Capítulo 88 — O Tempo que Some, o Passado que Volta
Escuridão.
Silêncio.
Frio.
A cela não muda.
Mas Isamu…
Já não sabe mais.
Quantos dias.
Quantas noites.
Tudo se mistura.
Ele está sentado no chão.
Encostado na parede.
Olhos abertos.
Mas sem foco.
Os pensamentos voltam.
Sempre.
Lysera.
O corpo.
O sangue.
O símbolo.
Hikari.
O mesmo fim.
Ren.
As palavras.
Fraco.
Abandonado.
Silêncio.
— …
A respiração é lenta.
Pesada.
— Eu…
A voz não termina.
Os olhos caem.
Ele já não luta contra aquilo.
Só… aceita.
O tempo passa.
Mas ele não percebe.
Não sente.
Não conta.
Só existe.
E então—
CLANG.
O som explode no silêncio.
A lança bate nas grades.
Isamu se assusta.
Levanta o olhar.
Um guarda.
— Levanta.
A voz é seca.
— Se prepara.
Uma pausa.
— Sua execução é amanhã.
Silêncio.
O mundo para.
Isamu fica imóvel.
Os olhos arregalam.
A boca se abre lentamente.
— O… quê…?
A voz sai fraca.
Quase inaudível.
— Amanhã…?
Ele olha ao redor.
Confuso.
Perdido.
— Já…?
Silêncio.
O guarda apenas bate a lança novamente.
— Não faz diferença.
E vai embora.
Deixando ele ali.
Sozinho.
Isamu abaixa o olhar.
As mãos tremem.
— Eu…
Uma pausa.
— Eu não vi…
Os olhos começam a lacrimejar.
— O tempo passar…
Silêncio.
— Já acabou…?
O corpo dele afunda.
Sem forças.
Sem reação.
Só… medo.
No topo de Celestria…
Vento forte.
Altura absurda.
Uma torre.
De pedra clara.
E no topo dela…
Ren.
De pé.
O manto balançando.
Os olhos olhando a cidade.
Celestria viva.
Luzes.
Movimento.
Pessoas.
Tudo tão… distante.
Ele permanece imóvel.
Mas a mente…
Não para.
Daichi.
Um sorriso.
Uma voz.
Desaparecendo.
Aoi.
Olhos firmes.
Mas cheios de algo mais.
Dúvida.
Isamu.
As palavras.
Aquele olhar.
Confusão.
Fraqueza.
Ren fecha os olhos.
Uma respiração profunda.
E então…
Kanzaki.
Treinamento.
Golpes repetidos.
Correções.
— De novo.
— Mais rápido.
— Não hesita.
Takemura.
Fogo.
Dor.
Disciplina.
— Se você parar…
— Você morre.
Silêncio.
Ren abre os olhos.
O vento bate mais forte.
— …
Quantos já foram?
Mortos.
Ou… perdidos.
A mandíbula dele se aperta.
— Vale a pena…?
A pergunta surge.
Mas não fica.
Ele não responde.
Só observa a cidade.
Frio.
Distante.
Em um esconderijo…
Luz baixa.
Paredes fechadas.
Um espaço escondido.
Yang está de pé.
Eryndor ao lado.
Silêncio.
Mas então—
Eryndor fala.
— Yang…
Uma pausa.
— O Número Um.
O nome pesa.
Yang não responde de imediato.
O olhar dele se perde por um segundo.
Mas então—
— Aquele homem…
A voz sai mais baixa.
Mais séria.
— Foi o primeiro.
Uma pausa.
— E talvez o único…
Os olhos dele escurecem.
— A matar um ancestral.
Silêncio.
Eryndor estreita o olhar.
Yang continua.
— E não foi qualquer um.
Uma pausa.
— Não foi como o Ren.
— Que nasceu com isso.
Ele respira fundo.
— Ele matou.
— Para conseguir.
Silêncio.
— E o que ele matou…
A voz cai ainda mais.
— Não era só mais um demônio.
Uma pausa.
— Era o rei.
Silêncio absoluto.
— O rei dos demônios ancestrais.
Eryndor trava.
Yang continua.
— Ele eliminou uma parte do perigo…
Uma pausa.
— Mas em troca…
Os olhos dele se fecham levemente.
— Ele se tornou algo pior.
Silêncio.
— Um homem com poder suficiente…
— Para destruir qualquer coisa.
Uma pausa.
— E nas mãos dele…
O olhar volta.
— Isso é um problema.
Silêncio.
E então—
Yang fala algo diferente.
— Eu já lutei com ele.
Eryndor olha.
Surpreso.
— O quê?
E então—
Passado…
Um mundo diferente.
Mais caótico.
Mais recente.
O começo.
Quando a Igreja ainda não controlava tudo.
Quando os ancestrais…
Começavam a surgir.
E o medo…
Tomava conta.
Uma organização.
Criada às pressas.
Caçadores.
Guerreiros.
Pessoas comuns…
Se tornando armas.
Para proteger civis.
Para caçar monstros.
E ali…
Yang.
Mais jovem.
Menos frio.
Mais impulsivo.
E ao lado dele…
Um garoto.
Desconhecido.
Sem nome.
Mas com um sorriso fácil.
— Vamos!
— Não pode deixar eles passarem!
Gentil.
Amigável.
Humano.
Yang nunca soube o nome dele.
Mas lutaram juntos.
Por anos.
Contra criaturas.
Contra o caos.
Criaram laços.
Respeito.
Confiança.
Mas então—
Um dia.
A ordem veio.
Da Igreja.
— Dissolvam.
— Imediatamente.
Silêncio.
Motivo?
Simples.
A organização estava crescendo demais.
Reconhecimento demais.
Esperança demais.
E isso…
Assustava a Igreja.
Além disso…
Recursos.
Dinheiro.
Controle.
Tudo sendo “desviado”.
E então…
Acabou.
Sem luta.
Sem escolha.
Yang encara o amigo.
— Vamos continuar.
— Por conta própria.
— Vamos derrubar isso.
Os olhos dele queimam.
— A Igreja.
Silêncio.
O outro…
Apenas observa.
E então se vira.
— Não.
Simples.
Direto.
— Não há necessidade de guerra.
Yang trava.
— O quê…?
— Depois de tudo isso?
A voz dele sobe.
— Você vai simplesmente… fugir?
Silêncio.
— Eu só quero viver.
A resposta vem calma.
Isso…
Quebra Yang.
— Covarde.
O ódio surge.
— Você vai deixar tudo como está?!
— Depois de tudo que vimos?!
Silêncio.
Mas não há resposta.
Eles se separam.
Caminhos diferentes.
Mas o destino…
Cruza de novo.
Um ancestral.
Uma presença absurda.
Os dois chegam ao mesmo tempo.
Se encaram.
Sem palavras.
Mas com intenção.
— Eu vou matar.
— Eu também.
E então—
Lutam.
Entre si.
E contra o monstro.
Uma batalha longa.
Sangrenta.
Destrutiva.
Golpes.
Explosões.
Sangue.
Os dois feridos.
No limite.
Até que—
Yang encontra uma abertura.
Ataca.
Direto.
Mas…
Hesitação.
O outro não finaliza.
Não consegue matar Yang.
E naquele instante—
Yang corta.
Um golpe limpo.
A lâmina rasga o rosto.
Sangue.
Uma cicatriz.
A marca.
Que permanece até hoje.
Silêncio.
Eles se encaram.
Mas agora…
Sem volta.
Inimigos.
Presente…
Yang termina.
O olhar frio.
— Desde aquele dia…
Uma pausa.
— Ele quer devolver aquilo.
Silêncio.
Eryndor absorve tudo.
Sem palavras.
Yang dá um passo.
— O Número Um…
Os olhos dele escurecem.
— Não é só um usuário de Kai forte.
Uma pausa.
— Ele é um semideus.
Silêncio.
— Quando ele aparecer…
Yang vira o rosto.
— Deixa comigo.
O vento bate contra o esconderijo.
Como um aviso.
De algo maior.
Algo inevitável.