Capítulo 99
A explosão engoliu o mundo.
Não foi só impacto.
Foi aniquilação.
Luz sagrada rasgando o céu.
Chamas devorando o ar.
Raios dilacerando tudo ao redor.
As três forças colidiram em Veyrion ao mesmo tempo… e o resultado foi uma detonação absurda, uma esfera de destruição que varreu o altar, esmagou estruturas, abriu o chão e lançou destroços como se fossem folhas ao vento.
O som… desapareceu.
Por um instante…
não existia mais nada.
O bando não respirava.
Selka tremia, com as mãos no rosto.
— Não… não…
Nyra tentava se levantar, mesmo com o corpo falhando.
— Capitão…
Ravik, jogado entre pedras, cospe sangue e rosna baixo:
— Levanta… levanta, desgraçado…
Isamu…
estava parado.
Sem piscar.
Sem conseguir sequer engolir seco.
— Veyrion…
O vento volta.
Lento.
Pesado.
Carregando cinzas.
A fumaça… começa a baixar.
E então…
silhuetas surgem.
Primeiro…
os três.
Yang.
Kagetsu.
Seinaru.
De pé.
Firmes.
Intactos.
E então…
algo atrás deles.
Algo…
errado.
Uma forma.
Ainda de pé.
Imóvel.
No centro da destruição.
A fumaça se dissipa mais.
E revela…
Veyrion.
De pé.
O corpo inteiro destruído.
Queimando.
Sangrando.
E mesmo assim…
de pé.
Os três estavam com os braços cravados nele.
Kagetsu, com a Horoshimura atravessando seu lado, chamas sagradas consumindo carne e osso.
Seinaru, com o braço de luz enterrado em seu peito, energia divina explodindo por dentro.
Yang… com o braço envolto em raios atravessando o outro lado do corpo, eletrizando cada célula.
O corpo de Veyrion tremia.
Violentamente.
Os músculos falhando.
A pele se desfazendo.
Mas…
ele não caiu.
Os olhos…
ainda estavam abertos.
Yang arregala levemente.
— …não é possível…
Seinaru para.
O charuto ainda entre os dedos.
— Ele… aguentou?
Kagetsu observa.
Silencioso.
Pesado.
Atrás…
o bando entra em desespero.
— CAPITÃO!!! — Nyra grita.
— AGUENTA! — Ravik berra.
Isamu dá um passo.
As pernas tremem.
— Veyrion…
Silêncio.
O vento passa.
As chamas queimam.
Os raios estalam.
A luz pulsa.
E então…
um som.
Baixo.
Forçado.
— …gh…
Veyrion…
range os dentes.
O sangue escorre pelo queixo.
Os olhos levantam.
Encara Yang.
Ódio.
Puro.
Cru.
E então—
a mão dele se fecha.
Negra.
O Kai se condensa ali, instável, vibrando como se fosse rasgar o próprio braço.
A pele da mão… começa a abrir.
Mas ele não para.
Yang franze a testa.
— Você… ainda—
SOCA.
Sem sair do lugar.
Sem tirar os golpes do próprio corpo.
O punho sobe… e acerta o rosto de Yang.
Seco.
Pesado.
Yang não espera.
A cabeça vira.
— Tsc—
OUTRO SOCO.
Mais fundo.
Mais forte.
O impacto rasga a pele.
O sangue espirra.
— Você—
TERCEIRO.
Com o Kai vibrando.
O som é oco.
Os ossos rangem.
— PARA!
Yang aumenta os raios.
Eles explodem dentro do corpo de Veyrion.
Os músculos contraem.
A pele queima.
O cheiro de carne queimada invade o ar.
Mas…
ele continua.
Outro soco.
E outro.
E outro.
A mão começa a se destruir.
Os nós dos dedos expostos.
O sangue escorrendo.
Mas ele não sente.
Ou… não liga.
— VOCÊ… — soco.
— MACHUCOU… — soco.
— MINHA… — soco.
— FAMÍLIA!!
O último explode no rosto de Yang.
O impacto afunda.
Deforma.
Quebra.
Yang é forçado para trás, cambaleando.
Os olhos falham por um segundo.
Kagetsu aumenta as chamas.
— Pare, garoto!
A Horoshimura queima mais fundo.
Seinaru intensifica a luz.
— Isso já acabou!
A energia explode dentro de Veyrion.
Mas ele…
não para.
Ele continua.
Soco após soco.
Mesmo tremendo.
Mesmo morrendo.
Mesmo sendo destruído.
Yang tenta reagir—
mas está sendo esmagado.
O rosto já não é mais o mesmo.
Sangue.
Fraturas.
Destruição.
— Eu… — Veyrion respira com dificuldade, lágrimas escorrendo — não vou deixar…
Mais um golpe.
— um homem…
Outro.
— tão sujo…
Outro.
— sair vivo…
Último.
— depois disso!!
Yang é jogado para trás.
Cai.
Se levanta.
Mancando.
O rosto… irreconhecível.
Ele limpa o sangue lentamente.
E sorri.
Frio.
Perigoso.
— Você vai morrer.
O ar muda.
Os raios se concentram no braço dele.
Girando.
Comprimindo.
Até o limite.
Veyrion…
não se move.
O corpo falhando.
Mas os olhos…
ainda firmes.
Yang desaparece.
Surge na frente dele.
E—
ATRAVESSA.
O braço entra pelo abdômen.
Sai pelas costas.
Os raios explodem dentro dele.
Os olhos de Veyrion se arregalam.
O corpo trava.
A mão… cai.
Silêncio.
Os três…
retiram seus ataques.
Seinaru primeiro.
A luz some.
Kagetsu depois.
As chamas se apagam.
Yang por último.
Os raios cessam.
Veyrion…
ainda fica de pé por um segundo.
Só um.
O corpo tremendo.
Sem equilíbrio.
Ele tenta dar um passo.
Falha.
Outro.
Falha de novo.
Os olhos… perdendo o foco.
Mas ainda…
resistindo.
E então…
ele cai.
O corpo atinge os escombros.
Pesado.
Sem forças.
O bando desmorona.
Choros.
Gritos.
Desespero.
Isamu…
só observa.
Quebrado.
Kagetsu encara o corpo.
— Garoto… você… é uma boa pessoa…
Pausa.
— um pirata forte…
Ele fecha os olhos.
— você escolheu o lado errado.
Seinaru apenas assente.
— Impressionante.
Yang ri.
Mesmo destruído.
— No fim… só mais um cadáver.
Ele se vira.
Começa a andar.
Mancando.
Os outros dois seguem.
Kagetsu para.
Olha uma última vez.
— Parabéns… você conseguiu ser um grande guerreiro.
E então…
desaparece.
Seinaru some em luz.
Yang some em raios.
Silêncio.
Só sobra…
destruição.
E no meio dela…
Veyrion D. Kael.
Caído.
Quebrado.
Mas…
ainda vivo.
Sem forças.
Entre os escombros.