Capítulo 114 — O Guerreiro
O vento rugia sobre as ruínas.
Casas destruídas.
Ruas reduzidas a escombros.
Chamas espalhadas pela cidade abandonada.
E no centro de tudo...
Dois homens.
Apenas dois.
Kanzaki.
E Número Um.
Os dois cobertos de sangue.
Os dois respirando pesadamente.
Os dois sabendo que aquela luta estava chegando ao fim.
Mas nenhum deles pretendia cair primeiro.
---
Número Um observava.
Silencioso.
Então algo estranho aconteceu.
Kanzaki soltou as duas adagas.
CLANG.
CLANG.
As lâminas caíram no chão destruído.
Número Um ergueu levemente uma sobrancelha.
— Desistiu das armas?
Kanzaki não respondeu.
Apenas abaixou levemente a cabeça.
Silêncio.
O vento soprou.
Uma folha atravessou o campo de batalha.
E então—
BOOOOOOOM!!!
O chão explodiu.
Kanzaki desapareceu.
Os olhos de Número Um se arregalaram.
Por uma fração de segundo.
A velocidade era absurda.
Muito além do que ele havia mostrado até agora.
Kanzaki surgiu diante dele.
Punho fechado.
Energia espiritual condensada ao extremo.
— Kai Espiritual: Punho do Mártir!
CRAAAAASH!!
O soco atingiu o rosto de Número Um.
O impacto foi tão forte que o ar explodiu ao redor.
O rei de Vorthal foi lançado dezenas de metros.
Destruindo uma fileira inteira de casas.
Mas Kanzaki não parou.
BOOOM!!
Apareceu novamente.
Outro soco.
Outro.
Outro.
Outro.
Cada golpe criava explosões espirituais.
Cada impacto fazia a cidade tremer.
Número Um desviava de vários.
Mas não de todos.
Um soco atingiu suas costelas.
Outro seu ombro.
Outro sua mandíbula.
Sangue finalmente escapou de seus lábios.
Então—
ele reagiu.
A mão disparou.
Segurando o braço de Kanzaki.
— Te peguei.
Relâmpagos negros explodiram.
— Kai Negro: Ruína Celestial.
BOOOOOOOOM!!
A energia atravessou o braço inteiro de Kanzaki.
O som foi horrível.
Carne.
Osso.
Energia.
Tudo sendo destruído.
O braço praticamente explodiu.
Sangue espalhou-se pelo ar.
Kanzaki gritou.
Um grito genuíno de dor.
Mas não recuou.
Não caiu.
Não soltou.
Mesmo com o braço destruído.
Mesmo sentindo a dor atravessar todo seu corpo.
Ele segurou o pescoço de Número Um.
E rugiu.
— AAAAAAAAHHHHH!!!
BOOOOOOOM!!
Girou o corpo inteiro.
E esmagou Número Um contra o chão.
O asfalto explodiu.
Uma cratera gigantesca surgiu.
Número Um afundou vários metros.
Sua testa bateu violentamente.
Pela primeira vez.
Sangue escorreu de sua testa.
Os olhos dele se estreitaram.
Irritados.
Verdadeiramente irritados.
Mas então...
ESTALO.
Os dedos dele se moveram.
E desapareceu.
Kanzaki ficou sozinho.
Ofegante.
O braço destruído.
Os olhos vermelhos de ódio.
— PARA DE FUGIR!!
Sua voz ecoou pela cidade.
Então—
atrás dele.
Número Um surgiu.
Já preparando algo.
A energia negra condensava-se em sua mão.
O próprio céu escureceu.
— Acabou.
BOOOOOOOOOOM!!!
Um feixe gigantesco de energia negra atravessou a cidade.
Engolindo tudo pelo caminho.
Mas Kanzaki ergueu a única mão que ainda podia usar.
A energia espiritual explodiu.
— Kai Espiritual: Lança do Paraíso!
BOOOOOOOOOOM!!!
Um feixe branco colossal disparou.
As duas energias colidiram.
O mundo tremeu.
O céu rachou.
O mar agitou-se violentamente.
Montanhas distantes estremeceram.
As energias se comprimiam.
Empurrando-se.
Tentando destruir uma à outra.
Enquanto isso—
os dois gritavam.
Número Um aumentava a força.
Os músculos do braço tremendo.
— PARE DE LUTAR!!
A energia negra cresceu.
— VOCÊ JÁ PERDEU!!
— ESSA LUTA ACABOU!!
Mas Kanzaki rugiu de volta.
Os olhos cheios de lágrimas.
Cheios de raiva.
Cheios de determinação.
— NÃO!!
Na mente dele...
Três crianças.
Treinando.
Correndo.
Rindo.
Ren.
Daichi.
Aoi.
Um tempo que parecia pertencer a outra vida.
Uma vida mais simples.
Mais feliz.
E então ele gritou.
Com tudo que ainda restava.
— EU LUTO POR TODOS QUE ACREDITARAM EM MIM!!
A energia espiritual aumentou.
— POR TODOS QUE EU JÁ PERDI!!
Mais forte.
— POR TODOS QUE AINDA VÃO VIVER!!
Mais forte.
— EU NÃO DESISTO TÃO FÁCIL ASSIM!!
BOOOOOOOOOOOOM!!!
As duas energias colidiram.
Comprimiram.
Quebraram.
E explodiram.
Uma luz gigantesca consumiu tudo.
Rochas foram pulverizadas.
Casas desapareceram.
Árvores foram arrancadas.
O mar foi empurrado para trás.
Quando a fumaça baixou...
Os dois ainda estavam vivos.
Mas exaustos.
Machucados.
No limite.
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Número Um levantou lentamente.
A respiração pesada.
Sangue escorrendo da testa.
Os olhos completamente frios.
— Já chega.
A voz dele ecoou.
Sem sorriso.
Sem humor.
Sem diversão.
— Eu não vou perder mais tempo com isso.
Relâmpagos negros surgiram novamente.
Mais violentos.
Mais perigosos.
— Nada vai mudar.
Ele encarou Kanzaki.
— Você está lutando por uma força que nem sequer diz a verdade para você.
A energia negra explodiu.
— Pare de ser idiota.
Mas então...
Algo respondeu.
TRUUUUUUUUUUUUUMMMMMM.
Um som.
Parecido com trombetas.
Antigas.
Divinas.
Como se viessem dos próprios céus.
Número Um parou.
Pela primeira vez.
Surpreso.
A fumaça começou a desaparecer.
E revelou Kanzaki.
Os olhos de Número Um se arregalaram.
Aquela forma.
Aquela mesma forma.
A entidade espiritual atrás dele.
Mas agora...
Muito maior.
Muito mais poderosa.
Muito mais divina.
A figura gigantesca pairava acima da cidade.
Centenas de metros de altura.
Feita de pura energia espiritual.
Asas.
Mantos.
Símbolos religiosos.
E um brilho impossível de encarar diretamente.
Kanzaki juntou as mãos.
Num símbolo sagrado.
A entidade fez exatamente o mesmo.
O mundo ficou silencioso.
Então Kanzaki começou a falar.
Calmamente.
Como se cada palavra carregasse o peso de toda sua vida.
— Eu não luto por uma mentira.
A energia espiritual aumentou.
— E nem por uma verdade.
Mais forte.
— Eu luto por aqueles que já perdi.
O brilho iluminou a cidade.
— Por aqueles que tenho medo de perder.
Mais forte.
— E por aqueles que ainda vão viver.
A entidade ergueu lentamente as mãos.
— Eu luto pela vida.
O céu ficou branco.
— Pela luz que ilumina o dia.
O mar começou a brilhar.
— E pela cruz que nos representa.
Então ele abriu os olhos.
E disse o nome do golpe.
— Kai Espiritual Supremo...
A energia explodiu.
— OLHO DO PARAÍSO.
Um olho começou a surgir.
Gigantesco.
Colossal.
Muito maior que qualquer construção.
Muito maior que a própria cidade.
Formado pela energia de Kanzaki e da entidade ao mesmo tempo.
Um olho divino.
Observando o mundo.
Observando tudo.
Então Kanzaki ergueu a cabeça.
E pronunciou suas últimas palavras.
— Ser um guerreiro significa mais do que lutar guerras.
O olho brilhou.
— Significa superar seus limites quando for necessário.
Mais brilho.
— Proteger quem você ama.
O mar inteiro iluminou-se.
— Salvar os outros mesmo que isso custe sua própria vida.
Número Um observava em silêncio.
Sem sorrir.
Sem interromper.
Apenas ouvindo.
— Ser um guerreiro significa ser corajoso.
A energia começou a atingir níveis absurdos.
— E corajoso não é quem não sente medo.
A cidade inteira desapareceu dentro da luz.
— É quem continua avançando apesar dele.
O olho abriu completamente.
— O guerreiro reconhece os obstáculos...
A luz tornou-se impossível de encarar.
— Mas sua vontade de superá-los é maior.
E então Kanzaki sorriu.
Mesmo ferido.
Mesmo sangrando.
Mesmo à beira da morte.
— E eu...
A energia atingiu o ápice.
— Kanzaki...
O olho divino arregalou-se.
— SOU UM GUERREIRO!!
BOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!!!!
O Olho do Paraíso disparou.
Uma coluna divina atravessou o mundo.
O céu foi partido pela luz.
O oceano inteiro brilhou como ouro.
A noite desapareceu.
A explosão cobriu toda a cidade.
Toda a costa.
Todo o horizonte.
E por alguns segundos...
Pareceu que o próprio paraíso havia descido à Terra.