Capítulo 115 — O Último Presente
O som das ondas era suave.
O vento carregava o cheiro do mar.
O céu estava pintado de laranja e dourado.
Naquela pequena vila da igreja, tudo parecia perfeito.
Era um tempo antigo.
Mais antigo que o início da história.
Mais antigo que as guerras.
Mais antigo que as perdas.
Mais antigo que toda a dor.
Sentado próximo à costa, observando o pôr do sol, estava Kanzaki.
Seu rosto carregava um pequeno sorriso.
Não daqueles largos.
Apenas um sorriso tranquilo.
Satisfeito.
Em paz.
Atrás dele, a pequena igreja permanecia de pé.
Intacta.
Os sinos tocavam ao longe.
Pessoas caminhavam pelas ruas.
Crianças brincavam.
Famílias conversavam.
A vida seguia normalmente.
Como deveria ser.
Como sempre deveria ter sido.
Então—
— Pai!!
Uma pequena figura saltou em suas costas.
Kanzaki quase perdeu o equilíbrio.
— Uou!
Ele segurou a criança antes que ambos caíssem.
E então riu.
— Foi um ótimo ataque furtivo.
Aoi gargalhou.
Ainda pequena.
Muito menor do que agora.
Sem cicatriz.
Sem espada.
Sem guerra.
Apenas uma criança.
— Eu consegui!
— Conseguiu mesmo.
Kanzaki bagunçou os cabelos dela.
Ao fundo, outra criança passava correndo.
Daichi.
Também muito mais novo.
Ao lado dos pais.
A família acenou para Kanzaki.
— Boa tarde!
— Boa tarde.
Kanzaki respondeu com tranquilidade.
Daichi também acenou animado.
Antes de desaparecer correndo entre as casas.
Naquela época...
Ren ainda nem havia chegado à vila.
Tudo era diferente.
Tudo era mais simples.
Tudo era melhor.
Kanzaki sentou-se novamente.
E colocou Aoi ao seu lado.
Os dois observaram o sol lentamente mergulhando no horizonte.
Nenhum deles falou por alguns instantes.
Apenas assistiram.
O mar refletindo a luz dourada.
As gaivotas voando.
O vento passando.
Então Aoi falou.
— Pai?
— Hm?
— Quando eu crescer...
Ela sorriu.
Um sorriso inocente.
Puro.
— Quero ser uma guerreira igual você.
Kanzaki ficou em silêncio.
Então sorriu.
E colocou a mão sobre a cabeça dela.
— Ainda precisa treinar muito.
Aoi inflou as bochechas imediatamente.
— Eii!
— É verdade.
— Eu já treino!
— Claro que treina.
— Então por que falou isso?!
Kanzaki riu.
Aoi ficou ainda mais emburrada.
O que apenas fez ele rir mais.
Então ele colocou a mão dentro do bolso.
Procurando alguma coisa.
Aoi inclinou a cabeça.
Curiosa.
— O que é?
Kanzaki retirou um pequeno objeto.
Um crucifixo.
Simples.
Bonito.
Antigo.
Aquele mesmo crucifixo que Aoi usa até os dias de hoje.
Aoi observou.
— É pra mim?
— É.
Ele se aproximou.
E colocou o colar ao redor do pescoço dela.
Aoi segurou o crucifixo.
Encantada.
Girando-o entre os dedos.
— Por quê?
Kanzaki olhou para o horizonte.
Pensativo.
E respondeu:
— Considere um presente.
Aoi sorriu.
Mas continuou esperando.
Sabia que havia mais.
Então Kanzaki completou:
— Para você lembrar de mim caso algum dia aconteç—
— VOCÊ VAI MORRER?!
Aoi praticamente gritou.
Kanzaki arregalou os olhos.
E então começou a rir.
— Não!
— Vai sim!
— Não vou!
— Vai!
— Não vou!
— Vai!
— Aoi...
— NÃO MORRE!
Kanzaki agora ria tanto que mal conseguia responder.
— Eu não vou morrer.
— Promete?!
— Prometo.
— Promete mesmo?!
— Prometo.
— Mesmo mesmo?!
— Mesmo mesmo.
Aoi finalmente pareceu satisfeita.
Abraçando o crucifixo.
Enquanto o sol desaparecia lentamente no horizonte.
E por um momento...
Tudo ficou em silêncio.
O mar.
O céu.
A vila.
A igreja.
Aoi.
Kanzaki.
Tudo.
Como uma lembrança distante.
Como um sonho.
Como algo que nunca mais voltaria.
Então...
A luz desapareceu.
O calor desapareceu.
O som do mar desapareceu.
A paz desapareceu.
E Kanzaki abriu os olhos.
...
Ruínas.
Fogo.
Fumaça.
Pedras destruídas.
Casas reduzidas a escombros.
A cidade abandonada praticamente havia deixado de existir.
Restavam apenas destroços.
E silêncio.
Muito silêncio.
O golpe do Olho do Paraíso havia devastado tudo.
Kanzaki estava caído.
Seu corpo mal respondia.
Sua respiração era fraca.
Cada movimento parecia impossível.
Ele sabia.
Estava no limite.
Talvez além dele.
Mesmo assim...
Continuava consciente.
Continuava olhando para frente.
E à sua frente...
Uma sombra se moveu.
Número Um.
Seu estado não era muito melhor.
Metade do rosto estava marcada pelos efeitos da explosão.
Seu corpo carregava inúmeras queimaduras.
Seu manto estava destruído.
Seu andar era irregular.
Pesado.
Mas ele continuava de pé.
Durante o ataque final...
Ele havia criado uma barreira.
Não o suficiente para sair ileso.
Mas suficiente para sobreviver.
Por pouco.
Muito pouco.
Passo.
Passo.
Passo.
Ele caminhou lentamente entre os destroços.
Até parar diante de Kanzaki.
Os dois se encararam.
Nenhum dos dois sorriu.
Nenhum dos dois desviou o olhar.
O vento soprou entre eles.
Número Um respirou com dificuldade.
E então ergueu o braço.
Relâmpagos negros começaram a surgir.
Percorrendo todo o membro.
A energia aumentava lentamente.
Mesmo ele estando no limite.
Mesmo ele estando ferido.
Mas ainda possuía forças para um último ataque.
Kanzaki apenas observou.
Sem medo.
Sem arrependimento.
Apenas observando.
Número Um finalmente falou.
Com dificuldade.
Mas com sinceridade.
— Você...
Silêncio.
— É forte.
Os relâmpagos aumentaram.
— Muito mais forte do que imaginei.
Mais energia.
— Mas entrou numa luta que não podia ganhar.
O vento soprou novamente.
— Você é realmente surpreendente, Kanzaki.
Por um instante...
Nenhum deles disse nada.
Então Número Um fechou os olhos.
E completou:
— Adeus.
Os relâmpagos explodiram.
A luz negra iluminou as ruínas.
E o último ataque foi lançado.
Enquanto o céu permanecia silencioso.
Enquanto o mar continuava avançando contra a costa.
Enquanto muito longe dali...
Aoi ainda segurava o crucifixo que o pai lhe entregou naquele pôr do sol de tantos anos atrás.