sem olhar para trás.
Yang apenas observa.
Eryndor assente.
— Vá.
Ren desaparece na escuridão.
Silêncio.
O vento continua.
E então—
Yang quebra o silêncio.
Sem desviar o olhar do horizonte.
— Eryndor.
Uma pausa.
— Se esse garoto…
Os olhos dele se estreitam.
— Se rebelar contra a gente…
Silêncio.
— Você mata ele.
Eryndor vira o rosto rapidamente.
— O quê?
A expressão dele muda.
— Ele nunca faria isso.
Uma pausa.
— Eu salvei ele.
Yang finalmente olha para ele.
Frio.
— Isso não significa nada.
Silêncio.
— Pessoas mudam.
Uma pausa.
— E quando mudam…
O olhar pesa.
— Se tornam um problema.
Eryndor aperta o punho.
— Ele é leal.
Yang responde sem hesitar.
— Por enquanto.
Silêncio.
— Só estou te avisando.
Uma pausa.
— Se você não fizer…
Ele desvia o olhar.
— Eu faço.
Silêncio.
Eryndor não responde.
Mas o rosto dele…
Não está mais tão certo.
Enquanto isso…
Longe dali.
Muito longe.
Uma construção pequena.
Antiga.
Pedras gastas.
Uma capela.
Isolada.
Dentro dela…
Luz fraca de velas.
Som de madeira estalando.
E duas figuras.
Kanzaki.
Seraphiel.
Kanzaki está de pé.
De frente para o altar.
Mas não olha para ele.
Olha para o chão.
— Eu encontrei ele.
A voz sai baixa.
Seraphiel permanece sentado.
Imóvel.
— Ren.
Silêncio.
— Ele está diferente.
Uma pausa.
— Frio.
Outra.
— Decidido.
Kanzaki fecha levemente os olhos.
— Ele está com aquele homem.
Silêncio.
— O mesmo que destruiu a vila.
As palavras pesam.
Seraphiel continua em silêncio.
Apenas ouvindo.
O fogo das velas oscila.
— Ele acredita nisso tudo.
Kanzaki continua.
— Na destruição da Igreja.
Uma pausa.
— Não importa quem morra.
Silêncio.
— Ele não hesita mais.
O peso daquilo se acumula.
E então—
Seraphiel fala.
Baixo.
— Kanzaki…
Uma pausa.
— Está na hora.
Kanzaki levanta levemente o olhar.
— Hora…?
Seraphiel se levanta.
Lentamente.
— De buscar sua filha.
Silêncio.
— Precisamos de todos.
Ele dá alguns passos.
— A Igreja precisa estar unida no continente.
Uma pausa.
— Algo maior está se aproximando.
O tom muda.
Mais sério.
Mais pesado.
— Algo vindo…
— Do lugar onde ela está infiltrada.
Silêncio.
Kanzaki aperta os olhos.
— Aoi…
A palavra sai quase como um sussurro.
Seraphiel continua.
— E sobre o garoto…
Uma pausa.
— Ren.
O olhar dele endurece.
— É dever dela.
Silêncio.
— Matar ele.
O ar pesa.
Kanzaki reage.
— Não.
Ele vira completamente.
— Não é assim.
Uma pausa.
— Nós podemos trazer ele de volta.
A voz dele cresce.
— Sem violência.
— Sem mortes.
Silêncio.
Seraphiel observa.
E então…
Se levanta completamente.
— Acorda, Kanzaki.
A voz corta o ar.
— Isso não é mais aquela vila.
Uma pausa.
— Não é mais um lugar sem guerra.
Ele se aproxima.
— Ren…
Os olhos dele se estreitam.
— Não tem mais salvação.
Silêncio.
Kanzaki trava.
Sem resposta.
Sem palavras.
Seraphiel se afasta.
Voltando à escuridão da capela.
— Prepare-se.
Uma pausa.
— O que está vindo…
— Vai exigir tudo de nós.
Silêncio.
Ele desaparece nas sombras do interior.
Kanzaki fica sozinho.
O som das velas.
O cheiro de cera.
E o peso…
Das escolhas.
Ele levanta o olhar.
Diante dele…
A imagem do deus da Igreja.
Imponente.
Intocável.
Ele dá um passo à frente.
E se ajoelha.
As mãos tremem levemente.
— …
Os olhos se fecham.
— Se… ainda estiver olhando…
A voz sai baixa.
Quase quebrando.
— Que tudo aconteça…
Uma pausa.
— Como o senhor deseja.
Silêncio.
A chama das velas balança.
Como se respondesse.
Ou ignorasse.