Capítulo 98
O som dos passos ecoava sobre os destroços.
Lentos.
Pesados.
Carregados de superioridade.
Os três avançavam.
Yang na frente, ainda com o sorriso torto, mesmo ferido… mesmo irritado. Seus olhos brilhavam com desprezo puro. Atrás dele, Kagetsu girava levemente a Horoshimura, as chamas sagradas ainda vivas na lâmina. E mais ao lado, Seinaru Hitomi caminhava em silêncio absoluto, o charuto queimando devagar entre os dedos, seus olhos irradiando aquela luz divina opressora.
No chão…
Veyrion.
Caído.
O corpo não respondia direito.
Respiração falha.
Sangue escorrendo pela lateral do rosto… pingando no chão quebrado.
Ao redor…
O bando inteiro.
Derrotados.
Ofegantes.
Nyra tremendo, tentando se arrastar.
Selka chorando, sem forças.
Ravik imóvel, respirando com dificuldade.
Brakk e Drogan tentando levantar… sem conseguir.
Lorian… apenas observando, em silêncio.
E Isamu…
De joelhos.
Os olhos arregalados.
As mãos tremendo.
— Levanta… — ele sussurra, a voz quebrando — Levanta, capitão…
Mas Veyrion… não se mexe.
Os passos continuam.
Mais perto.
Mais perto.
Até que…
Yang para.
Olha para o corpo caído.
E ri.
— É isso? — ele inclina a cabeça, desprezando — O grande capitão dos Kurotsume… reduzido a isso?
Silêncio.
— Patético.
Kagetsu não responde.
Seinaru solta uma leve fumaça.
Yang continua.
— Vocês piratas são todos iguais… falam de família… de laços… de proteção… — ele cospe no chão ao lado — mas no fim… são só lixo tentando dar sentido a uma vida inútil.
Atrás…
Os membros do bando apertam os dentes.
Lágrimas descem.
Mas ninguém consegue se mover.
— Olhem pra vocês… — Yang abre os braços, olhando ao redor — destruídos… derrotados… fracassados…
Ele encara Veyrion no chão.
— E você… tentou proteger isso?
Silêncio.
O vento sopra entre os escombros.
Uma madeira caída range.
Um pedaço de pedra desliza.
E então…
Um som.
Arrasto.
Baixo.
Pesado.
Yang franze a testa.
Kagetsu ergue o olhar.
Seinaru observa.
Veyrion…
se mexe.
Devagar.
A mão se fecha no chão quebrado.
Os dedos tremem…
…mas cravam.
O corpo tenta responder.
Falha.
Tenta de novo.
O braço empurra.
O ombro treme.
O sangue escorre mais.
Mas ele…
se levanta.
Primeiro de joelhos.
Depois…
um pé.
Depois…
o outro.
Instável.
Quebrado.
Mas de pé.
Os olhos… diferentes.
Não havia mais aquele sorriso leve.
Não havia mais a descontração.
Só…
chamas.
— Eu… — a voz sai baixa… rouca… arrastada — prometi…
Silêncio absoluto.
Até o vento parece parar.
— Prometi proteger eles…
Ele levanta o rosto.
Os olhos encontram Yang.
— Mesmo… que custe… minha vida.
Yang encara.
Por um segundo…
silêncio.
E então…
ele ri.
Mas dessa vez…
não é desprezo simples.
É irritação.
— Você ainda tá de pé? — ele passa a mão pelo próprio sangue — Você é persistente… mas isso não muda nada.
Kagetsu observa.
Seinaru dá mais uma tragada no charuto.
Veyrion começa a andar.
Passo…
por passo…
lento.
Pesado.
Ele passa por Kagetsu.
Sem olhar.
Passa por Seinaru.
Sem hesitar.
Os dois não se movem.
Apenas observam.
Porque algo… mudou.
Algo pesado.
Algo instável.
Algo perigoso.
Veyrion para.
Na frente de Yang.
Silêncio.
Yang ergue o queixo.
— Vai tentar o quê agora? Morrer em pé?
Veyrion não responde.
Apenas…
fecha o punho.
Os dedos rangem.
Os músculos contraem.
O ar ao redor parece vibrar—
E então—
UM PISAR.
O chão racha sob o pé dele.
O corpo avança.
Não há brilho.
Não há Kai visível.
Não há preparação.
Apenas…
um soco.
Seco.
Direto.
Perfeito.
O punho entra no rosto de Yang com um impacto brutal, afundando a bochecha, distorcendo completamente sua expressão no exato instante do contato.
O som…
não é explosão.
É pior.
É o som de carne sendo esmagada.
Yang nem reage.
O corpo dele simplesmente…
DESAPARECE da frente.
E surge metros… dezenas de metros… sendo lançado como um projétil, atravessando estruturas destruídas, quebrando pedra, madeira, tudo no caminho.
Silêncio.
Total.
O bando…
congela.
Os olhos arregalados.
A respiração presa.
— …capitão… — Selka sussurra, sem acreditar.
Veyrion baixa lentamente o punho.
O braço tremendo.
O sangue escorrendo pelos dedos.
Ele vira o rosto.
Encara Kagetsu.
Encara Seinaru.
Os olhos queimando.
— Não vou permitir… — a voz sai baixa… pesada — que falem assim…
Ele dá um passo.
O chão afunda.
— de quem eu amo.
Silêncio.
O ar pesa.
Os três…
pela primeira vez…
não veem apenas um pirata.
Veem algo…
perigoso.
Real.
Vivo.
Veyrion abre a mão.
Fecha de novo.
— Vocês vão sentir…
Uma pausa.
Os olhos se estreitam.
— o nosso verdadeiro poder.
O corpo de Veyrion some.
Não como um teleporte limpo.
Mas como um avanço bruto.
Violento.
Ele surge diante de Yang antes mesmo da poeira do impacto anterior baixar.
Yang ainda estava se levantando—
E Veyrion já está ali.
O primeiro soco vem de baixo pra cima.
Um uppercut cru, sem técnica refinada, mas com força absurda — o punho sobe rasgando o ar e atinge o queixo de Yang, fazendo os dentes baterem com violência.
— CRACK
A cabeça de Yang joga para trás.
Antes de cair—
SEGUNDO SOCO.
Lateral.
Direto na têmpora.
A pele rasga.
Sangue espalha.
TERCEIRO.
No estômago.
O punho afunda.
O ar sai do corpo de Yang em um jato.
Veyrion não para.
Ele segura a gola de Yang e puxa de volta—
QUARTO SOCO.
Reto no rosto.
QUINTO.
Mais forte.
Mais fundo.
O impacto faz o corpo de Yang dobrar.
Mas—
— Chega!
Kagetsu aparece.
A Horoshimura desce com chamas sagradas, um arco flamejante cortando o espaço—
Veyrion não recua.
Ele gira o corpo.
O golpe pega de raspão no ombro, queimando carne, abrindo pele—
Mas ele ignora.
Ignora completamente.
Ele solta Yang só pra—
GIRAR.
E acertar um chute lateral em Kagetsu.
O impacto bate na lateral da armadura, deslocando o Shinpan-kan alguns metros.
— Tsc…
Seinaru já aparece.
Instantâneo.
Um clarão.
Ele surge acima de Veyrion—
— Julgamento Celestial: Raio de Ophiel
Um feixe de luz desce como um raio concentrado.
Veyrion levanta o braço—
Não pra defender totalmente—
Mas pra AGUENTAR.
O raio rasga o braço.
Queima.
Perfura.
Mas ele continua avançando.
DENTRO DO GOLPE.
Ele atravessa a luz—
E surge na frente de Seinaru.
E ACERTA.
Um soco direto no rosto.
Seco.
Pesado.
O impacto faz o corpo de Seinaru inclinar no ar pela primeira vez.
Mas—
Yang reaparece.
Furioso.
Ensanguentado.
Os olhos agora completamente diferentes.
— Você… acabou.
Dois braços de Kai surgem nas costas dele.
Quatro braços.
Todos armados com energia elétrica condensada.
— Manifestação: Raijin Profano
Os braços avançam juntos—
Soco.
Corte.
Perfuração.
Explosão elétrica.
Veyrion recebe o primeiro direto no peito.
O impacto afunda o tórax.
O segundo pega na costela.
Algo quebra.
O terceiro rasga a lateral.
O quarto explode nas costas.
Mas—
ELE NÃO PARA.
Mesmo sendo atingido—
ele continua indo pra frente.
Cada golpe que ele recebe…
ele devolve.
Um soco no rosto de Yang.
Outro no peito.
Outro arrancando sangue.
Ele segura um dos braços de Kai—
E PUXA.
E com a outra mão—
UM SOCO.
Direto.
Destruindo o braço de energia em partículas.
Yang rosna.
Kagetsu volta—
— Horoshimura: Dança das Chamas Penitentes
Golpes rápidos.
Fluídos.
Cada movimento da alabarda deixa rastros de fogo que queimam o ar.
Um corte diagonal—
Acerta as costas de Veyrion.
Abre carne.
Outro horizontal—
Acerta o abdômen.
Sangue voa.
Mas Veyrion gira o corpo no meio do golpe—
E ACERTA KAGETSU.
Um soco na mandíbula.
Sem técnica.
Só força absurda.
Seinaru reaparece atrás—
— Olho Divino: Veredito da Luz
Uma pressão invisível prende o corpo de Veyrion por um segundo—
Yang aproveita.
Soco.
Outro.
Outro.
Sequência brutal.
Kagetsu também.
Corte.
Empurrão.
Explosão de chama.
Seinaru finaliza—
Um chute de luz descendente.
Os três atacando juntos.
Perfeito.
Coordenado.
Brutal.
Veyrion é jogado contra o chão.
O impacto abre uma cratera.
Silêncio por meio segundo.
Respiração pesada.
Os três param.
Observam.
— Acabou… — Yang murmura.
Mas—
A poeira se move.
Lento.
Pesado.
Veyrion…
levanta.
De novo.
O corpo tremendo.
Sangue escorrendo de todos os lados.
Mas os olhos…
ainda queimando.
Sem hesitação.
Sem medo.
Sem recuo.
Seinaru estreita os olhos.
Kagetsu gira a arma.
Yang limpa o sangue do rosto.
— Chega.
Silêncio.
Os três se posicionam.
Lado a lado.
Kai crescendo.
Seinaru ergue a mão—
Um sol de luz começa a nascer.
Kagetsu levanta a Horoshimura—
Chamas se comprimem até ficarem brancas.
Yang abre os braços—
Relâmpagos se condensam, girando como serpentes elétricas.
Veyrion…
não se move.
Apenas encara.
Respira.
E aceita.
— Então morre.
Os três atacam.
Luz.
Chama.
Raio.
Tudo colide.
Tudo converge.
Tudo explode.
UM CLARÃO ABSURDO ENGOLINDO TUDO.
O som desaparece.
O mundo some.
E só resta…
a explosão.