Capítulo 132 — A Realidade Branca
O silêncio que se seguiu à chegada de Kagetsu Arashi pareceu durar mais do que deveria.
A poucos metros dali, Bashiki permanecia caído junto às raízes de uma árvore. O sangue escorria dos ferimentos provocados pelos golpes de Yorm, manchando sua armadura e a terra ao redor. Sua respiração era fraca, irregular, e a espada que antes empunhava jazia abandonada entre as folhas. Ele ainda estava vivo, mas já não tinha forças para se levantar.
Ren retirou lentamente os olhos do homem caído.
Diante dele, o homem de cabelos brancos permanecia agachado sobre uma raiz grossa, com a enorme alabarda apoiada nas mãos. Os óculos escuros escondiam seus olhos, mas não a seriedade de sua expressão. As chamas brancas que envolviam a arma se moviam como se estivessem vivas, contornando a lâmina e serpenteando pelo cabo.
O manto branco de Kagetsu balançava suavemente com o vento da manhã. Nas costas, as letras que identificavam sua posição na Igreja eram perfeitamente visíveis.
Shinpan-Kan N.º 5.
Ren conhecia aquele símbolo.
Não precisava conhecer pessoalmente o homem para compreender a gravidade da situação. Aquele não era um soldado comum, nem um guerreiro de um batalhão que poderiam eliminar e esquecer. Era um dos cinco Shinpan-Kan, integrantes da mais poderosa organização de combate da Igreja.
E eles haviam sido encontrados por um deles antes mesmo de concluírem a primeira parte de seu plano.
Ren sentiu o estômago se contrair.
— Yorm... — murmurou, sem desviar os olhos de Kagetsu.
O Ancestral permaneceu imóvel.
— Aquele é exatamente o tipo de pessoa que deveríamos evitar. — A voz de Ren saiu baixa, quase imperceptível. — Se ele conseguir chamar os outros, acabou. É melhor fugirmos agora.
Por alguns instantes, Yorm não respondeu.
Seus olhos percorreram o homem à sua frente, analisando a posição de seus pés, a maneira como segurava a alabarda e a tranquilidade com que os encarava. Não parecia impressionado com a presença de Kagetsu, mas também não demonstrava a imprudência de alguém que ignorasse o perigo.
Então, inclinou ligeiramente a cabeça na direção de Ren.
— Fugir?
O sorriso habitual apareceu em seu rosto.
— Seria uma tremenda burrice.
— Você está falando sério?
— Naturalmente.
Yorm voltou a encarar Kagetsu.
— Agora ele sabe que estamos aqui, seria pior deixar alguém da posição dele com a informação de que estivemos aqui. Vamos matá-lo. Assim podemos pegar um Kai ainda mais poderoso.
Ren apertou os dedos em torno da haste de sua foice, ainda presa às costas.
Yorm deu um passo à frente.
A resposta de Kagetsu foi imediata.
A enorme alabarda girou entre suas mãos com uma velocidade surpreendente. A lâmina cortou o ar e traçou um círculo perfeito, cercado por um arco de fogo branco que se expandiu ao redor de seu corpo. As chamas iluminaram as árvores próximas e fizeram as folhas mais baixas se curvarem sob o calor.
Por um instante, o bosque pareceu perder suas cores diante daquela luz.
Kagetsu apoiou os pés na raiz e desceu dela sem esforço, aterrissando entre os dois Ancestrais e o soldado ferido.
— Fiquem onde estão.
Sua voz era firme. Não precisou gritar para ser ouvido.
Yorm parou.
Kagetsu manteve a alabarda à frente do corpo, com a ponta da lâmina direcionada para o peito do Ancestral.
— Ordeno que deixem esse homem em paz. Depois, vocês irão abandonar imediatamente as terras da Igreja. Não tentarei negociar novamente. Se recusarem, serei obrigado a usar a força.
Por trás dos óculos escuros, seu olhar permaneceu fixo em Yorm.
— Não confundam minha disposição para conversar com fraqueza.
O Ancestral observou as chamas por alguns segundos.
Depois, sorriu.
— Acho que temos um pequeno problema, Kagetsu Arashi.
— E qual seria?
— Nós não queremos ir embora.
O sorriso de Yorm se alargou.
— Na verdade, você apareceu em um momento bastante inconveniente. Estávamos prestes a terminar nosso trabalho.
Ele levou a mão à cintura.
Um som metálico percorreu o bosque.
A espada que carregava não foi retirada de uma bainha comum. Uma substância escura começou a se desprender de seu próprio corpo, escorrendo por sua mão como fumaça espessa. O material se alongou, endureceu e assumiu a forma de uma lâmina negra, cuja superfície parecia absorver a luz ao redor.
Em seguida, a bainha surgiu da mesma energia, formando-se junto à cintura de Yorm.
Ele segurou a espada pelo cabo e a deixou repousar ao lado do corpo.
— Mas, se você insiste em se colocar no nosso caminho...
A expressão de Kagetsu perdeu qualquer traço de cordialidade.
Ele girou Shiroromura mais uma vez, fazendo as chamas brancas envolverem a lâmina.
— Vou dizer apenas mais uma vez. Afastem-se desse homem e abandonem as terras da Igreja. Caso contrário, chamarei os outros Shinpan-Kan.
Ao ouvir aquilo, Yorm soltou uma risada.
No início, foi baixa. Um som curto, quase divertido.
Depois, tornou-se mais intensa.
Ele levou uma das mãos ao rosto, inclinando a cabeça para trás enquanto ria diante de Kagetsu, como se tivesse acabado de ouvir a piada mais absurda de sua vida.
Ren não riu.
Pelo contrário, sentiu uma inquietação ainda maior.
— Yorm...
Mas o Ancestral ergueu a mão, pedindo silêncio.
— Os outros Shinpan-Kan? — repetiu, entre risadas. — Você realmente pretende fazer isso?
Kagetsu não respondeu.
— E como exatamente pretende chamá-los?
Yorm afastou a mão do rosto. Seu sorriso desapareceu aos poucos, substituído por uma expressão de interesse quase cruel.
— Porque, veja bem...
Ele ergueu a espada.
— Nós nem sequer estamos mais em Celestria.
O ar pareceu ficar imóvel.
Yorm inclinou a lâmina diante do próprio rosto. Um brilho avermelhado percorreu o fio da espada, e seus olhos adquiriram uma intensidade perturbadora.
— Kai da Verdade: Veredito!
TUM.
O som de um tambor ecoou pelo mundo.
Não veio das árvores, do céu ou de qualquer ponto identificável do bosque. Foi um som profundo, seco e poderoso, que pareceu atravessar a realidade inteira.
No instante seguinte, tudo desapareceu.
As árvores, as folhas, o chão coberto de terra, o céu da manhã e até mesmo o vento deixaram de existir.
Ren sentiu o espaço sob seus pés desaparecer por uma fração de segundo. Seu corpo pareceu ser arrancado de um lugar e lançado em outro antes que pudesse compreender o que acontecia.
Então, o mundo voltou.
Ele estava de pé sobre uma superfície perfeitamente branca.
Não havia árvores.
Não havia céu.
Não havia horizonte.
Em todas as direções, estendia-se uma imensidão completamente vazia, iluminada por uma claridade uniforme cuja origem era impossível de identificar. O chão era liso como um espelho fosco, sem rachaduras, pedras ou qualquer irregularidade. Acima deles, a mesma brancura se prolongava infinitamente, sem nuvens, sol ou estrelas.
Era como estar dentro de um espaço que jamais deveria ter existido.
Ren virou a cabeça rapidamente.
Bashiki também havia sido transportado. O soldado continuava inconsciente, caído a alguns metros de distância, com o sangue que escorria de seus ferimentos contrastando violentamente com a superfície branca.
Kagetsu estava de pé diante de Yorm, segurando Shiroromura com as duas mãos.
E Yorm...
Yorm parecia estar em casa.
O Ancestral abriu os braços, contemplando a vastidão vazia com satisfação.
— Ah... muito melhor.
Ren franziu a testa.
— Que lugar é este?
Yorm olhou para ele por cima do ombro.
O Ancestral voltou sua atenção para Kagetsu.
— Esta é a Realidade Branca. Um espaço criado pelo meu próprio Kai, no qual as leis da existência podem ser impostas por mim.
Ele bateu levemente a ponta da espada contra o chão.
O som metálico ecoou pela imensidão, repetindo-se à distância, apesar de não haver paredes para fazê-lo reverberar.
— Aqui, sou eu quem determina o que pode ou não acontecer. Tudo o que existe neste espaço está sujeito aos meus decretos.
Yorm caminhou lentamente para o lado, como um anfitrião apresentando a própria residência a um visitante indesejado.
— Você não pode pedir reforços. Não pode esperar que seus companheiros sintam sua presença. E não pode contar com ninguém vindo salvá-lo.
Seu sorriso voltou a aparecer.
— Pois, aqui, Kagetsu Arashi, Shinpan-Kan Número Cinco...
Ele apontou a espada para o guerreiro.
— Ninguém irá ouvir você.
Ren continuava tentando compreender a extensão daquela habilidade. A transformação havia acontecido em um único instante. Não parecera um deslocamento comum, nem uma ilusão. Até o corpo inconsciente de Bashiki fora transportado junto deles.
Yorm realmente havia criado um espaço separado.
E, dentro dele, o Ancestral acreditava possuir controle absoluto.
Kagetsu permaneceu em silêncio durante toda a explicação.
Abaixou ligeiramente a cabeça, observando o chão, depois ergueu os olhos para Yorm.
Não havia medo em sua postura.
Apenas cautela.
— Entendo.
Ele girou a alabarda devagar, deixando as chamas brancas percorrerem o cabo.
— Então você é capaz de criar um espaço próprio e estabelecer condições dentro dele.
Yorm arqueou uma sobrancelha.
— Está tentando entender meu Kai?
— Estou tentando entender com quem estou lutando.
Kagetsu colocou a arma em posição de combate.
— Sou um Shinpan-Kan. Enfrentei monstros, guerreiros e criaturas que a maioria das pessoas sequer acreditaria que existem. Você realmente acha que vou me assustar apenas com suas palavras, Ancestral?
O sorriso de Yorm desapareceu.
Por um momento, os dois permaneceram imóveis.
Então, o Ancestral apertou o cabo da espada.
— Que decepcionante.
Seus olhos se estreitaram.
— Eu estava começando a gostar de você.
A superfície branca permaneceu silenciosa.
E, de repente, Yorm desapareceu.
Kagetsu reagiu imediatamente, movendo Shiroromura para a lateral do corpo.
Mas o Ancestral não estava mais diante dele.
Uma presença surgiu às suas costas.
Kagetsu começou a se virar.
Tarde demais.
Ren apareceu à sua frente, já com a foice desembainhada. A lâmina escura cortou o espaço em um arco veloz, mirando o flanco do Shinpan-Kan.
— Kai do Sangue: Cordões Sangrentos!
Fios vermelhos dispararam da mão de Ren.
Eles se multiplicaram no ar, alongando-se como chicotes e serpentes até envolverem os braços, o tronco e as pernas de Kagetsu. Em menos de um segundo, o guerreiro estava preso por dezenas de cordões que se apertavam contra seu manto e restringiam seus movimentos.
Ren avançou.
A foice descreveu outro arco, e a lâmina refletiu por um instante a brancura daquele mundo.
Kagetsu, porém, não entrou em pânico.
Uma chama branca surgiu em seu ombro.
Depois outra.
As labaredas percorreram seu corpo sem obedecer a qualquer movimento consciente, espalhando-se pelos cordões que o prendiam. O fogo não parecia consumir sua pele ou suas roupas. Em vez disso, concentrava-se nos fios vermelhos.
O primeiro cordão se desfez.
Depois o segundo.
Em uma sucessão de estalos secos, os fios começaram a queimar, rompendo-se um após o outro.
Ren estreitou os olhos.
— O quê...?
Kagetsu girou o corpo com violência, libertando o braço direito. As chamas avançaram por todos os cordões restantes e os transformaram em fragmentos escuros que desapareceram antes de tocar o chão.
No mesmo movimento, o Shinpan-Kan desviou da foice.
A lâmina passou a poucos centímetros de seu rosto.
Kagetsu empurrou a haste de Shiroromura contra o corpo de Ren, afastando-o, e deu um salto para trás.
— Kai das Chamas Sagradas...
As chamas brancas se intensificaram ao redor da alabarda.
— Explosão!
Ele disparou.
O chão branco pareceu estalar sob seus pés, embora nenhuma rachadura permanecesse para trás. Uma explosão de fogo impulsionou seu corpo para a frente, e Kagetsu surgiu diante de Ren com a alabarda girando em suas mãos.
O primeiro golpe veio de cima.
Ren inclinou o corpo para o lado.
A lâmina atingiu o chão, produzindo uma explosão branca que lançou uma onda de calor contra o rosto do Ancestral.
O segundo golpe veio horizontalmente.
Ren recuou a cabeça e desviou por pouco.
Uma nova explosão iluminou o espaço.
O terceiro golpe surgiu pela lateral, seguido de um movimento ascendente que obrigou Ren a saltar para trás.
Kagetsu não lhe deu tempo para respirar.
A alabarda girava em suas mãos como se fosse uma extensão natural de seus braços. Cada movimento produzia uma nova detonação de chamas sagradas, e cada explosão se espalhava pelo espaço vazio com uma força capaz de desestabilizar até mesmo um guerreiro experiente.
Ren desviava, inclinava o corpo, recuava e mudava de direção.
Mas a velocidade de Kagetsu era assustadora.
A lâmina passou perto de seu ombro.
Uma explosão o atingiu de raspão.
Ren sentiu o calor atravessar o tecido escuro de suas roupas. A pele do braço ardeu, e pequenas marcas avermelhadas surgiram onde as chamas haviam tocado.
Ele cerrou os dentes.
Kagetsu girou a arma novamente.
Ren tentou recuar, mas o Shinpan-Kan alterou a trajetória do golpe no último instante. A lâmina passou diante de seu peito, obrigando-o a inclinar o tronco para trás.
Outra explosão.
Dessa vez, Ren não conseguiu escapar completamente.
O impacto atingiu seu lado esquerdo e o lançou alguns passos para trás. Ele recuperou o equilíbrio, mas Kagetsu já estava avançando.
A alabarda desceu.
Ren ergueu a foice para bloquear.
As duas armas se chocaram.
O som metálico atravessou a Realidade Branca.
Por um instante, as lâminas permaneceram travadas, e os olhos de Ren encontraram os de Kagetsu por trás dos óculos escuros.
O Shinpan-Kan sorriu discretamente.
— Você é rápido.
Ren não respondeu.
— Mas está demorando demais para reagir.
Kagetsu soltou a pressão sobre as armas e girou o corpo.
A haste da alabarda atingiu o braço de Ren, desviando sua defesa. Em seguida, o guerreiro avançou com o joelho, obrigando Ren a recuar.
Ren tentou recuperar a distância.
Kagetsu não permitiu.
A ponta da alabarda veio na direção de seu abdômen, e Ren se esquivou para o lado. O Shinpan-Kan aproveitou o movimento, abandonando momentaneamente a trajetória da arma para girar o corpo e concentrar toda a força no golpe seguinte.
Seu pé atingiu o estômago de Ren.
O impacto foi brutal.
Ren perdeu o ar imediatamente.
Seu corpo foi lançado para trás, atravessando vários metros daquela superfície vazia antes de cair e deslizar pelo chão. A foice escapou parcialmente de sua mão, raspando contra a superfície branca, e uma dor aguda percorreu seu abdômen.
Ele tentou se levantar.
O corpo não respondeu de imediato.
Ren apoiou uma das mãos no chão e tossiu, sentindo a respiração falhar. A região atingida latejava intensamente, e as queimaduras deixadas pelos golpes anteriores ardiam sob suas roupas.
Kagetsu permaneceu no local por alguns segundos.
Girou Shiroromura uma última vez e apoiou a alabarda sobre o ombro.
Então, voltou a atenção para Yorm.
— Agora é a sua vez.
Yorm observava tudo em silêncio.
A mão que segurava a espada havia apertado o cabo com força. O Ancestral acompanhara cada movimento de Kagetsu e, embora mantivesse a expressão controlada, seus olhos demonstravam um interesse muito maior do que antes.
Aquele homem não era apenas forte.
Era rápido o suficiente para pressionar Ren, experiente o bastante para enfrentar dois adversários e disciplinado o suficiente para não desperdiçar movimentos.
Kagetsu começou a caminhar em sua direção.
As chamas brancas percorriam a alabarda, projetando reflexos sobre o chão.
Yorm deslizou a espada parcialmente para dentro da bainha formada por sua própria energia.
— Muito bem...
Seu sorriso retornou, embora não houvesse humor nele.
— Vamos ver se você continua tão confiante quando enfrentar alguém que realmente sabe o que está fazendo.
Kagetsu inclinou o corpo.
No instante seguinte, disparou.
Uma explosão branca surgiu sob seus pés, impulsionando-o para a frente.
Yorm ergueu a espada.
— Você perde suas forças!
A lâmina traçou um movimento curto no ar.
Letras japonesas vermelhas começaram a surgir diante dela, desenhadas por uma energia que parecia escorrer diretamente do fio da espada. Os caracteres se formaram rapidamente, brilhando contra o vazio branco.
「宣告」
Decreto.
Yorm concluiu o movimento.
A palavra disparou.
Não se deslocou como um projétil comum. Atravessou a distância em uma fração de segundo, deixando atrás de si um rastro vermelho que se apagou quase imediatamente.
Kagetsu tentou desviar.
Não conseguiu.
Os caracteres atingiram seu peito e atravessaram seu corpo como se ele não passasse de uma sombra. Por um breve instante, a palavra permaneceu visível atrás dele.
Então desapareceu.
Kagetsu perdeu o impulso.
Seus pés tocaram o chão, mas os joelhos cederam imediatamente. Ele caiu sobre um deles, segurando Shiroromura com as duas mãos para evitar que a arma escapasse.
Seu corpo tremia.
Os músculos pareciam ter se tornado pesados de repente. Quando tentou erguer a alabarda, sentiu os braços falharem, como se cada movimento exigisse uma força que já não possuía.
Yorm caminhou lentamente em sua direção.
— Está sentindo?
A voz do Ancestral ecoou pela imensidão.
— É uma sensação desagradável, não é? Seu corpo continua sendo seu, mas já não responde como deveria.
Kagetsu apertou os dentes.
Tentou se levantar.
As pernas tremeram violentamente, e ele precisou apoiar a alabarda no chão para não cair de lado.
Yorm parou a poucos metros dele.
— Eu disse que você perderia suas forças. E, como pode perceber, minha palavra tornou-se verdade.
O Ancestral inclinou a cabeça.
— Isso é o que acontece quando alguém insiste em enfrentar uma existência superior à sua.
Kagetsu ergueu lentamente o rosto.
Seus olhos estavam fixos nos de Yorm.
— Você fala demais...
O sorriso do Ancestral se desfez por um instante.
Kagetsu baixou a cabeça novamente.
Seu corpo ainda tremia. A sensação de fraqueza continuava percorrendo seus músculos, e cada tentativa de movimento parecia exigir um esforço absurdo.
Mesmo assim, ele não soltou a arma.
Os dedos se apertaram ao redor do cabo.
— Eu ainda...
Sua voz falhou.
Ele respirou fundo e tentou novamente.
— Ainda não terminei.
Kagetsu começou a se levantar.
Primeiro, firmou um dos pés no chão.
Depois, empurrou o corpo com a ajuda da alabarda. Os braços tremiam, e suas pernas ameaçavam ceder a cada segundo, mas ele continuou até conseguir ficar de pé.
Yorm observou a cena sem esconder a surpresa.
— Como...?
Kagetsu respirava com dificuldade.
A fraqueza imposta pelo decreto ainda pesava sobre seu corpo. Entretanto, havia algo em sua postura que não se dobrava junto com os músculos.
Ele firmou Shiroromura contra o chão.
As chamas brancas explodiram ao redor da arma.
Uma onda de fogo se espalhou por seus pés, subindo pela haste da alabarda e envolvendo seus braços. O calor se intensificou até que a superfície branca refletisse a luz das labaredas.
Kagetsu ergueu a cabeça.
— Eu não preciso somente das minhas forças para me manter de pé.
Por um instante, Yorm permaneceu imóvel.
Aquelas palavras não deveriam ter significado nada. Seu decreto havia atingido o alvo, e os efeitos eram evidentes. O corpo de Kagetsu estava enfraquecido.
Ainda assim, o Shinpan-Kan continuava de pé.
Não porque o decreto tivesse falhado.
Mas porque, mesmo enfraquecido, ele se recusava a cair.
Kagetsu retirou Shiroromura do chão.
— Se acha que pode me fazer ajoelhar apenas porque escreveu algumas palavras...
As chamas se concentraram ao redor da lâmina.
— Então vai precisar fazer muito mais do que isso!
Ele disparou.
Yorm mal teve tempo de erguer a espada.
A alabarda atingiu sua lâmina com um impacto que reverberou por toda a Realidade Branca. O Ancestral foi empurrado para trás, arrastando os pés pela superfície lisa.
Kagetsu girou a arma e atacou novamente.
Yorm bloqueou.
A lâmina de Shiroromura passou rente ao seu ombro, e uma explosão branca irrompeu logo depois. O Ancestral inclinou o corpo para escapar do fogo, mas Kagetsu já havia invertido a posição das mãos no cabo.
Outro golpe.
Yorm ergueu a espada no último instante.
As armas se chocaram com violência.
Faíscas vermelhas e brancas se espalharam pelo ar, desaparecendo antes de alcançar o chão.
Kagetsu avançou com uma sequência de ataques rápidos. A alabarda descia, subia e girava em trajetórias diferentes, enquanto as chamas sagradas explodiam a cada mudança brusca de direção.
Yorm recuava apenas o necessário para evitar os golpes mais perigosos.
Quando não conseguia escapar, bloqueava.
Sua espada negra recebia o impacto da alabarda, e a energia vermelha que envolvia a lâmina se chocava com as chamas brancas de Kagetsu. Cada colisão produzia um clarão que iluminava a vastidão vazia.
A luta tornou-se uma sucessão de movimentos quase impossíveis de acompanhar.
Kagetsu atacava pela direita.
Yorm desviava.
A alabarda voltava pela esquerda.
Yorm bloqueava.
Uma explosão surgia junto à lâmina, obrigando o Ancestral a recuar, mas ele recuperava a posição imediatamente e contra-atacava com um corte diagonal.
Kagetsu girava Shiroromura e aparava o golpe.
O som das armas se chocando repetia-se incessantemente.
A cada impacto, a Realidade Branca era iluminada por uma combinação de fogo e energia ancestral. O contraste entre as duas forças parecia dividir aquele mundo vazio em dois: de um lado, as chamas brancas de Kagetsu; do outro, o brilho vermelho-escuro da espada de Yorm.
Nenhum dos dois parecia disposto a ceder.
Kagetsu conseguiu atingir a lateral da espada do Ancestral com um golpe particularmente forte, desviando sua defesa. Aproveitou a abertura e lançou uma estocada na direção de seu peito.
Yorm girou o corpo.
A ponta da alabarda passou a poucos centímetros de sua roupa.
O Ancestral respondeu com um corte ascendente.
Kagetsu recuou, e a lâmina negra passou diante de seu rosto.
Uma pequena mecha de cabelo branco foi cortada e caiu lentamente sobre a superfície vazia.
O Shinpan-Kan não se distraiu.
Apenas ajustou a pegada na arma e avançou novamente.
Do outro lado da Realidade Branca, Ren começou a recuperar os sentidos.
Sua mão continuava pressionada contra o abdômen.
A dor provocada pelo chute ainda era intensa, e respirar profundamente parecia uma tarefa difícil. Ele tentou se levantar depressa, mas a tontura o obrigou a apoiar novamente a mão no chão.
Por alguns segundos, tudo permaneceu desfocado.
O branco infinito parecia girar lentamente ao seu redor.
Ren piscou repetidas vezes.
Aos poucos, as imagens voltaram a se estabilizar.
Ele conseguiu enxergar as duas figuras que se enfrentavam à distância.
Kagetsu avançava com Shiroromura envolvida por chamas brancas, enquanto Yorm respondia com sua espada coberta por uma energia vermelha. Os movimentos eram tão rápidos que Ren mal conseguia distinguir cada ataque individual.
Via apenas os clarões.
O brilho branco das explosões.
O vermelho dos golpes de Yorm.
E as silhuetas dos dois guerreiros surgindo e desaparecendo entre os impactos.
Ren ficou observando.
O homem que ele havia tentado atacar momentos antes estava conseguindo pressionar Yorm, apesar do decreto que deveria ter retirado suas forças.
Aquilo era um problema.
Um problema muito maior do que Ren havia imaginado.
Ele apertou os dentes e obrigou o próprio corpo a se levantar.
As pernas ainda estavam instáveis, mas conseguiu ficar de pé. Recuperou a foice, segurou a haste com firmeza e permaneceu alguns segundos tentando controlar a respiração.
O sangue que escorria de um pequeno ferimento no canto de sua boca foi limpo com as costas da mão.
Ren observou o líquido vermelho em seus dedos.
Depois, voltou a olhar para a luta.
Yorm estava em vantagem em alguns momentos, mas Kagetsu compensava a diferença com a velocidade e a força de seus ataques. Cada vez que o Ancestral parecia encontrar uma abertura, o Shinpan-Kan respondia com uma explosão que o obrigava a mudar de posição.
Ren estreitou os olhos.
Se isso continuar...
Ele não concluiu o pensamento.
Naquele instante, um estrondo mais forte ecoou pela Realidade Branca.
Yorm conseguiu, finalmente, afastar Kagetsu.
Aproveitou um bloqueio para girar o corpo e golpeou a alabarda com força, desviando sua trajetória. Em seguida, usou o impulso do movimento para recuar vários metros, criando uma distância segura entre os dois.
Kagetsu aterrissou com Shiroromura posicionada à frente do corpo.
As chamas brancas continuavam ardendo, mas sua respiração já estava mais pesada.
Yorm percebeu.
O Shinpan-Kan ainda se mantinha de pé apesar do primeiro decreto. No entanto, a luta estava consumindo suas energias, e o Ancestral não pretendia continuar trocando golpes indefinidamente.
Ele precisava recuperar o controle do combate.
Yorm ergueu a espada.
— Kai da Verdade: Veredito!
Novamente, os caracteres japoneses vermelhos começaram a se formar diante da lâmina.
Kagetsu reconheceu o movimento.
Seus pés se moveram imediatamente, e ele disparou na direção do Ancestral, tentando interromper a técnica antes que fosse concluída.
Mas Yorm já havia terminado de escrever.
「宣告」
Decreto.
A palavra atravessou a distância.
Kagetsu tentou desviar o corpo, porém os caracteres atingiram seu peito antes que ele pudesse alcançar Yorm.
A energia vermelha percorreu sua silhueta.
Dessa vez, o efeito não se limitou ao seu corpo.
As chamas que envolviam Shiroromura vacilaram.
Kagetsu sentiu algo estranho nas mãos. A haste da alabarda começou a perder a consistência, tornando-se translúcida, como se estivesse sendo apagada do mundo.
Ele olhou para baixo.
— O quê...?
Os dedos se fecharam instintivamente ao redor do cabo.
Não adiantou.
A superfície metálica da arma se desfez em pequenos fragmentos de luz branca. A lâmina desapareceu primeiro, seguida pela haste, que começou a se dissolver entre suas mãos.
Kagetsu tentou puxá-la de volta.
Os últimos fragmentos escaparam por entre seus dedos e sumiram.
Em poucos segundos, Shiroromura deixou de existir.
O Shinpan-Kan permaneceu parado, com as mãos vazias.
Pela primeira vez desde que aparecera diante dos dois Ancestrais, sua postura sofreu uma mudança perceptível.
Seus dedos se contraíram.
Ele olhou para as próprias mãos, como se esperasse que a alabarda reaparecesse a qualquer instante.
Mas nada aconteceu.
Yorm abaixou a espada, satisfeito.
— Muito melhor.
Ele começou a caminhar em direção a Kagetsu.
— Você já está sem forças, mas, por algum motivo inexplicável, continua de pé.
Seus passos ecoavam sobre a superfície branca.
— E agora também está sem sua arma.
Yorm parou diante do Shinpan-Kan e inclinou ligeiramente a cabeça.
— Diga-me, Kagetsu Arashi...
Seu sorriso tornou-se cruel.
— Ainda acha que tem alguma chance contra nós?
Uma risada baixa escapou de sua garganta.
Kagetsu não respondeu imediatamente.
Sem Shiroromura, ele já não tinha a mesma vantagem de alcance. Sua arma era parte fundamental de seu estilo de combate, e perdê-la significava abrir mão de uma parcela considerável de sua capacidade ofensiva.
Além disso, o primeiro decreto ainda pesava sobre seu corpo.
Ele respirou fundo.
Seus olhos se moveram de Yorm para Ren, que agora estava novamente de pé a alguns metros de distância.
Dois Ancestrais.
Um deles capaz de transformar suas palavras em leis.
O outro empunhando uma foice e utilizando seu Kai de sangue.
E ele, sozinho, dentro de um mundo que não compreendia completamente.
Pela primeira vez, Kagetsu começou a sentir a dimensão real do perigo.
Ainda assim, não recuou.
Yorm percebeu a mudança em sua expressão e soltou outra risada.
— Ah, finalmente. Está começando a entender?
Ele abriu os braços.
— Não existe reforço. Não existe saída. E, a partir deste momento, até mesmo aquilo que você segura pode deixar de existir se eu assim determinar.
Kagetsu cerrou os punhos.
O Ancestral aproximou o rosto, observando-o com desprezo.
— Você deveria ter permanecido na Igreja, Shinpan-Kan. Teria sido muito mais fácil para todos nós.
Ren, entretanto, já não prestava atenção às provocações de Yorm.
Seu olhar havia se perdido por alguns segundos na superfície branca.
A dor do chute continuava presente. Seu braço queimava por causa das explosões anteriores, e sua respiração ainda não havia retornado completamente ao normal.
Mas algo diferente começava a surgir dentro dele.
Uma sensação familiar.
Não era exatamente dor.
Era uma pressão profunda, escondida sob a pele, como se alguma coisa adormecida estivesse tentando encontrar uma passagem para o exterior.
Ren baixou os olhos para a própria mão.
Seus dedos tremiam levemente.
Ele os fechou.
A sensação permaneceu.
Eu posso controlar...
O pensamento surgiu de maneira espontânea.
Ren ergueu lentamente o rosto, observando Yorm enquanto o Ancestral continuava a humilhar Kagetsu.
Eu posso controlar isso.
Por um instante, o som da voz de Yorm pareceu distante.
Ren não olhava mais para a luta.
O foco de sua atenção estava voltado para dentro de si, para aquela presença que havia sentido em outras ocasiões, mas que nunca conseguira compreender por completo.
A mão que segurava a foice apertou a haste.
Então, uma pequena marca apareceu em seu pulso.
Era fina, escura e irregular, como um traço desenhado diretamente sobre a pele.
Ren não percebeu imediatamente.
Outra marca surgiu perto dela.
Depois uma terceira, estendendo-se lentamente em direção ao antebraço.
As linhas pareciam se formar sob a superfície da pele antes de se tornarem visíveis, ramificando-se em pequenos traços que acompanhavam os contornos dos músculos.
Ren prendeu a respiração.
A mão começou a tremer com mais intensidade.
Uma nova marca apareceu acima do pulso, seguida por outra próxima à base do polegar.
Ele puxou discretamente a manga, tentando observar melhor o que estava acontecendo.
As marcas não desapareceram.
Pelo contrário.
Continuaram avançando devagar, desenhando um padrão escuro que ainda não estava completo.
Ren ergueu os olhos.
Yorm continuava diante de Kagetsu, sorrindo enquanto o Shinpan-Kan tentava esconder sua crescente preocupação.
Nenhum dos dois havia percebido.
Ren voltou a olhar para o próprio braço.
Aquelas marcas eram pequenas, quase imperceptíveis à distância.
Mas estavam aumentando.
E, no fundo de sua mente, uma certeza começava a tomar forma.
Ele estava prestes a descobrir como controlar aquilo que existia dentro dele.