Capítulo 130 — O Peso de um Reino Morto
O amanhecer chegou a Vorthal sem trazer consigo qualquer sinal de vida.
O sol surgia lentamente por trás das montanhas, espalhando uma luz pálida sobre aquilo que um dia havia sido um reino. Seus primeiros raios atravessavam as nuvens cinzentas e iluminavam muralhas partidas, torres desabadas e ruas que, há muito tempo, haviam deixado de ouvir o som de passos humanos.
O vento soprava entre as ruínas.
Passava pelos arcos quebrados dos antigos portões, atravessava as janelas vazias de construções abandonadas e arrastava pequenas quantidades de poeira pelo chão rachado. Em alguns pontos, a vegetação havia começado a tomar o lugar das pedras, crescendo entre as fendas de edifícios que já não possuíam teto. Em outros, nem mesmo as raízes pareciam capazes de encontrar forças para sobreviver.
Vorthal estava morto.
O ataque de Ren prejudicou boa parte das construções quando ele lutou contra o General Karthus.
Mas agora estava pior.
Não havia bandeiras sobre suas torres. Nenhuma fumaça subia das chaminés. Nenhuma voz ecoava pelas ruas. As casas que antes abrigavam famílias agora eram apenas esqueletos de madeira e pedra, testemunhas silenciosas de uma tragédia que o tempo não conseguira apagar.
A praça central continuava parcialmente de pé.
No meio dela, uma fonte quebrada permanecia cercada por estátuas decapitadas. A água havia desaparecido fazia anos, deixando apenas manchas escuras no fundo de pedra. Ao redor, as fachadas dos antigos estabelecimentos exibiam marcas de queimaduras e impactos que jamais seriam reparados.
A igreja terminou de destruir o Reino. Afinal, aquele área estava no mar do Continente.
Era difícil imaginar que aquele lugar já tivesse sido belo.
Mais difícil ainda era imaginar que alguém havia construído tudo aquilo acreditando que poderia durar.
Muito acima do reino, no topo de uma das montanhas que cercavam o território, uma silhueta observava as ruínas.
O homem estava imóvel à beira do precipício, com os pés firmemente apoiados sobre a rocha e o olhar voltado para a cidade destruída. Abaixo dele, Vorthal se estendia como um túmulo gigantesco, envolvido por uma névoa fina que se movia lentamente entre os edifícios.
Seus longos cabelos negros estavam presos, mas algumas mechas escapavam do amarrado e dançavam com o vento. O manto negro que vestia se agitava atrás de suas pernas, estalando ocasionalmente contra a armadura escura que protegia parte de seu corpo.
Ele não demonstrava cansaço.
Não demonstrava tristeza.
Tampouco parecia sentir qualquer necessidade de se afastar daquela visão.
Seus olhos permaneciam calmos.
Mas não era a calma de alguém que encontrara paz. Não era a serenidade de um homem que havia aceitado o passado ou aprendido a conviver com suas perdas.
Era algo diferente.
Uma calma tão profunda que parecia ter ultrapassado o próprio limite das emoções. Como se, em algum momento de sua vida, aquele homem tivesse sentido tanto que agora já não precisasse demonstrar coisa alguma.
Uma tranquilidade que não confortava quem a observasse.
Uma tranquilidade que assustava.
Número Um.
O guerreiro que sobrevivera à queda de seu reino.
O homem que havia visto seus companheiros morrerem, suas terras serem tomadas e tudo aquilo que construíra desaparecer diante de seus olhos.
O homem cujo o título ainda era pronunciado com cautela por aqueles que conheciam verdadeiramente o mundo de Kaelthar.
Ele continuou observando Vorthal.
Ainda me lembro de quando cheguei aqui pela primeira vez.
O pensamento surgiu sem que seu rosto se alterasse.
Não havia muralhas. Não havia torres. Não havia sequer um caminho digno de ser chamado de estrada.
Naquele tempo, aquele território era apenas uma extensão de terras cercada por montanhas. Um lugar esquecido pelos grandes poderes, distante das disputas que consumiam os reinos vizinhos. A região não possuía riquezas extraordinárias, tampouco recursos capazes de despertar a cobiça de exércitos inteiros.
Era justamente por isso que ele a escolhera.
Não queria conquistar um território que já tivesse sido desejado por outros.
Queria construir algo que não precisasse ser tomado de ninguém.
Eu me lembro das primeiras pedras.
Número Um baixou os olhos por um instante.
Lembro dos trabalhadores reclamando do frio. Das discussões sobre onde levantar as primeiras casas. Dos dias em que passávamos horas tentando decidir a posição das muralhas, porque eu insistia que elas precisavam proteger a cidade sem fazer as pessoas se sentirem prisioneiras.
Uma rajada de vento atingiu a montanha.
Seu manto se ergueu atrás dele.
Lembro de quando construímos a praça.
A lembrança trouxe consigo uma imagem tão nítida que, por um instante, o reino destruído pareceu desaparecer diante de seus olhos.
As mesmas pedras que agora estavam rachadas haviam sido colocadas cuidadosamente por mãos humanas. Os edifícios, antes cobertos por fuligem e poeira, possuíam paredes claras e telhados novos. Pessoas atravessavam a praça carregando cestos, crianças corriam entre os adultos e comerciantes organizavam suas mercadorias sob pequenos toldos.
Havia barulho.
Havia movimento.
Havia vida.
E, acima de tudo, havia a esperança de que aquela vida pudesse continuar.
Eu queria que fosse diferente.
Seus dedos se fecharam lentamente dentro da luva.
Não queria um reino que precisasse ser temido. Não queria soldados marchando pelas ruas, nem crianças aprendendo a reconhecer o som de uma espada antes mesmo de aprenderem a escrever o próprio nome.
Queria que as pessoas pudessem acordar pela manhã sem pensar em guerras.
Que pudessem trabalhar, formar suas famílias, envelhecer dentro de suas próprias casas.
Queria que alguém pudesse nascer em Vorthal e passar a vida inteira aqui sem precisar segurar uma arma para continuar vivo.
O silêncio da montanha respondeu aos seus pensamentos.
Número Um voltou a olhar para as ruínas.
Era só isso.
A simplicidade daquela ambição tornava tudo ainda mais cruel.
Ele não havia sonhado em dominar Kaelthar. Não desejara sentar-se sobre um trono diante de outros reis ajoelhados. Não pretendia obrigar o mundo a reconhecer sua força ou gravar seu nome na história através de conquistas.
Queria construir um lugar onde a força não fosse a única coisa capaz de garantir o direito de existir.
Um lugar onde a paz não dependesse da disposição de alguém para matar.
Mas o mundo não havia permitido.
O mundo tinha outras regras.
O mundo não deixa ninguém viver assim.
Seus olhos acompanharam a linha das antigas muralhas.
Você constrói uma casa, e alguém decide que deseja as pedras dela.
Você ergue uma muralha para proteger seu povo, e alguém a transforma em um obstáculo que precisa ser derrubado.
Você ensina seus homens a defender suas famílias, e logo descobre que eles precisam aprender a atacar antes que alguém os ataque.
Você entrega uma arma a um homem para que ele proteja aquilo que ama… e, quando percebe, está ensinando uma geração inteira a matar.
A mandíbula do guerreiro se contraiu.
E então chamam isso de necessidade.
Uma pequena pedra se desprendeu da beirada e caiu no vazio. Número Um acompanhou sua queda por alguns segundos, até que desaparecesse muito abaixo.
Chamam de sobrevivência. Chamam de justiça. Chamam de guerra.
Encontram palavras diferentes para justificar a mesma coisa.
Morte.
Ele conhecia aquela palavra melhor do que gostaria.
Conhecia o peso de um corpo que já não responderia ao próprio nome. Conhecia o silêncio que se instalava depois de uma batalha, quando os sobreviventes finalmente percebiam que não havia mais ninguém para comemorar a vitória com eles.
Conhecia o som de homens que juravam lutar até o fim e, mesmo assim, imploravam para viver quando o fim chegava.
E conhecia, sobretudo, o olhar daqueles que ainda acreditavam que poderiam voltar para casa.
A maioria dos habitantes de Vorthal jamais tivera a oportunidade de compreender o que significava lutar contra alguém verdadeiramente poderoso.
Não eram guerreiros lendários.
Não eram todos generais.
Não eram figuras que os historiadores registrariam em livros.
Eram pessoas comuns.
Pais que trabalhavam para alimentar os filhos. Mães que cuidavam das casas. Crianças que brincavam nas ruas. Idosos que conheciam cada pedra da cidade e acreditavam que morreriam dentro dela, cercados por tudo aquilo que haviam passado a vida inteira construindo.
Famílias inteiras haviam vivido ali.
Famílias inteiras haviam sido apagadas.
E as ruas continuavam vazias.
Onde estão todos agora?
A pergunta não precisava de resposta.
Os homens que ajudaram a levantar as muralhas. As mulheres que abriram as primeiras lojas. As crianças que corriam pela praça. Aqueles que me chamavam pelo nome sem precisar baixar a cabeça.
Sua respiração permaneceu regular.
Estão mortos.
Não havia tremor em sua voz porque ele não estava falando.
Não havia lágrimas porque, há muito tempo, aprendera que chorar não devolveria ninguém.
Mas seus dedos se fecharam com tanta força que o couro da luva rangeu.
E o reino que construí para eles também está morto.
Número Um inclinou ligeiramente a cabeça, encarando a cidade como se esperasse encontrar, em meio aos escombros, alguma coisa que tivesse sobrevivido.
Uma porta.
Uma bandeira.
Um símbolo.
Qualquer coisa que lhe permitisse acreditar que nem tudo havia sido completamente destruído.
Não encontrou nada.
Somente pedra, cinzas e as marcas de uma história interrompida.
Tudo isso por causa deste mundo.
O vento pareceu soprar com mais força.
Um mundo que transforma qualquer tentativa de paz em fraqueza. Um mundo que ensina os homens a temer aqueles que não conseguem controlar. Um mundo que chama de monstro todo aquele que se recusa a obedecer e de herói todo aquele que vence uma guerra.
Seu olhar se estreitou.
E, quando os mortos se acumulam, os vencedores escrevem a história.
Por alguns instantes, permaneceu completamente imóvel..
Então, como se uma presença tivesse atravessado seus pensamentos, o nome de um homem surgiu em sua mente.
Tan Yang.
E, pela primeira vez naquela manhã, a calma de seus olhos mudou.
Não desapareceu.
Apenas se tornou mais fria.
Mais concentrada.
Como a superfície de um lago no qual alguma coisa acabara de afundar.
Seus dentes rangeram.
O som foi baixo, mas nítido no silêncio da montanha.
Yang.
O nome carregava consigo lembranças que ele não desejava revisitar.
Um velho amigo.
Alguém que conhecera antes de tantas coisas darem errado. Alguém que havia compartilhado com ele momentos que, em outra vida, talvez tivessem sido suficientes para construir uma relação que sobrevivesse a qualquer desentendimento.
Mas aquela vida não existia mais.
E o homem que um dia conhecera já não parecia reconhecer qualquer limite.
Você continua fazendo isso.
Os dedos de Número Um se fecharam.
Continua transformando pessoas em ferramentas. Continua tratando vidas como se fossem peças que podem ser substituídas quando deixam de servir aos seus planos.
Ele conhecia os rumores.
Conhecia os movimentos que estavam acontecendo longe de Vorthal. Sabia que Yang ainda causava problemas e ainda colocava aquele mundo em perigo.
E sabia que Yang estava procurando uma maneira de alterar o equilíbrio de poder em Kaelthar.
Talvez já tivesse ultrapassado um limite do qual não conseguiria voltar.
Eu ainda vou encontrar você.
Número Um deu um passo à frente.
A pedra sob sua bota rangeu.
Agora, o reino destruído estava diretamente abaixo dele, estendendo-se até onde a névoa permitia enxergar. As montanhas formavam uma espécie de muralha natural ao redor das ruínas, isolando Vorthal do restante do mundo.
Por muito tempo, ele acreditara que aquele isolamento poderia protegê-los.
Acreditara que, se construísse algo distante o suficiente das disputas dos grandes poderes, talvez as pessoas pudessem viver sem precisar escolher um lado.
Havia sido um erro.
Não porque tivesse desejado a paz.
Mas porque havia subestimado a disposição do mundo para destruí-la.
Seu olhar se tornou ainda mais intenso.
Você quer brincar com o poder? Quer continuar decidindo quem vive e quem morre? Quer transformar tudo o que toca em mais uma arma para a sua guerra?
O manto negro estalou violentamente ao vento.
Então venha.
Por um breve instante, a atmosfera ao redor do guerreiro pareceu se comprimir. Não houve explosão, nem clarão, nem qualquer demonstração ostensiva de poder. Ainda assim, a sensação era de que alguma coisa perigosa havia despertado sob aquela quietude.
A rocha aos seus pés permaneceu intacta.
As ruínas continuaram silenciosas.
Mas, naquele momento, parecia difícil imaginar que qualquer coisa capaz de enfrentá-lo pudesse fazê-lo recuar.
Número Um ergueu ligeiramente o queixo.
Ele não precisava gritar para ser ouvido.
Não precisava de testemunhas.
Não precisava que o mundo reconhecesse sua força antes de enfrentá-lo.
Yang conhecia o homem que ele era.
Ou, pelo menos, conhecera.
E isso tornava tudo ainda pior.
Porque, se Yang realmente acreditava que poderia desafiá-lo sem consequências, então talvez tivesse esquecido algo essencial.
Número Um não era temido apenas por aquilo que conseguia destruir.
Era temido porque, quando finalmente decidia lutar, não havia ameaça, promessa ou lembrança capaz de fazê-lo abandonar seu propósito.
Ele não lutava para provar que era o mais forte.
Lutava porque, depois de tudo o que perdera, já não permitiria que alguém decidisse por ele o que ainda merecia ser protegido.
E Yang estava prestes a descobrir a diferença.
Número Um respirou profundamente.
Por alguns segundos, seus olhos permaneceram fixos no horizonte.
Então, quase como se estivesse retomando uma conversa interrompida havia muitos anos, falou consigo mesmo:
— Ainda vou devolver a cicatriz que fez em mim.
Uma pausa.
Um sorriso minúsculo, sem qualquer sinal de humor, surgiu no canto de sua boca enquanto sua mão direita tocava a cicatriz em seu olho, causada por Yang há muito tempo atrás.
— E então veremos se esse seu jeito te serviu de algo, velho amigo.
O vento levou suas palavras para longe.
Não havia ninguém para ouvi-las.
Nenhum soldado escondido entre as rochas. Nenhum mensageiro esperando por uma ordem. Nenhum sobrevivente de Vorthal observando o homem que ainda carregava o peso de seu reino.
Apenas Número Um.
E um reino morto.
Ele permaneceu à beira da montanha por mais alguns instantes, contemplando as ruínas que um dia havia chamado de lar.
Não fez uma promessa aos mortos.
Não jurou que reconstruiria Vorthal.
Não disse que encontraria uma maneira de desfazer o passado.
Algumas promessas eram feitas para manter os vivos caminhando.
Outras eram apenas mentiras que os homens contavam a si mesmos para suportar aquilo que não podiam mudar.
Número Um não precisava de nenhuma delas.
A única coisa que precisava fazer era continuar.
Encontraria Yang.
E, quando isso acontecesse, o velho amigo descobriria que algumas coisas não desapareciam junto com um reino.
A memória permanecia.
A dor permanecia.
E a força que nascia de ambas também.
O sol continuou subindo sobre Vorthal.
Número Um, porém, já não olhava para o amanhecer.
Seus olhos estavam voltados para o futuro.
E, em algum lugar daquele mundo, Yang continuava caminhando sem saber que um dos poucos homens que ainda poderiam enfrentá-lo já havia decidido que o encontro entre os dois não terminaria como uma simples conversa.
Terminará quando um deles não puder mais continuar.
A neve não dava sinais de diminuir.
Havia horas que Ren e Yorm caminhavam pelo terreno montanhoso, atravessando uma região onde o branco parecia se estender infinitamente em todas as direções. O céu permanecia encoberto por nuvens espessas, e os flocos que caíam continuamente se acumulavam sobre as pedras, as árvores e os ombros dos dois viajantes.
O vento soprava contra seus rostos, levantando pequenas cortinas de neve que dificultavam a visão.
Ren caminhava alguns passos à frente.
Seu capuz escondia parte do rosto, enquanto o manto escuro se agitava atrás de seu corpo. A mão direita permanecia próxima à foice presa às suas costas, não porque esperasse um ataque a qualquer instante, mas por hábito. Desde que deixara Aetheryon, havia aprendido a não relaxar completamente em território desconhecido.
A caminhada era longa.
O frio, intenso.
E Ren não parecia particularmente interessado em conversar.
Atrás dele, Yorm seguia com uma tranquilidade quase irritante. Seus longos cabelos vermelhos se moviam sob o vento, e suas vestes ancestrais estavam parcialmente cobertas pela neve. Mesmo depois de horas caminhando, sua respiração permanecia regular.
Era como se o frio não o incomodasse.
Ou como se ele simplesmente não se importasse.
Yorm ergueu o rosto e observou a nuca de Ren por alguns segundos.
Então, seus olhos ancestrais se estreitaram.
Aqueles olhos não eram humanos. Havia neles algo que lembrava o olhar de um demônio, uma profundidade estranha que parecia atravessar aquilo que observava e procurar algo escondido por trás da aparência.
— Ei, Ren.
Ren não respondeu.
Yorm continuou caminhando.
— Estou falando com você.
— Eu ouvi.
A resposta veio seca.
Yorm soltou uma risada curta pelo nariz.
— Que entusiasmo. É impressionante como você consegue tornar até uma simples caminhada na neve uma experiência desagradável.
Ren continuou em frente.
Yorm inclinou a cabeça, observando-o com um sorriso que começava a surgir lentamente.
— Quando chegarmos a Celestria, seria bom você melhorar esse humor.
Nenhuma resposta.
— Estou falando sério. Precisamos de um pouco de animação para a primeira etapa do plano. Não podemos chegar lá parecendo dois sujeitos que acabaram de perder tudo o que tinham na vida.
Ren desviou ligeiramente o olhar para uma formação rochosa à esquerda, procurando um caminho menos íngreme.
— Você fala demais.
— E você fala de menos. Acho que estamos equilibrados.
Ren não respondeu.
Yorm soltou outra risada.
O silêncio voltou a dominar a caminhada, preenchido apenas pelo ruído das botas afundando na neve e pelo vento que atravessava as montanhas.
Durante alguns minutos, Yorm pareceu satisfeito em deixar Ren sozinho com seus pensamentos.
Então, inesperadamente, voltou a falar.
— Sabe de uma coisa? Eu gosto de você, Ren.
Dessa vez, Ren não olhou para trás.
Yorm sorriu um pouco mais.
— É sério. Você é quieto, não fica fazendo perguntas inúteis o tempo inteiro e, quando recebe uma ordem, pelo menos tenta cumprir o que foi pedido. É uma qualidade rara por aqui.
Ele ergueu os olhos para o céu encoberto, como se estivesse considerando algo.
— Além disso, você não fica tentando impressionar os outros com demonstrações de poder. Não precisa contar vantagem a cada cinco minutos, não fica falando sobre o quanto é perigoso e não parece desesperado para que todo mundo reconheça o que você consegue fazer.
Yorm voltou a olhar para Ren.
— É quase agradável ter alguém assim por perto.
Ren continuou caminhando.
— Quase?
— Não se empolgue.
O ancestral soltou uma risada breve.
Depois, com a mesma naturalidade de quem comentava sobre o clima, acrescentou:
— É uma pena você não ser completamente um ancestral. Quem sabe eu até pudesse considerar você parte da família.
Por um instante, apenas o vento respondeu.
Yorm observou Ren, esperando alguma reação. Talvez uma pergunta. Talvez uma resposta atravessada. Talvez, quem sabe, algum sinal de que havia conseguido arrancar uma emoção daquele rosto constantemente fechado.
Ren finalmente parou.
Não de maneira brusca.
Simplesmente deixou de avançar.
Yorm deu mais um passo antes de perceber que seu companheiro havia ficado para trás. Virou-se, ainda com o sorriso no rosto.
Ren o encarava.
Primeiro, seus olhos passaram pelo rosto de Yorm. Depois, desceram lentamente até a cintura do ancestral, onde o artefato estava preso.
Aquele objeto havia se tornado o centro de tudo.
A razão pela qual estavam atravessando aquelas montanhas. A razão pela qual Lily havia decidido iniciar o plano naquela noite. A razão pela qual Ren e Yorm precisariam entrar em Celestria, identificar um soldado de elite e retornar com algo que jamais poderia ser obtido por meios convencionais.
O artefato era perigoso demais para ser tratado como uma ferramenta comum.
E Yorm falava sobre tudo aquilo como se estivessem saindo para um passeio.
Ren permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Então respondeu:
— Para um ancestral com um Kai tão interessante e poderoso, você é bem idiota.
A expressão de Yorm não mudou imediatamente.
O sorriso permaneceu em seu rosto por uma fração de segundo a mais, como se sua mente tivesse precisado de um instante para decidir se havia entendido corretamente.
Ren continuou olhando para ele.
Sério.
Sem ironia aparente.
Sem qualquer intenção de amenizar a ofensa.
Yorm piscou uma vez.
Depois, seu sorriso desapareceu.
Não foi uma mudança exagerada.
Ele não gritou. Não ergueu a voz. Não começou a liberar seu Kai de maneira descontrolada.
Apenas deixou de sorrir.
E, de repente, a brincadeira acabou.
— O que?
A palavra saiu baixa.
Ren não se moveu.
— Você ouviu.
Yorm inclinou ligeiramente a cabeça.
Os olhos ancestrais, antes carregados de uma diversão quase infantil, tornaram-se completamente imóveis. A luz que atravessava as nuvens refletia neles de maneira estranha, fazendo sua íris parecer ainda mais profunda.
— Entendi.
Ele deu um passo na direção de Ren.
A neve rangeu sob sua bota.
— Então é assim que você prefere conversar.
Ren permaneceu parado.
A mão não se aproximou da foice. Seu corpo não assumiu uma postura de combate, mas tampouco demonstrou qualquer sinal de recuo.
Os dois se encararam.
O vento atravessava o espaço entre eles, levantando os flocos de neve que haviam se acumulado no chão.
Yorm observou Ren por alguns instantes, como se estivesse tentando compreender se aquela insolência vinha de arrogância, indiferença ou simplesmente de uma incapacidade irritante de perceber quando alguém estava tentando ser gentil.
Então falou:
— É bom se controlar, garoto.
Sua voz continuava baixa, mas havia algo diferente nela.
Não era mais o tom despreocupado de antes.
Cada palavra parecia cuidadosamente colocada, sem pressa e sem a necessidade de ser repetida.
— Eu estava tentando te animar com alguma graça. Não precisava gostar da piada. Bastava entender que eu não estava procurando uma discussão.
Ele deu mais um passo.
Agora, a distância entre os dois era menor.
— Mas, se você continuar confundindo paciência com fraqueza, posso te mostrar como meu Kai consegue ser realmente interessante.
O silêncio que veio depois pareceu mais pesado do que a própria neve.
Ren sustentou o olhar.
Não havia medo evidente em seu rosto. Tampouco havia um desafio teatral, como se estivesse ansioso para descobrir quem dos dois era mais forte.
Ele simplesmente não desviou os olhos.
Yorm, por sua vez, não precisava levantar a voz para deixar claro que falava sério.
Por trás daquele comportamento despreocupado existia um dos seres que Lily escolhera para conduzir a primeira etapa de seu plano. Um ancestral que carregava um poder capaz de torná-lo uma ameaça real até mesmo para guerreiros que passavam a vida inteira aperfeiçoando suas habilidades.
E Ren sabia disso.
Sabia também que Yorm não era apenas um sujeito inconveniente que gostava de provocar os outros.
Ele era perigoso.
A diferença estava no fato de que Ren não via motivo para fingir o contrário apenas para evitar uma discussão.
Os olhos de Yorm desceram brevemente até a foice nas costas de Ren.
Depois, voltaram ao seu rosto.
Por um instante, pareceu que alguma coisa iria acontecer.
Talvez um movimento.
Talvez uma demonstração de força.
Talvez o primeiro golpe de uma luta que nenhum dos dois deveria ter começado naquela montanha.
Mas Yorm respirou fundo.
E se afastou um passo.
— Hm.
Seu rosto continuou sério por mais alguns segundos.
Virou-se e voltou a caminhar.
— Vamos. Temos um trabalho a fazer.
Ren o observou por um instante antes de segui-lo.
Nenhum dos dois pediu desculpas.
Nenhum deles pareceu sentir necessidade de encerrar a discussão com uma última palavra.
A neve continuou caindo, e os dois voltaram a atravessar a encosta, deixando para trás apenas duas sequências de pegadas que logo seriam cobertas pelos novos flocos.
Ainda assim, alguma coisa havia mudado.
Yorm não voltou imediatamente às provocações. Caminhou em silêncio por vários minutos, com os olhos fixos no caminho à frente.
Ren também permaneceu calado.
A diferença era que, para ele, o silêncio nunca havia sido um problema.
Para Yorm, aparentemente, era.
— Sabe — começou o ancestral, depois de algum tempo —, eu estava falando sério sobre você.
Ren continuou caminhando.
Yorm olhou para ele de lado.
— Você está entre nós agora. Eu goste ou não, Lily confiou a você uma posição que não entregaria a qualquer pessoa. O fato de você não ser um ancestral completo não muda isso.
Por alguns instantes, sua voz perdeu parte da aspereza.
— E, sinceramente, acho que isso incomoda você mais do que deveria.
Ren manteve o olhar no caminho.
— Não sabe do que está falando.
— Talvez.
Yorm não insistiu.
Dessa vez, foi ele quem deixou o silêncio se prolongar.
As palavras, porém, permaneceram entre os dois.
Parte da família.
Ren não sabia exatamente o que fazer com aquela ideia.
Durante muito tempo, sua vida havia sido definida por lugares aos quais pertencia e por lugares dos quais fora afastado. Aetheryon lhe dera companheiros, objetivos e uma razão para continuar lutando, até que tudo aquilo se transformasse em algo que ele já não podia aceitar.
Agora, estava com os Ancestrais.
Caminhava ao lado de um deles, carregava uma missão confiada por Lily e participava de um plano que poderia alterar completamente o destino de Kaelthar.
Mas isso não significava que tivesse encontrado um lar.
Não significava que confiava plenamente neles.
Ren olhou brevemente para Yorm.
O ancestral caminhava com o rosto voltado para a frente, como se a conversa anterior já tivesse deixado de existir.
Talvez aquela fosse apenas a maneira dele de se aproximar das pessoas.
Talvez fosse uma provocação.
Ou talvez, por trás daquele comportamento irritante, houvesse alguma sinceridade que Ren ainda não conseguia reconhecer.
Ele não perguntou.
Não naquela noite.
Os dois continuaram avançando pela neve.
O tempo passou lentamente.
As encostas começaram a se tornar menos íngremes, e o terreno, antes dominado por rochas e árvores cobertas de gelo, passou a dar lugar a uma extensa descida. O vento ainda era forte, mas já não soprava diretamente contra seus rostos.
Ren percebeu a mudança primeiro.
À frente, para além de uma elevação coberta de neve, havia uma luminosidade fraca que não pertencia ao céu.
Ele diminuiu o ritmo.
Yorm percebeu o movimento e ergueu os olhos.
— O que foi?
Ren não respondeu de imediato.
Seus olhos estavam fixos no horizonte.
Aos poucos, as luzes tornaram-se mais visíveis. Pequenos pontos amarelados surgiam entre as sombras, espalhados por uma extensão tão grande que pareciam formar uma constelação sobre a terra.
Não eram estrelas.
Eram construções.
Muralhas.
Torres.
Postos de vigilância.
Uma cidade inteira erguida sob a proteção de estruturas que se destacavam contra a escuridão da madrugada.
Yorm parou ao lado de Ren.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.
Diante deles, finalmente visível depois de horas de caminhada, estava Celestria.
O centro do poder da Igreja.
A cidade que concentrava a autoridade religiosa, militar e política responsável por moldar o destino de incontáveis territórios de Kaelthar.
De longe, Celestria parecia quase tranquila.
A maioria das janelas estava escura. Apenas algumas luzes permaneciam acesas nas construções mais altas e ao longo das muralhas. Pequenas lanternas iluminavam trechos das ruas, enquanto os postos de vigilância mantinham uma claridade discreta sobre os portões.
A madrugada ainda dominava a cidade.
As pessoas dormiam.
Ou, pelo menos, era o que a distância fazia parecer.
Ren observou as muralhas por alguns instantes.
Aquela era a primeira vez que voltava a se aproximar do centro do poder da Igreja desde que deixara para trás o caminho que o ligava a Aetheryon.
Ele conhecia os perigos que existiam ali.
Sabia que, mesmo com parte dos soldados ocupada pelas longas operações de limpeza ordenadas pela Igreja, Celestria não era um lugar que pudesse ser invadido sem consequências.
Os guerreiros mais poderosos não precisavam patrulhar cada rua para que a cidade continuasse protegida.
Bastava que estivessem presentes.
Bastava que alguém cometesse um erro diante deles.
E, a partir daquele momento, qualquer movimento poderia se transformar em uma sentença de morte.
Yorm, entretanto, parecia satisfeito.
Um sorriso lento surgiu em seu rosto enquanto contemplava a cidade.
— Finalmente.
Ele soltou o ar e ajustou as vestes sobre os ombros.
— Celestria.
O nome saiu quase como uma saudação.
Mas não havia respeito em sua voz.
Havia expectativa.
A expectativa de alguém que havia passado muito tempo esperando pelo início de alguma coisa e finalmente estava diante da primeira porta que precisava atravessar.
Yorm voltou-se para Ren.
Seus olhos ancestrais encontraram os do companheiro.
Dessa vez, não havia qualquer sinal de brincadeira.
— Muito bem. Chegamos.
Ren assentiu discretamente.
Yorm apontou o queixo na direção das muralhas.
— Agora começa o plano. Nada de distrações, nada de improvisos desnecessários. Entramos, observamos o movimento, identificamos o alvo e fazemos exatamente o que Lily determinou.
Ele fez uma pausa.
— Não estamos aqui para enfrentar a Igreja inteira. Não estamos aqui para testar nossas forças contra os Shinpan-Kan. E, principalmente, não estamos aqui para transformar uma missão simples em uma batalha que não precisamos travar.
Ren continuou olhando para Celestria.
— Entendido.
— Quero ter certeza disso.
Yorm aproximou-se um pouco, mantendo a voz baixa.
— Absorver o Kai de alguém é a prioridade. O soldado é o alvo. Nós somos os responsáveis por concluir a missão e voltar com o que precisamos. Se alguma coisa sair do planejado, adaptamos a abordagem. Não nos deixamos levar pelo orgulho, pela raiva ou pela vontade de provar alguma coisa.
Seus olhos se estreitaram.
— Está claro?
Ren finalmente virou o rosto para ele.
— Está.
Yorm sustentou seu olhar por um breve momento.
Então assentiu.
— Ótimo.
Os dois voltaram a encarar a cidade.
O vento passou entre eles, levantando a neve acumulada sobre as pedras. Lá embaixo, um dos guardas que vigiavam a entrada se moveu sob a luz de uma lanterna. A silhueta de outro soldado apareceu por um instante sobre a muralha antes de desaparecer atrás de uma torre.
Celestria estava adormecida, mas não indefesa.
A distância ainda os separava dos portões.
E cada segundo que permanecessem parados aumentava a chance de que alguém os avistasse.
Yorm flexionou discretamente os dedos.
Ren ajustou o capuz e sentiu o peso da foice às costas.
Por um instante, os dois permaneceram imóveis, observando o caminho que descia até a cidade.
Então Yorm falou uma última vez:
— Vamos fazer isso direito.
Ren assentiu com a cabeça.
Não houve contagem regressiva.
Não houve outra conversa.
Os dois simplesmente se moveram.
Yorm partiu primeiro, descendo a encosta em uma velocidade que não correspondia à inclinação do terreno. Suas botas tocaram a neve por breves instantes, impulsionando-o para a frente enquanto seu manto negro se estendia atrás de seu corpo.
Ren disparou logo em seguida.
Sua silhueta escura atravessou a paisagem branca, a foice presa às costas e o capuz firme sobre a cabeça. Em poucos segundos, ambos já haviam deixado para trás o ponto de observação, avançando pela descida em direção às muralhas.
As luzes de Celestria cresceram diante deles.
Os portões se aproximavam.
E, enquanto a madrugada permanecia silenciosa sobre a cidade da Igreja, Ren e Yorm aceleravam cada vez mais, correndo em direção à entrada de Celestria para dar início à primeira etapa de seu plano.
Fim do Capítulo 130.