Capítulo 128 — A Fome dos Demônios
I — O nascimento de uma nova era
O vento soprava contra as paredes de pedra do antigo esconderijo.
Era um lugar esquecido pelo mundo, construído numa região montanhosa afastada das grandes cidades de Kaelthar. Não havia estradas movimentadas por perto, nem vilarejos grandes o suficiente para atrair comerciantes. Apenas florestas densas, montanhas cobertas por neblina e algumas pequenas comunidades espalhadas pelas terras baixas.
O esconderijo havia sido construído décadas antes, provavelmente por algum grupo que precisava desaparecer dos olhos da Igreja. Parte do teto estava rachada, a madeira das janelas começava a apodrecer e algumas pedras haviam se soltado das paredes. Ainda assim, o lugar continuava de pé.
Era exatamente o tipo de lugar que Yang procurava.
Lá dentro, uma única lamparina iluminava a pequena sala principal. Sua luz amarelada se espalhava sobre uma mesa de madeira, algumas cadeiras velhas e um conjunto de documentos que Eryndor havia organizado durante as últimas horas.
Entre aqueles papéis estavam anotações antigas, nomes de pesquisadores, registros de instalações científicas abandonadas e fragmentos de relatórios recuperados dos arquivos de Aetheryon.
Eryndor permanecia diante da mesa, examinando um documento cuja borda estava queimada.
Seus longos cabelos claros repousavam sobre os ombros. A mão direita segurava o papel enquanto a esquerda permanecia apoiada sobre a madeira. Seus olhos percorriam cada linha com uma concentração quase absoluta.
Do outro lado da sala, Yang observava a chuva fina que começava a cair do lado de fora.
Ele estava silencioso havia vários minutos.
Não porque estivesse preocupado.
Mas porque, pela primeira vez desde a queda de Aetheryon, havia algo diante dele que parecia verdadeiramente capaz de mudar o destino do continente.
— Então é isso? — perguntou Yang, finalmente.
Eryndor não levantou os olhos.
— Isso o quê?
— O começo.
O líder de Aetheryon deixou o documento sobre a mesa.
— Não existe um começo verdadeiro para algo que deveria ter acontecido há muito tempo.
Yang virou ligeiramente a cabeça.
— Você fala como se já tivéssemos vencido.
— Não. — Eryndor finalmente olhou para ele. — Falo como alguém que passou anos vendo pessoas morrerem porque não tínhamos poder suficiente para impedir que isso acontecesse novamente.
A expressão de Yang não mudou.
— E agora teremos.
Eryndor permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Sobre a mesa, entre os documentos, havia uma folha com um desenho rudimentar de uma figura humana. Ao redor dela, alguém havia escrito observações sobre a distribuição de energia, a composição sanguínea e a capacidade de um corpo suportar uma quantidade anormal de Kai.
O desenho não representava um guerreiro comum.
Representava aquilo que eles pretendiam criar.
Um ser que não precisaria nascer naturalmente. Que não dependeria de treinamento, lealdade ou convicções. Um corpo preparado para receber um poder que deveria estar além de seus limites.
Um ancestral artificial.
Ou, pelo menos, o primeiro passo em direção a um.
— Os documentos que recuperamos são incompletos — explicou Eryndor. — Existem referências a experimentos conduzidos pela Igreja antes mesmo de Aetheryon ser destruída. Parte deles foi encerrada. Outra parte desapareceu dos registros oficiais. E há nomes que foram deliberadamente apagados.
— Cientistas?
— Cientistas. Pesquisadores de Kai. Especialistas em anatomia, transferência de energia e compatibilidade entre corpos humanos e poderes ancestrais. Alguns trabalhavam diretamente para a Igreja. Outros eram contratados por organizações subordinadas a ela.
Yang afastou-se da janela.
— E você sabe onde encontrá-los?
— Alguns deles, sim. Outros exigirão pesquisa. Mas existe uma coisa que aprendi depois da destruição de Aetheryon.
Eryndor dobrou cuidadosamente o documento.
— As pessoas podem destruir uma organização, apagar seus arquivos e matar seus membros. Mas não conseguem apagar tudo aquilo que essas pessoas aprenderam. O conhecimento sobrevive. Às vezes, escondido dentro de um laboratório abandonado. Às vezes, guardado na memória de um homem que passa o resto da vida fingindo que nunca fez parte de nada.
Yang sorriu discretamente.
— E você pretende encontrar todos esses homens.
— Os necessários.
— E se recusarem?
Eryndor sustentou o olhar do companheiro.
— Então terão de compreender que a época em que podiam escolher se queriam ou não participar da construção deste mundo acabou.
A chuva aumentou do lado de fora.
Por um instante, o único som dentro do esconderijo foi o das gotas atingindo o telhado antigo.
Yang caminhou até a mesa e examinou o desenho do ancestral artificial.
— Mesmo com todos os cientistas que conseguirmos reunir, ainda precisaremos de corpos.
— Sim.
— Muitos corpos.
— Sim.
Yang apoiou as duas mãos na mesa.
— Então começarei por isso.
Eryndor observou-o atentamente.
— Você pretende ir às cidades?
— Não. Cidades grandes possuem guardas, patrulhas, testemunhas e pessoas que podem desaparecer sem que ninguém perceba a razão. Não precisamos chamar a atenção antes de estarmos preparados.
Yang ergueu os olhos.
— Começarei pelas vilas desta região. Pequenas comunidades, afastadas das rotas comerciais. Aquelas que a Igreja já considera insignificantes.
Eryndor não respondeu imediatamente.
Ele conhecia Yang havia tempo suficiente para entender que, quando aquele homem falava de um plano com tanta tranquilidade, já havia considerado as consequências e decidido que nenhuma delas era importante o bastante para fazê-lo recuar.
— A Igreja está realizando suas operações de limpeza — comentou Eryndor. — As tropas estão circulando por diversas regiões. Algumas comunidades foram evacuadas. Outras foram expulsas de seus territórios.
— Eu sei.
— Isso significa que você encontrará resistência em alguns lugares.
— E em outros, encontrará portas abertas.
Yang afastou-se da mesa e caminhou lentamente em direção à saída.
— Vou começar a chacina nas vilas próximas. Recolherei os corpos necessários para os experimentos e os trarei para cá. Quando os cientistas estiverem prontos, teremos matéria suficiente para começar a testar o que os documentos descrevem.
Eryndor acompanhou seus movimentos com os olhos.
— Não traga qualquer pessoa que possa comprometer nosso esconderijo. Quero discrição. Ainda não temos estrutura para enfrentar a Igreja abertamente.
Yang parou junto à porta.
— Você pode ficar tranquilo. Não pretendo anunciar nossa volta ao mundo.
Ele olhou por cima do ombro.
Um sorriso pequeno surgiu em seu rosto.
— Ainda não.
Eryndor soltou um suspiro discreto, voltando a atenção para os documentos.
— Enquanto você estiver fora, localizarei os cientistas. Começarei por aqueles que trabalharam para a Igreja e conhecem seus métodos. Depois, entrarei em contato com os antigos pesquisadores de Aetheryon que sobreviveram à destruição.
— Você acredita que ainda vai encontrá-los?
— Alguns estarão escondidos. Outros terão mudado de nome, de profissão ou de cidade. Talvez alguns nem queiram ouvir o nome de Aetheryon novamente.
Eryndor recolheu os papéis e os colocou numa pasta escura.
— Mas todos eles sabem alguma coisa que precisamos. E eu vou encontrar cada um.
Yang abriu a porta.
O vento frio entrou na sala, fazendo a chama da lamparina oscilar violentamente.
Antes de sair, ele voltou a olhar para Eryndor.
— Quando terminarmos, quantos soldados teremos?
Eryndor não respondeu de imediato.
Seu olhar passou pelo desenho sobre a mesa.
— Se os experimentos funcionarem como esperamos, não precisaremos pensar em soldados da mesma maneira que pensamos hoje.
Yang ergueu uma sobrancelha.
— Explique.
— Um exército comum precisa de comida, descanso, treinamento e comandantes capazes de manter a disciplina. Seus membros sentem medo. Questionam ordens. Alguns fogem. Outros se recusam a lutar.
Eryndor aproximou um dedo do desenho.
— Mas imagine milhares de corpos capazes de suportar quantidades extraordinárias de Kai, sem hesitação, sem conflitos internos e sem qualquer propósito além daquele que lhes for imposto.
Yang ficou imóvel.
— Um exército que não conhece a palavra desobediência.
— Exatamente.
O sorriso de Yang aumentou um pouco.
— A Igreja não vai saber o que a atingiu.
— Não se distraia com a ideia da vitória antes de termos os meios para alcançá-la.
— Você sempre foi o homem das cautelas, Eryndor.
— E você sempre foi o homem que confunde cautela com medo.
Yang soltou uma breve risada.
— Talvez seja por isso que ainda estamos vivos.
Ele atravessou a porta e desapareceu na escuridão.
Eryndor permaneceu sozinho.
Durante alguns segundos, olhou para a entrada aberta, ouvindo os passos de Yang se distanciarem sobre a terra úmida.
Depois, fechou a porta.
Voltou à mesa, abriu a pasta e retirou uma lista de nomes.
No alto da primeira página, havia uma anotação feita por um antigo pesquisador de Aetheryon.
Projeto de Compatibilidade Ancestral.
Eryndor passou o polegar sobre as palavras.
— Vamos descobrir até onde o conhecimento pode chegar — murmurou.
A lamparina continuou acesa.
E, naquela pequena sala escondida entre as montanhas, os primeiros preparativos para uma nova catástrofe começaram.
II — A primeira vila
A chuva havia parado quando Yang chegou à região.
O céu estava coberto por nuvens escuras, e a luz do fim da tarde mal conseguia atravessar as copas das árvores. O caminho de terra que conduzia à pequena vila estava úmido, cercado por vegetação alta e pedras cobertas de musgo.
Era uma comunidade simples.
Casas de madeira e pedra se distribuíam ao redor de uma praça central. Havia pequenos campos cultivados nas proximidades, cercas baixas separando propriedades e uma estrada estreita que ligava o lugar a outras comunidades da região.
Yang conhecia o tipo de povoado.
Não possuía muralhas. Não mantinha uma força militar permanente. Dependia de alguns guardas, de caçadores e da própria capacidade de seus habitantes de reconhecer problemas antes que eles chegassem perto demais.
Em circunstâncias normais, deveria haver sinais de vida mesmo antes de entrar na vila.
Fumaça saindo das chaminés.
Animais nos cercados.
Vozes vindas das casas.
O barulho de ferramentas sendo utilizadas nos campos.
Mas Yang não ouviu nada disso.
Ele parou no começo da estrada.
Seus olhos percorreram as primeiras construções.
Uma carroça estava abandonada perto de uma cerca, com uma das rodas quebrada. Um balde de madeira permanecia caído no chão. A porta de uma casa estava aberta, balançando lentamente com o vento.
E havia fumaça.
Não era a fumaça fina e constante de uma chaminé.
Era uma coluna escura que subia de uma construção mais distante, espalhando-se pelo céu antes de desaparecer entre as nuvens.
Yang inclinou ligeiramente a cabeça.
— Hm.
Deu alguns passos.
A sola de suas botas afundou na terra úmida.
Quanto mais se aproximava do centro da vila, mais evidente ficava que alguma coisa havia acontecido ali.
Uma janela estava quebrada. Havia marcas de violência nas paredes de uma casa. Uma pequena mesa permanecia caída na entrada de uma construção, e utensílios domésticos estavam espalhados pela estrada.
Então ele viu o primeiro corpo.
Jazia perto de uma cerca, imóvel, entre a terra revolvida e a vegetação esmagada.
Yang parou por um instante.
Não demonstrou surpresa.
Apenas observou.
Continuou andando.
Outros corpos estavam espalhados pelas ruas e pelos espaços entre as casas. Alguns se encontravam perto das próprias portas. Outros, no meio da praça. Havia sinais de que os habitantes haviam tentado escapar, mas não existia qualquer organização nos movimentos deixados para trás.
A vila inteira parecia ter sido tomada de maneira repentina.
O silêncio era absoluto.
Nenhum choro.
Nenhum pedido de ajuda.
Nenhuma voz humana.
Apenas o vento atravessando as construções abandonadas e o crepitar distante de alguma madeira que ainda queimava.
Yang caminhou até a praça central.
Foi então que viu a bandeira.
Estava presa a um mastro de madeira, erguida acima de tudo o que restava da pequena comunidade. O tecido, pesado e marcado pela fuligem, balançava lentamente.
No centro, havia uma cruz.
Yang ficou olhando para ela.
Por alguns segundos, não se moveu.
Seus olhos acompanharam o símbolo enquanto o vento puxava o tecido para um dos lados, revelando novamente o desenho branco sobre o fundo escuro.
Ele conhecia aquela bandeira.
Conhecia o significado que carregava.
E compreendeu imediatamente o que havia acontecido.
A Igreja estivera ali.
Não para negociar.
Não para proteger a população.
Não para investigar uma ameaça.
Aquela bandeira havia sido deixada como uma declaração de autoridade. Um aviso de que a região pertencia à instituição e de que ninguém tinha o direito de questionar suas decisões.
Yang olhou ao redor.
As casas destruídas.
A praça vazia.
Os corpos.
O símbolo da cruz dominando o centro da vila.
A Igreja havia feito por ele aquilo que levaria horas para realizar.
Não havia precisado convencer ninguém a deixar suas casas. Não havia precisado organizar uma operação para eliminar a resistência local. Não havia precisado descobrir quem poderia atrapalhar seus planos.
A própria instituição que pretendia destruir havia transformado aquela comunidade num lugar abandonado.
Yang soltou uma respiração pelo nariz.
Depois, sorriu.
Não era um sorriso de satisfação diante de uma vitória conquistada.
Era o sorriso de alguém que acabara de descobrir que seu inimigo estava abrindo, sem perceber, o caminho para a própria ruína.
— Vocês estão facilitando o caminho para a própria destruição...
Sua voz baixa desapareceu entre as construções vazias.
Ele voltou os olhos para a bandeira.
— Pobre Igreja.
Yang começou a rir.
Primeiro, discretamente.
Depois, com uma satisfação fria que não combinava com o silêncio da vila.
— Passam os dias falando sobre justiça. Sobre ordem. Sobre a proteção dos inocentes. Sobre a necessidade de construir um mundo melhor...
Ele caminhou lentamente pela praça.
— E, quando encontram pessoas que não se encaixam naquilo que decidiram chamar de mundo perfeito, simplesmente as apagam.
Parou perto do mastro.
A bandeira continuava balançando acima dele.
— Vocês não precisam de mim para destruir a própria imagem. Estão fazendo isso sozinhos.
O sorriso desapareceu por um instante.
Seus olhos ficaram fixos no símbolo.
— Mas eu agradeço.
Yang ergueu a mão direita.
Um brilho escuro percorreu seus dedos.
O ar ao redor de seu braço pareceu se contrair, como se o espaço tivesse sido pressionado por uma força invisível. A luz que restava na praça diminuiu por uma fração de segundo, e um ruído semelhante a um trovão distante atravessou a região.
Ele olhou novamente para os corpos espalhados pela vila.
Aquelas pessoas não haviam sido mortas por ele.
Mas, para Yang, isso não fazia diferença alguma.
Eram corpos.
E os corpos seriam necessários para o experimento.
Ele começou a recolhê-los, um por um, utilizando seu poder para transportá-los sem precisar percorrer novamente o caminho até o esconderijo. Cada vez que a energia negra surgia, o ar estremecia ao redor das figuras imóveis, e elas desapareciam numa distorção escura.
Yang não demonstrava pressa.
Tampouco demonstrava qualquer respeito pelo lugar onde estava.
Passou por uma casa parcialmente destruída, observou os campos abandonados e voltou à praça. Reuniu os corpos que encontrava, verificando apenas se havia mais algum que pudesse ser levado.
O trabalho continuou até que a luz do dia começasse a desaparecer por completo.
Durante todo aquele tempo, a bandeira da Igreja permaneceu erguida.
Yang não a derrubou.
Não a queimou.
Não a rasgou.
Deixou-a exatamente onde estava.
Queria que continuasse ali, testemunhando o resultado das ações daqueles que a haviam colocado.
Quando terminou, a praça estava ainda mais vazia.
A fumaça subia lentamente das construções, e a vila parecia ter sido abandonada havia semanas, embora a destruição tivesse acontecido naquele mesmo dia.
Yang permaneceu diante do mastro por alguns instantes.
— Cem corpos — murmurou, calculando mentalmente o que havia conseguido reunir. — Talvez um pouco mais.
Seus olhos percorreram as casas.
— Para o primeiro dia, não é ruim.
Ele ergueu o rosto para o céu escuro.
— Amanhã haverá mais.
Um raio negro atravessou o espaço ao redor de seu corpo.
No instante seguinte, Yang desapareceu da vila.
A bandeira continuou balançando.
E, pela primeira vez desde que os soldados da Igreja haviam chegado, o silêncio deixou de ser interrompido até mesmo pelo crepitar da madeira.
III — O homem que deveria ter desaparecido
Muito longe dali, numa região completamente diferente, Eryndor estava diante de uma pequena casa.
Não havia qualquer placa indicando seu proprietário.
A construção ficava afastada da estrada principal, escondida entre árvores e rochas, num terreno irregular que dificultava a aproximação de visitantes. Suas paredes eram simples, o telhado não possuía qualquer detalhe chamativo e as janelas eram pequenas.
A casa parecia pertencer a alguém que não desejava ser encontrado.
E, durante muito tempo, essa estratégia havia funcionado.
O homem que vivia ali raramente recebia visitas. Não mantinha empregados. Não participava de reuniões públicas e não utilizava os antigos contatos profissionais que possuía.
Para os vizinhos mais próximos, era apenas um sujeito reservado que passava os dias estudando livros e escrevendo documentos.
Mas seu nome continuava registrado em arquivos que poucas pessoas tinham autorização para consultar.
Hiro.
Um dos cientistas mais brilhantes que já haviam trabalhado para a Igreja.
Especialista em compatibilidade de Kai, fisiologia humana e alterações provocadas pela exposição prolongada a poderes ancestrais, Hiro havia participado de projetos que influenciaram profundamente a estrutura científica da instituição.
Durante anos, também ocupou uma posição de liderança dentro da organização científica da Igreja.
Não era um pesquisador qualquer.
Era um dos homens que conheciam os limites daquilo que a Igreja tentava compreender.
Eryndor sabia disso.
Por essa razão, estava disposto a encontrá-lo.
O líder de Aetheryon não bateu à porta.
Não chamou pelo proprietário.
Simplesmente entrou.
A casa era pequena, mas organizada. Havia livros empilhados sobre uma estante, documentos espalhados numa mesa e instrumentos científicos guardados em armários estreitos.
Uma chaleira permanecia sobre o fogão.
Perto da janela, um homem de cabelos grisalhos, óculos finos e roupas simples levantou-se tão depressa que a cadeira atrás dele caiu.
Hiro olhou para o intruso.
Por um instante, não pareceu reconhecê-lo.
Então percebeu os cabelos claros, a postura, a espada e o rosto que havia visto em antigos relatórios.
Sua expressão mudou.
— Não...
Eryndor fechou a porta atrás de si.
— Boa noite, senhor Hiro.
O cientista recuou.
— Você...
Sua voz falhou.
— Você é Eryndor.
— Vejo que minha reputação continua preservada.
Hiro deu mais um passo para trás, batendo a perna contra a mesa.
— Como me encontrou?
Eryndor não respondeu.
Apenas caminhou na direção dele.
— Não, espere... — Hiro ergueu as mãos. — Eu não tenho mais ligação com a igreja. Faz anos que deixei de participar de qualquer projeto relacionado a eles.
— Não vim discutir o passado.
— Então o que quer de mim?
Eryndor parou diante dele.
— Seu conhecimento.
Hiro olhou rapidamente para a porta.
Eryndor percebeu.
O cientista tentou se mover para o lado, buscando uma oportunidade de escapar.
Não conseguiu.
Num movimento rápido, Eryndor agarrou-o pela roupa e o empurrou contra a parede.
Os livros sobre uma prateleira estremeceram.
Hiro soltou um grito abafado quando sentiu a pressão da mão de Eryndor contra seu pescoço. Tentou afastar o braço do invasor, agarrando-lhe o pulso com as duas mãos.
— E-espera!
Eryndor manteve-o preso.
Seu rosto continuava calmo.
Essa tranquilidade era mais assustadora do que qualquer demonstração de raiva.
— Senhor Hiro, não dificulte as coisas agora.
O cientista tentou falar, mas a pressão tornava cada palavra difícil.
— Você... não pode...
— Posso, sim.
Eryndor aproximou ligeiramente o rosto.
— E, neste momento, você tem duas opções. Pode compreender a situação em que se encontra e colaborar comigo, ou pode continuar desperdiçando o pouco tempo que ainda tem para tomar uma decisão sensata.
Hiro balançou a cabeça, desesperado.
— Eu não quero me envolver com você! Eu abandonei tudo!
— Eu sei.
A resposta pareceu confundi-lo.
Eryndor continuou:
— Sei que deixou a organização científica da Igreja. Sei que passou os últimos anos tentando apagar seu nome dos registros. Sei que se mudou para esta região porque acreditava que ninguém procuraria um antigo pesquisador num lugar como este.
Os olhos de Hiro se arregalaram.
— Como...
— Não importa como descobri.
A mão de Eryndor continuou pressionando seu pescoço.
— O que importa é que você passou anos tentando desaparecer, senhor Hiro. E, apesar de todos os seus esforços, continua sendo um dos melhores cientistas que esta era produziu.
Hiro tentou se soltar mais uma vez.
— Por favor...
— Você vai trabalhar para Aetheryon.
A frase foi pronunciada sem elevação de voz.
Não era uma proposta.
Não era um convite.
Era uma ordem.
Hiro olhou para o rosto de Eryndor, procurando algum sinal de que ainda poderia negociar.
Não encontrou nada.
— Eu... eu não posso...
Eryndor apertou o suficiente para deixar claro que a discussão não estava avançando na direção desejada.
— Pode, sim.
— Minha família...
— Não me interessa sua vida pessoal, desde que ela não interfira no trabalho que precisaremos realizar.
— Eu tenho responsabilidades! Tenho pessoas que...
— E eu tenho um continente inteiro que pretendo transformar.
Eryndor interrompeu-o.
Pela primeira vez, havia algo diferente em sua voz. Não exatamente raiva, mas uma convicção tão profunda que parecia tornar qualquer objeção insignificante.
— Você acredita que pode passar o resto da vida escondido nesta casa enquanto a Igreja decide o destino de todos? Acredita que basta abandonar um cargo para que tudo aquilo que ajudou a construir deixe de existir?
Hiro respirava com dificuldade.
— Eu não quero participar de outra guerra!
— Então deveria ter escolhido uma profissão diferente daquela que dedicou a compreender o poder.
O cientista continuou tentando afastar a mão de Eryndor.
Seu rosto começava a revelar o pânico que já dominava seus pensamentos.
Não havia guardas por perto.
Não havia colegas para quem pudesse pedir ajuda.
Não havia sequer alguém que soubesse que Eryndor estava naquela casa.
Hiro compreendeu que estava sozinho.
E que o homem diante dele não havia percorrido toda aquela distância para aceitar uma recusa.
— Está bem! — conseguiu dizer, desesperado. — Está bem, eu aceito!
Eryndor não o soltou imediatamente.
— Repita.
— Eu aceito! Vou trabalhar para Aetheryon! Só... só me solte, por favor!
Eryndor observou-o por mais um instante.
Então abriu a mão.
Hiro caiu contra a mesa, apoiando-se nela enquanto tentava recuperar o fôlego. Tossiu algumas vezes e levou a mão ao pescoço, ainda incapaz de controlar completamente o tremor dos dedos.
Eryndor ajeitou a manga de sua roupa.
Como se nada de importante tivesse acontecido.
— Muito bem.
Hiro levantou os olhos lentamente.
— Você...
— Poupe suas palavras, senhor Hiro. Vai precisar delas.
Eryndor caminhou até a mesa, afastou alguns livros e examinou os documentos que estavam espalhados.
— Sei o quanto você é importante. Não apenas pelos projetos dos quais participou, mas também pelas pessoas que trabalharam sob sua supervisão.
Ele pegou uma folha e examinou algumas anotações.
— Você liderou pesquisadores durante anos. Formou equipes, avaliou candidatos, organizou estudos e manteve contato com alguns dos maiores especialistas da Igreja.
Eryndor colocou a folha sobre a mesa.
— Imagino que conheça centenas de pessoas que poderiam ser úteis para nós.
Hiro permaneceu encostado na parede.
— Não sei se todos ainda trabalham na organização...
— Descubra.
— Alguns foram transferidos. Outros se aposentaram. Há pesquisadores que desapareceram depois de certas investigações...
— Então comece pelos que ainda estão lá.
Eryndor virou-se para ele.
— Preciso de vários cientistas. Não apenas de você. Precisamos de pessoas capazes de compreender o funcionamento do Kai, avaliar a compatibilidade de corpos humanos com poderes ancestrais e desenvolver métodos que a Igreja jamais permitiria que fossem pesquisados abertamente.
Hiro ficou imóvel.
Por alguns segundos, pareceu esquecer o medo e concentrar-se nas palavras que acabara de ouvir.
A expressão do cientista mudou.
Não para uma expressão de coragem.
Mas para a de alguém que acabara de compreender a dimensão daquilo em que seria obrigado a participar.
— Poderes ancestrais...? — murmurou.
Eryndor percebeu a reação.
— Sim.
— Você está falando de...
Hiro parou antes de concluir a frase.
Seus olhos se deslocaram lentamente para os documentos sobre a mesa.
Eryndor acompanhou o movimento.
— Parece que finalmente estamos nos entendendo.
O cientista engoliu em seco.
— O que exatamente vocês pretendem fazer?
— Isso será explicado quando tivermos as pessoas necessárias para começar. Por enquanto, você fará aquilo que estou pedindo.
Eryndor puxou uma cadeira e a colocou diante da mesa.
— Escreva uma carta para a organização científica da Igreja.
Hiro não se moveu.
— Uma carta?
— Sim. Você ainda mantém credibilidade suficiente para ser ouvido. Escreva dizendo que precisa reunir alguns dos melhores pesquisadores disponíveis para uma missão externa. Uma missão que exija conhecimentos especializados e discrição.
— Eles vão querer saber o motivo.
— Diga que se trata de uma investigação científica urgente. Utilize qualquer justificativa que faça sentido para pessoas que conhecem seu trabalho.
Hiro olhou para ele.
— E se enviarem apenas dois ou três pesquisadores?
— Então escreverá novamente.
— E se enviarem alguém para verificar a missão?
Eryndor aproximou-se um passo.
— Senhor Hiro.
O cientista se calou.
— Não confunda as perguntas que você precisa responder com as perguntas que pode fazer.
Hiro baixou os olhos.
Aquelas palavras encerraram a discussão.
Ele caminhou até um armário, retirou papel, tinta e uma caneta e sentou-se diante da mesa.
Suas mãos ainda tremiam.
Durante alguns segundos, permaneceu olhando para a folha em branco.
A carta precisava parecer convincente. Não poderia despertar suspeitas. Não poderia parecer uma convocação feita às pressas por alguém que havia abandonado a organização anos antes.
Hiro conhecia os procedimentos.
Conhecia as formalidades.
Conhecia os nomes das pessoas que receberiam a mensagem.
E conhecia o suficiente sobre a Igreja para saber que uma solicitação assinada por ele ainda poderia abrir portas que permaneceriam fechadas para qualquer outro indivíduo.
Mas agora precisava utilizar todo aquele conhecimento para ajudar um homem que o havia ameaçado dentro da própria casa.
— Comece — ordenou Eryndor.
Hiro molhou a ponta da caneta na tinta.
E começou a escrever.
A primeira linha foi escrita com dificuldade.
A segunda, um pouco mais depressa.
Quando chegou ao trecho em que precisava justificar a urgência do pedido, interrompeu-se e releu tudo desde o início.
Eryndor permaneceu atrás dele, observando cada movimento.
Não precisou repetir a ordem.
Hiro sabia que estava sendo vigiado.
Sabia que qualquer tentativa de esconder informações poderia custar-lhe a vida.
E, por isso, continuou escrevendo.
A casa, que durante anos havia sido um lugar de silêncio e isolamento, agora abrigava o início de uma operação que poderia mudar a história de Kaelthar.
Quando terminou, Hiro assinou a carta.
Depois, ficou olhando para o próprio nome.
A tinta ainda estava úmida.
— Está pronta — disse, quase num sussurro.
Eryndor pegou o documento e leu cada linha.
Examinou a assinatura.
Verificou a justificativa.
Por fim, assentiu.
— Bom trabalho.
Hiro não respondeu.
Eryndor dobrou a carta e a guardou dentro de sua pasta.
— Amanhã, você continuará trabalhando. Quero uma lista dos pesquisadores que considera indispensáveis. Nomes, especialidades, localizações conhecidas e qualquer informação que possa facilitar o contato.
— Sim...
— E não tente desaparecer novamente.
Eryndor caminhou até a porta.
Antes de sair, olhou uma última vez para o cientista.
— Você já passou tempo demais fingindo que não fazia parte deste mundo, senhor Hiro. Agora terá a oportunidade de participar de algo que realmente importa.
Hiro apertou os dedos contra a borda da mesa.
— Para você, talvez.
Eryndor parou.
O cientista percebeu o que havia dito e imediatamente se arrependeu.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Então Eryndor sorriu de maneira quase imperceptível.
— Começo a compreender por que você era tão respeitado dentro da organização científica.
Abriu a porta.
— Espero que sua inteligência continue sendo tão útil quanto sua reputação sugere.
E saiu.
Hiro permaneceu sentado.
Só quando os passos de Eryndor desapareceram do lado de fora ele permitiu que os ombros relaxassem.
Olhou para a porta.
Depois, para a carta que já não estava sobre a mesa.
E, finalmente, para as próprias mãos.
Aquelas mãos haviam passado anos estudando a natureza do Kai.
Haviam ajudado a desenvolver métodos que salvaram vidas. Haviam participado de pesquisas que, segundo ele acreditava na época, tornariam o mundo mais seguro.
Agora, seriam utilizadas para ajudar a criar algo que ele sequer compreendia completamente.
A casa continuou silenciosa.
E a noite começou a cair.
IV — Cem corpos e uma promessa
Horas depois, a escuridão havia tomado completamente a região montanhosa.
A chuva retornara, mais fraca do que antes, mas constante o suficiente para manter o telhado do esconderijo coberto por um ruído contínuo.
Dentro da construção, Eryndor estava sentado diante da pequena mesa de madeira.
A pasta com os documentos permanecia aberta ao seu lado. Ele havia organizado os nomes dos cientistas, separado as informações mais importantes e começado a planejar os próximos contatos.
Hiro estava sentado do outro lado da mesa.
Parecia menor do que antes.
Mantinha as costas rígidas, os dedos entrelaçados e os olhos constantemente voltados para Eryndor, como se esperasse receber uma nova ordem a qualquer momento.
Sobre a mesa, havia uma xícara de chá que ele não tocara.
— Quantos pesquisadores você acredita que conseguirá reunir? — perguntou Eryndor.
Hiro demorou um instante para responder.
— Depende de quantos ainda estejam ativos na organização. Alguns são especialistas em anatomia e fisiologia. Outros trabalham com a análise de Kai. Há também pesquisadores que participaram de estudos relacionados à energia ancestral, embora muitos desses projetos tenham sido encerrados.
— Encerrados por falta de resultados?
— Alguns. Outros foram considerados perigosos demais para continuar.
Eryndor ergueu os olhos.
— Perigosos para quem?
Hiro hesitou.
— Para os próprios pesquisadores, em certos casos. Para os indivíduos submetidos aos experimentos, em outros. A Igreja costumava interromper projetos quando os riscos se tornavam difíceis de controlar.
— Costumava?
O cientista desviou o olhar.
— Não tenho informações sobre as decisões mais recentes.
Eryndor ficou em silêncio.
Não acreditava que Hiro estivesse contando toda a verdade.
Mas não precisava pressioná-lo naquele momento.
O mais importante era que a carta havia sido enviada e que os primeiros contatos começariam a ser estabelecidos.
— Você vai preparar uma lista completa até amanhã — disse. — Não quero apenas nomes. Quero saber quem possui experiência real e quem passou a carreira inteira copiando relatórios de outras pessoas.
Hiro assentiu.
— Entendi.
— E, quando os primeiros pesquisadores chegarem, você explicará tudo o que souber sobre os projetos antigos.
O cientista apertou as mãos.
— Tudo?
— Tudo o que for relevante.
Hiro abaixou a cabeça.
— Sim.
Eryndor voltou aos documentos.
A conversa foi interrompida por um som estranho.
Um estalo profundo atravessou o esconderijo.
A chama da lamparina inclinou-se violentamente para um dos lados.
Hiro levantou a cabeça.
— O que foi isso?
Eryndor não respondeu.
Ele já sabia.
Uma segunda vibração percorreu o ambiente, fazendo a mesa estremecer e os papéis deslizarem alguns centímetros sobre a madeira.
Então veio o raio.
Negro.
Um clarão atravessou o interior da construção, iluminando as paredes, o teto e o rosto assustado de Hiro. O espaço pareceu se dobrar por um breve instante, como se a própria realidade tivesse sido rasgada por uma força que não deveria existir.
A energia desapareceu tão depressa quanto surgiu.
E Yang estava ali.
Parado no centro da sala.
Ao redor dele, corpos imóveis haviam sido transportados para dentro do esconderijo, ocupando parte do espaço disponível. A presença de tantos corpos transformava a pequena construção num lugar sufocante, ainda mais silencioso do que antes.
Hiro levantou-se tão depressa que a cadeira caiu para trás.
— O que é isso?!
Yang ignorou a pergunta.
Seu olhar encontrou Eryndor.
— Boa noite.
Eryndor observou os corpos espalhados pelo chão.
Não demonstrou surpresa.
Apenas levantou-se e contornou lentamente a mesa, examinando o resultado da primeira operação.
— Você conseguiu mais do que eu esperava.
Yang limpou uma pequena mancha de sujeira da manga.
— Não foi difícil.
Ele olhou ao redor.
— A Igreja facilitou bastante o trabalho.
Eryndor voltou o rosto para ele.
Ele deu uma olhada para os corpos.
— Encontrei a primeira comunidade antes do anoitecer. Quando cheguei, os soldados já haviam terminado o trabalho.
Hiro permaneceu imóvel.
Yang continuou:
— Havia uma bandeira com o símbolo da cruz no centro da vila. Não precisei procurar muito para entender o que tinha acontecido.
Eryndor cruzou os braços.
— Quantos?
— Pelo menos cem.
Yang falou como se estivesse relatando a quantidade de madeira disponível para uma construção.
— Talvez um pouco mais. Não contei cada corpo individualmente, mas trouxe tudo o que encontrei que poderia ser utilizado nos experimentos.
Eryndor observou novamente a quantidade reunida.
— Cem corpos em um único dia...
— Amanhã trarei mais cem.
O silêncio que se seguiu foi interrompido apenas pela chuva.
Yang inclinou ligeiramente a cabeça, como se tivesse acabado de se lembrar de alguma coisa.
Então olhou para o homem que permanecia perto da mesa.
Hiro encolheu os ombros involuntariamente.
Os olhos de Yang percorreram seu rosto, suas roupas simples e as mãos trêmulas.
— Quem é esse?
Eryndor acompanhou o olhar.
— Hiro. Um dos antigos líderes da organização científica da Igreja. Foi um dos pesquisadores mais importantes da instituição antes de abandonar o cargo.
Yang ergueu as sobrancelhas.
— Hiro?
O cientista olhou para ele.
Parecia ter reconhecido o nome de Yang, mas não conseguia organizar os pensamentos o suficiente para formular uma pergunta.
Eryndor continuou:
— Ele concordou em nos ajudar. Já expliquei a natureza do projeto e o que esperamos construir. Também enviei uma convocação à organização científica. Mais pesquisadores deverão chegar em breve.
Yang voltou os olhos para Hiro.
— Entendo.
A palavra foi pronunciada com uma tranquilidade quase cordial.
Isso não ajudou o cientista a se sentir melhor.
Yang aproximou-se lentamente da mesa e puxou uma cadeira.
Sentou-se.
Por alguns segundos, ficou apenas observando Hiro, sem dizer nada.
O homem tentou sustentar o olhar, mas acabou desviando os olhos.
Yang percebeu.
— Você parece assustado, senhor Hiro.
O cientista abriu a boca, fechou-a novamente e respirou fundo.
— Eu...
Sua voz saiu fraca.
Ele olhou para Eryndor, depois para Yang.
— Eu só quero ir embora.
Yang permaneceu imóvel.
Hiro deu um passo à frente, ainda mantendo distância dos corpos.
— Por favor. Eu já aceitei ajudar. Escrevi a carta. Vou reunir os pesquisadores que vocês querem. Posso fornecer todos os documentos que ainda possuo e explicar os projetos dos quais participei.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Só me deixem ir embora depois.
Sua voz começou a falhar.
— Eu imploro. Não quero fazer parte disso. Não quero morrer aqui. Não quero que a Igreja descubra que fui obrigado a trabalhar para vocês. Eu só quero voltar para minha casa e...
Hiro parou.
Olhou ao redor.
Para os corpos.
Para a energia escura que ainda parecia pairar na memória do ambiente.
Para os dois homens diante dele.
E percebeu como aquela promessa soava absurda.
Voltar para casa.
Como se ainda existisse uma vida normal à qual pudesse retornar depois de participar de um projeto daquela natureza.
Ele engoliu em seco.
— Eu mandei as cartas — continuou, desesperado. — Outros cientistas virão. Os melhores. Eu juro que farei tudo o que pedirem. Se trabalharmos sem interrupções, podemos terminar a primeira fase em menos de um mês.
Eryndor observou-o atentamente.
— Menos de um mês?
— Sim! — Hiro assentiu rapidamente. — Eu conheço os métodos, sei como organizar uma equipe e consigo identificar os especialistas certos. Se os materiais estiverem disponíveis e não houver problemas com os equipamentos, podemos avançar muito mais rápido do que vocês imaginam.
O cientista aproximou as mãos do peito.
— Mas, por favor... depois disso, deixem-me ir.
Yang não respondeu.
Hiro tentou novamente.
— Eu não vou falar sobre vocês. Não vou procurar a Igreja. Não vou contar a ninguém o que aconteceu aqui. Posso desaparecer de novo. Posso ir para outro continente, mudar meu nome, fazer qualquer coisa. Só preciso saber que não vou ficar preso a vocês para sempre.
Yang continuou olhando para ele.
Sem piscar.
Sem sorrir.
Sem demonstrar impaciência.
Era como se estivesse avaliando não apenas as palavras de Hiro, mas também a maneira como o medo alterava sua respiração, seus movimentos e a própria postura de seu corpo.
Finalmente, Yang falou:
— Você acredita que, depois de nos ajudar a construir algo capaz de alterar o destino deste continente, nós simplesmente permitiríamos que voltasse para casa?
Hiro ficou pálido.
— Eu...
— Você acredita que poderia sair daqui e esquecer tudo o que viu?
Yang apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Acha que a Igreja permitiria que um dos seus antigos líderes desaparecesse depois de participar de um projeto dessa magnitude? E acha que nós confiaríamos nossa segurança a alguém que conhece os nomes dos pesquisadores, os detalhes dos experimentos e a localização do nosso esconderijo?
Hiro não conseguiu responder.
Yang inclinou ligeiramente a cabeça.
— Senhor Hiro, você é um cientista brilhante. Não deveria ser tão ingênuo.
O homem começou a tremer novamente.
— Mas eu fiz tudo o que pediram...
— E continuará fazendo.
Yang levantou-se.
A cadeira deslizou para trás com um ruído seco.
— Você vai reunir os pesquisadores. Vai organizar os documentos. Vai ajudar Eryndor a compreender tudo aquilo que a Igreja tentou esconder durante décadas. E, quando os experimentos começarem, fará o seu trabalho.
Ele se aproximou de Hiro.
— Quanto ao que acontecerá depois...
Yang deixou a frase incompleta.
Não precisava terminá-la.
Hiro abaixou os olhos.
Eryndor observava a conversa em silêncio. Não interferiu, tampouco ofereceu qualquer garantia ao cientista.
Para ele, Hiro era uma peça importante.
Uma peça que precisaria continuar funcionando.
Mas Yang não parecia interessado em tranquilizá-lo.
Pelo contrário.
Parecia considerar o medo de Hiro uma parte perfeitamente natural daquela nova ordem.
— Um mês — repetiu Yang, olhando para Eryndor. — Foi o que ele prometeu?
— Para a primeira fase, se os recursos necessários estiverem disponíveis.
Yang assentiu lentamente.
— Então temos um prazo.
Eryndor caminhou até a mesa e recolheu alguns documentos.
— Teremos de preparar o esconderijo. Não há espaço suficiente para tantos corpos e, quando os cientistas chegarem, precisaremos de uma área de trabalho adequada. Também será necessário localizar equipamentos e recuperar alguns materiais das instalações antigas.
— Cuide disso.
— E você continuará recolhendo os corpos?
Yang olhou para a janela.
Do lado de fora, a chuva escorria pelas paredes, formando pequenas linhas brilhantes sob a luz da lamparina.
— Amanhã.
Ele voltou os olhos para Eryndor.
— Mais cem.
Eryndor não contestou.
Yang começou a caminhar pela sala, desviando dos corpos espalhados pelo chão.
— A Igreja está limpando as próprias terras. Está expulsando pessoas, destruindo comunidades e convencendo seus soldados de que cada ordem representa algum tipo de justiça.
Ele soltou uma risada baixa.
— Enquanto isso, nós recolheremos aquilo que deixarem para trás.
Yang parou diante da janela.
— É quase engraçado.
Eryndor colocou os documentos de volta sobre a mesa.
— Não confunda a incompetência deles com uma garantia de sucesso. A Igreja ainda possui guerreiros capazes de nos destruir se descobrirem o que estamos fazendo.
— Eu sei.
— E não podemos permitir que alguém reconheça os corpos ou descubra o propósito dos experimentos antes de estarmos preparados.
Yang virou ligeiramente a cabeça.
— Você está preocupado demais.
— E você está confiante demais.
Por um breve instante, os dois ficaram se encarando.
Não havia hostilidade entre eles.
Havia algo mais complexo: a compreensão de que compartilhavam um objetivo, mas enxergavam de maneiras diferentes o caminho necessário para alcançá-lo.
Eryndor pensava em estruturas, recursos, estratégias e no momento em que Aetheryon poderia retornar ao mundo.
Yang pensava no resultado.
Naquilo que aconteceria quando ninguém mais pudesse impedi-los.
— Um mês — repetiu Yang. — Se Hiro estiver certo, em menos de um mês teremos os primeiros resultados.
— Se tudo correr como planejado.
Yang sorriu.
— Então faremos tudo correr como planejado.
V — O olhar faminto
A conversa terminou pouco depois.
Eryndor voltou a examinar os documentos, calculando quais pesquisadores precisariam ser convocados primeiro. Hiro permaneceu sentado, silencioso, tentando compreender como sua vida havia se transformado tão completamente em poucas horas.
Yang, por sua vez, afastou-se da mesa.
Caminhou lentamente pelo pequeno esconderijo, observando as paredes, as janelas e os corpos que ocupavam o chão.
A construção parecia ainda menor agora.
O ar estava pesado. A lamparina iluminava apenas parte da sala, deixando os cantos mergulhados em sombras. A chuva continuava a cair, e o som das gotas contra o telhado fazia parecer que o mundo inteiro havia se afastado daquele lugar.
Yang parou diante de Hiro.
O cientista ergueu os olhos imediatamente.
Nenhum dos dois falou.
Yang observou seu rosto por alguns segundos, como se estivesse tentando enxergar alguma coisa que não aparecia nas palavras.
Hiro sentiu a garganta apertar.
— Eu vou cumprir o que prometi — disse, antes que Yang pudesse falar. — Vou reunir os cientistas. Vou ajudar nos experimentos. Não vou tentar fugir.
Yang continuou em silêncio.
— Eu juro.
O cientista apertou os dedos contra a própria perna.
— Só preciso que compreenda que não sou um guerreiro. Nunca fui. Meu trabalho sempre foi estudar, pesquisar, desenvolver métodos... Eu não tenho qualquer intenção de enfrentar vocês.
Yang inclinou ligeiramente a cabeça.
— Eu sei.
Hiro pareceu confuso.
— Sabe?
— Se você fosse um guerreiro, provavelmente já teria tentado me atacar.
Yang deu um passo para o lado.
— Mas você é um cientista. E cientistas costumam acreditar que, se compreenderem suficientemente bem um problema, poderão encontrar uma maneira de resolvê-lo.
Ele olhou para os documentos sobre a mesa.
— É por isso que são úteis.
Hiro não respondeu.
Yang voltou a caminhar.
Passou pelos corpos reunidos na sala e parou perto da pequena janela.
Do lado de fora, a noite era quase completamente negra.
As árvores se moviam sob o vento, e a chuva desenhava linhas tortas no vidro. Ao longe, as montanhas desapareciam sob uma camada de neblina.
Yang apoiou a mão na moldura da janela.
Por um instante, pareceu apenas contemplar a paisagem.
Mas havia algo errado em sua expressão.
Seu rosto permanecia imóvel, e seus olhos não acompanhavam os movimentos da chuva. Pareciam concentrados em alguma coisa que existia muito além daquelas montanhas.
Eryndor percebeu a mudança.
— Yang?
Nenhuma resposta.
— Está pensando em alguma coisa?
Yang não se virou.
— Estou pensando na Igreja.
A voz era baixa.
— Na bandeira que encontrei hoje. Naquela pequena vila. Na maneira como deixam seus símbolos para trás, como se isso fosse suficiente para transformar tudo o que fizeram em alguma espécie de dever sagrado.
Ele ergueu lentamente o queixo.
— E estou pensando em quantas outras vilas existem por aí.
Eryndor permaneceu quieto.
Yang continuou:
— Quantas pessoas ainda vivem acreditando que, se obedecerem às ordens, se mantiverem a cabeça baixa e não questionarem ninguém, serão deixadas em paz.
Um sorriso começou a surgir em seu rosto.
— Quantas delas descobrirão que a Igreja não precisa de uma razão para decidir que suas vidas não têm valor.
A mão de Yang apertou a moldura da janela.
A madeira estalou discretamente sob seus dedos.
— E quantas mais continuarão defendendo essa instituição mesmo depois de compreenderem o que ela realmente é?
Eryndor observou-o por alguns segundos.
— Não se distraia com o ódio.
Yang soltou uma risada quase inaudível.
— Ódio?
Virou a cabeça lentamente.
— Você ainda acredita que é isso que me move?
Eryndor não respondeu.
Yang voltou a olhar para a noite.
— O ódio é algo pequeno, Eryndor. Ele nasce de uma ferida, de uma perda, de uma injustiça. Faz as pessoas desejarem que alguém sofra tanto quanto elas sofreram.
Ele afastou a mão da janela.
— Mas aquilo que estamos construindo é maior do que uma vingança.
A luz da lamparina alcançou apenas parte de seu rosto.
O restante permaneceu envolto em sombra.
— Estamos criando algo que a Igreja não poderá controlar. Algo que não dependerá de suas leis, de seus guerreiros ou de suas promessas. Algo que fará o mundo compreender que o poder nunca pertenceu àqueles que passaram séculos afirmando serem seus únicos guardiões.
Yang olhou para os corpos.
Depois, para Hiro.
O cientista abaixou imediatamente a cabeça.
— Um mês — murmurou Yang. — Talvez menos.
Ele voltou a olhar pela janela.
O sorriso desapareceu.
Seus olhos se estreitaram, e a expressão que tomou seu rosto não era a de um homem satisfeito com o resultado do próprio trabalho.
Era a de alguém que havia encontrado o primeiro sinal de algo que desejava há muito tempo.
Algo que não seria satisfeito com cem corpos.
Nem com mil.
Nem com a queda de uma única instituição.
Yang permaneceu imóvel diante da pequena janela, contemplando a escuridão além do vidro.
Atrás dele, Eryndor continuou organizando os documentos.
Hiro não ousou se mover.
E, por alguns segundos, a sala inteira pareceu esperar que Yang finalmente dissesse alguma coisa.
Ele não disse.
Apenas sorriu novamente.
Um sorriso lento, vazio de compaixão, como se a destruição de uma vila tivesse sido apenas o primeiro gosto de algo muito maior.
A luz da lamparina vacilou.
Uma sombra atravessou o rosto de Yang, acentuando o brilho escuro de seus olhos.
Naquele instante, ele não parecia um líder preparando uma guerra.
Nem um homem tentando derrubar uma instituição.
Parecia algo que havia passado tempo demais faminto, finalmente encontrando uma porta aberta.
E que, agora, começava a perceber a quantidade de coisas que poderia devorar.
Fim do Capítulo 128.